Home Blog

Mercado de carbono avança e abre oportunidades para produtores rurais

0
Mercado de carbono avança e abre oportunidades para produtores rurais
Foto: Arquivo/Secom-AC

Sistema brasileiro de comércio de emissões pode movimentar R$ 1 trilhão, gerar milhões de empregos e permitir que produtores sejam remunerados por serviços ambientais

O mercado de carbono brasileiro entra em uma nova etapa com a implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/2024. A expectativa é que o novo modelo fortaleça a economia verde, estimule práticas sustentáveis e abra uma nova fonte de renda para produtores rurais que contribuam para a redução das emissões de gases de efeito estufa.

De acordo com um estudo da PwC Brasil, o país tem potencial para gerar cerca de 370 milhões de toneladas em créditos de carbono, movimentar aproximadamente R$ 1 trilhão na economia e criar cerca de 3 milhões de empregos. O levantamento aponta que o Brasil reúne condições para se tornar um dos principais protagonistas do mercado global de créditos de carbono, impulsionado pela extensa cobertura florestal, pela agropecuária e pela adoção de tecnologias sustentáveis.

A legislação prevê a participação voluntária dos produtores rurais como geradores de créditos de carbono. Esses créditos representam a redução ou a remoção de gases de efeito estufa da atmosfera. Cada crédito equivale a uma tonelada de dióxido de carbono (CO₂) que deixou de ser emitida ou foi capturada por meio de atividades ambientalmente responsáveis.

Entre as práticas que podem resultar na geração desses créditos estão a captura de carbono no solo, o reflorestamento, projetos de bioenergia, o tratamento de dejetos animais, a recuperação de áreas degradadas e a conservação de vegetação nativa além das exigências previstas na legislação ambiental.

Para que os créditos tenham validade comercial, os projetos deverão seguir metodologias reconhecidas e passar por processos de certificação. Empresas especializadas serão responsáveis por verificar se os requisitos técnicos foram cumpridos antes que os créditos possam ser negociados no mercado.

A participação da agropecuária no sistema foi incluída durante a tramitação da proposta no Congresso Nacional. O objetivo é reconhecer o papel do setor na preservação ambiental e permitir que produtores sejam remunerados pelos serviços ambientais prestados, respeitando a adesão voluntária ao sistema.

Apesar da aprovação da lei, o mercado ainda passa pela fase de regulamentação. Nessa etapa serão definidos os critérios de monitoramento, verificação e certificação dos projetos, além das regras para utilização dos créditos pelas empresas que precisarão compensar parte de suas emissões de gases de efeito estufa.

A regulamentação também estabelecerá qual será o limite de créditos de carbono provenientes da produção rural que poderá ser utilizado pelas empresas obrigadas a reduzir suas emissões. A intenção é incentivar que essas empresas também invistam em tecnologias para diminuir a própria emissão de poluentes, utilizando a compensação apenas como complemento às metas ambientais.

A previsão é de que o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões esteja plenamente operacional até 2030. Até lá, produtores interessados em participar do mercado deverão acompanhar a regulamentação e adequar seus projetos às exigências técnicas que serão estabelecidas pelo governo federal.

Especialistas avaliam que, além de criar uma nova oportunidade econômica para o campo, o mercado de carbono poderá fortalecer a imagem do agronegócio brasileiro no cenário internacional, agregando valor à produção e incentivando investimentos em práticas cada vez mais sustentáveis.

Fonte: Gazeta do Paraná

Fumaça de incêndios no Canadá encobre nordeste dos EUA enquanto Europa registra mais de 12 mil mortes em meio a onda de calor

0
Fumaça de incêndios no Canadá encobre nordeste dos EUA enquanto Europa registra mais de 12 mil mortes em meio a onda de calor
Foto: Reprodução/ Reuters

Poluição causada por queimadas em Ontário deteriorou a qualidade do ar em milhões de pessoas. Onda de calor de junho teve excesso de mortes em 12 países europeus

A fumaça dos incêndios florestais que assolam a província canadense de Ontário se espalhou para o nordeste dos Estados Unidos e Nova York nesta quinta-feira, expondo milhões de pessoas a uma qualidade do ar severamente degradada. Um dia após as imagens de um céu amarelo apocalíptico na cidade canadense de Toronto, os mais afetados agora são os estados americanos próximos à fronteira, incluindo Minnesota, Wisconsin, Michigan e Illinois. Enquanto isso, na Europa, ao menos 12 mil mortes adicionais foram registradas em uma dúzia de países durante a onda de calor de junho.

Na manhã de quinta-feira, o monitor IQAir classificou Detroit, Toronto, Minneapolis e Chicago como as cidades mais poluídas do mundo.

Uma densa névoa cobriu a cidade de Nova York, onde meteorologistas previram níveis de qualidade do ar considerados “perigosos à saúde” devido às finas partículas provenientes dos incêndios florestais. As autoridades estão aconselhando os moradores a passarem o mínimo de tempo possível ao ar livre.

As autoridades do estado de Michigan, nos EUA, localizado ao sul de Ontário, alertaram que essas condições podem persistir pelo menos até sexta-feira.

Segundo os dados mais recentes, existem mais de 130 incêndios ativos no noroeste de Ontário, dos quais pelo menos 60 estão fora de controle. As autoridades de Ontário solicitaram assistência adicional do governo federal, em particular apoio aéreo, para evacuar comunidades remotas.

Os incêndios florestais no Canadá queimaram 1,9 milhão de hectares este ano, um número ainda menor do que em 2023, um ano recorde, e em 2025, de acordo com as estatísticas oficiais mais recentes.

Europa

Já na Europa, pelo menos 12 mil mortes adicionais foram registradas em uma dúzia de países durante a onda de calor de junho, de acordo com uma compilação de dados oficiais da AFP, um levantamento preliminar que pode aumentar à medida que as estatísticas forem concluídas.

‘Europa fritando’: Terceira onda de calor leva temperaturas acima de 40°C e reacende temor de novas mortes
Entre 22 e 28 de junho, período em que a onda de calor atingiu o pico em vários países, os institutos nacionais da Alemanha, França, Bélgica, Espanha, Holanda, Suíça e Luxemburgo registraram quase 10 mil mortes a mais do que o esperado.

Este número soma-se às 2.200 mortes relacionadas à onda de calor na Inglaterra e no País de Gales, segundo estimativas publicadas pelo serviço meteorológico britânico, o Met Office, que abrangem um período ligeiramente mais longo, de 18 a 28 de junho.

Dados preliminares da plataforma europeia de monitoramento do excesso de mortalidade EuroMOMO também indicam um aumento significativo durante a última semana de junho, com 14.260 mortes acima do esperado.

Este modelo estatístico baseia-se em dados oficiais de 24 países, representando aproximadamente 400 milhões de habitantes.

“O verão ainda não acabou”, alertou Hans Henri Kluge, diretor regional da OMS para a Europa, na quinta-feira. “Temos as ferramentas para evitar essas mortes.” Atualmente, “muitos governos ainda consideram o calor um fenômeno meteorológico em vez de uma emergência de saúde pública”, acrescentou ele em um comunicado.

