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‘Se tivesse durado mais 5 segundos, não teria sobrado nada’: colombiano relata terremoto que matou mais de 100

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'Se tivesse durado mais 5 segundos, não teria sobrado nada'
Foto: Marco Trujillo/REUTERS

Tremor de magnitude 7,4 foi o mais forte registrado na Colômbia neste século. Prédios desabaram, aeroportos fecharam e equipes buscam sobreviventes nos escombros.

terremoto de magnitude 7,4 que atingiu o oeste da Colômbia nesta segunda-feira (10) deixou mais de 100 mortos, derrubou prédios e provocou danos em várias cidades. Em meio à destruição, o colombiano Saul Paz Martinez, de 69 anos, contou que acreditava que a casa não resistiria caso o tremor durasse mais alguns segundos.

“Se tivesse durado mais cinco segundos, acho que não teria sobrado nada. Acho que realmente chegamos ao limite da resistência”, disse Martinez, ao lado dos escombros da casa.

Morador de Cali, ele estava na sala de jantar com a mulher, o filho e uma amiga da família quando o terremoto começou. À medida que os tremores ficaram mais fortes, os quatro correram para o local que consideravam mais seguro nas proximidades.

“Os danos são enormes, muitos feridos, certamente algumas mortes, eu já sei de algumas. Agora esperamos que aqueles que podem ajudar, não só nós, mas as pessoas mais vulneráveis, o façam, porque isso faz parte do humanismo que todos devemos ter”, disse.

Juan Carlos Osorio contou à Caracol Television que o desabamento de um prédio “soou como uma bomba”. Ele ajudava a retirar destroços de uma estrutura que desabou em Cali.

“Todos nós, vizinhos, estamos trabalhando juntos, formando correntes humanas. Precisamos de equipamentos pesados. Há muitas pessoas presas.”

Prédios desabaram em várias cidades, hospitais e outras estruturas foram danificados e moradores ficaram presos sob os escombros. Segundo o Serviço Geológico Colombiano, este foi o terremoto mais forte registrado no país no século 21.

Enquanto equipes de resgate e voluntários vasculhavam os escombros em busca de sobreviventes, moradores se reuniam diante de casas danificadas e tentavam retomar a rotina.

O maior número de vítimas parece estar concentrado em Risaralda, parte da região cafeeira da Colômbia. Pereira, capital do departamento, sofreu danos extensos, e equipes de resgate continuavam procurando sobreviventes em edifícios que desabaram.

Segundo a Associação de Cidades Capitais da Colômbia (Asocapitales), 60 pessoas morreram apenas em Pereira. O balanço foi atualizado pela última vez no fim da tarde de segunda-feira.

Cidades afetadas pelo terremoto na Colômbia — Foto: Bruna Azevedo/g1
Cidades afetadas pelo terremoto na Colômbia — Foto: Bruna Azevedo/g1

Fonte: G1

Escaneamento a laser pode reduzir risco de queda de árvores em cidades

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Escaneamento a laser pode reduzir risco de queda de árvores em cidades
Foto: Reprodução/ CNN Brasil

Nova tecnologia pode prevenir ocorrências graves, como as vistas em São Paulo e no Rio de Janeiro nesta semana

Uma nova ferramenta utilizada por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) pode reduzir o risco de queda de árvores urbanas e evitar apagões, danos em ruas e até mortes.

Um grupo de biólogos e engenheiros da USP (Universidade de São Paulo) aplicou pela primeira vez a LiDAR (Light Detection and Ranging) para investigar a saúde de árvores urbanas e adequar a poda — conforme divulgado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

A tecnologia de sensoriamento a laser cria uma “nuvem de pontos”, uma espécie de molde digital 3D formado por milhões de coordenadas, que reproduz a arquitetura exata da planta dentro do computador. Com essa réplica virtual, os pesquisadores aplicaram um algoritmo de poda baseado em “otimização topológica”.

A técnica simula a força dos ventos no modelo para identificar as regiões de maior fragilidade mecânica da planta. Assim, o sistema calcula exatamente quais galhos devem ser cortados para que a árvore redistribua suas tensões e fique mais forte e equilibrada.

O objetivo final do grupo é usar a técnica LiDAR e outras disponíveis para criar um aplicativo que oriente a poda, tornando as árvores mais resistentes aos ventos e evitando riscos de quedas. Para Marcos Silveira, coordenador do Laboratório de Fisiologia Ecológica de Plantas da USP, podas mal calculadas deixam as árvores vulneráveis a vendavais.

