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Ônibus elétricos: como cidades brasileiras podem pular etapas rumo à mobilidade de baixo carbono

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Ônibus elétricos: como cidades brasileiras podem pular etapas rumo à mobilidade de baixo carbono
Imagem construida por IA

Sistemas de transporte menos consolidados podem acelerar a eletrificação: como uma PPP no Nordeste revela como planejamento, infraestrutura e engenharia contratual transformam o leapfrogging tecnológico em realidade 

Existe uma ideia recorrente em estudos internacionais sobre eletrificação de frotas: o sucesso de uma cidade em trocar o diesel pela eletricidade depende menos do orçamento disponível e mais do quanto seu sistema de transporte já está “travado” em um jeito antigo de funcionar. Cidades com regimes de mobilidade mais consolidados, com décadas de contratos, garagens e cultura construídas em torno do motor a combustão, tendem a mudar mais devagar. Já territórios onde esse sistema ainda está em formação encontram uma janela rara: podem pular etapas inteiras e adotar direto a tecnologia mais avançada.

O estudo Ônibus elétricos no transporte público municipal: geografia das transições sustentáveis para uma mobilidade de baixo carbono, comparou 46 municípios ao redor do mundo a partir de 80 atributos de seus sistemas de transporte e mostrou que esse perfil territorial explica boa parte da diferença nos graus de eletrificação observados. Shenzhen, na China, chegou a 100% da frota elétrica. Cidades latino-americanas como Santiago e Bogotá avançam em ritmo mais acelerado do que muita gente esperaria, justamente por não carregarem o peso de uma infraestrutura de diesel centenária e politicamente blindada. O que era, à primeira vista, uma desvantagem de desenvolvimento vira, na prática, um atalho.

Leia mais: Free flow: CNH do Brasil passa a exibir passagens e como pagar o pedágio eletrônico 

É esse fenômeno que torna a primeira frota municipal de ônibus elétricos do Nordeste, reconhecida neste ano com menção honrosa no Prêmio P3C, um caso que merece atenção. Não é só mais um contrato de PPP assinado. É a demonstração de que o chamado leapfrogging tecnológico não é privilégio de metrópole asiática ou de capital europeia rica: pode acontecer em uma cidade média brasileira, desde que o projeto seja estruturado com a mesma seriedade técnica que qualquer PPP de grande porte exige.

O motor é o menor dos problemas

Um erro comum é tratar a eletrificação como se fosse simplesmente uma troca de veículo, como comprar um ônibus mais moderno. Na prática, ela exige o desenho de um sistema inteiro: rede de eletropostos compatível com a carga que os veículos vão demandar, modelo de financiamento que trate baterias como ativo de longo prazo (e não como despesa a ser amortizada no primeiro ano), e um contrato que reparta de forma clara o risco entre poder público e concessionária ao longo de décadas, não de uma gestão.

Leia mais: Descarbonização do Nordeste ganha força com avanço das PPPs e estará no centro dos debates do P3C Nordeste

É exatamente nesse ponto que a estrutura de PPP mostra sua força. Um projeto-piloto isolado, por mais bem-intencionado que seja, tende a esbarrar na falta de continuidade. Já um contrato de parceria público-privada bem desenhado cria as condições para que a tecnologia deixe de ser experimento e passe a operar como padrão: fornecedor com previsibilidade de receita para investir na frota e na infraestrutura de recarga, e prefeitura com um serviço garantido sem precisar concentrar todo o investimento em caixa público de uma vez.

Os números que sustentam a redução de emissões, entre 35% e 100% de CO2 por escapamento e até 100% de material particulado, a depender da matriz energética usada para gerar a eletricidade, já são conhecidos e não deixam dúvida sobre o benefício ambiental. O que ainda precisa ser mais contado é a engenharia contratual por trás de fazer esse benefício sair do papel e rodar de verdade nas ruas.

Leia mais: Aporte de recursos públicos caracteriza necessariamente uma PPP?

O que esse caso ensina para outros municípios brasileiros, sobretudo os que estão fora do eixo Sul-Sudeste, é que não existe um único caminho de eletrificação a ser copiado de cidades europeias ou asiáticas. Existe, sim, um método replicável: diagnosticar o perfil da própria cidade, tratar a infraestrutura de recarga como prioridade tão urgente quanto a compra dos veículos, e recorrer a modelos contratuais que já foram testados e reconhecidos pelo mercado.

É esse tipo de conhecimento acumulado, sobre o que funciona, quais cláusulas contratuais dão certo, como estruturar o financiamento de um ativo que dura vinte ou trinta anos, que o ecossistema do P3C ajuda a sistematizar e colocar à disposição de prefeituras que ainda não têm essa experiência internamente. Projetos como o da frota elétrica do Nordeste não nascem prontos: nascem de uma rede de conhecimento técnico que vem sendo construída contrato após contrato, e que hoje já é possível acessar, replicar e melhorar.

Para saber mais sobre o P3C, clique aqui.

Papa pede que IA e inovação tecnológica sejam usadas como ‘instrumentos de paz’

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Papa pede que IA e inovação tecnológica sejam usadas como 'instrumentos de paz
Foto: ANSA / Ansa - Brasil

Leão XIV fez apelo em mensagem enviada a simpósio internacional

O papa Leão XIV fez um apelo nesta segunda-feira (21) para que o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) seja guiado pela sabedoria e pela caridade, de modo que a inovação tecnológica se transforme em um verdadeiro instrumento de paz.

O apelo foi feito em uma mensagem destinada aos participantes da primeira edição do simpósio internacional “AI4Peace”, que acontece na Universidade Pontifícia Lateranense, em Roma, até a próxima terça-feira (22).

