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Entenda como funciona a IA que hackeia sistemas e por que preocupa bancos

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Cidade Mais Inteligente do Mundo e líder em qualidade de vida entre as capitais: a metrópole com quase 70 m² de área verde por morador
Foto: wahyu_t

Novo modelo Claude Mythos, da Anthropic, superou hackers humanos em testes e colocou bancos e governos em alerta global contra ameaças cibernéticas

O Claude Mythos, modelo de inteligência artificial revelado pela Anthropic em abril de 2026, provocou um reboliço e acendeu alertas no setor financeiro e em agências reguladoras do mundo inteiro. É que a fabricante afirma que a nova ferramenta, ainda em versão preview, supera humanos em ataques de hacking.

A tecnologia do Mythos opera, na prática, como um verdadeiro “hacker automatizado”, capaz de analisar códigos, detectar falhas e sugerir formas de exploração. Mais do que executar o que apenas especialistas faziam, a nova ferramenta faz isso mais rápido e em uma escala inédita.

De acordo com a Anthropic, os chamados “red teams” — grupos especializados em testar sistemas como se fossem invasores cibernéticos reais — conseguiram localizar bugs escondidos em códigos com décadas de existência e explorá-los com facilidade. Uma dessas vulnerabilidades permanecia ativa há 27 anos sem ter sido detectada.

O “balanço” divulgado pela empresa impressiona: foram identificadas mais de 10 mil vulnerabilidades de alta ou crítica gravidade, incluindo mais de 6 mil em projetos de código aberto. O modelo também encontrou falhas em todos os principais sistemas operacionais e navegadores web do mercado.

Como o Mythos chegou na frente — e as capacidades que ele tem serão eventualmente replicadas por outros modelos —, a Anthropic decidiu conceder acesso da ferramenta para 12 big techs (entre as quais AWS, Apple, Microsoft, Google e Nvidia), mais de 40 fabricantes de softwares de infraestrutura crítica e 150 instituições em setores como energia, água, saúde e comunicações.

Por que o Claude Mythos preocupa bancos e reguladores financeiros?

Em abril, o tema foi pauta de uma reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington. Em entrevista à BBC, o ministro das Finanças do Canadá, François-Philippe Champagne, declarou que o assunto merecia a atenção de todos os ministros das Finanças do mundo.

A preocupação se justifica: segundo especialistas e o próprio FMI, o setor financeiro é um dos mais expostos a esse tipo de risco. Bancos operam sistemas complexos e, muitas vezes, antigos, que podem conter falhas difíceis de detectar manualmente. Com os avanços acelerados da IA, a janela para corrigi-las se estreita cada vez mais.

Antes do Mythos, encontrar brechas em um sistema complexo exigia um hacker humano altamente especializado, trabalhando durante horas ou dias — uma tarefa limitada por tempo, dinheiro e talento. Entretanto, a nova IA executa o mesmo trabalho em minutos e consegue operar em paralelo em vários sistemas ao mesmo tempo.

Além disso, bancos, fintechs, seguradoras e governos não operam cada um em sua própria infraestrutura isolada. Todos usam os mesmos provedores de nuvem (AWS, Azure, Google Cloud), os mesmos sistemas operacionais, as mesmas bibliotecas de código aberto. Portanto, uma vulnerabilidade nessas camadas compartilhadas afeta centenas de instituições ao mesmo tempo.

O Claude Mythos é realmente uma ameaça real à cibersegurança?

Especialistas independentes — que ainda não puderam testar o modelo por conta própria — têm dúvidas quanto à magnitude da ameaça e sobre o quanto o alarmismo serve também a uma estratégia de marketing muito bem construída.

Entre esses céticos, o Instituto de Segurança em IA do Reino Unido concluiu que o Mythos é poderoso contra sistemas mal protegidos — ou seja, infraestruturas velhas, sem atualização, com vulnerabilidades conhecidas e não corrigidas. Mas a organização reconhece que não conseguiu confirmar se a IA seria capaz de atacar sistemas bem protegidos.

Em outras palavras, os experts britânicos ponderam que, antes de entrar em pânico, as pessoas devem aguardar evidências independentes, uma vez que é do interesse comercial da Anthropic, por meio do Project Glasswing, usar o Mythos para se defender dele próprio. A estratégia é conhecida no setor de tecnologia como problema-solução proprietário.

Contudo, o fato de haver um interesse comercial óbvio não significa que a ameaça seja falsa. As duas hipóteses podem ser verdadeiras: o Mythos pode de fato ser perigoso e a Anthropic pode estar capitalizando sobre esse perigo de forma calculada.

O problema é que, no setor financeiro, toda aposta tem uma fatura — e ela raramente chega para quem a propôs.

Fonte: CNN Brasil

Governo Federal sanciona Marco Legal do Transporte Público e moderniza regras da mobilidade urbana no país

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Comissão aprova diretriz de mobilidade urbana para profissionais da educação básica e superior
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasi

Nova legislação fortalece o transporte coletivo, amplia transparência, aprimora contratos e cria bases para sistemas mais sustentáveis e tarifas mais equilibradas

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou o Projeto de Lei nº 3.278/2021, que institui o novo Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano no Brasil. Publicada em edição extra do Diário Oficial da União, neste domingo (14), a medida atualiza o ambiente regulatório da mobilidade urbana, fortalece instrumentos de financiamento e aprimora a organização dos sistemas de transporte coletivo em estados e municípios.

A nova legislação enfrenta um dos principais desafios históricos do setor: a elevada dependência da tarifa paga pelo passageiro como principal fonte de sustentação dos sistemas de transporte. O objetivo é criar condições para serviços mais eficientes, financeiramente sustentáveis e alinhados às diferentes realidades urbanas do país.

O texto também aperfeiçoa a Política Nacional de Mobilidade Urbana e promove ajustes no Estatuto da Cidade, consolidando instrumentos voltados ao planejamento, à gestão e à melhoria do transporte coletivo.

O transporte público é um direito social assegurado pela Constituição e um serviço essencial para milhões de brasileiros. Em um cenário de aumento dos custos operacionais, redução do número de passageiros em muitas cidades e pressão crescente sobre os sistemas locais, o novo marco busca oferecer maior previsibilidade para gestores públicos, mais segurança jurídica e melhores condições para qualificar o atendimento à população.

NOVO MODELO DE FINANCIAMENTO

Entre os principais avanços da legislação está a modernização das formas de financiamento do transporte público coletivo.

Na prática, o novo marco reconhece que o custo do sistema não pode recair exclusivamente sobre o usuário que paga a passagem. A lei estimula a diversificação das fontes de custeio e permite maior clareza entre o valor efetivamente pago pelo passageiro, os custos operacionais e os instrumentos de financiamento utilizados pelo poder público.

A legislação autoriza, por exemplo, o uso de mecanismos urbanísticos e financeiros relacionados à valorização imobiliária decorrente de investimentos públicos, além de receitas acessórias e modelos de subsídio voltados à modicidade tarifária — princípio que busca preservar tarifas mais acessíveis para a população.