‘Dramático’

Até o momento, esta semana de junho registrou o maior excesso de mortalidade desde o início dos registros harmonizados do EuroMOMO em 2020. De todas as semanas do verão no Hemisfério Norte dos últimos sete anos, esta “semana 26” de 2026 só é superada por outra em julho de 2022, durante a pandemia de Covid-19.

— Até onde sabemos, não há outras causas para esse excesso de mortalidade além do calor, e isso é bastante dramático — explicou à AFP Lasse Vestergaard, epidemiologista do centro de pesquisa dinamarquês Statens Serum Institut e coordenador do EuroMOMO.

O especialista descreve essa tendência como “altamente incomum”, mas recomenda cautela na interpretação dos dados mais recentes. A EuroMOMO acredita que são necessárias quatro semanas para consolidar as estimativas.

De acordo com o grupo de cientistas World Weather Attribution, as ondas de calor de junho teriam sido praticamente impossíveis sem as mudanças climáticas.

Fonte: O Globo

Porque precisamos avançar de cidades inteligentes a cidades sábias

0
Porque precisamos avançar de cidades inteligentes a cidades sábias
Foto: Pedro Piegas / PMPA

Tornar-se inteligente é um caminho, e não um destino — e o próximo passo pede mais do que tecnologia e capacidade de decisão: pede propósito

Fiquei muito feliz e honrado com o convite para me juntar ao grupo de colunistas do Connected Smart Cities, pois tenho grande apreço pelo tema de como melhorar nossas cidades e vivo hoje a alegria de contribuir com a Rede de Cidades + Inteligentes, estruturada pelo Ministério das Cidades (MCid) em parceria com universidades lideradas pela UFRGS e 22 municípios de todo o país.

Antes de mergulhar nessa jornada, em que espero poder trocar ideias e falar de várias agendas urbanas emergentes, queria nessa primeira coluna compartilhar algumas impressões pessoais sobre um tema tão debatido — e tão ligado à própria história do CSC: Cidades Inteligentes.

Começo por uma convicção: a inteligência urbana é mais um caminho do que um estado. O desafio permanente para nossas cidades é entender onde estamos e se esforçar para evoluir, como uma missão permanente. Não à toa, a rede que construímos com o ministério fala em cidades mais inteligentes. 

Outro aspecto é que cheguei a sugerir o uso do termo “cidades sábias”, pois não basta inteligência, é preciso propósito. Essa é uma convicção que firmei ao longo dos anos de trabalho e que queria trazer aqui: para mim existem três níveis de evolução fundamentais na rota das cidades que empregam tecnologia para tentar melhorar.

O primeiro é o das CIDADES CONECTADAS, que usam sensores e outras estratégias de monitoramento para coletar dados em larga escala e em tempo real sobre o funcionamento dos seus sistemas urbanos. É o estágio inicial, muitas vezes impulsionado por fornecedores ou pelo fascínio de acompanhar os ritmos da cidade. Gosto de compará-lo aos sentidos humanos: para a cidade essa camada sensorial agrega a capacidade de perceber a realidade, assim como os sentidos humanos nos permitem interpretar o mundo ao redor.

O segundo nível de maturidade é o que justifica os investimentos do primeiro. Trata-se do que fazer com a montanha de dados captada. Seu melhor uso é para informar e modelar políticas e iniciativas públicas — ou seja, CIDADES INTELIGENTES são fundamentalmente aquelas capazes de tomar decisões baseadas em evidências. Na analogia humana, são cidades que ganham um cérebro, capaz de processar os sinais dos sentidos e agir. Muitos projetos falham exatamente aqui: geram dados que não informam nem melhoram a capacidade pública de decidir. E que muitas vezes acabam em fracasso, pois coletar dados sem estratégia gera custo sem retorno para o cidadão.

Mas não basta ser inteligente. Cada decisão gera impactos diversos — positivos em um aspecto, negativos em outro. Cada investimento, num cenário de recursos escassos, estabelece uma prioridade e carrega um custo de oportunidade. É preciso decidir considerando o que queremos valorizar e quais valores devem nortear a gestão. Na nossa metáfora, é preciso ter coração. A inteligência pura pode servir a fins que não são nobres nem justificáveis.

Por isso defendo a necessidade de avançar para um terceiro nível: o das CIDADES SÁBIAS. Aquelas que decidem com base em dados — processados com a melhor tecnologia disponível —, mas que se orientam por uma visão de desenvolvimento socioeconômico sustentável que coloca as pessoas no centro — buscando redução de desigualdades e seguindo um conjunto de valores claros que ajude a gerar cidades melhores de se viver, que não repitam muitos dos erros que retiraram qualidade urbana de tantas cidades ao longo do século XX.

Esse é um caminho necessário e cada vez mais possível. A inteligência artificial e as novas tecnologias de monitoramento urbano, com a qualificação dos gestores e o compartilhamento de conhecimento e valores, precisamos estimular que os municípios brasileiros avancem em inteligência — e, sobretudo, no caminho da sabedoria urbana. Afinal, a pergunta que importa não é quão inteligente uma cidade consegue ser, mas a serviço de que valores essa inteligência funciona.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

Da pólis grega à transformação das metrópoles: uma reflexão sobre o processo de urbanização

0
Da pólis grega à transformação das metrópoles: uma reflexão sobre o processo de urbanização
Foto: Edilson Dantas/Agência O GLOBO

Em “Uma História da Urbanização em Perspectiva Global”, Beatriz Piccolotto Bueno conduz o leitor a buscar no passado as causas dos complexos desafios geopolíticos ambientais e sociais do tempo presente

Nas nossas cidades, o que há de comum entre o trânsito caótico, a poluição que cobre os céus e contamina o ar, a violência que ceifa vidas nos becos e vielas das periferias e as ruas, avenidas e bairros arborizados das classes mais favorecidas da população; ou entre o lixo que se espalha entupindo bueiros e provocando inundações periódicas em tempos chuvosos e o processo de favelização, nunca tão visível como nos tempos atuais? A resposta está na urbanização, na concentração de um grande número de pessoas que trocaram as zonas rurais pelas urbanas, apesar de o espaço rural, no tocante à área territorial, ser bem mais amplo do que o espaço urbano.

