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A charrette ou a arte de cocriar sem ninguém

Caio Esteves
Caio Esteves
Fundador da N/Lugares Futuros. Especialista em place branding, placemaking e futuro das cidades. Autor, professor e keynote speaker, presente nas principais redes e institutos internacionais que discutem e promovem lugares e futuros.

Como o mercado imobiliário aprendeu a parecer participativo e por que isso quase nunca dá certo.

Tenho os dois pés atrás sempre que ouço a palavra “novo” colada em qualquer coisa. Novo morar, novo trabalhar, novo viver, nova forma de fazer cidade: quase sempre, atrás do prefixo, não tem nada de novo, tem remarketing de conceito velho com roupa nova. E talvez nenhum exemplo seja tão eloquente quanto o Novo Urbanismo e sua herança predileta, aquela que o mercado imobiliário brasileiro adotou com entusiasmo de quem encontrou um atalho: a charrette.

Comecemos pelo começo, porque a origem já explica quase tudo. A charrette é palavra francesa, significa carroça, da mesma forma que usamos charrete em português. Na École des Beaux-Arts de Paris, no século XIX, conta-se que uma carroça circulava para recolher os trabalhos finais dos estudantes de arquitetura; como o prazo não esperava, alguns alunos ainda faziam os últimos ajustes enquanto os desenhos eram levados. Daí a associação entre charrette e esse estado muito conhecido dos estudantes de arquitetura pelo mundo: trabalhar no limite, contra o relógio, tentando salvar uma ideia antes que o prazo a atropele ou a charrete passe.

O Novo Urbanismo não inventou a charrette, mas ajudou a transformá-la em método de projeto; a partir dos anos 1980, ela foi incorporada ao repertório de escritórios e urbanistas ligados ao movimento, especialmente no ambiente norte-americano, como uma forma intensiva de reunir técnicos, decisores, interessados e, em tese, comunidade para produzir uma visão de projeto em poucos dias. O problema está justamente nesse “em tese”, porque a participação prometida pela charrette raramente equivale a um processo real de engajamento, desses que começam antes do workshop, sobrevivem depois dele e não cabem no teatro metodológico de quatro dias. 

O problema nunca foi a cocriação

Não sou contra criação coletiva, seria absurdo, eu vivo de processos cocriativos. O problema não está no conceito, está na forma, e está no que essa forma decide deixar de fora.

E a charrette, pelo menos como feita na maioria das vezes no Brasil, deixa quase tudo de fora. Ela se concentra na expertise e na visão de mundo dos participantes, que não raro são profissionais brilhantes, premiados, com portfólio de dar inveja, e que nunca pisaram no lugar em questão antes do evento, nem pisarão depois. O resultado pode até sair impecável do ponto de vista formal, daqueles que rendem desenhos bonitos, mas dificilmente será autêntico, e capaz de gerar qualquer senso de pertencimento ou transformação, afinal pertencimento não se desenha em poucos dias, ele se constrói, e quem o constrói não é o urbanista ou consultor de grife, é quem dá vida ao lugar.

Aqui mora a parte mais incômoda, a que o mercado prefere não encarar: palavras como colaboração e cocriação viraram moeda corrente no mercado, ainda mais nesta era em que tudo precisa ter selo de ESG, só que colaborar de verdade dá um trabalho danado, e esse trabalho não cabe num cronograma de fim de semana, não cabe em Kronos, no tempo do relógio.

A charrette se tornou a forma rápida, fácil e barata de simular cocriação e de aplacar a consciência de governança de quem precisa dizer que ouviu a comunidade, ela entrega a aparência da “escuta”(cujo termo por si só já é carregado de problemas) sem o ônus de escutar, no que envolve a comunidade, é, muitas vezes, participação performática com cara de método.

Quatro dias contra o tempo do lugar

Tenho insistido, em quase tudo que escrevo, que as cidades vivem tempos múltiplos e sobrepostos. O tempo do cotidiano de quem habita, o tempo das gerações que vão herdar o que construímos, o tempo lento da identidade que se acumula em décadas de prática, memória e afeto. O teólogo e filósofo queniano John Mbiti, ao discutir concepções africanas de tempo, distingue o Sasa, o tempo vivido e imediato, do Zamani, o tempo profundo da ancestralidade; os gregos separavam Kronos, o relógio, de Kairós, a hora pertinente. A charrette, com sua estética de competição contra o cronômetro, opera num único tempo, e logo no mais pobre de todos: o tempo da urgência, o tempo do prazo de entrega, o tempo da charrete que passa recolhendo projetos.

Comprimir num evento de poucos dias a leitura de um lugar que levou gerações para se tornar o que é não é eficiência; o que se ganha em velocidade se perde, integralmente, em profundidade, e o que se perde em profundidade reaparece depois, quase sempre, na forma de empreendimento genérico, de projeto que poderia estar em qualquer cidade e por isso não pertence a nenhuma, ou ainda pior, de projeto lindo na maquete, mas morto na rua.