“O problema é potencializado pelos túneis de vento, os chamados cânions urbanos. Rajadas de vento, chuva e alta temperatura durante a estação chuvosa aumentam o risco de queda, especialmente em árvores mal manejadas ou doentes”, explica o especialista.

Os pesquisadores explicam que o scanner é montado em um tripé próximo à base de uma árvore, que deve estar bem iluminada, com condições climáticas devem estar favoráveis. O objetivo é capturar perspectivas suficientes para gerar a nuvem de 30 milhões de pontos que captura a forma da árvore.

Então, ocorre a “exposição aos ventos”, que é simulada em um computador por meio de elementos que ajudam a prever como as árvores respondem a estresses como vento e temperatura. Por enquanto, a técnica LiDAR está sendo usada apenas para monitorar e catalogar as árvores da capital e não para orientar a poda.

Vendavais deixaram quase 2 milhões sem luz no RJ

Segundo a prefeitura do Rio de Janeiro, o maior registro de vento foi de 105,5 km/h na região do Aeroporto do Galeão, entre 16h e 17h. Por conta da ventania, mais de 1,9 milhão de imóveis ficaram sem energia elétrica no estado.

Nesta sexta-feira (31), mais de 100 mil imóveis permanecem sem luz, conforme as últimas informações das concessionárias Light e Enel.

Os bombeiros informaram que a previsão do tempo para esta sexta é de céu parcialmente nublado, sem previsão de chuva significativa, e temperatura mínima prevista de 9°C na região Serrana. São esperados ventos fracos a moderados de Sudeste/Sul, com ocasionais rajadas moderadas.

Por conta da ventania registrada principalmente nessa quarta-feira (29), a corporação foi acionada para 797 eventos relacionados aos ventos em todo o estado, sendo 486 de cortes de árvores, 144 fogos em via pública, 69 salvamentos de pessoas, 7 desabamentos, 7 acidentes náuticos. Os bombeiros permanecem em alerta para quaisquer novas ocorrências.

Fonte: CNN Brasil

Transporte sustentável é a grande vocação industrial do Brasil

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Num ano de renovação política, é fundamental aprender com o
passado e saber fazer as escolhas certas para o futuro do país

A importante revista inglesa “The Economist” publicou no início de agosto uma reportagem cobrindo de elogios a Embraer, a empresa brasileira de aeronaves. 

Num momento de volta do debate sobre qual é o melhor modelo de industrialização do Brasil, essa é uma leitura muito oportuna.

Ela nos faz refletir sobre qual é a vocação da indústria brasileira e quais setores deveriam ser estimulados e apoiados para viabilizar a “neoindustrialização”.  

Três décadas depois de privatizada, a Embraer é a terceira maior fabricante de aviões do planeta, atrás apenas da Boeing e Airbus, com uma carteira de pedidos de US$ 34,5 bilhões e linhas de montagem lotadas pelos próximos 20 anos.

É líder mundial em aviação regional e executiva, entrou com sucesso na aviação militar e, agora, se prepara para revolucionar o mercado de táxi aéreo com o Eve, o veículo elétrico voador (e-VTOL) previsto para operar comercialmente em 2027.

A Embraer é o exemplo mais visível de uma história de liderança do Brasil em soluções inovadoras de transporte. 

Uma história de pioneirismo que começa com Bartolomeu de Gusmão e Santos Dumont, avança com os combustíveis renováveis, passa pelos carros elétricos Gurgel e desemboca na moderna indústria nacional de ônibus elétricos, motores e baterias.

Se olharmos para trás, veremos que os capítulos mais brilhantes da industrialização brasileira estão associados ao setor de transporte. É uma vocação nacional, definida pelas dimensões continentais do país e impulsionada pela rápida urbanização do século 20. 

Impulsionar vocações econômicas exige respeito às características de cada país e forte interação entre um complexo conjunto de fatores sociais, políticos e até geográficos. 

Nas últimas décadas, várias dessas megatendências foram bem-sucedidas: internet e inteligência artificial nos EUA, semicondutores em Taiwan, celulares e telecomunicações na Escandinávia, eletrônicos portáteis no Japão do pós-guerra, informática e indústria pesada na Coreia do Sul, carros elétricos e baterias na China, etc.

A grande vocação industrial brasileira é o transporte de pessoas e carga, por diferentes modais. Por vários motivos, temos as melhores condições de nos tornarmos líderes globais nesse setor, posto que já ocupamos no passado.    

Em 1975, o Proálcool colocou o Brasil na fronteira mundial da tecnologia de transporte, ao criar as bases da primeira indústria viável de biocombustíveis. 