“Em um mundo marcado por conflitos e divisões, o desenvolvimento da inteligência artificial exige uma visão inspirada pela sabedoria e pela caridade, para que o progresso tecnológico possa servir à dignidade de cada pessoa e fortalecer os laços que unem a família humana”, escreveu o pontífice.

Robert Prevost citou sua encíclica “Magnifica Humanitas”, quando afirmou que “o desígnio de misericórdia de Deus continua a se manifestar na história também hoje e torna-se uma bússola na era digital para vivermos nossa vida segundo o Evangelho”.

Desta forma, incentivou os especialistas a refletirem sobre como a “IA, guiada por uma preocupação genuína com o bem-estar do próximo, pode promover o diálogo, a reconciliação e a solidariedade entre os povos, ajudando a transformar os frutos da inovação tecnológica em instrumentos de paz”.

Durante o encontro, o reitor da Universidade para a Paz da ONU, Francisco Rojas Aravena, advertiu que a IA pode oferecer ferramentas extraordinárias para a resolução de conflitos, mas tem também o potencial de “amplificar desigualdades, tensões e novas formas de conflito”.

Portanto, o desafio do AI4Peace é “criar um diálogo internacional que nos permita compreender essas transformações e promovê-las de maneira coerente com os princípios da paz, dos direitos humanos e da dignidade da pessoa”, concluiu.

O simpósio, promovido pela Universidade para a paz da ONU e pela representação da instituição acadêmica na Itália, juntamente com a Pontifícia Academia para a Vida e a Pontifícia Universidade Lateranense, tem como objetivo favorecer o diálogo entre pesquisa científica, instituições, diplomacia, economia, filosofia, mundo acadêmico e dimensão religiosa.

Fonte: Terra

Plataformas vão informar canais de denúncia de violência contra mulher

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Ofício de três secretarias busca aprimorar orientação do Ligue 180

As plataformas digitais terão prazo sugerido de 15 dias para informar ao governo federal como funcionam seus canais e mecanismos de denúncia de violência contra mulheres no ambiente digital.

O pedido foi encaminhado em ofício conjunto pelas Secretarias de Políticas Digitais da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, de Direitos Digitais do Ministério da Justiça e de Enfrentamento à Violência contra Mulheres do Ministério das Mulheres.

A iniciativa tem como objetivo reunir informações que permitam qualificar o atendimento prestado pelo Ligue 180, especialmente na orientação a mulheres vítimas de violência praticada ou disseminada pela internet.

Canais de denúncia

O documento pede às empresas detalhes sobre os fluxos adotados para receber notificações relacionadas à divulgação não autorizada de conteúdo íntimo, conforme previsto no artigo 21 do Marco Civil da Internet e nas diretrizes estabelecidas pelo Decreto 12.976/2026.

Entre as informações pedidas estão:

  • Prazos para análise das denúncias;
  • Confirmação de recebimento das notificações;
  • Possibilidade de acompanhamento das solicitações;
  • Os mecanismos para evitar o reenvio de conteúdos removidos.

O governo também quer saber se esses procedimentos são aplicados a conteúdos manipulados ou produzidos com uso de inteligência artificial.

Outras violências

O ofício questiona ainda a existência de canais específicos para denúncias de outras formas de violência digital contra mulheres, incluindo assédio e violência política de gênero.

As plataformas também deverão indicar um ponto focal das empresas no Brasil para facilitar a interlocução com o poder público sobre o tema.

Proteção digital

Segundo o governo, a coleta das informações faz parte dos esforços para estruturar políticas de proteção de direitos no ambiente digital e fortalecer a rede de acolhimento e orientação às mulheres em situação de violência.

Os dados fornecidos pelas plataformas serão utilizados para aprimorar as informações repassadas pelo Ligue 180. A intenção é ampliar a capacidade do serviço de orientar vítimas sobre os canais disponíveis em cada plataforma e os procedimentos necessários para solicitar providências.

O pedido foi formulado em caráter cooperativo, no âmbito das competências dos órgãos envolvidos, e considera as novas obrigações relacionadas à proteção de mulheres no ambiente digital previstas no Decreto 12.976/2026.

Plataformas vão informar canais de denúncia de violência contra mulher
Fonte: Arte/Agência Brasil

Fonte: Agência Brasil

União Europeia planeja proibir redes sociais e IA para menores de 15 anos

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União Europeia planeja proibir redes sociais e IA para menores de 15 anos
Foto: Freepik

Líderes do bloco devem apresentar medidas esta semana; proposta também deve abranger jogos online

A União Europeia vai propor uma proibição que restringe o acesso de menores de 15 anos a redes sociais, plataformas de compartilhamento de vídeos, chatbots de inteligência artificial e jogos on-line, no plano mais abrangente até agora para proteger crianças dos perigos da internet, segundo um documento da Comissão Europeia obtido pela Reuters.

A preocupação aumentou globalmente com o impacto na saúde e na segurança das crianças de grandes plataformas, incluindo Facebook e Instagram, da Meta, TikTok, YouTube, do Google, e ChatGPT.

A proposta da UE faz parte de uma Lei Europeia sobre Crianças na Internet, que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e a chefe de tecnologia da UE, Henna Virkkunen, apresentarão na quinta-feira.

A primeira poderá anunciar alguns detalhes em seu discurso sobre o Estado da União, na quarta-feira, sobre as próximas políticas da UE.

“A abordagem da União deve permitir que os menores se beneficiem do enorme potencial dos serviços digitais, ao mesmo tempo em que os protege contra abusos e exploração. É preciso limitar o acesso das empresas de tecnologia às nossas crianças, e não o contrário”, diz o documento.