Em meados da década de 1800, a população mundial era, em sua grande maioria, rural, apenas cerca de 3% vivia em áreas urbanas. De lá para cá, no entanto, o mundo sofreu grandes transformações. Atualmente, dados da Organização das Nações Unidas (ONU) informam que cerca de 54% da população mundial vive na zona urbana, mas as projeções da entidade dão conta de que tal porcentagem aumente em 2050, saltando para 66%, o que corresponde a quase 2,5 milhões de pessoas deslocando-se para essas áreas. No Brasil, o panorama não foi nem um pouco diferente.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou-se um grande aumento da população brasileira entre os anos de 1940 e 2010: o número de brasileiros passou de 70,2 milhões para 209,3 milhões, com a população urbana subindo de 44% para os atuais 85%, um processo que se acelerou sobretudo nos anos 1950, impulsionado pelo grande êxodo rural e pela industrialização, a qual foi decisiva para essa migração do campo para a cidade. O governo de Juscelino Kubitschek, ao atrair indústrias multinacionais, estimulou a formação do mercado interno, ao mesmo tempo em que a modernização do campo em algumas regiões, como a Sudeste, expulsou os trabalhadores rurais, que passaram a se dirigir aos centros urbanos em busca de empregos, uma vez  que muitas das tarefas que faziam no campo foram para a responsabilidade das máquinas. Esse processo também se deve muito à construção de Brasília, que mudou o mapa urbano e atraiu milhares de nordestinos para o interior do País. Com isso, de agrário, o Brasil passou a ser urbano, com todas as consequências que essa condição implica, para o bem e para o mal.

De modo geral, os urbanistas chamam a atenção para o fato de que, no Brasil, o crescimento urbano não foi acompanhado no mesmo ritmo por infraestruturas e serviços capazes de atender a esse contingente. Some-se a isso um outro fator: o desenvolvimento nem sempre priorizou o que deveria ser o foco do planejamento urbano, quer seja, o uso e a ocupação do território urbano de forma eficiente e sustentável. Uma das consequências desse processo é a chamada favelização. Aproximadamente 900 milhões de pessoas que foram para as cidades vivem hoje em favelas no mundo todo, inseridas num cenário de miséria, fome e problemas de saúde.

Cidades: locais de confluência de saberes e fazeres

Em seu livro Uma História da Urbanização em Perspectiva Global (Edusp), Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, rastreia a evolução da urbanização das cidades em 6 mil anos de história, da pólis grega às metrópoles do século 19, sem esquecer o papel do Brasil e sua inserção nesse processo. A obra, como a autora observa no prefácio, destina-se aos interessados em história global e cultura material, na perspectiva da história conectada, mas sobretudo aos interessados em história da urbanização.

Combina análises de cultura material, história global e assimetrias historiográficas, construindo uma narrativa que entrelaça diferentes tempos e espaços, encarando a urbanização como fenômeno global e não apenas europeu. Logo na introdução, ela escreve que “o século 21 promete ser o século das cidades e pesquisas indicam que o clube das megalópoles cada vez mais é terceiro-mundista”. Beatriz afirma ainda que altos índices demográficos não são sinônimo de progresso, muito pelo contrário.

Coerente com a proposta de levar o leitor a refletir sobre as raízes das desigualdades urbanas e os desafios geopolíticos ambientais e sociais que se apresentam hoje, a autora começa por definir o que é cidade, para isso valendo-se da citação de diversos estudiosos que se debruçaram sobre a mesma questão, como o historiador francês Fernand Braudel, que considerava as cidades como os motores da história e do capitalismo, e o arqueólogo australiano Gordon Childe, pioneiro no estudo da urbanização, a quem é creditada a criação do termo Revolução Urbana, que define a grande transformação de aldeias agrícolas, baseadas em parentesco, para sociedades urbanas complexas marcadas pelo surgimento do Estado, estratificação social e excedentes de produção.

“A teoria de Gordon Childe tem sido confrontada há muitos anos à luz de novas descobertas arqueológicas”, escreve Beatriz, contextualizando sua informação a partir da citação de estudiosos de ontem e de hoje, que contestaram as premissas do arqueólogo australiano. “A desigualdade não é um fado, assim como as estruturas de poder centralizadas e hierarquizadas. Estamos diante de um cenário muito mais rico no qual a cidade poderia ser o locus da concentração intelectual, da confluência de saberes e fazeres, da revolução científica e das artes no sentido da emancipação e não da escravidão em que nos metemos quando decidimos criar animais e plantas.”

Gerado a partir da experiência pedagógica da autora no campo disciplinar da história e urbanização e do urbanismo, no curso de graduação e pós-graduação na FAU/USP, o livro é dividido em duas partes. A primeira delas se inicia justamente com a definição de cidade, conforme abordado acima. Em A Invenção da Política e dos Espaços Públicos, retorna à antiguidade helênica para traçar os princípios do conceito de urbanização e, diretamente ligado a este, do surgimento da democracia, uma vez que parte do princípio de que “a invenção da democracia foi acompanhada pela invenção de certos espaços para exercício da política e da cidadania”. Em Mundialização: Urbanização em Rede, ela trata da problemática da helenização e da romanização nos termos da história da urbanização, recorrendo aos estudos de Nestor Goulart Reis Filho, pioneiro na fundação do campo disciplinar da História da Urbanização e do Urbanismo no Brasil. Essa primeira parte do livro se encerra com o título Por Uma Revisão dos Conceitos de Idade Média e Renascimento, no qual Beatriz se volta para o Oriente, o Oriente Médio e suas interfaces com a Europa medieval.

Sob o título A Mobilização Ibérica como Laboratório do Mundo tem início a segunda parte da obra. Uma das hipóteses aqui levantadas é a de que a mobilização ibérica foi a primeira experiência de globalização cultural, “envolvendo de fato as quatro partes do mundo e, como tal, laboratório de encontros, trocas e hibridismos em escala planetária”. Já o capítulo seguinte traz o Brasil como foco principal. Em Por Uma Arqueologia da Paisagem Cultural “Brasileira” Plural, Beatriz escreve, logo no início: “A historiografia sobre o processo de urbanização no Brasil e no período colonial pautou-se, em geral, pelo estudo das vilas e das cidades em detrimento dos demais núcleos de povoamento que pontuavam territórios, cumprindo diferentes papéis. Lugares, arraiais, capelas, freguesias, julgados, bairros rurais, aldeias indígenas, aldeamentos missioneiros, pousos, registros, passagens, barreiras, fazendas, sítios, currais e fortalezas ficaram obscurecidos em meio à rarefeita rede de vilas e cidades”.

Finalmente, fecha o livro um epílogo – O Longo Século XIX à Luz da História Global -, escrito sob a inspiração do fotógrafo Stepan Norair Chahinian e do historiador e marxista britânico Eric Hobsbawm, autor de A Era das Revoluções, A Era do Capital e A Era dos Impérios. O texto trata basicamente de cidades do século 19, que “parecem todas iguais e esse ideal foi perseguido e objeto de grandes negócios disfarçados de afirmação identitária. Mas se as cidades se tornaram estereotipadas segundo padrões ocidentais, não o eram até então. As cidades pré-industriais tinham profundas marcas vernaculares e acentos regionais, híbridos e plurais pari passu aos encontros e trocas culturais que mobilizaram”. Beatriz conclui: “A despeito de diferenças políticas, religiosas e culturais, o mundo é mais misturado do que parece à primeira vista; eis a mensagem aqui implícita”.