Foi um programa que uniu a histórica vocação econômica nacional desde a Colônia – o ciclo da cana-de-açúcar – à nova vocação industrial inaugurada com a chegada da indústria automobilística, no governo Juscelino Kubitschek.

A parceria estratégica entre o setor de etanol e o setor automotivo produziu a mais inovadora resposta global às crises do petróleo de 1973 e 1979 e garantiu dinamismo à indústria brasileira por quase 50 anos.

Hoje, a vocação permanece a mesma, mas a inovação tecnológica e o combate às mudanças climáticas exigem percorrer novos caminhos. 

Não mais a coalizão poluidora da cana-de-açúcar com os motores a combustão, mas a aposta em veículos fabricados no Brasil e impulsionados por energia abundante e barata, produzida por uma matriz de geração de eletricidade 90% limpa e renovável.

Em 1999, a nascente indústria nacional de transporte público sustentável fabricou o primeiro ônibus elétrico híbrido operacional do mundo. Em 2013, o primeiro ônibus 100% elétrico do Brasil.

“Em 2017, a Volkswagen escolheu a tecnologia de duas empresas brasileiras (Eletra e WEG) para produzir os primeiros caminhões elétricos da linha e-Delivey, lançados naquele mesmo ano em Hamburgo”.

Nos últimos dois anos, fábricas de carros elétricos instaladas no Brasil (BYD e GWM) lançaram os primeiros veículos híbridos elétricos plug-in (PHEV) movidos a etanol.

Na Zona Franca de Manaus e outros estados, começa a surgir uma florescente indústria de veículos elétricos levíssimos (motos e e-bikes), que podem ser a base para as mais diversas aplicações, da indústria de defesa à de semicondutores.

Em matéria de transporte sustentável, o Brasil tem história e tem vocação. 

Por isso mesmo, neste ano eleitoral, é fundamental que as futuras lideranças políticas aprendam com as lições do passado e saibam identificar as melhores vocações industriais do Brasil, valorizando as vantagens comparativas do país.

Em novembro de 1974, um visionário engenheiro paulista apresentou o primeiro carro elétrico brasileiro no Salão do Automóvel de São Paulo, o Gurgel Itaipu E150. Elon Musk era apenas uma criança de três anos.

Mas o Brasil daquela época não teve a sensibilidade de perceber o nascimento do novo, matando o sonho pioneiro de João Amaral Gurgel.

Nos Estados Unidos, ao contrário, um forte alinhamento de fatores permitiu que aquele jovem visionário sul-africano revolucionasse não apenas o setor automotivo, mas toda a indústria do século 21. As escolhas têm consequências. 

Mais de mil líderes da IA fazem alerta e pedem freio no avanço da tecnologia

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IA pode ameaçar sistema financeiro global ao facilitar ataques cibernéticos, alerta presidente do Banco da Inglaterra
Foto: Qilai Shen/Bloomberg

Funcionários das principais empresas de Inteligência Artificial assinaram petição direcionada aos Estados Unidos

Mais de 1.000 funcionários das principais empresas de Inteligência Artificial, incluindo o CEO da Anthropic, Dario Amodei, assinaram uma petição para que o governo dos Estados Unidos ajude a frear a publicação dos modelos mais avançados de IA.

A petição, com o título “Pacing the frontier”, solicita que “o governo dos Estados Unidos apoie um esforço internacional para desenvolver as ferramentas técnicas e de governança necessárias para controlar deliberadamente o ritmo da fronteira do desenvolvimento da IA automatizada”.

Entre os signatários estavam o diretor de pesquisas da OpenAI, o líder de estratégia da DeepMind, empresa de IA subsidiária do Google, e o cientista-chefe da Meta AI.

“As empresas líderes em IA no mundo acreditam que podem estar perto de automatizar a pesquisa em IA. É difícil prever exatamente o quanto isto vai acelerar o progresso da IA, mas há um risco real de que a capacidade de desenvolvimento avance além da nossa habilidade de compreender ou controlar os sistemas resultantes”, afirma a petição.

Embora Sam Altman, CEO da OpenAI, não tenha assinado a petição, ele afirmou em uma entrevista publicada na terça-feira que os desenvolvedores de modelos de IA terão que frear voluntariamente os rápidos avanços para que a sociedade possa acompanhá-los.

A empresa de Altman, que desenvolveu o ChatGPT, observou recentemente dois de seus modelos executando ciberataques de forma autônoma, contornando os protocolos de segurança concebidos para evitar tais incidentes.

A OpenAI revelou na semana passada que, durante testes recentes, dois modelos saíram de seu ambiente de confinamento, conectaram-se à internet e invadiram o Hugging Face, um repositório de código compartilhado de IA.