A proposta da Comissão, que também abrangerá plataformas de jogos eletrônicos, permite acesso gradual aos diferentes serviços de acordo com a idade. As obrigações impostas às empresas dependerão do tipo de serviço e da idade das crianças.

A Comissão se recusou a comentar.

Empresas teriam que pagar taxa de supervisão

Segundo o documento, as empresas terão de pagar uma taxa de supervisão para financiar a fiscalização e o monitoramento por parte dos órgãos reguladores.

A partir dos 15 anos, as crianças poderão criar suas próprias contas, segundo a proposta. Já aquelas entre 13 e 14 anos poderão pedir aos pais que criem contas introdutórias para redes sociais e plataformas de compartilhamento de vídeos, sob controle parental, com contatos limitados e limites rígidos de tempo.

As contas de crianças entre 3 e 12 anos serão totalmente controladas pelos pais e servirão apenas para serviços adequados ao público infantil, com padrões rígidos de segurança, segundo o documento. Menores de 3 anos não terão acesso aos serviços.

Os detalhes ainda podem mudar antes do anúncio.

A Comissão precisará discutir a proposta com os países da UE e o Parlamento Europeu nos próximos meses antes que ela possa se tornar lei.

A proposta obtida pela Reuters estabelece requisitos para as empresas, incluindo evitar designs que promovam dependência e feeds prejudiciais.

As empresas também terão de oferecer ferramentas que permitam às crianças denunciar facilmente conteúdos nocivos e ferramentas eficazes de controle parental.

As redes sociais e plataformas de compartilhamento de vídeos serão obrigadas a verificar a idade das crianças quando um usuário criar uma nova conta, enquanto as plataformas de jogos on-line terão de verificar a idade dos usuários antes que eles possam baixar jogos.

As empresas afirmam que adotam medidas de precaução, e muitas estabelecem uma idade mínima de pelo menos 13 anos para o cadastro em plataformas de redes sociais.

Fonte: CNN Brasil

Brasil deve dobrar investimentos para zerar déficit em infraestrutura

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Brasil deve dobrar investimentos para zerar déficit em infraestrutura
Foto: Nova Rota do Oeste

O Brasil precisa mais que dobrar os investimentos em infraestrutura para reduzir o déficit histórico do setor e se aproximar dos padrões internacionais.

É o que aponta o estudo Financiamento dos Investimentos em Infraestrutura no Brasil, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que propõe um novo regime de financiamento para ampliar a participação do capital privado e sustentar projetos de longo prazo.

Em 2024, foram investidos R$ 266,8 bilhões em infraestrutura, equivalentes a 2,27% do PIB. Segundo a CNI, o país precisaria elevar esse patamar para 4,65% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de R$ 550 bilhões por ano, e mantê-lo por pelo menos duas décadas.

Do total investido em 2024:

  • R$ 188,1 bilhões (70,5%) vieram do setor privado;
  • R$ 78,6 bilhões foram investimentos públicos;
  • Estados e municípios responderam pela maior parte dos aportes públicos.

Novo modelo

Para a CNI, nenhuma fonte de recursos, isoladamente, é capaz de atender às necessidades do país. O novo regime deveria combinar recursos públicos e privados, ampliar o mercado de capitais e criar condições para investimentos de longo prazo.

Em nota, o presidente da CNI, Ricardo Alban, defende estabilidade econômica e institucional para atrair capital.

“O Brasil precisa de responsabilidade fiscal, instituições sólidas e segurança jurídica para criar condições de mobilizar mais recursos privados para o setor de infraestrutura, sem abrir mão do papel estratégico dos investimentos públicos”, ressalta.

Alban também defende uma estratégia de Estado para garantir continuidade aos projetos. Segundo ele, a modernização da infraestrutura demanda esforço contínuo, sistemático e de longo prazo, com uma política de Estado, conduzida por diversos governos.

Fontes privadas

O estudo mostra uma mudança na composição do financiamento da infraestrutura de 2010 a 2024. Em valores atualizados para 2024, as fontes privadas passaram de uma média de R$ 88,6 bilhões no período de 2010 a 2014 para R$ 184,5 bilhões em 2024.

No mesmo intervalo, os recursos públicos recuaram de R$ 208,5 bilhões para R$ 107 bilhões. As instituições multilaterais responderam por R$ 8,4 bilhões em 2024.

Na última década, houve uma mudança estrutural no financiamento da infraestrutura brasileira. A participação das fontes privadas passou de 29,3%, entre 2010 e 2014, para 61,5% em 2024.

Medidas propostas

A CNI aponta que o novo regime deve incluir:

  • estabilidade macroeconômica e fiscal, para reduzir riscos e o custo do capital;
  • fortalecimento do mercado de capitais, com mais investidores institucionais;
  • expansão do crédito privado, com modelos que distribuam riscos de forma mais eficiente;
  • carteira maior de projetos estruturados para concessões e parcerias;
  • segurança jurídica e previsibilidade regulatória; e
  • autonomia técnica das agências reguladoras.

O estudo também destaca o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de outras instituições públicas de desenvolvimento na redução de riscos, estruturação de projetos e mobilização de capital privado.

Lições externas

A análise reúne experiências de Reino Unido, Chile, Austrália, México, Espanha, Índia e França. Apesar das diferenças entre os modelos, a CNI identifica fatores comuns nos países que conseguiram ampliar a capacidade de financiamento da infraestrutura: estabilidade econômica, instituições confiáveis, previsibilidade regulatória, mercado de capitais desenvolvido e instrumentos de longo prazo.

Segundo a CNI, os recursos públicos devem atuar de forma estratégica para atrair investimentos privados. Pela sugestão da entidade, o investimento público continuará sendo fundamental, mas o país precisa avançar para um modelo em que esses recursos tenham maior capacidade de mobilizar capital privado.