O texto também estabelece, de forma expressa, que serviços privados de transporte individual sob demanda não poderão receber subsídios destinados ao transporte público coletivo.

MAIS TRANSPARÊNCIA E MELHOR PRESTAÇÃO DO SERVIÇO

O novo marco amplia exigências de transparência na operação dos sistemas de transporte coletivo.

Dados operacionais e financeiros passam a ter regras mais claras de publicidade, fortalecendo a fiscalização pelos órgãos de controle e ampliando a capacidade de acompanhamento por parte do poder público e da sociedade.

Indicadores de desempenho e parâmetros mínimos de qualidade também ganham maior centralidade nos contratos e regulamentos locais, incluindo regularidade das linhas, pontualidade, acessibilidade, segurança, integração entre modais, conforto dos usuários e redução de impactos ambientais.

A legislação ainda permite maior sofisticação dos contratos de concessão, com mecanismos de metas, produtividade e melhoria contínua dos serviços.

Outro avanço é a vedação de instrumentos precários para organização do transporte coletivo básico, reforçando a necessidade de planejamento, licitação e maior estabilidade regulatória para usuários, municípios e operadores.

VETOS PRESERVAM EQUILÍBRIO FISCAL, AUTONOMIA FEDERATIVA E POLÍTICAS SOCIAIS

A sanção ocorreu com vetos pontuais voltados à preservação do interesse público, da responsabilidade fiscal e da autonomia dos entes federativos.

Entre os dispositivos vetados estão trechos que poderiam gerar obrigações financeiras sem previsão de custeio para estados e municípios, especialmente em relação à implementação de gratuidades e descontos tarifários.

A avaliação técnica do Governo Federal apontou risco de pressão excessiva sobre os orçamentos locais, sobretudo em municípios de pequeno e médio porte, o que poderia comprometer a manutenção de benefícios já consolidados em diversas cidades, como gratuidades para idosos, estudantes e pessoas com deficiência.

Os vetos também evitaram a criação de obrigações automáticas para a União no financiamento de tarifas locais e impediram interferências em competências estaduais e municipais, como a imposição legal de isenções de pedágio em rodovias sob gestão dos entes federativos.

Na área ambiental, foi vetada a possibilidade de utilização de recursos vinculados a compensações ambientais para financiar infraestrutura de mobilidade urbana, preservando a destinação legal desses instrumentos para ações de proteção ambiental e conservação.

Também foram excluídos dispositivos que poderiam ampliar passivos indenizatórios para o poder público em contratos de concessão ou criar novas estruturas administrativas permanentes sem estimativa de impacto orçamentário.

Os vetos adotados também não inviabilizam que, no futuro, União, Estados, Distrito Federal e Municípios avancem no debate sobre novos modelos de financiamento do transporte público urbano. Permanecem abertas discussões sobre alternativas para ampliação da modicidade tarifária, inclusive a possibilidade de implementação da tarifa zero, bem como estudos de cenários para eventual concretização de subsídios federais aos entes federativos, caso haja condições fiscais e orçamentárias para tanto.

O texto tampouco impede a futura apresentação, pelo Poder Executivo, de proposta legislativa específica que estabeleça, de forma mais concreta, obrigações da União no tocante ao transporte urbano coletivo de passageiros, inclusive quanto à possibilidade de subsídios, nos termos previstos no projeto.

TRANSPORTE COLETIVO MAIS FORTE E CIDADES MAIS PREPARADAS

O novo Marco Legal do Transporte Público Coletivo estabelece bases mais modernas para a organização dos sistemas urbanos de mobilidade e fortalece instrumentos de planejamento, regulação e transparência.
A expectativa é ampliar a capacidade de resposta dos municípios diante dos desafios enfrentados pelo setor, estimular soluções mais sustentáveis e contribuir para serviços de maior qualidade, eficiência e previsibilidade para a população.

Com vigência prevista para um ano após a publicação, tem-se prazo adequado para que os entes federados se adequem às diretrizes da nova lei, que devem ser implementadas respeitando as competências constitucionais de estados e municípios e as particularidades de cada rede local de transporte.

Fonte: Casa Civil

A charrette ou a arte de cocriar sem ninguém

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A charrette ou a arte de cocriar sem ninguém
Foto: Júlio César Santos/TV Globo

Como o mercado imobiliário aprendeu a parecer participativo e por que isso quase nunca dá certo.

Tenho os dois pés atrás sempre que ouço a palavra “novo” colada em qualquer coisa. Novo morar, novo trabalhar, novo viver, nova forma de fazer cidade: quase sempre, atrás do prefixo, não tem nada de novo, tem remarketing de conceito velho com roupa nova. E talvez nenhum exemplo seja tão eloquente quanto o Novo Urbanismo e sua herança predileta, aquela que o mercado imobiliário brasileiro adotou com entusiasmo de quem encontrou um atalho: a charrette.

Comecemos pelo começo, porque a origem já explica quase tudo. A charrette é palavra francesa, significa carroça, da mesma forma que usamos charrete em português. Na École des Beaux-Arts de Paris, no século XIX, conta-se que uma carroça circulava para recolher os trabalhos finais dos estudantes de arquitetura; como o prazo não esperava, alguns alunos ainda faziam os últimos ajustes enquanto os desenhos eram levados. Daí a associação entre charrette e esse estado muito conhecido dos estudantes de arquitetura pelo mundo: trabalhar no limite, contra o relógio, tentando salvar uma ideia antes que o prazo a atropele ou a charrete passe.

O Novo Urbanismo não inventou a charrette, mas ajudou a transformá-la em método de projeto; a partir dos anos 1980, ela foi incorporada ao repertório de escritórios e urbanistas ligados ao movimento, especialmente no ambiente norte-americano, como uma forma intensiva de reunir técnicos, decisores, interessados e, em tese, comunidade para produzir uma visão de projeto em poucos dias. O problema está justamente nesse “em tese”, porque a participação prometida pela charrette raramente equivale a um processo real de engajamento, desses que começam antes do workshop, sobrevivem depois dele e não cabem no teatro metodológico de quatro dias. 

O problema nunca foi a cocriação

Não sou contra criação coletiva, seria absurdo, eu vivo de processos cocriativos. O problema não está no conceito, está na forma, e está no que essa forma decide deixar de fora.

E a charrette, pelo menos como feita na maioria das vezes no Brasil, deixa quase tudo de fora. Ela se concentra na expertise e na visão de mundo dos participantes, que não raro são profissionais brilhantes, premiados, com portfólio de dar inveja, e que nunca pisaram no lugar em questão antes do evento, nem pisarão depois. O resultado pode até sair impecável do ponto de vista formal, daqueles que rendem desenhos bonitos, mas dificilmente será autêntico, e capaz de gerar qualquer senso de pertencimento ou transformação, afinal pertencimento não se desenha em poucos dias, ele se constrói, e quem o constrói não é o urbanista ou consultor de grife, é quem dá vida ao lugar.

Aqui mora a parte mais incômoda, a que o mercado prefere não encarar: palavras como colaboração e cocriação viraram moeda corrente no mercado, ainda mais nesta era em que tudo precisa ter selo de ESG, só que colaborar de verdade dá um trabalho danado, e esse trabalho não cabe num cronograma de fim de semana, não cabe em Kronos, no tempo do relógio.