Não é coincidência que o exemplo mais celebrado do Novo Urbanismo reflita exatamente isso. Seaside, na Flórida, é a cidade onde filmaram o Truman Show, literalmente, confesso que usei aquela cidade cenográfica como exemplo de tudo que há de torto no urbanismo por anos, antes de descobrir que se tratava de um projeto endeusado do próprio movimento. Achei sempre que era cenário, e o problema é que era mesmo. 

A velhice do que se diz novidade

A charrette é apenas o método, mas o método denuncia a epistemologia. O Novo Urbanismo, ao tentar superar o urbanismo modernista, herdou dele justamente o pior: a crença de que as pessoas devem se adequar a uma forma decidida de antemão pelos detentores do conhecimento. O movimento fala em comunidade, mas a prática que chegou ao mercado muitas vezes reduziu comunidade a cenário, referência ou justificativa posterior, fala-se em vida urbana, mas o processo frequentemente se organiza em torno da forma, da norma e da regulação rígida, sufocando o orgânico, o inesperado, o improviso, exatamente onde a vida da cidade acontece.

No Brasil, pelo menos nas experiências que acompanhei de perto, e das quais deixei de participar justamente por isso, a maioria esmagadora das charrettes é conduzida por um grupo de técnicos diretamente envolvidos no projeto, o que produz uma pergunta simples e bastante constrangedora: se um bom lugar é um lugar com significado, e o significado é dado por quem fez e fará aquele lugar, o que um bando de técnicos tem a ver com isso? A resposta mais honesta e, ao mesmo tempo, a mais dura é: nada, se esses técnicos estiverem ali para substituir o engajamento. A coisa só muda mesmo de figura quando o grupo técnico aceita que seu papel é servir ao processo, e não o sequestrar. É nesse ponto que o Novo Urbanismo se revela o velho urbanismo modernista que apenas aprendeu a dizer “colaboração” sem ter muita ideia do que a palavra significa, especialmente no que se refere a sua abrangência.

Há algo de profundamente colonial nessa importação acrítica. Adotamos a técnica nascida de uma escola de arte europeia, processada por um movimento norte-americano, e a aplicamos no Brasil como se fosse neutra, como se um método carregasse a verdade independentemente do chão onde pisa, mas todo método é uma forma de olhar, e olhar de fora, de cima, com pressa, é precisamente o olhar que produz lugares que darão um trabalho enorme, posterior, para construir um senso de pertencimento que poderia, e deveria, ser inato.

O que fazer em vez disso

A alternativa não é sofisticada, é só trabalhosa, e talvez seja por isso que reverbere tão pouco. Ela passa, necessariamente, por compreender o lugar antes de desenhar qualquer coisa, e compreender o lugar significa envolver as pessoas do lugar desde o primeiro minuto.

Começa por uma imersão profunda, com técnicas de pesquisa que passam pela etnografia em suas várias formas, para entender a dinâmica, as culturas e as pessoas que formam aquele lugar. Evolui para um processo de colaboração com a comunidade, o levantamento honesto de problemas, anseios e sonhos, e aqui vale uma observação que faz toda a diferença: envolva a equipe de projeto nessa fase, deixe que os técnicos escutem antes de propor, para só então avançar para a cocriação de soluções, e nessa etapa o time de projeto deveria assumir o papel de espectador atento, porque a última coisa de que esse momento precisa é de direcionamento técnico contaminando o que a comunidade tem a dizer. Só depois de todo esse material levantado e depurado, com matéria suficiente para que o projeto não nasça órfão de lugar, é que faz sentido sentar para um workshop de projeto, agora com o reconhecimento da comunidade, e às vezes até do mercado, sobre a seriedade do esforço.

Repare que nada disso cabe em vinte e quatro horas, e nem em uma semana. O engajamento comunitário tem sua própria curva, seu próprio tempo de maturação, e os resultados costumam ser de outra natureza, porque vão muito além de qualquer insight qualificado que o urbanista mais genial do mundo produziria sozinho. A maior contribuição desse processo não é o projeto, é a rede de defensores que ele cria desde o momento zero, a comunidade que se reconhece naquilo e passa a sustentar a ideia. É isso que dá autenticidade ao processo e, no fim, sucesso ao empreendimento, porque se você teve o trabalho de fazer tudo certo, a última coisa que vai querer é um projeto genérico.

No fim das contas, a pergunta que importa não é qual método adotar, é por que se aprisionar a um só quando o que está em jogo é a vida das pessoas na cidade. Mais do que escolher entre esta ou aquela corrente, é preciso ter a inteligência de absorver o que cada uma tem de útil e descartar o que cada uma tem de dogma. A charrette pode até ser parte de um processo robusto, desde que chegue no fim e não no começo, o que ela não pode é continuar sendo o que se tornou majoritariamente: um atalho que permite ao mercado parecer que ouviu, sem nunca ter engajado de fato.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

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