Fonte: Agência Brasil

‘50 Debates para o Brasil’: nova lei do licenciamento reduz burocracia ou aumenta riscos ambientais?

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‘50 Debates para o Brasil’: nova lei do licenciamento reduz burocracia ou aumenta riscos ambientais?
Foto: Bruno Kelly/Amazonia Real

George Humbert, advogado, professor, pós-doutor, doutor e mestre em Direito, afirma que a norma moderniza os procedimentos e permite concentrar a fiscalização nas atividades de maior impacto; Carlos Nobre, professor titular da Cátedra Clima e Sustentabilidade da USP e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, alerta para o risco de aumento da degradação em biomas próximos de pontos de não retorno

O Jornal da CBN apresentou nesta terça-feira (15) o 41º episódio do “50 Debates para o Brasil”, série que discute temas relevantes para o futuro do país e para as eleições de outubro. A proposta é reunir especialistas com posições diferentes e oferecer argumentos para que os ouvintes formem a própria opinião.

Nesta edição, o programa debateu a Lei Geral do Licenciamento Ambiental. A nova legislação busca padronizar procedimentos, reduzir a burocracia e acelerar a autorização de obras e atividades econômicas. Os críticos argumentam que as simplificações podem enfraquecer a fiscalização e ampliar os riscos de danos ao meio ambiente.

A Lei nº 15.190, sancionada em agosto de 2025, estabeleceu normas gerais para os licenciamentos conduzidos pela União, pelos estados e pelos municípios. Entre as modalidades previstas estão procedimentos simplificados e a Licença Ambiental por Adesão e Compromisso, baseada na declaração do empreendedor e sujeita a análises e vistorias por amostragem. Em novembro de 2025, o Congresso derrubou 52 itens dos vetos presidenciais e restabeleceu trechos relacionados a dispensas e simplificações.

Mediado pelos âncoras Mílton Jung e Cássia Godoy, o debate reuniu George Humbert, advogado, professor, pós-doutor, doutor e mestre em Direito, e Carlos Nobre, professor titular da Cátedra Clima e Sustentabilidade da Universidade de São Paulo (USP) e copresidente do Painel Científico para a Amazônia.

Favorável à legislação, George Humbert afirmou que o país precisava de uma lei nacional para modernizar e uniformizar o licenciamento ambiental. Segundo ele, tecnologias como satélites, drones e inteligência artificial permitem melhorar o monitoramento e direcionar os recursos públicos para empreendimentos de maior impacto.

Contrário ao novo modelo, Carlos Nobre alertou que a simplificação e o uso de licenças autodeclaratórias podem ampliar a degradação ambiental. Para o cientista, biomas como Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga estão ameaçados pelas mudanças climáticas e pela perda de vegetação.

Confira os principais trechos do debate:

Mílton Jung: A nova lei cria licenças simplificadas e, em alguns casos, permite que o próprio empreendedor declare o cumprimento das exigências. Como acelerar o processo sem enfraquecer a fiscalização ambiental?

George Humbert: O Brasil estava atrasado em relação a essa norma. Não tínhamos uma lei geral de licenciamento ambiental aprovada pelo Congresso Nacional. Grande parte dos procedimentos era orientada por resoluções editadas há décadas.

A aprovação de uma lei nacional representa uma evolução institucional e constitucional. Além disso, a modernização do licenciamento acompanha as transformações da sociedade. Quando as normas anteriores foram elaboradas, não existiam os recursos tecnológicos disponíveis atualmente.

Hoje temos internet, inteligência artificial, drones e satélites modernos. Essas ferramentas permitem acompanhar atividades em campo e tornar a fiscalização mais eficiente.

A lei também incorpora práticas que já vinham sendo adotadas em diferentes estados. A proposta é facilitar o desenvolvimento econômico e o progresso social com equilíbrio ambiental, simplificando os processos de menor impacto para que o poder público possa se concentrar nos empreendimentos que representam riscos maiores.

Mílton Jung: Quais danos ambientais podem ocorrer com a simplificação do licenciamento prevista na nova lei?

Carlos Nobre: Precisamos ter muita preocupação, porque essa lei pode provocar um aumento dos impactos ambientais nos biomas brasileiros, principalmente naqueles que estão próximos de pontos de não retorno, como Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga.

O Brasil possui a maior biodiversidade do mundo. Para impedir a perda desses ecossistemas, precisamos zerar o desmatamento e a degradação, além de executar grandes projetos de restauração.

Se não invertermos essa trajetória, poderemos levar alguns desses biomas a pontos de não retorno nas próximas décadas. A simplificação do licenciamento segue na direção oposta àquela que a ciência considera necessária.

Precisamos de regras que conciliem o desenvolvimento com a proteção ambiental, mas sem reduzir os mecanismos de controle justamente em um momento de agravamento da crise climática.

Cássia Godoy: Existe o risco de que a aplicação dessa legislação contribua para que os biomas ultrapassem os chamados pontos de não retorno?

George Humbert: Não sou especialista em mudanças climáticas, mas, do ponto de vista jurídico, considero que a nova lei está de acordo com a Constituição e promove a sustentabilidade em suas dimensões ambiental, econômica e social.

A preocupação com a Amazônia deve ser de todos nós, assim como a preservação da Mata Atlântica e dos demais biomas. É importante ressaltar que as outras normas de proteção da vegetação nativa continuam em vigor. A lei do licenciamento não autoriza automaticamente o desmatamento nem elimina as demais exigências ambientais.

Também precisamos impedir novos desastres como os de Mariana e Brumadinho, ocorridos antes da existência de uma lei geral sobre o tema. A nova legislação pode contribuir para organizar melhor os procedimentos e as responsabilidades.