A charrette se tornou a forma rápida, fácil e barata de simular cocriação e de aplacar a consciência de governança de quem precisa dizer que ouviu a comunidade, ela entrega a aparência da “escuta”(cujo termo por si só já é carregado de problemas) sem o ônus de escutar, no que envolve a comunidade, é, muitas vezes, participação performática com cara de método.

Quatro dias contra o tempo do lugar

Tenho insistido, em quase tudo que escrevo, que as cidades vivem tempos múltiplos e sobrepostos. O tempo do cotidiano de quem habita, o tempo das gerações que vão herdar o que construímos, o tempo lento da identidade que se acumula em décadas de prática, memória e afeto. O teólogo e filósofo queniano John Mbiti, ao discutir concepções africanas de tempo, distingue o Sasa, o tempo vivido e imediato, do Zamani, o tempo profundo da ancestralidade; os gregos separavam Kronos, o relógio, de Kairós, a hora pertinente. A charrette, com sua estética de competição contra o cronômetro, opera num único tempo, e logo no mais pobre de todos: o tempo da urgência, o tempo do prazo de entrega, o tempo da charrete que passa recolhendo projetos.

Comprimir num evento de poucos dias a leitura de um lugar que levou gerações para se tornar o que é não é eficiência; o que se ganha em velocidade se perde, integralmente, em profundidade, e o que se perde em profundidade reaparece depois, quase sempre, na forma de empreendimento genérico, de projeto que poderia estar em qualquer cidade e por isso não pertence a nenhuma, ou ainda pior, de projeto lindo na maquete, mas morto na rua.

Não é coincidência que o exemplo mais celebrado do Novo Urbanismo reflita exatamente isso. Seaside, na Flórida, é a cidade onde filmaram o Truman Show, literalmente, confesso que usei aquela cidade cenográfica como exemplo de tudo que há de torto no urbanismo por anos, antes de descobrir que se tratava de um projeto endeusado do próprio movimento. Achei sempre que era cenário, e o problema é que era mesmo. 

A velhice do que se diz novidade

A charrette é apenas o método, mas o método denuncia a epistemologia. O Novo Urbanismo, ao tentar superar o urbanismo modernista, herdou dele justamente o pior: a crença de que as pessoas devem se adequar a uma forma decidida de antemão pelos detentores do conhecimento. O movimento fala em comunidade, mas a prática que chegou ao mercado muitas vezes reduziu comunidade a cenário, referência ou justificativa posterior, fala-se em vida urbana, mas o processo frequentemente se organiza em torno da forma, da norma e da regulação rígida, sufocando o orgânico, o inesperado, o improviso, exatamente onde a vida da cidade acontece.

No Brasil, pelo menos nas experiências que acompanhei de perto, e das quais deixei de participar justamente por isso, a maioria esmagadora das charrettes é conduzida por um grupo de técnicos diretamente envolvidos no projeto, o que produz uma pergunta simples e bastante constrangedora: se um bom lugar é um lugar com significado, e o significado é dado por quem fez e fará aquele lugar, o que um bando de técnicos tem a ver com isso? A resposta mais honesta e, ao mesmo tempo, a mais dura é: nada, se esses técnicos estiverem ali para substituir o engajamento. A coisa só muda mesmo de figura quando o grupo técnico aceita que seu papel é servir ao processo, e não o sequestrar. É nesse ponto que o Novo Urbanismo se revela o velho urbanismo modernista que apenas aprendeu a dizer “colaboração” sem ter muita ideia do que a palavra significa, especialmente no que se refere a sua abrangência.

Há algo de profundamente colonial nessa importação acrítica. Adotamos a técnica nascida de uma escola de arte europeia, processada por um movimento norte-americano, e a aplicamos no Brasil como se fosse neutra, como se um método carregasse a verdade independentemente do chão onde pisa, mas todo método é uma forma de olhar, e olhar de fora, de cima, com pressa, é precisamente o olhar que produz lugares que darão um trabalho enorme, posterior, para construir um senso de pertencimento que poderia, e deveria, ser inato.

O que fazer em vez disso

A alternativa não é sofisticada, é só trabalhosa, e talvez seja por isso que reverbere tão pouco. Ela passa, necessariamente, por compreender o lugar antes de desenhar qualquer coisa, e compreender o lugar significa envolver as pessoas do lugar desde o primeiro minuto.

Começa por uma imersão profunda, com técnicas de pesquisa que passam pela etnografia em suas várias formas, para entender a dinâmica, as culturas e as pessoas que formam aquele lugar. Evolui para um processo de colaboração com a comunidade, o levantamento honesto de problemas, anseios e sonhos, e aqui vale uma observação que faz toda a diferença: envolva a equipe de projeto nessa fase, deixe que os técnicos escutem antes de propor, para só então avançar para a cocriação de soluções, e nessa etapa o time de projeto deveria assumir o papel de espectador atento, porque a última coisa de que esse momento precisa é de direcionamento técnico contaminando o que a comunidade tem a dizer. Só depois de todo esse material levantado e depurado, com matéria suficiente para que o projeto não nasça órfão de lugar, é que faz sentido sentar para um workshop de projeto, agora com o reconhecimento da comunidade, e às vezes até do mercado, sobre a seriedade do esforço.

Repare que nada disso cabe em vinte e quatro horas, e nem em uma semana. O engajamento comunitário tem sua própria curva, seu próprio tempo de maturação, e os resultados costumam ser de outra natureza, porque vão muito além de qualquer insight qualificado que o urbanista mais genial do mundo produziria sozinho. A maior contribuição desse processo não é o projeto, é a rede de defensores que ele cria desde o momento zero, a comunidade que se reconhece naquilo e passa a sustentar a ideia. É isso que dá autenticidade ao processo e, no fim, sucesso ao empreendimento, porque se você teve o trabalho de fazer tudo certo, a última coisa que vai querer é um projeto genérico.

No fim das contas, a pergunta que importa não é qual método adotar, é por que se aprisionar a um só quando o que está em jogo é a vida das pessoas na cidade. Mais do que escolher entre esta ou aquela corrente, é preciso ter a inteligência de absorver o que cada uma tem de útil e descartar o que cada uma tem de dogma. A charrette pode até ser parte de um processo robusto, desde que chegue no fim e não no começo, o que ela não pode é continuar sendo o que se tornou majoritariamente: um atalho que permite ao mercado parecer que ouviu, sem nunca ter engajado de fato.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC. 

Entraves ambientais travam projetos bilionários de infraestrutura

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Entraves ambientais travam projetos bilionários de infraestrutura
Foto: Divulgação/Ecovias Leste Paulista

Ferrogrão, BR-319, e hidrovias enfrentam disputas judiciais, resistência de comunidades indígenas e dificuldades no licenciamento ambiental

Projetos considerados estratégicos para a infraestrutura e logística brasileira enfrentam atrasos por impasses ambientais, disputas judiciais e dificuldades de diálogo com populações indígenas e comunidades tradicionais.