Um acréscimo que não pode deixar de ser mencionado é a seção Iconografia e Cartografia, que traz um rico acervo visual: mapas, pinturas,  gravuras e objetos da cultura visuais escolhidos, segundo ela, “por sua capacidade de representar a geopolítica global em tempos recuados”. Adiante, escreve: “Cada mapa, pintura, gravura, objeto da cultura material deriva de processos que envolvem indivíduos, técnicas e instrumentos, códigos e convenções de representação, trazendo ali amalgamados vários textos. É justamente essa intertextualidade que deve ser descoberta no processo interpretativo […] Esses documentos visuais nos remetem também a instituições e processos de formação e difusão do conhecimento”. As figuras aqui retratadas, além de devidamente identificadas, foram contextualizadas pela autora e mereceram, cada qual, um tratamento individualizado, segundo a época em que foram produzidas. Todas representam visões da época, recortes que remetem às várias facetas de um mundo urbanizado e foram selecionadas por sua capacidade de representar a geopolítica global em tempos antigos.

Fonte: Jornal da USP | Paulo Capuzzo

Canadá tenta resgatar moradores de comunidade remota em meio a incêndios

0
Fumaça de incêndios no Canadá encobre nordeste dos EUA enquanto Europa registra mais de 12 mil mortes em meio a onda de calor
Foto: Reprodução/ Reuters

Forças Armadas se preparam para fazer resgate aéreo de cerca de 600 pessoas em Fort Hope, Ontário

As Forças Armadas do Canadá se preparavam, neste sábado (18), para resgatar moradores de uma comunidade remota de 600 pessoas ameaçada por incêndios florestais. As chamas também espalharam fumaça por uma ampla área dos Estados Unidos.

A ministra federal de Emergências, Eleanor Olszewski, afirmou na noite de sexta-feira (17) que as Forças Armadas utilizarão aeronaves para retirar os moradores de Fort Hope, no noroeste de Ontário, um região pouco povoada, onde estão ocorrendo alguns dos incêndios mais intensos.

A região possui poucas estradas e depende fortemente do transporte aéreo. Milhares de pessoas já foram retiradas das áreas afetadas para cidades mais ao sul em Ontário.

Grandes incêndios florestais se tornaram um fenômeno anual recorrente no Canadá, que abriga algumas das maiores áreas florestais do mundo. Especialistas em clima afirmam que o aumento das temperaturas levou à secura da madeira e ao aumento do risco de incêndios.

Ética em pesquisa e IA generativa: por uma abordagem crítica e soberana

0
Ética em pesquisa e IA generativa: por uma abordagem crítica e soberana
Foto: Qilai Shen/Bloomberg

Impulsionada em escala global por grandes corporações estrangeiras, a vertiginosa generalização do emprego de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAGen) no cotidiano acadêmico traz importantes desafios éticos, em particular para a ética em pesquisa.

Antes de abordar alguns deles, lembro que atualmente “80% das universidades brasileiras dependem de Google ou Microsoft”, como indica o Caderno Vozes da Ciência, recentemente publicado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC). Resultante de um ciclo de debates do qual tive a honra de participar, este valioso documento formula 117 propostas para “o Brasil que queremos”, entre elas as que buscam assegurar a soberania digital e tecnológica brasileira.

O primeiro desafio que enfrentamos é resgatar a história da ciência. A atribuição às máquinas de tarefas outrora exclusivamente humanas inscreve-se em um longo debate sobre as relações entre ética, técnica e produção científica. Numerosos autores demonstraram como as tecnologias, impulsionadas por imperativos econômicos, avançaram de forma alheia, senão antagônica, à reflexão e ao pensamento crítico, deixando a ética isolada em algum rincão das ciências ditas sociais e humanas. Podemos escolher os anos 1970 para resgatar Hans Jonas, filósofo alemão que em diversas obras apontou a responsabilidade dos cientistas pelos efeitos devastadores do “progresso”, e o quanto a “novidade” (“o epíteto laudatório novo”) pode funcionar como salvo-conduto para agir sem precaução nem dever de prestar contas. Porém, muito antes de Jonas e outros tantos pensadores ocidentais, os povos originários já nos alertavam para a possível confusão entre avanço tecnológico e progresso humano; a repartição brutalmente assimétrica dos benefícios e danos oriundos da técnica; e o modo pelo qual, nas palavras de Ailton Krenak, estamos vendendo o amanhã – aliás, a um preço módico.

O segundo desafio é reconhecer que a IA não avança em ambiente “neutro”. A extração de grandes volumes de dados sem prévio consentimento esclarecido e sem contrapartida à altura; a presença de vieses em ferramentas aparentemente anódinas; e a subtração a modalidades de controle legal e social, do ponto de vista das big techs, constituem funcionalidades dessas tecnologias, e não disfunções. Todos sabemos que tais atributos servem não apenas aos vultosos lucros que envolvem a chamada “economia de dados”, mas também aos ecossistemas de desinformação dotados de financiamento bilionário e objetivos político-ideológicos ostensivos, que vêm desempenhando papel importante na crescente ascensão global das extremas direitas. Exceto pela escala e pela velocidade, tampouco estamos diante de uma novidade. O mesmo homem pode aceitar boquiaberto os mais fantasiosos relatos e rejeitar com desprezo as verdades mais solidamente estabelecidas, escreveu Marc Bloch em suas Reflexões de um historiador sobre as notícias falsas da guerra (1921). Soldado durante a Primeira Guerra e fuzilado pela Gestapo durante a Segunda, Bloch foi recentemente homenageado com a entrada simbólica no Panteão francês. Fascinado pela credulidade humana, concluiu que o sucesso de uma notícia falsa nasce de representações coletivas pré-existentes, como medos, ódios e preconceitos. Assim, o processo pelo qual mentiras deslavadas tornam-se grandes lendas não se explica pela ignorância, e sim pela existência de um ambiente favorável a elas. Lamento constatar que hoje, em matéria de plágio, fabricação ou falsificação de dados, considerados as más práticas científicas mais graves, enfrentamos um verdadeiro boom de empreendedorismo.

Isto nos leva a um terceiro desafio: discernir o modus operandi das big techs e de seus aliados, que compreende tanto a coerção como a propaganda. Começando pela imposição, muitos motores de busca, softwares e aplicativos que utilizamos cotidianamente não oferecem a opção de recusa à IA. Sendo condição de acesso aos conteúdos que de fato buscamos, ignorá-la exige um gesto contraintuitivo. Mesmo quando a desativação é possível, nem sempre temos o letramento necessário para fazê-la. Por outro lado, ao lidar com outros serviços públicos ou privados que impõem diferentes modalidades de IA, não raro sofremos um atendimento ansiogênico, redutor das demandas do cidadão ou consumidor a alternativas enviesadas, por vezes tornando impossível uma efetiva interação. Ademais, a persistente exclusão digital de diversos grupos é demonstrada em inúmeras pesquisas.