“Talvez precisemos controlar o ritmo do desenvolvimento da IA para dar tempo suficiente para que a sociedade se consolide em torno de alguns destes novos níveis de capacidade” declarou Altman no podcast “Invest like the best”, publicado na terça-feira.

“Este é o primeiro tipo de incidente de segurança que eu senti de forma muito visceral”, declarou sobre o ciberataque.

© Agence France-Presse

Fonte: Revista Fórum

O calor na Europa e a pergunta que falta no debate sobre o ar-condicionado

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O calor na Europa e a pergunta que falta no debate sobre o ar-condicionado
Foto: Gerard Julien/AFP

Nas últimas semanas, a Europa vive uma onda de calor histórica e, enquanto escrevo este texto, tenho um miniventilador à minha frente, ligado durante quase todo o dia, uma presença que passou a fazer parte da rotina deste verão, marcado por ondas de calor que encontraram muitas casas, cidades e infraestruturas europeias despreparadas.

Com os termômetros ultrapassando os 40 graus em diferentes regiões, cidades reforçaram alertas de saúde, escolas e trabalhadores precisaram de se adaptar e populações vulneráveis voltaram a enfrentar os riscos associados a episódios prolongados de calor extremo. Na Alemanha, as temperaturas elevadas provocaram danos em estradas e linhas ferroviárias, afetando viagens de longo curso, enquanto Portugal, Espanha, França e Itália estiveram entre os países mais atingidos.

Em 28 de junho, a Organização Mundial da Saúde alertou para a estimativa de mais de 1.300 mortes associadas às altas temperaturas registradas na Europa desde o dia 21 daquele mês e voltou a sublinhar que o continente aquece a um ritmo cerca de duas vezes superior à média global. Nas semanas seguintes, novas estimativas apontaram um quadro ainda mais grave em partes da Europa Ocidental, que também atravessou um dos meses de junho mais quentes já registrados.

Foi nesse contexto que o ar-condicionado passou a ser um tema quente ocupando espaço na disputa política. Na França, Marine Le Pen defendeu a instalação de aparelhos de ar-condicionado em larga escala pelo país, começando por hospitais, asilos e escolas, e atribuiu a resistência a essa expansão a um tabu ideológico da esquerda que, para ela, já deveria ter sido superado depois da onda de calor de 2003, que matou cerca de 14.800 pessoas no país. Em resposta, Marine Tondelier, dos Ecologistas, e Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, acusaram a extrema-direita de explorar politicamente uma pauta que ignorou por anos, e alertaram para o aumento de emissões que a multiplicação de aparelhos traria. Tondelier rejeitou, inclusive, a ideia de que seu partido fosse contrário ao ar-condicionado e propôs medidas voltadas à proteção de trabalhadores expostos ao calor extremo.

Enquanto os partidos discutiam o tema, o que vimos circular pelas redes sociais foi uma corrida dos consumidores para comprar aparelhos portáteis de ar-condicionado e ventiladores, porque o calor se tornou insuportável para muita gente. Porém, o que me chamou atenção foi outra coisa; em nenhum desses discursos apareceu a pergunta sobre a origem dos componentes que tornariam essa expansão possível.

Até agora, parte significativa da discussão pública permanece concentrada, compreensivelmente, na energia necessária para fazer funcionar os equipamentos, nas emissões associadas, na pressão sobre as redes e, em algumas cidades, nas próprias regras urbanísticas para a instalação de aparelhos que alteram fachadas e espaços exteriores.

Só que, antes de consumir eletricidade, um aparelho de ar-condicionado precisa ser produzido.

Um relatório do Lawrence Berkeley National Laboratory (LBNL) de junho de 2025 sobre a cadeia de suprimentos global de aparelhos residenciais de ar-condicionado mostra que sua produção depende de materiais como aço, cobre e alumínio, utilizados em motores, compressores, trocadores de calor e outros componentes. Nos equipamentos mais eficientes, os motores de ímãs permanentes usados em compressores de velocidade variável também dependem de elementos de terras raras como o neodímio e o disprósio. Já os componentes eletrônicos incorporam semicondutores e outros materiais que podem empregar elementos como gálio, germânio e paládio.

A expansão da refrigeração também depende de uma cadeia produtiva que está bastante concentrada. Em 2021, a China produziu cerca de 155 milhões de aparelhos de ar-condicionado residenciais, o equivalente a aproximadamente 82% das 189 milhões de unidades fabricadas globalmente. O mesmo relatório mostra a forte presença de fabricantes chineses no fornecimento de componentes utilizados por empresas de diferentes países.