Entre os empreendimentos afetados estão a Ferrogrão, a Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste), a repavimentação da BR-319, a concessão da Hidrovia do Tapajós e a derrocagem do Pedral do Lourenço.

Uma das principais reclamações do setor de infraestrutura é a demora para obtenção de licenças ambientais. Procurado pela reportagem, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) afirmou que adota medidas para garantir eficiência nos processos, mas destacou que “a celeridade dos processos está diretamente associada às questões afetas à qualidade dos projetos, judiciais e obrigações dos empreendedores”.

Mesmo enfrentando obstáculos relevantes para tirar as obras do papel, em maio, o governo federal conseguiu avançar em alguns desses projetos. No STF (Supremo Tribunal Federal), houve o reconhecimento da constitucionalidade da lei que mudou os limites do Parque Nacional do Jamanxim, no Pará, para viabilizar a construção da Ferrogrão.

Nesse sentido, o Ministério dos Transportes também conseguiu finalizar a licitação dos quatro lotes para repavimentar o “trecho do meio” da BR-319 e afirmou, naquele momento, que esses contratos seriam homologados até o final da primeira semana de junho.

Procurada, ao final deste prazo, a pasta afirmou que “até junho todas as licitações estarão concluídas e com ordem de serviço”. O primeiro lote já foi homologado e a ordem de serviço foi assinada no final de maio com a presença do presidente Lula.

De acordo com o ministério, o segundo lote terá a ordem de serviço assinada na próxima semana, enquanto os contratos dos demais trechos serão firmados até 15 de junho. Com isso, a expectativa é que todos os quatro lotes do “trecho do meio” estejam em obras até o final deste mês.

Protestos

Outro impasse recente envolveu a concessão da Hidrovia do Tapajós. Durante a COP30, o governo federal se comprometeu com lideranças indígenas a realizar consultas previstas seguindo as orientações da Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que determina consultas livres, prévias e informadas em projetos que afetem populações tradicionais.

Segundo apurou a CNN, essas consultas poderiam chegar a um custo de R$ 30 milhões aos cofres públicos, o que poderia inviabilizar o projeto. O valor elevado está relacionado à necessidade de contratar organizações especializadas para conduzir as oitivas, com domínio da língua e dos costumes das comunidades indígenas afetadas.

Porém, esse acordo realizado na COP30 gerou conflitos após indígenas associarem serviços de manutenção de dragagem do rio ao processo de concessão da hidrovia. Esse movimento causou protestos, que chegaram a atingir um terminal da Cargill no Pará.

Após a repercussão, o governo decidiu revogar o decreto do PPI (Programa de Parcerias de Investimentos) que permitia a concessão da hidrovia do Tapajós e outros dois projetos hidroviários (Rio Madeira e Rio Tocantins). Agentes do setor avaliam que a decisão gerou insegurança regulatória e pode atrasar o cronograma das concessões.

Procurado, o Ministério de Portos e Aeroportos afirmou que os estudos técnicos seguem em andamento e que a primeira fase deve ser concluída no segundo semestre de 2026.

A pasta também informou que mantém articulação com o Ministério dos Povos Indígenas, Ibama, Secretaria-Geral da Presidência e Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), “sempre se guiando pela transparência e o diálogo com as populações das áreas abrangidas pelo empreendimento”.

Novo cronograma

A obra de derrocagem do Pedral do Lourenço, no Pará, também enfrenta atrasos relacionados a discussões ambientais e diálogo com comunidades locais. Segundo apurou a reportagem, o empreendimento aguarda manifestação do Ministério Público para avanço das próximas etapas.

Recentemente, o secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier, afirmou que o projeto não encontrou novos questionamentos judiciais, que a expectativa é instalar o canteiro de obras no segundo semestre e que as detonações previstas devem ficar para 2027.

O cronograma foi alterado desde o início de maio, quando a previsão era implementar o canteiro de obras até o final do mês e iniciar as intervenções piloto em julho.

À reportagem, o Ministério de Portos e Aeroportos afirmou que trabalha para garantir o avanço “responsável e tecnicamente estruturado” da obra e declarou que mantém diálogo institucional com comunidades locais, lideranças e órgãos ambientais.

Por sua vez, o Ibama informou que o empreendimento possui Licença de Instalação desde maio de 2025 e que o projeto está em fase de implantação.

Entre os principais pontos acompanhados pelo órgão estão impactos sobre fauna aquática, atividade pesqueira, comunidades ribeirinhas e programas de compensação socioambiental.

A ex-presidente do Ibama, Suely Araújo, que atualmente está como coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, afirmou que ficou pouco claro como o processo de licitação iria abranger as questões ambientais do Tapajós.

Afirmou ainda que a região é “muito sensível do ponto de vista ecológico”, e conta com um grande volume de terras indígenas, que podem ser afetadas com a licitação. Além disso, Araújo mencionou que há impactos ambientais para a dragagem que também não foram levados em consideração.

Prejuízos para outros projetos

A Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste) também enfrenta dificuldades relacionadas a questões ambientais e conflitos com populações indígenas. A ferrovia deveria ser construída pela Vale dentro do acordo de renovação antecipada das concessões ferroviárias da companhia.

A empresa, porém, informou ao governo que não consegue executar o trecho entre Água Boa (MT) e Cocalinho (MT), com cerca de 100 quilômetros, por entraves ambientais, relacionados às comunidades indígenas.

Diante disso, a mineradora propôs devolver o trecho ao governo mediante indenização. Porém, pelo acordo, o valor que seria repassado ao poder público seria de R$ 2 bilhões, enquanto o custo estimado para concluir o trecho supera os R$ 3,5 bilhões.

Na última semana, a Infra S.A. fez mais uma rodada de conversas com lideranças do povo Xavante, que é afetado pela construção deste trecho da ferrovia. Desde o início do ano, a autarquia tem se reunido com as comunidades impactadas pela Fico. Até o momento foram realizados encontros com representantes dos territórios indígenas Pimentel Barbosa, Marechal Rondon e Parabubure.

Nos bastidores, há um entendimento de que, caso a construção fique sob responsabilidade da União, o trecho corre risco de não ser executado por falta de recursos públicos.

No entanto, a definição de quem será o responsável pela construção da ferrovia está travando não só o início das obras, mas também a conclusão da repactuação contratual entre o governo e a Vale.

Além disso, a conclusão dessa malha é considerada estratégica para viabilizar outros projetos ferroviários planejados pelo Ministério dos Transportes.

Procurado, o Ibama informou que o empreendimento possui Licença de Instalação válida até setembro de 2026 para o trecho entre Mara Rosa (GO) e Água Boa (MT) – traçado completo do corredor – e afirmou que o projeto segue em conformidade com as condicionantes ambientais estabelecidas.

Fonte: CNN Brasil

ANA e ANTAQ alinham ações para fortalecer a navegação e o monitoramento dos rios da Região Norte

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ANA e ANTAQ alinham ações para fortalecer a navegação e o monitoramento dos rios da Região Norte
Foto: Jhampier Giron M / Shutterstock

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) se reuniram na última quarta-feira, 3 de junho, para discutir temas que impactam diretamente a navegação, a gestão das águas e a segurança hídrica na região Norte do País.