Sobre a propaganda, limito-me a abordar quatro de suas muitas dimensões. A primeira é o determinismo que apregoa a inexorabilidade da disseminação da IAGen: estaríamos diante de uma ruptura antropológica maior, de caráter irreversível. Todavia, colegas como Anne Alombert, filósofa e professora da Universidade de Paris 8, questionam a natureza desta ruptura, eis que a IA dá continuidade à externalização de funções humanas. Enquanto por meio dos algoritmos de recomendação externalizamos nossa capacidade de decidir o que ver, o que consumir, quem seguir etc., por meio da IAGen transferimos a sistemas probabilísticos a nossa capacidade de expressão. Modelos se expressam em nosso lugar por meio de categorias que não provêm de nossas trajetórias, sempre únicas, mas sim de cálculos sobre volumes de dados, orientados por critérios opacos e de rastreabilidade limitada ou inexistente. No artigo Curar a estupidez artificial, Alombert aponta os efeitos nefastos da generalização do uso subalterno da IAGen, entre eles a dependência cognitiva dos indivíduos: quanto menos exercemos a capacidade de triar e organizar as informações, a memória, a criatividade ou a busca de sentido, menos estamos treinados para pensar de forma autônoma. Além disso, o espaço simbólico é uniformizado pela “média”, paulatinamente eliminando singularidades, inclusive idiomáticas. Ao “fotocopiar indefinidamente a fotocópia”, favorece a esterilização cultural.

Na mesma direção, a cientista política de origem tunisiana Asma Mhalla, professora da Politécnica de Paris, autora do livro Cyberpunk: o novo sistema totalitário, se diz impressionada não com a suposta ruptura, e sim com o rolo compressor imposto pelas infraestruturas digitais, concentradas em um punhado de atores poderosos. A propalada irreversibilidade está sendo imposta na prática, por meio de imponentes pressões econômicas e políticas. Logo, a questão não é a máquina, e sim quem a governa ou desgoverna. A tecnologia deveria ser usada como um instrumento do bem comum, e não como ferramenta de dominação e exploração. Especialmente no meio universitário, creio que o argumento da suposta inexorabilidade serve para nos desalojar de nossa condição de sujeitos responsáveis, elemento central da ética, e obnubilar nossa capacidade de agir. Ambas precisam ser recuperadas não para que recusemos a tecnologia, e sim para que decidamos conscientemente quando, como e com que finalidade a utilizaremos, sempre avaliando com transparência e rigor os efeitos de seu uso.

Uma segunda dimensão da propaganda é a desqualificação sistemática de quem questiona o uso da IA, apontado como anacrônico, vetusto, reacionário ou tecnofóbico, responsáveis pelo “atraso” de nosso mergulho no admirável mundo novo da IA. A desqualificação contrasta, porém, com a seriedade e a competência de colegas como os do MIT (Massachusetts Institute of Technology) que demonstram a queda de desempenho nos níveis neural, linguístico e comportamental de pessoas que utilizam o ChatGPT em certas condições. Também é o caso dos profissionais que vêm comprovando nosso grau de dependência das infraestruturas tecnológicas externas, como pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB) que criaram um índice de soberania digital. Enquanto China, França, Rússia e Estados Unidos ocupam os primeiros lugares do ranking, grande parte de África, América Latina e Sudeste Asiático depende de um restrito clube de corporações estrangeiras, reproduzindo, sob o manto do “novo”, a velha clivagem Norte/Sul, levando a literatura acadêmica a falar de colonialismo de dados ou digital.

Uma terceira dimensão que atinge particularmente nossas agendas e métodos de pesquisa é a intensa propaganda sobre os benefícios da IAGen, que contribuiria para aumentar e acelerar a produtividade, em especial para lidar com grandes volumes de dados. Essas ferramentas se tornariam imprescindíveis para uma produção científica atualizada e de qualidade, e deveriam ser utilizadas também na avaliação da produção acadêmica. Aqui reconhecemos a disputa permanente pela definição do que é ciência e o legado colonial de importação de padrões de excelência.

Entre os incontáveis riscos da “excelência artificial”, sublinho que, no atual contexto de superficialidade e desatenção coletivas, decorrentes justamente do estágio de automação que alcançamos, é evidente a tolerância a sínteses incorretas ou enviesadas, a mediocridade e o reducionismo de textos, os erros crassos ou sutis de tradução, os mal-entendidos e as imprecisões técnicas. Quando apontados, rapidamente se opera a transferência de responsabilidades do sistema ao indivíduo: perguntas ou prompts é que teriam sido mal formulados; seria preciso “ensinar” ou “treinar” corretamente a IA; a falha seria da revisão etc. Diga-se de passagem, essas ferramentas, na verdade, não aprendem nem conversam, tampouco são inteligentes, razão pela qual Alombert prefere chamá-las de autômatos computacionais interativos, recusando metáforas antropomórficas que servem a naturalizá-las.

Neste ponto, urge recordar que o papel da universidade brasileira não é formar revisores de textos gerados por algoritmos, tampouco reproduzir de forma acrítica interesses de corporações estrangeiras ao facultar-lhes o acesso a lucrativos ou estratégicos acervos de dados arduamente construídos, inclusive com recursos públicos.

A quarta dimensão da propaganda alardeia que a regulação do uso da IAGen seria suficiente para evitar riscos e derivas. Ela enseja também um grande desafio, entre os tantos que o espaço de um artigo não permite abordar. Note-se que diversos defensores da suficiência regulatória são contratados por empresas de tecnologia ou conduzem pesquisas financiadas por elas, mas nem sempre declaram conflitos de interesse. Também é importante registrar que, apesar desta propaganda, na prática, as big techs investem agressivamente contra qualquer regulação, e igualmente contra juízes, tribunais e governos capazes de aplicá-la. Em qualquer caso, trata-se de uma ética a posteriori, ou seja, de princípios propostos após a comercialização massiva de ferramentas, muitos deles sendo violados de forma corriqueira até mesmo por quem os propõe.

Neste cenário, será decisivo o papel das Comissões de Ética em Pesquisa (CEPs), que precisam ter voz ativa nos processos regulatórios, não apenas pela função que desempenham, mas sobretudo pelas décadas de experiência que acumulam. No mês passado, tive a oportunidade de participar de um evento que abordou tais desafios regulatórios, organizado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, que reuniu as CEPs da USP, na atenta presença da Pró-Reitora, professora Maria Helena Palucci Marziale, com curadoria da professora Ana Paula Magalhães, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

No referido evento, compartilhei uma mesa com a pesquisadora Márcia Azevedo Coelho, da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica (Instituto de Estudos Avançados da USP), cujos estudos sobre o uso da IAGen nas escolas eu já admirava. Ela destacou os limites de iniciativas como a Portaria CNPq n. 2.664, de 6 de março de 2026, que apesar de representarem um avanço, não dão conta de problemas éticos importantes como o risco de dependência na formulação de problemas de pesquisa; o condicionamento epistêmico pelas limitações da ferramenta em uso; a análise de dados feita por meio de sistemas opacos, não rastreáveis e de reprodutibilidade incontrolada, podendo comprometer a validade dos achados, entre muitos outros. O depoimento de pesquisadores que usam a IAGen com a devida precaução é também importante, e por certo trará à luz novas dificuldades.