A concentração continua quando seguimos a cadeia até a origem dos materiais: a China ocupa posição dominante tanto na mineração quanto no processamento de terras raras e em outras etapas estratégicas dessas cadeias, enquanto parte importante da produção mundial de minerais como cobalto e cobre também se concentra em poucos países. Essa estrutura teve consequências em abril de 2025: com a escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China, Pequim impôs restrições à exportação de sete elementos de terras raras, incluindo térbio e disprósio, exigindo licenças especiais para materiais dos quais controla a maior parte do refino global. Decisões tomadas a milhares de quilômetros de qualquer verão europeu ajudam a definir custos, disponibilidade de componentes e o ritmo de expansão das tecnologias que hoje discutimos.

Esse tema chama atenção na Europa porque a demanda por matérias-primas críticas cresce ao mesmo tempo que novos projetos de mineração enfrentam resistência social e territorial. A meu ver, a tensão não está na existência dessas resistências, que respondem a conflitos reais, mas na dificuldade de discutir simultaneamente as tecnologias que desejamos ampliar e os materiais necessários para produzi-las.

A expansão da climatização não acontece isoladamente, porque os mesmos materiais necessários para fabricar aparelhos de ar-condicionado são disputados por veículos elétricos, redes de transmissão, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e inúmeras outras tecnologias. O continente discute a expansão de tecnologias sem colocar no mesmo plano a extração dos materiais necessários para produzi-las. Na prática, boa parte dessa extração, assim como suas consequências, continua ocorrendo fora das fronteiras europeias: na República Democrática do Congo, no Chile, na Argentina…

Talvez seja essa a pergunta que ainda falta no debate europeu sobre o ar-condicionado. Se as temperaturas extremas levarem à multiplicação dos sistemas de refrigeração, de onde virão os materiais necessários para produzi-los? E até quando será possível discutir e politizar as tecnologias que queremos sem discutir, ao mesmo tempo, as minas das quais elas dependem?

Fonte: Jornal da USP | Elaine Santos

A hora de falarmos de mobilidade urbana

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A hora de falarmos de mobilidade urbana
Foto: Divulgação/Motiva Trilhos

Em artigo à CNN Infra, André Salcedo argumenta que “a mobilidade deixou de ser apenas uma política de transporte para se tornar uma estratégia de desenvolvimento econômico e social”

A infraestrutura brasileira vive uma nova etapa de transformação. Depois de avanços importantes em áreas como logística, energia, saneamento e conectividade, chegou o momento de a mobilidade urbana ocupar o centro da agenda de desenvolvimento do país.

Essa mudança responde à realidade das cidades brasileiras. Hoje, mais de 85% da população vive em áreas urbanas e o crescimento dos grandes centros exige investimentos capazes de reduzir tempos de deslocamento, ampliar o acesso às oportunidades e aumentar a produtividade. A mobilidade deixou de ser apenas uma política de transporte para se tornar uma estratégia de desenvolvimento econômico e social.

Dois acontecimentos recentes simbolizam esse novo momento: O lançamento do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), elaborado pelo BNDES em parceria com o Ministério das Cidades, e a aprovação do Marco Transporte Público Coletivo (Lei nº 15.432/2026) representam um avanço importante na forma como o Brasil passa a enxergar o setor. O estudo oferece uma visão estruturada de longo prazo para a expansão da mobilidade urbana. A nova legislação fortalece a segurança jurídica, moderniza o ambiente regulatório e amplia a previsibilidade necessária para investimentos de longo prazo.

Os números ajudam a dimensionar essa oportunidade. O ENMU identificou 187 projetos estruturantes em 21 regiões metropolitanas, com potencial de investimentos superior a R$ 400 bilhões. A rede brasileira de transporte coletivo de alta capacidade poderá passar dos atuais 1.933 quilômetros para 4.370 quilômetros de extensão.

Mais do que ampliar a infraestrutura, essa expansão significa aproximar pessoas do emprego, da educação e dos serviços públicos, impulsionar o desenvolvimento urbano, aumentar a produtividade das cidades e reduzir emissões. Investir em mobilidade é investir na competitividade do Brasil.

O país já demonstra que esse movimento começou. São Paulo concentra hoje o maior ciclo de investimentos em mobilidade urbana do país, com projetos de expansão metroferroviária, modernização da infraestrutura existente, novas concessões e integração entre diferentes modais. Ao mesmo tempo, o estudo mostra que esse potencial se estende às principais regiões metropolitanas brasileiras, criando uma agenda nacional para o setor.