Ao simplificar o licenciamento de atividades de pequeno porte e baixo impacto, o Estado poderá concentrar equipes, recursos e fiscalização nos empreendimentos que exigem maior controle.

Cássia Godoy: O ponto mais problemático da nova legislação é a possibilidade de licenciamento por autodeclaração?

Carlos Nobre: A autodeclaração representa um risco muito grande. Não podemos pressupor que todas as declarações apresentadas por responsáveis por atividades de infraestrutura, mineração ou exploração de recursos estejam automaticamente de acordo com a legislação.

A exploração ilegal de ouro na Amazônia é um exemplo dos riscos. Durante décadas, atividades foram registradas de uma forma, mas executadas irregularmente, inclusive dentro de terras indígenas.

Por isso, o monitoramento por satélite e a fiscalização em campo são fundamentais. Uma legislação baseada em declarações e verificações por amostragem pode não identificar irregularidades antes que o dano ambiental aconteça.

A Amazônia e o Cerrado estão próximos de limites muito perigosos. Mais da metade da vegetação original do Cerrado já foi perdida, enquanto mudanças climáticas e degradação alteram o equilíbrio de diferentes regiões. Precisamos caminhar para o desmatamento zero e para a restauração dos biomas, não facilitar novas perdas.

O “50 Debates para o Brasil” segue no Jornal da CBN até a semana das eleições. A íntegra dos episódios fica disponível no site e no aplicativo da CBN, no Spotify, nas demais plataformas digitais e no canal da CBN no YouTube.

Fonte: CBN

Brasil registra mais de 500 tornados em nove anos; veja se já aconteceu perto de você

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Levantamento, que reúne episódios entre 2018 e 2026, mostra um raio-x do país, com os registros de Norte a Sul, com um mapa detalhado do país, que indica desde o local até a intensidade do tornado.

 

Mapa mostra distribuição de tornados pelo país
Foto: Infográfico/g1

O Brasil registrou 524 tornados pelo país nos últimos nove anos, é o que mostra um banco de dados que o g1 teve acesso.

O levantamento, que reúne episódios entre 2018 e 2026, mostra um raio-x do país, com os registros de Norte a Sul, com um mapa detalhado do país, que indica desde o local até a intensidade do tornado.

Segundo os dados, os registros estão reunidos em mais de 280 cidades, a maioria delas no Centro-Sul, mas há casos no Norte e Nordeste, por exemplo.

O Brasil não tem um banco de dados oficial dedicado a rastrear essas ocorrências. Os números usados nesta reportagem são do Prevots, projeto mantido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade de Oklahoma, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), que monitoram tempestades e tornados no país.

TORNADO é uma coluna de vento que gira muito rápido e liga uma nuvem de tempestade ao chão, como um funil. Ele só se forma quando algumas condições do tempo se encontram ao mesmo tempo — e é justamente essa combinação que é mais comum no Sul do Brasil do que no resto do país.

Sarandi e Guaíba, no Rio Grande do Sul, e Dourados, no Mato Grosso do Sul, lideram o ranking de cidades mais atingidas por tornados desde 2018, com nove ocorrências cada uma.

Veja abaixo a lista:

  • Sarandi (RS): 9 registros de tornado
  • Guaíba (RS): 9 registros de tornado
  • Dourados (MS): 9 registros de tornado
  • Horizontina (RS): 8 registros de tornado
  • Xanxerê (SC): 8 registros de tornado
  • Ananindeua (PA): 8 registros de tornado
  • Corbélia (PR): 7 registros de tornado
  • Cerqueira César (SP): 7 registros de tornado
  • Salvador (BA): 7 registros de tornado
  • Guarapuava (PR): 6 registros de tornado
Tornados no Sul do Brasil.
Foto: Arte/g1

Por que o Sul concentra a maioria dos casos?

Dos 524 tornados registrados no Brasil desde junho de 2018, 227 aconteceram em apenas três estados: Rio Grande do Sul (93), Paraná (81) e Santa Catarina (53).

Enquanto no Brasil como um todo a maioria dos fenômenos registrados é do tipo menos intenso, no Sul essa lógica se inverte: mais da metade dos casos identificados na região é do tipo gerado por supercélula, a categoria de maior potencial destrutivo – 51% dos casos.

Supercélula é uma tempestade que gira inteira, como um redemoinho gigante de nuvem. Quando essa rotação desce em direção ao solo e se afunila, nasce o tornado — e por já sair de uma tempestade que gira, ele tende a ser mais forte e durar mais que os outros tipos.

E você pode se perguntar: por que isso acontece com mais frequência no Sul? Por trás dessa concentração está a posição geográfica da região e o que ocorre por lá. Tudo começa com os rios voadores – que são jatos de ventos que carregam calor e umidade direto da Amazônia até o Sul do país.

“Se você imaginar esse jato como um rio, é como se esse rio, que está trazendo ar quente e úmido, desembocasse no Sul do Brasil. E, ao fazer isso, é como se começasse a empoçar a umidade naquela região do mapa”, explica Ernani.

É nesse ponto que entra o segundo ingrediente: vindo da Argentina, chega ar frio e seco. O encontro das duas massas cria um contraste que acelera o vento conforme a altitude aumenta — o que os especialistas chamam de cisalhamento.

Com ele, a rotação começa lá em cima e, em alguns casos, desce até perto do chão. É esse último passo que separa uma tempestade comum de um tornado.

São Paulo aparece logo atrás do Rio Grande do Sul no ranking nacional, com 90 registros no período — apenas três a menos que o estado gaúcho, o mais afetado do país.

O pesquisador e especialista em tornados explica que isso ocorre porque essa junção de fatores que se encontra no Sul do país também afeta o Centro-Sul, como São Paulo e o Mato Grosso do Sul, mas com menor frequência.