Desculpando-me de antemão pela analogia, o encorajamento acrítico do uso da IAGen no meio universitário faz lembrar a propaganda das Bets, ao pedir que pesquisadores “joguem com responsabilidade” na ausência de regras e controle adequados. As derrotas em cascata que se anunciam vão da dependência cognitiva individual à dependência tecnológica nacional. Mas há também o pêndulo percebido por Marc Bloch, a oscilar entre a credulidade inocente e a desconfiança generalizada. Mesmo letrados, podemos hesitar em nossa percepção do que é real ou artificial. Cresce o risco de perda da confiança na ciência, que induz a cidadania a renunciar ao usufruto de seus resultados. Por tudo isto, nossos desafios devem ser enfrentados com urgência, não apenas por especialistas em IA, mas por todos os pesquisadores, pelo Estado e pela sociedade brasileira.

Fonte: Jornal da USP | Deisy Ventura, professora títular da Faculdade de Saúde Pública da USP

Sobe para 43 o número de cidades com danos durante temporais no RS; Inmet segue com aviso para tempestades

0
Sobe para 43 o número de cidades com danos durante temporais no RS; Inmet segue com aviso para tempestades
Foto: Defesa Civil de Alegrete/ Divulgação

Segundo a Defesa Civil, 19 pessoas estão desalojadas em 6 municípios. O estado ainda está sob alerta de perigo do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para tempestades até o fim da terça-feira (21). Há chance de chuvas volumosas e ventos intensos.

O número de municípios do Rio Grande do Sul com danos causados pelos temporais do fim de semana subiu para 43 nesta segunda-feira (20). Entre os novos registros contabilizados pela Defesa Civil estão o alagamento de um hospital em Santa Maria, na Região Central, e dezenas de casas destelhadas no interior do estado.

De acordo com o órgão, 19 pessoas estão desalojadas em Alegrete (5), Santa Maria (4), Dona Francisca (3), São Borja (3), Cerro Branco (2) e Vale do Sol (2). Em 24 horas, o acumulado de chuva chegou a 124 mm em São Sepé, na Região Central do estado.

O estado ainda está sob alerta de perigo do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para tempestades até o fim da terça-feira (21). Há chance de chuvas volumosas, de até 100 mm/dia e ventos intensos de 60 até 100 km/h.

Em Santa Maria, a Defesa Civil confirmou o alagamento do Hospital São Francisco no fim da tarde de domingo (19). A cidade também reportou danos nos telhados de duas escolas e de mais 10 residências em diversos bairros, somando-se aos estragos já registrados anteriormente.

Os ventos fortes causaram prejuízos expressivos em outras regiões. Em Vera Cruz, 20 casas foram destelhadas durante a madrugada, além de quedas de árvores e interrupção no fornecimento de energia elétrica. Em Uruguaiana, o número de residências danificadas subiu para 12, afetando cerca de 48 pessoas. A queda de dois postes deixou mil moradores sem luz no município.

Prédios públicos também foram atingidos pela força do vento. Em Arroio Grande, a prefeitura e 16 casas sofreram danos nos telhados. Em Venâncio Aires, uma unidade de saúde foi parcialmente destelhada. Em Taquara, o ginásio de uma escola municipal sofreu avarias na cobertura.

O temporal também provocou ocorrências atípicas envolvendo a rede elétrica. Em Itaara, o vendaval fez com que fios de alta tensão encostassem na vegetação às margens da BR-158, provocando um incêndio na madrugada de domingo. O fogo foi controlado pelo Corpo de Bombeiros. Já em Barra do Quaraí, a queda de um cabo de alta tensão deixou a cidade inteira temporariamente sem luz, água e internet.

Fonte: G1

Participação privada no saneamento alcança metade dos municípios do país

0
Arsesp abre consulta pública sobre monitoramento da universalização dos serviços de saneamento
Foto: Max Alencar/Ascom Cosanpa/Divulgação

Seis anos após a aprovação do marco legal, setor privado atua em 2.720 cidades e responde por um terço dos investimentos em água e esgoto

Seis anos após a aprovação do Marco Legal do Saneamento, a participação da iniciativa privada na prestação dos serviços de água e esgoto alcançou 2.720 municípios brasileiros, o equivalente a 48,8% das cidades do país. Os dados são de um levantamento da Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento).

Segundo a entidade, a ampliação da participação privada foi acompanhada pelo aumento dos investimentos no setor. Em 2024, empresas privadas aplicaram R$ 9,4 bilhões em abastecimento de água e esgotamento sanitário, o equivalente a 32,4% dos R$ 29,1 bilhões investidos no segmento. Entre 2020 e 2024, a participação da iniciativa privada nos investimentos mais que dobrou.

Desde a entrada em vigor do novo marco regulatório, foram realizados 70 leilões de concessões e parcerias público-privadas, que somam mais de R$ 227 bilhões em investimentos contratados.

Na avaliação da diretora-presidente da ABCON, Christianne Dias, o ambiente regulatório criado pelo marco legal ampliou a segurança jurídica e impulsionou novos contratos. Segundo ela, além de aumentar a capacidade de investimento, as concessões têm incorporado ganhos de eficiência operacional, inovação tecnológica e sustentabilidade na prestação dos serviços.

A associação projeta que o movimento deve continuar nos próximos anos. Atualmente, outros 31 projetos de concessões e PPPs estão em estruturação, com previsão de R$ 32 bilhões em novos investimentos. As iniciativas abrangem 636 municípios e podem beneficiar cerca de 11,9 milhões de brasileiros, contribuindo para o cumprimento da meta de universalização dos serviços de água e esgoto até 2033.

Investimentos insuficientes

Os investimentos em saneamento básico no Brasil cresceram 51% desde a aprovação do Marco Legal do Saneamento, em 2020, de acordo com levantamento do Instituto Trata Brasil.

Em 2024, último ano com dados consolidados, os aportes no setor somaram R$ 29,1 bilhões.

Apesar do avanço, o volume de recursos ainda está abaixo do necessário para que o país cumpra a meta de universalização dos serviços de água e esgoto até 2033. O ritmo de investimentos ainda é insuficiente, principalmente para ampliar a coleta e o tratamento de esgoto.

Fonte: CNN Brasil 

WhatsApp com nome de usuário: mais privacidade, novos riscos e a necessidade de fortalecer a cultura da segurança digital

0
WhatsApp com nome de usuário: mais privacidade, novos riscos e a necessidade de fortalecer a cultura da segurança digital
Foto: natanaelginting

Como a proteção do número de telefone amplia a privacidade, mas exige novas estratégias de prevenção contra fraudes e engenharia social.

A transformação digital modificou profundamente a forma como nos comunicamos, trabalhamos e nos relacionamos. Hoje, aplicativos de mensagens instantâneas deixaram de ser apenas ferramentas de conversa para se tornarem plataformas utilizadas para negócios, serviços públicos, atendimento ao cidadão, educação, comércio eletrônico e até procedimentos administrativos. Nesse cenário, qualquer alteração realizada por essas plataformas possui impacto direto na segurança da informação e na proteção dos usuários.