Também não partimos do zero. O Brasil acumulou experiência na estruturação de concessões, na implantação e operação de sistemas sobre trilhos e na construção de parcerias entre o poder público e a iniciativa privada. Esse conhecimento representa um ativo importante para acelerar uma nova geração de projetos.

Durante muito tempo, a infraestrutura brasileira foi medida pela capacidade de integrar o território nacional, ampliar a malha logística, modernizar aeroportos, fortalecer a matriz energética e expandir a conectividade. Nas próximas décadas, ela também será medida pela capacidade de transformar as cidades em ecossistemas integrados e sustentáveis, universalizar serviços essenciais, ampliar a mobilidade urbana e conectar pessoas às oportunidades.

Nesse contexto, os trilhos deixam de representar apenas um modo de transporte para ocupar um lugar estratégico no desenvolvimento do país.

Fonte: CNN Brasil

IA generativa na gestão pública municipal: eficiência real ou vitrine tecnológica?

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Inteligência Artificial do Google atua como ‘segundo cérebro’ no SUS para desvendar tumores raros no interior do Paraná
Foto: Magnific/Reprodução

Nos últimos dois anos, a IA generativa deixou de ser um experimento de laboratório para se tornar parte da rotina de boa parte das prefeituras brasileiras. Isso não é uma projeção de futuro: é o retrato do presente. A pesquisa TIC Governo 2025, do Cetic.br, mostra que 31% das prefeituras já possuem alguma iniciativa de uso de IA generativa em processos internos, e 17% já a aplicam diretamente em serviços voltados ao cidadão. O número ainda é modesto perto da esfera federal, onde 65% dos órgãos usam a tecnologia internamente, mas o movimento é claro: a máquina pública municipal está, aos poucos, incorporando ferramentas que escrevem, resumem, classificam e até decidem.

A pergunta que interessa não é mais se a IA generativa vai chegar à gestão municipal. Ela já chegou. A pergunta é: com que solidez institucional ela está sendo adotada?

Leia mais: Governo libera R$5,7 bi no orçamento; Cidades, Transportes e Fazenda são os mais beneficiados

Onde a tecnologia já está sendo usada de verdade

O caso mais consistente talvez seja o de Porto Alegre. A Procempa, companhia de tecnologia da prefeitura, desenvolveu o SmartGen, uma plataforma própria de IA generativa hospedada em data center municipal, justamente para manter o controle sobre a privacidade dos dados. A ferramenta já foi integrada ao sistema de regulação de internações do SUS na cidade, oferecendo ao médico regulador mais elementos para apoiar decisões sobre prioridade de leitos. O ponto relevante aqui não é apenas o resultado, mas o desenho: infraestrutura própria, escopo definido e a tecnologia posicionada como apoio à decisão humana, não como substituta dela.

No atendimento ao cidadão, a mudança é mais silenciosa, mas igualmente concreta. O canal via WhatsApp e Telegram já responde por 64% do atendimento nas prefeituras brasileiras, atrás apenas do telefone. Por trás desses canais, cresce o uso de assistentes virtuais capazes de emitir segunda via de IPTU, consultar andamento de alvará ou gerar certidões, sem depender da abertura de novos concursos públicos em um cenário de teto de gastos cada vez mais apertado.

Leia mais: Parque da Mobilidade Urbana assume curadoria de mobilidade no Rio Innovation Week

No licenciamento, o uso mais maduro ainda está concentrado na fase interna dos processos: elaboração de documentos técnicos como Termos de Referência, Estudos Técnicos Preliminares e mapas de risco em licitações, seguindo a Lei nº 14.133/2021. É um uso menos visível ao cidadão, mas que já reduz tempo de tramitação em processos que historicamente travavam nas secretarias.

Já na previsão orçamentária, a IA generativa aparece como camada de apoio à análise: cruzamento de indicadores financeiros, identificação de irregularidades em contratos, leitura de séries históricas de arrecadação. É um uso ainda inicial nos municípios, mas que caminha na direção do que a literatura chama de governança algorítmica: decisões públicas cada vez mais mediadas por sistemas que processam volumes de dados que nenhuma equipe conseguiria analisar manualmente em tempo hábil.

Leia mais: A base necessária – e muitas vezes esquecida – da transformação digital na gestão pública

O risco da IA de vitrine

O problema é que, para boa parte dos municípios brasileiros, a adoção segue mais pelo discurso do que pela estrutura. A mesma pesquisa TIC Governo aponta que a falta de capacitação é o principal obstáculo para o avanço da IA nas prefeituras, citada por 40% delas- à frente até da falta de prioridade orçamentária (36%) e dos custos elevados (34%). Apenas 14% das prefeituras oferecem treinamento sobre o tema aos servidores, e só 10% dispõem de algum guia ou diretriz de uso.

