Criciúma recebeu a Reunião Estratégica Regional do Connected Smart Cities (CSC), encontro que reuniu gestores públicos, especialistas, empresas, instituições financeiras, organizações sociais, universidades e representantes do ecossistema de inovação para discutir os desafios e os caminhos para o desenvolvimento inteligente e sustentável das cidades.
Com o tema “Indústria, Inovação e Desenvolvimento Regional”, o evento proporcionou um espaço de aproximação entre diferentes setores que participam da transformação dos territórios. Mais do que apresentar tecnologias, a proposta foi promover diálogos sobre os problemas concretos enfrentados pelos municípios e sobre as condições necessárias para transformar ideias em projetos viáveis e resultados para a população.
As Reuniões Estratégicas Regionais integram o movimento promovido pela Plataforma CSC, que busca aproximar os atores envolvidos no desenvolvimento urbano, considerar as particularidades de cada região e estimular a construção colaborativa de soluções.
A escolha de Criciúma para sediar o encontro demonstra a relevância econômica, institucional e regional do município. Com uma base produtiva diversificada e uma posição de centralidade no Sul de Santa Catarina, a cidade reúne características que favorecem o debate sobre inovação, industrialização, sustentabilidade e desenvolvimento regional.
Entretanto, receber um evento dessa natureza representa mais do que o reconhecimento de avanços já realizados. Significa, sobretudo, aceitar a responsabilidade de apresentar com transparência os desafios que ainda precisam ser enfrentados.
Uma cidade inteligente começa pela compreensão dos seus problemas
Antes da programação aberta ao público, foi realizada uma reunião mais reservada entre representantes do Município de Criciúma e parceiros da Plataforma CSC. O objetivo desse momento não foi apresentar apenas as conquistas da cidade, mas compartilhar suas principais dores e estabelecer um diálogo direto com empresas, especialistas e instituições capazes de contribuir para a construção de soluções.
Esse formato é importante porque a inovação pública não deve começar pela escolha de uma tecnologia. Ela precisa começar pela correta compreensão do problema.
Muitas administrações ainda são abordadas por fornecedores que apresentam plataformas, equipamentos e sistemas antes mesmo de conhecerem adequadamente a realidade local. Quando isso acontece, existe o risco de a solução determinar o problema, quando deveria ocorrer justamente o contrário.
Uma cidade não se torna inteligente por acumular sensores, câmeras, aplicativos, painéis ou sistemas. Ela se torna inteligente quando desenvolve capacidade institucional para identificar problemas, utilizar informações, integrar políticas públicas, tomar decisões fundamentadas e avaliar resultados.
Na reunião, foram abordados desafios relacionados à integração de dados e sistemas, mobilidade regional, infraestrutura urbana, sustentabilidade, eficiência energética, transformação digital, simplificação dos serviços públicos e inclusão digital.
São questões que não podem ser solucionadas isoladamente por uma única secretaria, empresa ou instituição. Exigem articulação entre o poder público, o setor produtivo, as universidades, os centros de pesquisa, as organizações sociais e a sociedade.
Planejamento estratégico como instrumento de transformação
Após a abertura oficial do evento para toda a comunidade, tivemos a oportunidade de apresentar o Planejamento Estratégico de Criciúma para o período de 2025 a 2028.
O planejamento foi estruturado em cinco grandes eixos, 24 programas e aproximadamente 270 projetos. Esse conjunto contempla áreas como saúde, educação, assistência social, infraestrutura, mobilidade, desenvolvimento econômico, sustentabilidade, modernização administrativa, transparência, transformação digital e participação social.
Mais importante do que a quantidade de projetos é a lógica de gestão construída em torno deles.
Cada iniciativa precisa estar relacionada a um objetivo estratégico, possuir responsáveis, prazos, indicadores, fontes de recursos e resultados esperados. Essa estrutura permite que o planejamento deixe de ser um documento formal e passe a orientar efetivamente as decisões da administração.
Também foram definidos critérios para priorizar os projetos mais relevantes, considerando aspectos como impacto social, disponibilidade financeira, urgência, alinhamento estratégico, capacidade de atendimento e contribuição ambiental.
Planejar é, necessariamente, fazer escolhas.
Uma administração pública sempre enfrentará uma quantidade de demandas superior à sua capacidade financeira, técnica e operacional. Sem critérios claros, as prioridades podem ser definidas apenas pelas urgências do momento, pelas pressões setoriais ou pela capacidade de determinados grupos de reivindicarem seus interesses.
O planejamento estratégico ajuda a substituir a lógica da reação pela lógica da direção.
Ele não elimina os imprevistos, mas permite que o governo esteja mais preparado para enfrentá-los sem abandonar seus objetivos de longo prazo.