O encontro reuniu a diretora-presidente interina da ANA, Larissa Rêgo, e o diretor-geral da ANTAQ, Frederico Carvalho Dias, e reforçou a importância da troca de informações e da atuação integrada entre as instituições para enfrentar desafios cada vez mais complexos relacionados ao uso dos recursos hídricos.

Entre os principais temas discutidos estiveram os conflitos pelo uso da água na Hidrovia do Rio Tocantins, as condições de navegabilidade na região e o panorama das secas na Amazônia e demais estados da região Norte.

No caso da Hidrovia do Rio Tocantins, foi debatido o contexto operacional relacionado ao Pedral do Lourenço, formação rochosa localizada entre Marabá (PA) e a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, que se torna um obstáculo à navegação durante os períodos de baixas vazões e redução dos níveis do reservatório, o que evidencia a necessidade de diálogo permanente entre os setores envolvidos na gestão dos usos múltiplos da água.

Embora a situação de navegabilidade no rio Tocantins ainda demande aprofundamento técnico, a reunião destacou a importância do envolvimento da operação do setor elétrico nas discussões sobre soluções para a hidrovia. O objetivo é buscar alternativas que conciliem a geração de energia, a segurança hídrica e a navegação, respeitando os diferentes usos dos recursos hídricos.

Outro tema abordado foi o cenário de secas na região Norte. A ANA apresentou ações preventivas voltadas à manutenção da navegabilidade em rios estratégicos para o transporte de cargas e o abastecimento regional. Entre as medidas em curso está o acompanhamento das condições operacionais da Hidrovia do Rio Madeira, considerada fundamental para o escoamento de grãos e combustíveis na Amazônia.

A reunião também abordou oportunidades de cooperação para ampliar a rede de monitoramento hidrometeorológico do País. Com a perspectiva de novos leilões de concessão de hidrovias, as duas agências discutiram formas de integrar esforços para expandir a coleta e o compartilhamento de dados, contribuindo para decisões mais seguras e eficientes tanto para a navegação quanto para a gestão dos recursos hídricos.

Pela ANA, participaram também do encontro o superintendente de Gestão da Rede Hidrometeorológica, Marcelo Medeiros; o superintendente de Operações e Eventos Críticos, Joaquim Gondim; e a assessora de gabinete Ticiane Fukushima. Pela ANTAQ participaram, ainda, Karoline Brasileiro Quirino Lemos, chefe de gabinete; Eduardo Pessoa de Queiroz, superintendente de Estudos e Projetos Hidroviários; e Daniel Chedid Pereira Jordão Ramos, chefe da Assessoria Parlamentar.

Fonte: Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)

Menos de 5% dos municípios estão perto de universalizar o saneamento, aponta estudo

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Guerra faz insumo essencial para tratamento de água "sumir" do mercado
Foto: Jakob Schlothane/Pexels

Levantamento mostra que apenas 94 das 2.558 cidades analisadas se aproximam das metas previstas no Marco Legal do Saneamento.

Um estudo mostrou que menos de 5% dos municípios brasileiros estão próximos da universalização do saneamento. Ou seja, de 2.558 cidades analisadas, apenas 94 delas estão próximas de garantir que toda a população tenha acesso aos serviços de água potável, de coleta e tratamento de esgoto.

O levantamento, divulgado nesta terça-feira (9), é da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes). Os municípios avaliados incluem todas as capitais do país e abrangem aproximadamente 80% da população brasileira.

Entre as capitais, Curitiba apresenta o melhor desempenho. Salvador, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Aracaju estão na segunda categoria mais alta. Já Porto Velho, capital de Rondônia, registrou o menor desempenho, seguida de outras capitais da região Norte, como Belém, Macapá e Manaus.

Com base no levantamento, a Abes destaca que a maior parte das cidades do país está distante da meta do Marco Legal do Saneamento. A lei prevê universalizar os serviços até 2033, garantindo água potável para 99% da população brasileira e coleta e tratamento de esgoto para 90%.

O estudo também analisou a relação entre os níveis de saneamento e as internações por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado, como diarreias, hepatite A, cólera e febre tifoide.

Entre os municípios de saneamento mais crítico, a taxa média de internações é de 198 por 100 mil habitantes. Em cidades com níveis melhores, essa taxa cai para 84 por 100 mil habitantes, mostrando a importância do tratamento de esgoto para a saúde da população.

Fonte: CBN Brasil

O Brasil já confia no ônibus elétrico; o próximo passo é acelerar a eletrificação

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Ônibus elétricos: como cidades brasileiras podem pular etapas rumo à mobilidade de baixo carbono
Imagem construida por IA

Governos devem se alinhar para massificar e descentralizar a transição das frotas; e será preciso desmontar alguns mitos sobre o preço dos ônibus elétricos

A Eletra, empresa brasileira de tração elétrica, comemorou em maio o início de operação do milésimo ônibus elétrico produzido em São Bernardo do Campo/SP. 

Considerando que o país inteiro ainda não tem 2 mil desses veículos em circulação, somando todas as marcas, aquele número não é apenas um marco simbólico para a indústria nacional. É um novo capítulo na história do transporte público no Brasil.

Se uma empresa nacional consegue colocar nas ruas mil ônibus elétricos inteiramente fabricados no Brasil, isso significa que o teste definitivo da nova tecnologia em condições reais já ocorreu – e ela foi aprovada pelo mercado.

A fase de sensibilização e convencimento da superioridade do ônibus elétrico sobre o similar a diesel entre os operadores de transporte coletivo foi concluída com sucesso. Isso pode parecer pouco relevante para o grande público, mas até 3 ou 4 anos atrás era uma etapa crucial para a viabilidade da nova indústria. 

E foi um atestado de qualidade não a uma empresa em particular, por mais méritos que tenha, mas a toda a cadeia produtiva brasileira de ônibus elétricos. 

A aprovação dos operadores de transporte e dos usuários premia a tecnologia de tração elétrica desenvolvida ao longo de 25 anos pela Eletra, mas também os chassis da Mercedes-Benz e Scania, as carrocerias de empresas como a Caio, os motores, inversores e baterias da WEG e os equipamentos fornecidos por um sem-número de empresas nacionais e estrangeiras que apostaram num crescente mercado de infraestrutura de recarga. Enfim, um ecossistema completo.

Premia também as multinacionais que optaram por fabricar ônibus elétricos no Brasil e ajudaram a consolidar essa cadeia produtiva, gerando emprego e renda no país.

O mercado – leia-se: empresas de transporte coletivo, autoridades públicas de mobilidade urbana e usuários – sabiamente desconfiou das soluções fáceis. A opção de abrir as ruas brasileiras aos veículos importados mostrou-se arriscada. 

Outros países da América Latina seguiram esse caminho e tiveram problemas tanto de atendimento no pós-venda quanto de robustez dos produtos. 

Era também crucial contar com assistência técnica e reposição garantidas por empresas tradicionais e confiáveis, e com veículos aptos a enfrentar a realidade operacional das cidades brasileiras.