Esse hiato entre anúncio e capacidade técnica é o que venho chamando de IA de vitrine: a prefeitura contrata ou anuncia uma ferramenta de inteligência artificial, ganha uma nota de imprensa favorável, mas não tem estrutura de dados organizados, servidores capacitados ou governança mínima para sustentar o uso responsável daquilo no médio prazo. E o risco não é apenas de ineficiência. É de dano institucional.

Toda ferramenta de IA generativa opera sobre uma base de dados, e essa base carrega escolhas humanas anteriores. Sem auditoria, sem explicabilidade e sem qualidade mínima dos dados de entrada, o sistema pode reproduzir exatamente os mesmos vieses e falhas que a tecnologia prometia corrigir. A literatura sobre o tema já tem um nome para isso: a caixa-preta algorítmica, aquela opacidade que torna quase impossível auditar como uma decisão automatizada foi tomada. No Brasil, esse risco ganha um agravante jurídico: a LGPD protege a privacidade dos dados, mas não garante ao cidadão o direito à explicação sobre uma decisão automatizada que o afete, como já assegura o RGPD europeu.

Leia mais: IA redefine gestão pública e impõe novo padrão de governança no Brasil

Há ainda um precedente nacional que serve de alerta sobre o que acontece quando digitalização acontece sem governança suficiente por trás: o Cadastro Ambiental Rural, criado para ordenar o território, mas que em muitos casos acabou sendo usado para legitimar ocupações irregulares de terra pública, por falta de controle sobre o próprio sistema. A lição não é contra a tecnologia. É sobre o que a sustenta.

O que separa eficiência de vitrine

A diferença entre os dois cenários não está na ferramenta escolhida, mas em três pilares que raramente aparecem nos anúncios de lançamento: dados organizados e atualizados, servidores capacitados para operar e questionar criticamente o que a máquina entrega, e mecanismos claros de responsabilização quando o sistema erra. Nenhum desses três pilares se resolve com a assinatura de um contrato de licença de software.

A IA generativa tem um potencial real de tirar prefeituras do atraso operacional que as sufoca há décadas, especialmente as de menor porte, que dificilmente teriam orçamento para contratar as centenas de servidores que hoje um assistente virtual consegue substituir em tarefas repetitivas. Mas esse potencial só se converte em ganho público duradouro quando a tecnologia é tratada como o que ela é: infraestrutura crítica de decisão, e não um item de modernização estética. A cidade que confunde uma coisa com a outra corre o risco de trocar a fila no balcão por uma fila invisível, mediada por um algoritmo que ninguém no município sabe explicar.

 

Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp

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Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp
Foto: Wikimedia Commons

Pesquisadores apontam que a maior planície alagada do mundo está sendo afetada negativamente pelas atividades humanas e pelas mudanças climáticas. Níveis de precipitação na região não têm sido suficientes para recuperar o estoque hídrico do bioma.

O Pantanal é considerado a maior planície alagada do mundo com uma área de aproximadamente 150 mil km² que se estende por Paraguai, Bolívia e Brasil. A vasta presença de águas superficiais no bioma é fundamental para a manutenção de uma rica biodiversidade que contempla mais de 650 espécies de aves, 150 espécies de mamíferos, 325 espécies de peixes e 2.270 espécies de plantas, além de realizar um papel de grande importância para o equilíbrio ecológico, sequestro de carbono, entre outros serviços ecossistêmicos essenciais.

Um estudo realizado por pesquisadores da Unesp em parceria com outros colegas brasileiros, entretanto, reforça o estado crítico dos corpos d’água localizados no bioma, que há décadas vem apresentando um declínio contínuo e acentuado. Segundo o artigo publicado na revista Advances in Space Research, o Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial desde 1985, e o regime atual de precipitações não está dando conta de repor o estoque hídrico da região.

Os pesquisadores apontam a mudança no uso da terra decorrente das atividades humanas e as mudanças climáticas como responsáveis pela variabilidade hídrica negativa das últimas décadas. Segundo o engenheiro florestal Sérvio Túlio Pereira Justino, um dos autores do artigo, esse é o maior trabalho sobre o tema já realizado no Pantanal, pois abrange as mudanças ocorridas nas águas superficiais localizadas na parte brasileira do bioma ao longo das últimas quatro décadas. “Nosso diferencial foi o tamanho da área em que trabalhamos, o período abrangido – de 1985 a 2023 –, e também os quatro índices espectrais utilizados para chegar aos resultados”, relata Justino, que é doutor pelo Programa de Pós-graduação em Ciência Florestal da Faculdade de Ciências Agrárias (FCA) da Unesp, no câmpus de Botucatu.