Três painéis, diferentes dimensões da transformação urbana
A programação do evento foi organizada em três painéis temáticos. Embora tenham tratado de assuntos distintos, os debates demonstraram que a construção de cidades inteligentes depende da combinação entre capacidade financeira, inovação social, planejamento urbano e responsabilidade ambiental.
- Captação de recursos e estruturação de projetos
O primeiro painel abordou a captação de recursos e a estruturação de projetos como caminhos para viabilizar soluções estratégicas nos municípios.
Participaram do debate Caroline Brunel Matias, gestora de Convênios da Prefeitura de Criciúma; Carolina Benitez, especialista em Projetos do FONPLATA; Joab Barbosa de Azevedo, CEO da MDC Consultoria; e Leonardo Luiz dos Santos, presidente do Instituto de Planejamento e Gestão de Cidades, o IPGC. A moderação foi conduzida pelo prefeito de Criciúma, Vagner Espíndola.
A discussão evidenciou um desafio recorrente na gestão pública: muitas cidades conhecem suas necessidades, mas ainda encontram dificuldades para transformar essas necessidades em projetos tecnicamente estruturados, financeiramente viáveis e capazes de atrair recursos.
A captação não começa somente quando um edital ou uma linha de financiamento é publicada. Ela começa antes, na capacidade do município de identificar prioridades, elaborar diagnósticos, estimar custos, avaliar riscos, demonstrar impactos e organizar projetos com maturidade técnica suficiente para serem apresentados a instituições financiadoras.
Nesse contexto, os bancos de fomento exercem um papel importante, especialmente no financiamento de projetos estruturantes que dificilmente seriam executados apenas com os recursos ordinários dos municípios.
Também foram discutidas as Parcerias Público-Privadas, as PPPs, como alternativas para viabilizar investimentos em áreas que exigem maior capacidade financeira, conhecimento especializado e planejamento de longo prazo.
No entanto, uma PPP não deve ser compreendida como uma simples transferência de responsabilidades ao setor privado. Trata-se de uma modelagem complexa, que precisa demonstrar interesse público, viabilidade econômica, segurança jurídica, adequada distribuição de riscos e capacidade de fiscalização pelo poder público.
O painel reforçou, portanto, que captar recursos não significa apenas encontrar dinheiro. Significa criar projetos consistentes, fundamentados em dados e alinhados às prioridades estratégicas da cidade.
Sem bons projetos, mesmo quando existem recursos disponíveis, os municípios podem não conseguir acessá-los. E, sem planejamento, existe o risco de captar recursos para iniciativas que não dialogam com as necessidades mais importantes do território.
2. Economia de impacto, inovação social e inclusão
O segundo painel discutiu a economia de impacto e a inovação social como vetores de cidades inteligentes e inclusivas.
Participaram Shirlei Monteiro, diretora da Associação Beneficente Abadeus; Raquel Cardamone, CEO e cofundadora da Bright Cities; Caio Zucchinali, head de Ecossistemas de Inovação e Inovação em Governo da Companhia de Impacto; e Dudi Sônego, secretária municipal de Assistência Social e Habitação. A moderação foi realizada pelo secretário de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços de Criciúma, Thiago Rocha Fabris.
O debate ampliou a compreensão de que inovação não está restrita ao desenvolvimento tecnológico. Ela também pode estar presente em novas formas de enfrentar vulnerabilidades, promover inclusão, fortalecer comunidades e melhorar a qualidade de vida.
A economia de impacto procura conciliar sustentabilidade financeira com a geração de benefícios sociais e ambientais mensuráveis. Em vez de avaliar uma iniciativa apenas pelo retorno econômico, essa perspectiva também considera sua capacidade de produzir transformações positivas nos territórios.
Essa abordagem é especialmente relevante para os municípios, onde problemas sociais complexos exigem soluções integradas e construídas com a participação de diferentes atores.
O enfrentamento da pobreza, da exclusão, da desigualdade territorial e da falta de oportunidades não depende exclusivamente da ampliação de benefícios ou serviços. Exige compreender as causas das vulnerabilidades, acompanhar trajetórias familiares e criar condições para autonomia, desenvolvimento e inclusão produtiva.
O painel também trouxe uma reflexão importante sobre os indicadores utilizados para avaliar o desenvolvimento das cidades.
Os indicadores econômicos tradicionais continuam sendo relevantes, mas não são suficientes para demonstrar a qualidade de vida da população. Uma cidade pode apresentar crescimento econômico sem que os benefícios desse crescimento sejam distribuídos de maneira equilibrada entre os territórios e os grupos sociais.