O mercado igualmente desconfiou de tecnologias alternativas de baixa emissão, como motores a biometano, biodiesel ou GNV. Estas até podem ter espaço em alguns cenários, mas dificilmente são uma boa estratégia de longo prazo para compatibilizar as metas de carbono zero com eficiência operacional e retorno financeiro. 

O próximo passo agora é acelerar a transição elétrica. O Brasil tem uma frota de 108 mil ônibus urbanos, dos quais menos de dois mil são elétricos –e cerca de 70% deles (1.259 no final de maio) concentrados na cidade de São Paulo. 

Massificar e descentralizar a eletrificação requerem um esforço conjunto de autoridades municipais e federais, por meio de políticas públicas comprometidas com a descarbonização e linhas de crédito viáveis para prefeituras e operadores.

Nesse processo, será preciso também desmontar alguns mitos. Por exemplo, existe uma ideia equivocada sobre a formação de preço dos ônibus elétricos brasileiros. De fato, neste momento, eles são em média três vezes mais caros do que os similares a diesel. Mas é preciso entender as causas profundas dessa realidade.

Até recentemente, algumas autoridades e dirigentes de organizações internacionais de apoio à eletrificação ainda pensavam que só um choque de concorrência externa reduziria o preço dos ônibus elétricos no Brasil. 

Na base desse raciocínio estava a convicção de que as empresas brasileiras de transporte público seriam incorrigivelmente cartelizadas e oligopolizadas, o que exigiria uma solução rápida e cirúrgica: zerar as tarifas de importação e inundar o mercado de ônibus elétricos subsidiados pelo tesouro chinês.

Logo ficou claro que esse caminho não só eliminaria empregos e prejudicaria indústrias nacionais altamente qualificadas, mas permitiria a importação de produtos de baixa qualidade, distantes das condições de operação das cidades brasileiras.

Não serão medidas voluntaristas e de curto alcance que reduzirão os preços praticados pela indústria (dos ônibus elétricos e de muitos outros produtos). Com uma taxa Selic a 14,5%, isso é praticamente impossível.

Portanto, além de políticas setoriais específicas, é importante o governo concentrar-se numa política fiscal saudável: cortar gastos, gerar superávit primário, controlar a inflação e, assim, abrir caminho para uma redução consistente da taxa de juros.

Os preços cairão naturalmente quando tivermos demanda assegurada por boas políticas e um ambiente macroeconômico e regulatório que dê confiança e uma perspectiva de longo prazo tanto às empresas nacionais quanto aos investidores estrangeiros.

Brasil e Reino Unido avançam parceria em hidrogênio e descarbonização industrial

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Brasil e Reino Unido avançam parceria em hidrogênio e descarbonização industrial
Foto: ukas Schulze/Getty Images)-

A Iniciativa de Clusters Brasil-Reino Unido realizou uma missão técnica em território britânico, com a participação de representantes e especialistas da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), do Governo do Brasil, do Governo do Reino Unido e dos portos brasileiros de Açu, Suape e Pecém.

A programação incluiu workshops e visitas técnicas a empresas, instalações industriais, centros técnicos e plantas-piloto ligados a clusters industriais britânicos, incluindo soluções de hidrogênio de baixa emissão de carbono para o desenvolvimento de clusters portuário-industriais sustentáveis no Brasil.

A Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), em parceria com o Departamento de Segurança Energética e Net Zero do Reino Unido (DESNZ), realizou em maio uma missão técnica a importantes clusters industriais em território britânico.

Clusters industriais são concentrações de empresas, fornecedores, infraestrutura, serviços e instituições que atuam de forma integrada em uma mesma cadeia produtiva ou setor industrial.

A delegação reuniu representantes e especialistas dos portos de Açu (RJ), Suape (PE) e Pecém (CE), grandes portos estratégicos brasileiros. Também incluiu representantes do Ministério de Minas e Energia (MME), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), do Ministério da Fazenda (MF) e do Ministério das Relações Exteriores (MRE).

A visita foi uma das atividades da Iniciativa de Clusters Brasil-Reino Unido, uma das principais entregas do Programa de Hubs Brasil-Reino Unido. Lançado na COP28, o Programa inclui o Hub de Hidrogênio (H2 Hub) e o Hub de Descarbonização da Indústria (ID Hub). A iniciativa é resultado da cooperação técnica entre DESNZ, MME e MDIC, e tem seu secretariado feito pela UNIDO.

O objetivo da cooperação entre os dois países é mobilizar uma oferta internacional de assistência setorial, reunindo um pacote de apoio técnico e financeiro alinhado às transições setoriais prioritárias do Brasil. A iniciativa atua para descarbonizar clusters portuário-industriais estratégicos no Brasil e facilitar o compartilhamento de conhecimento, a cooperação técnica e o planejamento estratégico de longo prazo.

Para o Representante da UNIDO no Brasil, Clóvis Zapata, a missão técnica ao Reino Unido reforçou o papel da cooperação internacional no apoio às prioridades brasileiras: “O intercâmbio com clusters britânicos oferece referências importantes para apoiar soluções adaptadas aos portos, à indústria e ao contexto de desenvolvimento do Brasil.”

A Oficial Nacional de Hidrogênio da UNIDO, Patricia Naccache, ressaltou a importância de transformar cooperação técnica em projetos capazes de atrair investimento: “A transição para uma indústria de baixo carbono exige projetos bem estruturados, com base técnica sólida, parcerias estratégicas e condições reais de financiamento.”

A missão teve como objetivo proporcionar a lideranças portuárias brasileiras e representantes do governo contato direto com os modelos operacionais de clusters do Reino Unido, seus sistemas de governança e práticas concretas de descarbonização.

Os workshops e as visitas técnicas realizadas abordaram temas como planejamento de infraestrutura compartilhada; integração de hidrogênio; captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS); e setores com sinergia, como o de indústrias convencionais de difícil abatimento e o de geração de energias limpas.

A Secretária de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do MDIC, Julia Cortez da Cunha Cruz, destacou a agenda como parte da estratégia brasileira de desenvolvimento produtivo sustentável: “A descarbonização industrial é uma oportunidade para modernizar a base produtiva, atrair investimentos e ampliar a competitividade da indústria brasileira.”

O Gerente de Energia e Descarbonização do Governo do Reino Unido no Brasil, Valmir Dias, detalhou a profundidade da parceria: “Explorar os desafios e oportunidades de ambos os países é o primeiro passo para desenvolvermos um processo conjunto de longo prazo focado na colaboração entre portos”.

A delegação visitou dois dos principais clusters britânicos de descarbonização: HyNet Northwest e Humber. No HyNet, as discussões se concentraram na ampliação da produção de hidrogênio de baixo carbono, na implementação de CCUS entre usuários industriais, no desenvolvimento de infraestrutura portuária e em marcos regulatórios e financeiros habilitadores. No Humber, a ênfase recaiu sobre modelos de governança, capacitação, descarbonização de operações existentes e garantia de impacto social positivo dos projetos de descarbonização.