Rede de busca e satélite ambiental

E como eles são identificados para se transformarem nesse mapa? Os pesquisadores, estudiosos da meteorologia e especialistas em tempestades, têm uma rede de buscas por relatos de pessoas nas redes sociais e notícias de possíveis tornados, anotando local e horário aproximados de cada ocorrência.

A partir daí, checam essas informações com imagens de satélite ambiental — as mesmas usadas para detectar queimadas —, que revelam o rastro de dano que o tornado deixa na vegetação, como uma cicatriz vista do espaço, ajudando a confirmar a extensão do fenômeno e, em alguns casos, sua intensidade. Com base nisso, eles confirmam o registro do tornado na plataforma como oficial.

Quais são os tipos de tornado e intensidade?

  • Nem todo tornado é igual — e entender essa diferença ajuda a dimensionar o risco real de cada ocorrência. Eles variam de acordo com a tempestade que os origina.Uma supercélula é uma tempestade que gira inteira, como um redemoinho gigante de nuvem. Quando essa rotação desce em direção ao solo e se afunila, nasce o tornado — o tipo mais forte e duradouro da lista.
  • Já a linha de instabilidade reúne várias tempestades lado a lado, sem a mesma rotação isolada, e costuma gerar tornados de força intermediária.
  • Por fim, as trombas d’água e terrestres raramente evoluem para algo mais forte, mas elas também são classificadas como tornados.

Segundo levantamento do PREVOTS, o tipo mais frequente no Brasil não é o mais destrutivo. Das ocorrências analisadas, as trombas — d’água e terrestres somadas — respondem por 58% do total. O tipo que pode ter mais força, as supercélulas, correspondem a 27%.

  • Intensos (supercélula): 142 casos
  • Intensidade média (linhas de instabilidade): 78
  • Baixa intensidade (trombas d’água ou terrestres): 304

Ou seja, na prática, a maioria dos tornados registrados no país é do tipo mais fraco. Por isso, ainda que o Brasil tenha um número considerável de registros, não há relatos de destruição associada na mesma intensidade.

Dá para prever um tornado?

Apontar uma região com chance de tempestades capazes de gerar tornado é possível com até 24 horas de antecedência. Mas dizer o local exato onde ele vai passar, e a que horas, é outra história — e a física explica por quê.

Quanto menor e mais rápido é um fenômeno atmosférico, menor é a janela de tempo em que é possível prevê-lo.

Um redemoinho que levanta folhas secas num dia de vento é o exemplo mais simples: ele se forma e se desfaz em segundos, sem qualquer aviso possível horas antes.

O tornado está nesse mesmo extremo da escala — tem menos de um quilômetro de diâmetro e raramente dura mais de meia hora.

Ou seja, quanto maior e mais duradouro é o fenômeno, mais cedo dá para prevê-lo; quanto menor e mais rápido, mais curto fica esse horizonte.

Fonte: G1

Ferrovia não é ativo financeiro: é política de Estado e integração

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Ferrovia não é ativo financeiro: é política de Estado e integração
Fonte: Wikipédia

Em artigo à CNN Infra, José Claudinei Messias defende nova concessão da Malha Sul como decisão que pode traçar o futuro da infraestrutura ferroviária

O Brasil está diante de uma decisão que pode traçar o futuro da infraestrutura ferroviária por décadas: a nova concessão da Malha Sul, com 4.248 quilômetros de extensão divididos em três corredores. O processo definirá os rumos de um patrimônio construído por gerações de trabalhadores e de uma rede estratégica para a economia, a integração regional e o desenvolvimento sustentável do país. 

Pode parecer uma discussão distante para quem não utiliza o trem no dia a dia, mas não é. A ferrovia está presente no caminho que milhares de produtos percorrem antes de chegar à indústria, ao comércio, ao consumidor e ao mercado internacional. Quando um trecho deixa de funcionar, cargas precisam buscar outras rotas, muitas vezes pelas rodovias. Isso significa mais caminhões nas estradas, maior custo de transporte e, consequentemente, preços mais altos para os produtos que chegam às nossas casas. 

Há cerca de 30 anos, quando a antiga Ferrovia Paulista S.A. (FEPASA) e outras estruturas ferroviárias foram transferidas à iniciativa privada, o Sindicato dos Ferroviários da Sorocabana lançou a campanha SOS Ferrovia – O Brasil Trem Jeito. Era um alerta sobre o risco de desestruturação do sistema ferroviário nacional. Hoje, ramais desativados, estruturas deterioradas e cidades que perderam sua conexão ferroviária mostram a atualidade daquela preocupação. 

Ourinhos, no interior de São Paulo, é um exemplo desse processo. A redução e a interrupção de operações ferroviárias na região afetaram a conexão do município com a rede e trouxeram consequências para trabalhadores e para a atividade econômica local. Quando uma ligação ferroviária deixa de cumprir sua função, não se perde somente um trecho de trilhos, mas também alternativas de transporte, capacidade de movimentação de cargas e oportunidades de desenvolvimento regional. 

Esse impacto chega ao bolso das pessoas. O transporte é parte do custo de praticamente tudo o que consumimos. Quando uma carga que poderia ser transportada por ferrovia precisa seguir por rota mais cara, esse custo é absorvido pelas empresas ao longo da cadeia e chega ao preço final de produtos. Ao mesmo tempo, a maior dependência das rodovias aumenta a pressão sobre estradas já sobrecarregadas e sobre a infraestrutura que precisa ser mantida pelo poder público. 