A mais recente mudança anunciada pelo WhatsApp é a implementação dos nomes de usuário (@username), funcionalidade semelhante à existente em redes sociais como Instagram, Telegram e X (antigo Twitter). A novidade permitirá que usuários iniciem conversas sem a necessidade de divulgar o número de telefone, representando um avanço significativo em termos de privacidade.

Sob a ótica da segurança digital, entretanto, toda inovação tecnológica produz um efeito conhecido entre especialistas em cibersegurança: enquanto aumenta a proteção em determinado aspecto, cria novas superfícies de ataque que rapidamente passam a ser exploradas por criminosos. Mais do que aprender uma nova funcionalidade do aplicativo, será necessário desenvolver uma nova cultura de prevenção.

Diversas legislações internacionais e nacionais caminham no sentido da minimização da exposição de dados pessoais. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018 – LGPD) estabelece que somente os dados estritamente necessários devem ser compartilhados para determinada finalidade.

Sob essa perspectiva, deixar de divulgar o número de telefone representa um ganho importante. Até então, qualquer pessoa que desejasse iniciar uma conversa precisava conhecer o número telefônico do destinatário. Agora, será possível utilizar apenas um identificador público (@).

Na prática, isso reduz a circulação de um dado pessoal sensível para diversas situações cotidianas, como:

  • contatos comerciais;
  • atendimento ao cliente;
  • prestação de serviços;
  • grupos de estudo;
  • networking profissional;
  • eventos;
  • comunicação institucional.

Para profissionais da segurança pública, gestores municipais e organizações, essa mudança pode reduzir significativamente a exposição indevida de servidores públicos e agentes que precisam manter contato com a população. No entanto, a privacidade obtida pelo ocultamento do telefone não elimina os riscos relacionados à identidade digital.

Os golpes digitais evoluem continuamente, se antes a fraude dependia da clonagem de um número telefônico ou da criação de um perfil falso utilizando fotografia da vítima, agora os criminosos passam a explorar outro elemento: o próprio nome de usuário. A técnica mais conhecida internacionalmente chama-se Typosquatting, utilizada há anos na internet para registrar domínios ou perfis extremamente semelhantes aos verdadeiros. Basta uma pequena alteração para induzir a vítima ao erro.

Alguns exemplos comuns incluem:

  • substituir a letra “l” pelo número “1”;
  • trocar a letra “O” pelo número “0”;
  • adicionar pontos ou sublinhados;
  • acrescentar palavras como “oficial”, “suporte”, “financeiro” ou “atendimento”;
  • inverter letras.

Visualmente, a diferença é quase imperceptível e é justamente essa dificuldade de percepção que torna esse tipo de fraude extremamente eficiente.

Imagine um cidadão procurando o perfil oficial de uma prefeitura, de um banco, de uma empresa ou até mesmo de um familiar. Ao localizar um nome aparentemente correto, inicia a conversa acreditando estar diante da conta verdadeira. Em poucos minutos, poderá fornecer informações pessoais, realizar transferências bancárias ou compartilhar documentos sigilosos. Não estamos diante de uma hipótese teórica. Esse mesmo modelo de golpe já ocorre há anos em redes sociais, plataformas de comércio eletrônico e serviços financeiros. A novidade é que agora essa modalidade chega ao principal aplicativo de comunicação utilizado pelos brasileiros.

Segundo diversos relatórios internacionais de cibersegurança, a maior parte dos incidentes não ocorre por falhas tecnológicas, mas por falhas humanas. Esse fenômeno é conhecido como Engenharia Social. Os criminosos não precisam invadir sistemas sofisticados quando conseguem convencer a própria vítima a entregar voluntariamente informações confidenciais. Ou seja, nome de usuário representa apenas uma nova ferramenta dentro de uma estratégia já consolidada.

A sequência costuma seguir um padrão:

  1. criação de um perfil semelhante ao verdadeiro;
  2. utilização de fotografia copiada;
  3. abordagem convincente;
  4. geração de senso de urgência;
  5. solicitação de dinheiro, códigos ou informações pessoais.

É importante compreender que nenhum identificador público — seja telefone, e-mail ou nome de usuário — comprova, por si só, a identidade de uma pessoa. A validação deve ocorrer por outros meios.

Consciente desse novo cenário, o WhatsApp também passou a disponibilizar um mecanismo adicional de segurança. Trata-se de uma funcionalidade que permite restringir quem pode iniciar uma conversa utilizando apenas o nome de usuário. Ao configurar essa opção, o usuário poderá exigir um código exclusivo de quatro dígitos para que pessoas desconhecidas iniciem contato.

É importante destacar que esse código não substitui a verificação em duas etapas já existente no aplicativo, são mecanismos diferentes, com finalidades distintas. Enquanto a autenticação em duas etapas protege o acesso à conta, o novo código atua como uma barreira para impedir abordagens indesejadas por meio do nome de usuário.

Ele funciona como uma segunda camada de autenticação para novos contatos e o benefício é imediato.

Campanhas automatizadas de golpes, envio massivo de links maliciosos e abordagens aleatórias tornam-se muito mais difíceis. 

Naturalmente, esse código deve ser compartilhado apenas com pessoas de confiança. Quanto menor sua divulgação, maior será sua eficácia como mecanismo de proteção.

Ferramentas de segurança são importantes, entretanto, tecnologia sozinha nunca foi suficiente. A verdadeira proteção depende do comportamento do usuário.

Algumas recomendações tornam-se especialmente relevantes com a chegada dos nomes de usuário:

  • reservar seu nome de usuário assim que a funcionalidade estiver disponível;
  • evitar utilizar exatamente o mesmo identificador empregado em todas as redes sociais, quando o objetivo for preservar a privacidade;
  • não incluir profissão, cargo público, empresa, data de nascimento ou outras informações pessoais no @;
  • restringir a visualização da foto de perfil, status e informações pessoais apenas aos contatos;
  • manter ativada a confirmação em duas etapas;
  • utilizar senhas fortes no e-mail vinculado à conta;
  • nunca confiar exclusivamente no nome de usuário para confirmar a identidade de alguém;
  • confirmar solicitações financeiras por outro canal de comunicação.

São medidas simples, mas extremamente eficazes para reduzir o risco de fraudes. A implementação dessa funcionalidade também traz desafios para órgãos públicos, empresas e instituições. Perfis institucionais passam a necessitar de uma estratégia clara de identidade digital. Será fundamental orientar servidores, divulgar oficialmente os canais de atendimento e alertar a população sobre possíveis perfis falsos. Campanhas permanentes de educação digital tornam-se tão importantes quanto investimentos em infraestrutura tecnológica.

Na área da segurança pública, observa-se uma mudança importante no perfil dos delitos, cada vez mais crimes patrimoniais migram do ambiente físico para o ambiente digital. Os golpes virtuais já movimentam bilhões de reais todos os anos e atingem pessoas de todas as faixas etárias.

Prevenir significa informar. Educação digital deve ser entendida como política pública de segurança.