O CEO do Complexo do Pecém, Maximiliano Quintino, ressaltou que os desafios da descarbonização industrial não serão superados de forma isolada: “Eventos como este demonstram que a transição energética é construída por meio da cooperação entre governos, organizações internacionais, empresas e infraestruturas estratégicas capazes de transformar compromissos em resultados concretos. A descarbonização deixou de ser apenas uma questão ambiental; tornou-se uma agenda de desenvolvimento econômico, competitividade e posicionamento global.”

Ao avaliar a missão, o Diretor de Sustentabilidade e Inovação do Porto de Suape, Sóstenes Alcoforado, contou que a Iniciativa de Clusters Brasil-Reino Unido proporcionou uma compreensão concreta de como projetos de descarbonização industrial são estruturados em escala. “A experiência também evidenciou a forte integração entre o setor privado, políticas públicas, capacitação técnica e mecanismos de financiamento voltados à aceleração de grandes projetos estratégicos de transição energética”, disse Alcoforado.

O Diretor de Relações Institucionais e ESG do Porto do Açu, Eduardo Kantz, apontou as oportunidades de cooperação presentes no setor: “O Brasil tem uma oportunidade única de trilhar o caminho da descarbonização, com uma matriz elétrica renovável e uma indústria de biocombustíveis bem estabelecida. Portos brasileiros como o Açu aproveitam e aplicam cada intercâmbio de conhecimento para se tornarem hubs globalmente competitivos no futuro da transição energética.”

Fonte: Nações Unidas Brasil

Nova lei torna voluntária a certificação de armazéns e impulsiona expansão da infraestrutura de armazenagem no país

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Nova lei torna voluntária a certificação de armazéns e impulsiona expansão da infraestrutura de armazenagem no país
Foto: Ministério da Agricultura e Pecuária

Sanção da Lei nº 15.429/2026 reduz burocracia, estimula investimentos privados e contribui para ampliar a capacidade de armazenamento da produção agropecuária

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou a Lei nº 15.429/2026, que estabelece a adesão voluntária à certificação de unidades armazenadoras de produtos agropecuários. A medida representa um avanço na modernização do ambiente regulatório do setor e integra a estratégia do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para reduzir burocracias, estimular investimentos e ampliar a competitividade do agronegócio brasileiro.

Com a nova legislação, o sistema de certificação de armazéns passa a ser facultativo, permanecendo disponível para empreendimentos que desejem comprovar o atendimento a requisitos técnicos, operacionais e documentais relacionados à recepção, armazenagem, conservação e expedição de produtos agropecuários.

O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, destacou que a medida promove maior eficiência regulatória e cria condições para a expansão da infraestrutura de armazenagem no país. “Estamos retirando um gargalo burocrático para acelerar investimentos em armazenagem, fortalecer a logística do agro e dar mais competitividade ao Brasil, sem abrir mão da qualidade e da segurança sanitária”, afirmou.

Nas últimas décadas, o crescimento acelerado da produção agropecuária ampliou significativamente a demanda por estruturas de armazenagem. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que, nos últimos dez anos, a produção de grãos cresceu, em média, 6,72% ao ano, enquanto a capacidade de armazenamento avançou apenas 2,38% no mesmo período.

Atualmente, o Brasil possui capacidade para armazenar cerca de 60% a 63% da produção anual de grãos, acumulando déficit superior a 130 milhões de toneladas.

A expectativa é que a simplificação das exigências regulatórias torne mais ágil a implantação de novas unidades armazenadoras, ampliando a oferta de infraestrutura, reduzindo perdas pós-colheita e fortalecendo a logística do agronegócio.

Outro benefício esperado é a redução dos custos operacionais. Até então, a certificação obrigatória era realizada por organismos privados acreditados pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), o que gerava despesas adicionais para parte dos empreendimentos e da cadeia produtiva. Com a adesão voluntária, o setor passa a contar com maior flexibilidade para definir a necessidade da certificação conforme suas estratégias comerciais e exigências de mercado.

Atualmente, apenas 17,6% dos armazéns brasileiros possuem certificação, indicador que demonstra a existência de mecanismos complementares capazes de assegurar elevados padrões operacionais e de qualidade nas atividades de armazenagem.

QUALIDADE SANITÁRIA E ACESSO AOS MERCADOS
A nova legislação não altera os mecanismos de controle sanitário nem os procedimentos de fiscalização aplicáveis aos produtos agropecuários armazenados.

A certificação de armazéns está relacionada principalmente a aspectos estruturais e operacionais das instalações. Já a qualidade e a sanidade dos produtos continuam sendo asseguradas por instrumentos regulatórios permanentes, como os padrões oficiais de Classificação Vegetal do Mapa, auditorias realizadas por tradings, cooperativas e indústrias, além das exigências contratuais de rastreabilidade e Boas Práticas de Armazenagem.

A mudança também não afeta o acesso dos produtos brasileiros aos mercados internacionais. A certificação permanece disponível para atender demandas específicas de clientes ou mercados. As condições sanitárias e fitossanitárias requeridas pelos principais parceiros comerciais do Brasil, incluindo União Europeia e China, são atendidas por instrumentos independentes da certificação de armazéns, como o Certificado Fitossanitário emitido pelo Mapa, os laudos de conformidade para organismos geneticamente modificados (OGM) e as análises relativas aos Limites Máximos de Resíduos (LMR).

O desempenho do agronegócio brasileiro em 2025, com exportações superiores a US$ 169 bilhões e superávit comercial de aproximadamente US$ 149 bilhões, evidencia a robustez dos sistemas de controle e qualidade do setor.

Com a sanção da Lei nº 15.429, o Mapa reforça sua agenda de modernização regulatória e de fortalecimento da infraestrutura agropecuária nacional, promovendo maior eficiência, competitividade e sustentabilidade para o desenvolvimento do agronegócio brasileiro.

Fonte: Ministério da Agricultura e Pecuária

Melhor que qualquer ‘hacker’ humano: o que é o novo modelo de inteligência artificial que assusta o sistema financeiro

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Melhor que qualquer 'hacker' humano: o que é o novo modelo de inteligência artificial que assusta o sistema financeiro
Foto: Banco de imagem/istockphoto

Nas últimas semanas, o mundo da inteligência artificial tem andado em polvorosa após alegações feitas pela empresa líder Anthropic sobre seu novo modelo, Claude Mythos.

A empresa afirma ter descoberto que a ferramenta pode superar humanos em algumas tarefas de hacking e segurança cibernética — o que levou reguladores, parlamentares e instituições financeiras a discutirem os perigos que ela poderia representar para serviços digitais.

Várias gigantes da tecnologia receberam acesso ao Mythos por meio de uma iniciativa chamada Project Glasswing, concebida para reforçar a resiliência contra o próprio Mythos.

A Anthropic anunciou esta semana que vai estender o acesso ao Mythos para outras 150 instituições em setores diversos, como energia, água, saúde, comunicações e equipamentos. Novos parceiros precisarão atender a requisitos de segurança antes de obterem acesso ao modelo.