Por isso, a nova concessão precisa garantir que quem recebe uma infraestrutura pública preserve sua função e sua capacidade de atender diferentes regiões. Não é viável concentrar investimentos apenas nos trechos de maior retorno econômico e deixar ramais regionais definharem. A ferrovia precisa ser tratada como política de Estado, capaz de integrar regiões e promover desenvolvimento, e não apenas como um conjunto de ativos avaliados pela rentabilidade imediata. 

Além das questões econômicas, os eventos climáticos extremos dos últimos anos, especialmente no sul do Brasil, reforçam outra dimensão dessa discussão. Uma rede ferroviária integrada e resiliente também é uma infraestrutura estratégica para garantir o abastecimento, o escoamento da produção e a conexão entre regiões em momentos de crise.  

Como presidente do Sindicato dos Ferroviários da Sorocabana, acompanho as discussões ferroviárias desde o período das concessões dos anos 1990 e sei que as consequências de uma decisão desse tamanho não cabem em um mandato ou em um contrato. Daqui a 30 anos, outros estarão discutindo aquilo que decidirmos agora. 

O movimento SOS Ferrovia – O Brasil Trem Jeito continua sendo um chamado para que não desperdicemos novamente a oportunidade de construir uma rede ferroviária à altura do Brasil, que não apenas transporte cargas, mas conecte cidades, preserve empregos, reduza custos e contribua para o desenvolvimento do país.

Fonte: CNN Brasil

Um novo pacto para o transporte público brasileiro

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Um novo pacto para o transporte público brasileiro
Foto: Divulgação Enel X

Lei nº 15.432/2026 muda as regras do jogo e trata o transporte coletivo como parte essencial da vida nas cidades

Por décadas, o transporte coletivo no Brasil foi regulado por regras pensadas para outro momento do país: mais rural, com menos carros e cidades bem menores. Isso mudou. A Lei nº 15.432/2026 chega como o novo marco legal do transporte coletivo urbano e representa a reforma mais profunda que o setor já teve. Mais do que ajustar detalhes de contratos e editais, ela muda a forma como o transporte público é entendido: deixa de ser visto apenas como um serviço comercial e passa a ser tratado como parte essencial da vida nas cidades, em linha com o direito ao transporte garantido pela Constituição desde 2015.

O momento não poderia ser mais oportuno. Mais de 80% da população brasileira já vive em áreas urbanas, e essa proporção deve chegar a 90% até 2030. Nesse cenário, a forma como uma cidade organiza o deslocamento das pessoas deixa de ser só uma questão de gestão e passa a interferir diretamente no acesso a coisas básicas, como emprego, escola e atendimento de saúde. A nova lei nasce, então, para sustentar um direito, não apenas para regular um serviço.

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Tarifa e remuneração agora são coisas diferentes

Um dos pontos mais importantes da lei é simples de entender, mas muda tudo na prática: ela separa o valor que o passageiro paga (a tarifa) do valor que a empresa recebe pelo serviço (a remuneração).

Até hoje, essas duas coisas praticamente se confundiam e isso trazia um problema: a saúde financeira das empresas de ônibus dependia quase só da quantidade de gente pagando passagem. Bastava cair a demanda, como aconteceu, por exemplo, durante a pandemia, para o sistema todo ficar em risco. Com a nova lei, a tarifa continua sendo definida com base no que é justo cobrar do passageiro, enquanto a remuneração do operador passa a considerar o custo real de rodar o sistema. Isso dá mais estabilidade ao setor, especialmente porque a lei também prevê o uso de uma fonte adicional de recursos, ligada a um imposto sobre combustíveis (a CIDE), criada pela reforma tributária de 2023.

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Ônibus também pode gerar receita além da passagem

Para manter a passagem em um preço acessível sem pesar demais no orçamento das prefeituras, a lei permite que o sistema de transporte busque outras fontes de dinheiro, parecidas com o que já se vê em aeroportos e estádios: publicidade em ônibus e terminais, aluguel de espaços comerciais, venda do direito de dar nome a estações (os chamados “naming rights”) e uso comercial de terrenos e estacionamentos ao redor do sistema.

Vale um esclarecimento: nem tudo o que estava previsto no projeto original foi mantido. A possibilidade de vender créditos de carbono ligados ao transporte público acabou sendo vetada. Isso significa que, por enquanto, o foco principal dessas novas receitas deve ficar mesmo em publicidade e uso comercial de espaços, que já são estratégias testadas e aprovadas em outros países.

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Quem economiza, agora, também ganha

Outra novidade importante está relacionada a um problema antigo: antes, quando uma empresa de ônibus conseguia economizar, por exemplo, usando um combustível mais barato ou um sistema de rotas mais eficiente, essa economia costumava ser “tomada de volta” pelo poder público no reajuste seguinte. Ou seja: não valia a pena investir em eficiência.

A nova lei muda esse incentivo. Agora, parte do que a empresa economiza com inovação pode ficar com ela mesma, desde que isso esteja bem documentado e formalizado em contrato. É uma mudança pequena no texto, mas com potencial grande: transforma a busca por eficiência em algo que realmente compensa para quem opera o sistema.

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Cidades vizinhas vão precisar se organizar juntas

Um dos avanços mais estruturais da lei tem a ver com como as cidades planejam o transporte entre si. Hoje, é comum que uma linha de ônibus simplesmente “acabe” na fronteira de um município, mesmo que as pessoas continuem se deslocando para a cidade vizinha todos os dias: para trabalhar, estudar ou se tratar. Isso acontece porque cada prefeitura planeja o seu próprio sistema, sem necessariamente conversar com as vizinhas.

A nova lei reforça que esse tipo de decisão precisa ser tomada em conjunto, algo que já era previsto no Estatuto da Metrópole (uma lei de 2015) e confirmado pelo STF em um julgamento importante sobre esse tema. Na prática, isso significa que cidades que formam uma mesma região metropolitana vão precisar se organizar coletivamente para planejar e financiar o transporte, sem que nenhuma prefeitura, sozinha, imponha suas decisões às outras. Um caminho comum para isso é a criação de consórcios públicos, que já existem para outras áreas, como saúde e resíduos.