O lançamento dos nomes de usuário representa uma evolução importante para o WhatsApp. A possibilidade de proteger o número telefônico atende às melhores práticas internacionais de privacidade e está alinhada aos princípios da LGPD. Mas também inaugura uma nova etapa na prevenção de golpes digitais. 

A tecnologia continuará evoluindo, novos recursos surgirão constantemente, os criminosos também continuarão adaptando suas estratégias e a principal ferramenta de defesa permanece sendo o conhecimento.

Mais do que instalar aplicativos ou ativar configurações de segurança, precisamos desenvolver uma cultura permanente de conscientização digital. No ambiente conectado em que vivemos, proteger a identidade digital deixou de ser uma responsabilidade exclusiva dos especialistas em tecnologia. Tornou-se uma responsabilidade compartilhada entre cidadãos, empresas e poder público. Em segurança da informação existe um princípio que permanece atual independentemente da tecnologia utilizada: a melhor defesa continua sendo a prevenção.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade da autora, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

Um ano após restrição aos celulares nas escolas, desafio é educar para a convivência ética no ambiente digital, afirma especialista da Unesp

0
Um ano após restrição aos celulares nas escolas, desafio é educar para a convivência ética no ambiente digital, afirma especialista da Unesp
Foto: Sam Balye/Unsplash

Pesquisa do Ministério da Educação apontou melhoria na concentração e na participação dos alunos do ensino básico. Para Luciene Tognetta, a legislação, sozinha, não prepara os estudantes para o uso responsável das tecnologias e as escolas podem estar perdendo uma oportunidade de exercer sua função educadora.

Em janeiro do ano passado, entrou em vigor em todo o país a Lei 15.100/2025, que restringe o uso de celulares em escolas públicas e privadas da educação básica, inclusive durante o intervalo das aulas e no recreio. O objetivo da iniciativa foi diminuir os efeitos negativos do uso constante do dispositivo para o aprendizado e proteger a saúde mental, física e psíquica das crianças e adolescentes. De acordo com o texto sancionado pela Presidência da República, o uso do celular fica permitido em situações que envolvam a garantia da acessibilidade, da inclusão e para atender a condições específicas de saúde dos alunos.

Juntamente com a sanção da lei, o Ministério da Educação (MEC) disponibilizou cartilhas e um site para orientar as escolas e as famílias dos estudantes sobre o uso consciente do celular e para auxiliar na aplicação das regras e suas exceções.

Na última semana, o governo federal divulgou uma pesquisa realizada entre mais de oito mil gestores escolares para entender, após um ano da sanção da lei, como a legislação está sendo aplicada nos estabelecimentos de ensino. Os resultados apontaram que 92% das escolas afirmam já ter adotado medidas para proibição do celular para fins não pedagógicos. O levantamento também mostra que 39% dos gestores afirmam ter encontrado uma alta resistência dos estudantes na adoção das regras, além de outros 39% reclamarem que não dispõem de infraestrutura em sua instituição para guardar os aparelhos.

O levantamento, produzido pelo MEC em parceria com o Inep e o Instituto Alana, com cooperação da UNESCO, também apontou que, sob os efeitos da restrição, 97% dos gestores observaram a ampliação da participação dos estudantes nas atividades pedagógicas e 95% relataram um aumento na concentração por parte dos alunos. Além disso, 88% associam a medida a redução de conflitos, agressões digitais e cyberbullying. Os entrevistados mencionam também a redução da ansiedade entre os alunos (86%) e aumento de atividades manuais, lúdicas e artísticas (67%).

Na visão de Luciene Tognetta, professora do Departamento de Psicologia da Educação da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Unesp, no câmpus de Araraquara, a legislação representou uma medida importante para a saúde emocional e social das crianças e adolescentes brasileiras e que, pelos resultados da pesquisa, houve uma ampla adesão das escolas. Na perspectiva da psicóloga, trata-se de uma geração que, em grande parte, cresceu mais desconectada das experiências de convivência que gerações anteriores. Em razão desse contexto, tornou-se necessário um regulador externo que estimulasse outras formas de estar com os outros que não fosse mediada por alguma tecnologia. “Nesse contexto, regulamentar o uso do celular não significou negar a tecnologia, mas devolver às crianças e adolescentes experiências fundamentais ao seu desenvolvimento”, afirmou.

Especialista em Psicologia Escolar e autora de diversos livros sobre educação e psicologia moral, convivência escolar, ética e bullying, Tognetta também aponta algumas limitações em relação à lei e chama a atenção para conclusões equivocadas sobre seus efeitos para as crianças e adolescentes. Um desses equívocos, aponta ela, diz respeito à percepção de que a retirada do celular da sala de aula produziu um benefício em relação a vida digital ou a cyberconvivência dos alunos. “A lei produziu, sobretudo e infelizmente, a diminuição das oportunidades para que os conflitos iniciados no ambiente virtual irrompessem durante o período escolar. Isso está longe de significar que os conflitos deixaram de existir. Eles apenas deixaram de ocorrer fora do campo da escola. Só isso”, aponta.

Apesar de um certo alívio sentido pelos educadores no ambiente escolar, os conflitos que nascem nas plataformas e redes sociais continuam existindo, e a simples retirada do celular não ajuda a educar o aluno para o seu uso. A Lei 15.100/2025 menciona a necessidade de as escolas oferecerem treinamento para a detecção, a prevenção e a abordagem de sinais de sofrimento psíquico, bem como espaços de escuta e acolhimento aos alunos.

Na visão da docente da Unesp, entretanto, esse é um ponto que ainda não tem sido alcançado pela legislação. “Ao retirar o celular do cotidiano da escola, muitas instituições estão perdendo a oportunidade de discutir de forma intencional e sistemática o modo como as crianças e adolescentes vivem suas relações do mundo digital”, destaca Tognetta. “Ao invés de transformar a tecnologia em objeto de reflexão ética e de aprendizagem, optou-se frequentemente pelo silêncio”.

Tognetta afirma que a vida digital não é um espaço paralelo, mas uma dimensão inseparável da experiência emocional e social de muitos adolescentes de hoje. “Um menino e uma menina adolescente também são aquilo que eles são e como se apresentam no mundo virtual”, aponta. A psicóloga lembra que diversas pesquisas mostram que as crianças e adolescentes ainda encontram muitas dificuldades para conviver de forma ética na internet, citando como exemplo o crescimento nos casos de jovens que colocam a vida em risco em desafios virais, o compartilhamento de imagens de colegas sem consentimento e o envolvimento em comunidades virtuais que disseminam discursos de ódio.

“Todas essas situações revelam um universo complexo que infelizmente é invisível aos olhos de muitos adultos, mas é profundamente presente na vida dos adolescentes e até mesmo de crianças. Ignorar essa realidade não a faz desaparecer. Pelo contrário, quando a escola deixa de abrir espaços seguros para conversar, problematizar e compreender as experiências digitais dos adolescentes, o que acontece é que nós perdemos uma grande oportunidade de exercer a nossa função educadora”, alerta.

Fonte: Jornal da Unesp | Renato Coelho