Alguns analistas ainda são mais céticos sobre a capacidade do Mythos e dizem que é do interesse da Anthropic sugerir que ela possui uma ferramenta com habilidades nunca antes vistas.

O tema também causou medo no sistema financeiro e chegou a ser abordado em reunião do FMI em Washington envolvendo autoridades internacionais.

Na prática — como costuma acontecer com a IA — a tarefa de distinguir entre fatos e exageros é complicada.

O que é o Claude Mythos?

O Mythos é um dos modelos mais recentes da Anthropic, desenvolvido como parte de seu sistema de IA mais amplo chamado Claude. Ele engloba o assistente de IA e a família de modelos da empresa, rivalizando com o ChatGPT da OpenAI e o Gemini do Google.

Ele foi apresentado pela Anthropic no início de abril como “Mythos Preview”.

Pesquisadores que testam como modelos de IA lidam com solicitações ou tarefas específicas, conhecidos como “red teams”, disseram em um relatório que o Mythos era “incrivelmente capaz em tarefas de segurança de computadores”.

Eles descobriram que a ferramenta poderia localizar bugs inativos escondidos em códigos de décadas atrás e explorá-los com facilidade.

Em vez de disponibilizá-lo amplamente aos utilizadores do Claude, a Anthropic concedeu acesso a 12 empresas de tecnologia por meio do Project Glasswing, que descreveu como “um esforço para proteger sistemas essenciais de software”.

Entre elas estão a gigante de computação em nuvem Amazon Web Services, os fabricantes de dispositivos Apple, Microsoft e Google, e os fabricantes de chips Nvidia e Broadcom.

A Crowdstrike, cuja atualização defeituosa de software causou uma grande interrupção global em julho de 2024, também está entre os parceiros do projeto, e a Anthropic afirma ter concedido acesso ao Mythos a mais de 40 organizações responsáveis por softwares considerados críticos.

Em um vídeo divulgado junto com o lançamento do Project Glasswing, o chefe da Anthropic, Dario Amodei, disse que a empresa se ofereceu para trabalhar com funcionários do governo dos EUA a fim de “ajudar a se defender contra o risco desses modelos”.

Por que existem preocupações?

A Anthropic afirma que, durante os testes, descobriu que o modelo é altamente habilidoso em tarefas de segurança cibernética e hacking, superando humanos.

“O Mythos Preview já encontrou milhares de vulnerabilidades de alta gravidade, incluindo algumas em todos os principais sistemas operacionais e navegadores web”, afirmou a Anthropic em 7 de abril.

“Dada a velocidade do progresso da IA, não demorará muito para que tais capacidades se disseminem, potencialmente além de agentes comprometidos com seu uso seguro.”

A empresa disse que ele poderia localizar — com pouca supervisão — falhas críticas que exigem ação imediata em sistemas antigos, incluindo uma vulnerabilidade que esteve presente em um sistema por 27 anos, e sugerir maneiras de explorá-las.

Desde então, alguns ministros das finanças, banqueiros centrais e executivos do setor financeiro expressaram sérias preocupações, temendo que o modelo possa comprometer a segurança dos sistemas financeiros.

O ministro das Finanças do Canadá, François-Philippe Champagne, disse à BBC que o Mythos foi discutido em uma reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington em abril.

“Certamente é sério o suficiente para merecer a atenção de todos os ministros das Finanças”, disse ele.

O diretor do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, disse à BBC: “Temos de analisar com muito cuidado agora o que esse desenvolvimento recente da IA pode significar para o risco de crime cibernético.”

A União Europeia disse que também está em discussões com a Anthropic sobre suas preocupações relacionadas ao Mythos. Em maio, o bloco europeu recebeu acesso à ferramenta.

O que dizem os especialistas cibernéticos?

Ciaran Martin, ex-chefe do Centro Nacional de Segurança Cibernética do Reino Unido, disse à BBC no início desta semana que a alegação de que o Mythos poderia descobrir vulnerabilidades críticas muito mais rapidamente do que outros modelos de IA “realmente abalou as pessoas”.

“A segunda questão é que, mesmo com vulnerabilidades existentes que conhecemos, mas contra as quais as organizações podem não ter aplicado correções ou podem não estar bem defendidas, ele é simplesmente um hacker muito bom”, disse ele.

Muitos analistas independentes e especialistas em segurança cibernética ainda não puderam testar o Mythos por conta própria, e alguns permanecem céticos quanto ao seu desempenho.

O Instituto de Segurança em IA do Reino Unido concluiu recentemente que, embora se trate de um modelo muito poderoso, sua maior ameaça seria contra sistemas mal protegidos e vulneráveis.

“Não podemos afirmar com certeza se o Mythos Preview seria capaz de atacar sistemas bem protegidos”, disseram seus pesquisadores.

Para eles, onde há boas práticas de cibersegurança, esse modelo, em teoria, seria contido.

A italiana Valentina Palmiotti — mais conhecida como Chompie — participa de torneios internacionais de hacking ético, em que competidores ganham dinheiro encontrando vulnerabilidades em sistemas de segurança antes que elas possam ser exploradas por cibercriminosos.

Ela disse à BBC que seus dias de competição podem estar contados devido à ascensão de ferramentas de IA como o Claude Mythos.

Devemos nos preocupar?

Os medos relacionados à IA não são novidade.

Novos modelos e ferramentas estão surgindo o tempo todo e geralmente são acompanhados por promessas de revolucionar nossas vidas — para melhor ou para pior.

Aproveitar essa mistura de medo e entusiasmo sobre a IA e seu impacto futuro também se tornou uma marca registrada do setor e de suas estratégias de marketing nos últimos anos.

No caso da Mythos, ainda não sabemos o suficiente para entender se essas esperanças ou temores são justificados, ou mais um reflexo do entusiasmo que cerca o setor.

Em ambos os casos, de acordo com o National Cyber Security Centre, órgão britânico de cibersegurança, a coisa mais importante que podemos fazer agora é não entrar em pânico e, em vez disso, focar na necessidade de corrigir a segurança cibernética básica.

Afinal, a maioria dos hackers não precisa de ferramentas de superinteligência artificial para violar sistemas — ataques muito mais simples geralmente são suficientes.

“Para alguns, esse é um evento apocalíptico, para outros, parece muito exagero”, disse Martin à BBC.

Mas ele afirmou que, seja esta ferramenta ou outras subsequentes desenvolvidas pela Anthropic ou por concorrentes, além dos riscos existe uma oportunidade de construir um mundo online mais seguro.

“No médio prazo, há uma oportunidade de usar essas ferramentas para corrigir muitas das vulnerabilidades subjacentes da internet”, afirmou.

No final de abril, a Anthropic anunciou que estava investigando uma denúncia de que um pequeno grupo de pessoas obteve acesso ao Claude Mythos.

“Estamos investigando uma denúncia de acesso não autorizado ao Claude Mythos Preview por meio de um de nossos ambientes de fornecedores terceirizados”, afirmou a empresa em comunicado.

A declaração foi uma resposta a uma reportagem da Bloomberg, que revelou que usuários em um fórum privado conseguiram acessar o modelo sem as permissões necessárias.

Fonte: BBC Brasil