Por isso, é necessário utilizar indicadores ampliados, capazes de considerar dimensões como bem-estar, inclusão, acesso a serviços, segurança, saúde, educação, oportunidades, sustentabilidade e participação social.
Uma cidade inteligente não pode ser avaliada apenas por sua infraestrutura tecnológica. Deve ser observada também pela capacidade de incluir as pessoas que historicamente permaneceram à margem dos processos de desenvolvimento.
Nesse sentido, a inovação social não é um elemento complementar da cidade inteligente. É parte essencial de sua construção.
3. Sustentabilidade e resiliência climática
O terceiro painel teve como tema a sustentabilidade e a resiliência climática como pilares para cidades inteligentes e preparadas para o futuro.
Participaram Camila Lapolli de Moraes, juíza federal substituta da 4ª Vara Federal; Márcio Zanuz, diretor financeiro do Centro Tecnológico SATC; Jóri Ramos, coordenador do Labs Cidades do Iparque; e João Paulo Casagrande, secretário de Infraestrutura e Obras de Criciúma. A moderação foi conduzida pela vereadora Anequésselen Fortunato.
O debate demonstrou que os efeitos das mudanças climáticas já não podem ser tratados como uma preocupação distante ou exclusivamente ambiental.
Eventos extremos, alterações nos regimes de chuva, alagamentos, deslizamentos, ondas de calor e impactos sobre a infraestrutura afetam diretamente a prestação de serviços, o orçamento público, a atividade econômica e a segurança da população.
Nesse cenário, a resiliência representa a capacidade de uma cidade de se preparar, resistir, responder e se recuperar diante de crises e eventos adversos.
Construir resiliência exige planejamento urbano, conhecimento territorial, monitoramento de riscos, infraestrutura adequada, responsabilidade institucional e integração entre os órgãos públicos.
Também exige que as decisões tomadas hoje considerem cenários futuros.
Uma obra pública não pode ser planejada somente para atender às condições atuais. Precisa considerar as transformações ambientais, urbanas e demográficas que podem ocorrer durante sua vida útil.
A sustentabilidade, portanto, não deve aparecer apenas como um capítulo isolado do planejamento. Ela precisa ser incorporada às decisões de infraestrutura, mobilidade, habitação, desenvolvimento econômico, energia e ocupação territorial.
Para Criciúma, essa reflexão possui um significado especial. A cidade mantém uma relação histórica com a mineração, atividade que contribuiu para seu desenvolvimento econômico, mas que também deixou passivos ambientais ainda presentes no território.
Essa trajetória impõe o desafio de construir um novo ciclo de desenvolvimento, combinando recuperação ambiental, transição energética, inovação industrial, eficiência no uso dos recursos e preparação para os efeitos das mudanças climáticas.
Cidades inteligentes precisam ser humanas
Durante muito tempo, o conceito de cidade inteligente esteve excessivamente associado à tecnologia. Criou-se a impressão de que uma cidade seria mais inteligente à medida que aumentasse a quantidade de equipamentos conectados ou serviços digitais disponíveis.
A tecnologia é indispensável, mas não pode ser o centro da estratégia.
O verdadeiro centro deve ser a pessoa.
Uma cidade inteligente é aquela que utiliza tecnologia, planejamento, informação e inovação para melhorar concretamente a qualidade de vida da população. Isso significa reduzir o tempo de espera por um serviço, tornar o transporte mais eficiente, ampliar a segurança, prevenir desastres, economizar recursos públicos, proteger o meio ambiente e facilitar a relação entre o cidadão e o governo.
Também significa reconhecer que a transformação digital pode produzir novas desigualdades quando não é acompanhada por políticas de inclusão.
Digitalizar um serviço não é suficiente quando parte da população não possui conectividade, equipamentos ou conhecimento para acessá-lo. Por isso, a cidade inteligente precisa ser simultaneamente digital e inclusiva.
Ser uma cidade inteligente também não significa negar sua história. Significa aprender com ela e utilizar esse aprendizado para construir um futuro mais equilibrado.
Resultados e oportunidades para Criciúma
A realização da Reunião Estratégica Regional produziu resultados relevantes para Criciúma.
O primeiro foi a possibilidade de apresentar os desafios municipais diretamente a parceiros que trabalham com soluções para cidades inteligentes. Essa aproximação contribui para que futuras propostas estejam mais alinhadas às necessidades reais da administração e da população.
O segundo resultado foi a ampliação das conexões institucionais. A transformação urbana depende de redes de cooperação. Governos precisam dialogar com empresas, universidades, organizações sociais, instituições financeiras e outros municípios para compartilhar experiências, reduzir riscos e acelerar a implementação de boas práticas.