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Além disso, a lei exige que os dados sobre o funcionamento do transporte, horários, itinerários, desempenho, sejam abertos ao público. Isso ajuda a sociedade e o próprio poder público a acompanhar se o sistema está funcionando como deveria.

Ônibus e aplicativos de transporte, andando juntos

A nova lei também abre espaço para que o transporte público e os aplicativos de transporte (como os usados para pedir carros pelo celular) funcionem de forma integrada, em vez de concorrerem entre si. Essa ideia é conhecida como MaaS (Mobility as a Service, ou “mobilidade como serviço”).

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Na prática, o transporte coletivo continua sendo a espinha dorsal do sistema, responsável por levar muita gente ao longo de trajetos maiores, enquanto os aplicativos ajudam a resolver o famoso “último trecho”, aquele pedacinho do caminho entre o ponto de ônibus e a casa da pessoa. O objetivo é que, no futuro, o usuário consiga planejar toda a viagem em um único aplicativo, combinando os dois tipos de transporte.

O que vem a seguir

A lei passa a valer um ano depois de publicada, e esse prazo já começou a correr. É o tempo que prefeituras e empresas de transporte têm para se adaptar: revisar contratos, organizar os dados que precisam ser divulgados e, no caso das regiões metropolitanas, ajustar as leis estaduais que definem como as cidades vão trabalhar juntas.

É um trabalho grande, mas também uma oportunidade rara. Pela primeira vez em muito tempo, o transporte coletivo brasileiro tem um conjunto de regras pensado para a realidade das cidades de hoje: mais integrado, com mais fontes de financiamento e mais transparência. Agora, o desafio é transformar esse texto de lei em transporte melhor no dia a dia de quem depende dele.

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Para quem trabalha com planejamento urbano, gestão de contratos ou governança metropolitana, entender bem essas mudanças deixou de ser um diferencial e passou a ser parte do trabalho. A Plataforma Learn Connected Smart Cities preparou um curso sobre o tema, o Marco Legal do Transporte Coletivo Urbano, para quem quer se aprofundar nessas mudanças e se preparar para o que vem pela frente. 

Saiba mais em: https://learn.connectedsmartcities.com.br/marco-legal-do-transporte-coletivo-urbano/

Novas regras da Anac para combater passageiros indisciplinados em voos começam a valer; veja o que muda

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Novas regras da Anac para combater passageiros indisciplinados em voos começam a valer; veja o que muda
Foto: Gerada por IA | Magnific

A partir desta segunda-feira, começam a valer as novas regras da Anac para combater o comportamento de passageiros indisciplinados em voos domésticos.

A norma estabelece um protocolo para as companhias aéreas e prevê punições que vão de advertência e retirada do passageiro da aeronave até multas de quinhentos a dezessete mil reais. A regra vale apenas para o transporte doméstico, a bordo de aeronaves e nas dependências de aeroportos brasileiros. Ela não se aplica a voos internacionais, porque cada país tem autonomia e autoridade sobre as operações realizadas em seu território.

Dados da Anac mostram um aumento no número de casos de passageiros indisciplinados nos últimos anos. Em 2023, foram registradas mil e dezenove ocorrências. Em 2024, foram mil e sessenta e uma. Já no ano passado, o número saltou para mil setecentas e sessenta e quatro ocorrências. E a alta continua. De janeiro a junho deste ano, foram registrados 881 casos envolvendo passageiros indisciplinados, um aumento de 70% em relação ao mesmo período do ano passado.

Entre as condutas consideradas indisciplina estão agressões físicas ou verbais, ameaças, tumultos, danos à aeronave ou ao aeroporto e o descumprimento de orientações de segurança dadas pela tripulação. Um exemplo é o uso de dispositivo eletrônico portátil durante o voo, quando esse uso estiver proibido. Em situações de risco, a tripulação deve primeiro orientar o passageiro sobre os riscos do comportamento. Se isso não for suficiente, o passageiro poderá ser contido pela equipe até a chegada da polícia ou até o pouso da aeronave. Depois, a companhia aérea poderá adotar medidas legais para reparar eventuais danos, além de outras medidas previstas em contrato.

Algumas condutas são consideradas graves ou gravíssimas, como tentar abrir a saída de emergência durante o voo, tentar tomar o controle da aeronave, fumar a bordo, agredir membros da tripulação, transportar ou fazer menção a artefatos explosivos e atentar contra a dignidade sexual de um tripulante ou de outro passageiro. Nesses casos, o passageiro também poderá ser incluído na chamada No Fly List e ficar impedido de comprar passagens ou embarcar em voos domésticos no Brasil. A suspensão pode durar seis ou doze meses, dependendo da gravidade da ocorrência, além da aplicação de multa.

Durante o período de suspensão, o passageiro não poderá realizar viagens mesmo que já tenha comprado a passagem. Nesse caso, deverá receber o reembolso. A companhia aérea deverá informar claramente os motivos que levaram à proibição de voar e comunicar ao passageiro o direito à ampla defesa. A Anac também deverá ser comunicada imediatamente.

Antes da nova norma, a empresa era obrigada a levar o cliente até o destino final mesmo depois de retirá-lo do avião. Agora, se o passageiro tiver um comportamento considerado indisciplinado durante uma escala, a companhia poderá encerrar o transporte depois do episódio e não será obrigada a levá-lo até o destino final. A regra também prevê que, nessa situação, a companhia não será obrigada a oferecer alimentação ou hospedagem.

Fonte: CBN