O terceiro foi a oportunidade de apresentar o modelo de planejamento adotado pelo município. Demonstrar que a cidade possui objetivos, programas, projetos e prioridades organizadas aumenta sua capacidade de atrair parceiros, investimentos e soluções compatíveis com sua estratégia.
Os painéis também permitiram identificar caminhos concretos para o avanço dos projetos municipais.
O debate sobre captação de recursos mostrou a importância de fortalecer a estruturação técnica dos projetos e de aproximar o município de bancos de fomento e instituições especializadas em modelagens financeiras.
A discussão sobre economia de impacto reforçou que o desenvolvimento precisa ser medido também por sua capacidade de reduzir desigualdades, ampliar oportunidades e gerar bem-estar.
O painel sobre sustentabilidade e resiliência climática destacou a necessidade de incorporar riscos ambientais e cenários futuros às decisões de planejamento, infraestrutura e ocupação urbana.
Também foi possível reforçar a agenda de governança e integração de dados.
Atualmente, as diferentes áreas da administração municipal produzem uma grande quantidade de informações. Saúde, educação, assistência social, arrecadação, mobilidade, infraestrutura e segurança possuem bases que, quando analisadas isoladamente, oferecem uma visão limitada da realidade.
O próximo salto de maturidade está em integrar essas informações.
Ao relacionar dados de diferentes políticas públicas, o município passa a compreender melhor os territórios, identificar vulnerabilidades, antecipar demandas e direcionar recursos de maneira mais eficiente.
Esse processo exige tecnologia, mas também governança. É necessário definir padrões, responsabilidades, critérios de acesso, qualidade das informações, proteção de dados e mecanismos de tomada de decisão.
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As principais lições do encontro
A primeira lição é que a inovação não nasce de respostas prontas, mas de perguntas bem formuladas.
Antes de buscar uma solução, o poder público precisa compreender a causa do problema, quem é afetado, quais dados estão disponíveis e quais resultados pretende alcançar.
A segunda é que uma boa ideia somente se transforma em política pública quando existe capacidade para estruturá-la, financiá-la, executá-la e monitorá-la.
Os municípios precisam ampliar sua maturidade na elaboração de projetos. Quanto mais qualificado for o projeto, maiores serão as possibilidades de acessar recursos, atrair parceiros e reduzir os riscos de execução.
A terceira lição é que nenhuma tecnologia substitui a capacidade de gestão.
Um sistema sofisticado pode fracassar quando os processos são inadequados, as responsabilidades não estão claras ou as equipes não foram preparadas. Por outro lado, uma administração organizada consegue gerar bons resultados mesmo começando com ferramentas mais simples.
A quarta é que cidades inteligentes precisam ser inclusivas.
O desenvolvimento não pode ser medido apenas pelo crescimento econômico, pela infraestrutura implantada ou pela quantidade de serviços digitais. É necessário avaliar quem está sendo beneficiado, quais desigualdades permanecem e como as políticas públicas estão modificando a vida das pessoas.
A quinta lição é que sustentabilidade e resiliência devem orientar todas as políticas urbanas.
Não basta reagir aos eventos climáticos depois que eles acontecem. É necessário antecipar riscos, adaptar a infraestrutura, conhecer o território e preparar as instituições para cenários cada vez mais desafiadores.
A sexta é que cidades inteligentes são construídas de maneira colaborativa.
Os desafios urbanos atravessam fronteiras administrativas e institucionais. Mobilidade, saúde, meio ambiente, segurança e desenvolvimento econômico possuem dimensões regionais e precisam ser tratados com integração.
Por fim, planejamento e inovação devem caminhar juntos.
Inovar sem planejamento pode gerar projetos isolados, desperdício de recursos e dependência tecnológica. Planejar sem inovação pode manter estruturas que já não respondem adequadamente às necessidades contemporâneas.
O encontro reforçou que o principal indicador de inteligência de uma cidade não está na quantidade de tecnologias que ela possui, mas na capacidade de transformar conhecimento em decisões e decisões em resultados para a população.
Criciúma conhece seus desafios, possui uma direção estratégica e está aberta à cooperação.
Nosso compromisso deve ser utilizar planejamento, dados, inovação, inclusão e sustentabilidade não como conceitos abstratos, mas como instrumentos para construir uma cidade mais eficiente, humana e preparada para o futuro.
Afinal, uma cidade verdadeiramente inteligente não é aquela que apenas incorpora novas tecnologias. É aquela que aprende continuamente, compreende sua realidade, reúne diferentes capacidades e transforma esse conhecimento em uma vida melhor para as pessoas.
As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC.