Os índices espectrais que o autor menciona como diferenciais da pesquisa são fórmulas matemáticas aplicadas a imagens de satélite que, neste trabalho, exploram diferentes valores de reflectância para diferenciar os corpos d’água de outros elementos na superfície da terra. Por meio das imagens registradas ao longo das últimas décadas e dos índices, os cientistas conseguiram obter informações sobre a variabilidade dos corpos d’água do Pantanal ao longo do período.

Índices mostram dinâmica das águas superficiais e das chuvas

As imagens obtidas pelos cientistas remetem aos anos de 1985, 1990, 1995, 2000, 2005, 2010, 2015, 2020 e 2023. Para cada ano, foram gerados quatro mapas, com base nos quatro índices utilizados na pesquisa: Índice de Água por Diferença Normalizada (NDWI); Índice de Água por Diferença Normalizada Modificada (MNDWI); Índice de Proporção de Água (WRI); e Índice Automatizado de Extração de Água (AWEI). A equipe somou, ao final, 36 mapas que indicavam as variações espaço-temporais em corpos d’água superficiais no Pantanal brasileiro.

“Primeiro, fizemos o download das imagens de satélite. Depois, realizamos o processamento, que é o recorte das imagens e avaliação de imperfeições e erros”, explica Justino. Entre essas imperfeições, ele cita, por exemplo, a presença de nuvens, que às vezes são identificadas como corpos d’água e podem acabar interferindo nos resultados. Imagens com interferências desse tipo acabam sendo filtradas, explica o pesquisador.

Fonte: Jornal da UNESP

Vale entender como o mapa é gerado a partir dos índices. Para aplicar o NDWI, por exemplo, o pesquisador precisa baixar duas imagens: uma em verde (ρGREEN), medida de reflectância na faixa do espectro visível correspondente à cor verde, e outra em infravermelho (ρNIR), reflectância do infravermelho próximo. Depois, é aplicada a fórmula NDWI = (Verde – NIR)/(Verde + NIR). O resultado varia de 1 a -1, com os valores superiores a 0,5 indicando corpos d’água, enquanto os valores próximos de 0 indicam solo com pouca ou nenhuma presença de água. Já os valores negativos indicam a presença de vegetação ou solo seco.

Cada índice tem um cálculo próprio e um espectro de imagens necessário para obter seus resultados. “Todos os índices que utilizamos geraram resultados positivos em relação a detecção de águas superficiais. Mas para chegar a esses resultados fizemos ainda uma análise de precisão desses índices”, comenta Justino. Para isso, os cientistas utilizaram as imagens dos diversos anos e, manualmente, fixaram pontos marcando os corpos d’água. Os pesquisadores então aplicaram um software para cruzar os dados do trabalho com os pontos marcados no mapa e confirmaram os resultados. Todo o trabalho levou cerca de um ano para ser finalizado.

Além dos índices já mencionados para medir a variabilidade hídrica nos corpos d’água, os autores do trabalho também aplicaram três outras fórmulas para obter informações sobre a variabilidade espaço-temporal das chuvas no Pantanal. Para isso, foram utilizados o Índice de Umidade por Diferença Normalizada (NDMI); o Índice de Concentração de Precipitação (ICP); e o Índice de Anomalia Padronizada (SAI).

Enquanto o NDMI também usa imagens espectrais de satélite para analisar a variação da umidade no período, o ICP e o SAI são elaborados a partir de informações do Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station data (CHIRPS), um projeto da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, nos Estados Unidos, que fornece dados de precipitação de quase todo o planeta em séries temporais desde 1981.

Uso sustentável da água e do solo é tarefa prioritária 

Ao final, os quatro índices espectrais (NDWI, MNDWI, WRI e AWEI) mostraram uma redução na área superficial da água, nos últimos 40 anos, em intensidades que variam entre 69,6% e 81,4% a depender do índice. Em complemento aos índices que analisaram principalmente a variação da água superficial, os três índices focados na umidade e precipitação (NDMI, ICP e SAI) apontaram um declínio progressivo na vegetação e na umidade do solo, bem como um aumento na frequência e na intensidade dos eventos de seca no bioma, e maior irregularidade na distribuição de chuvas ao longo das últimas quatro décadas.

Segundo Justino, além das mudanças climáticas, que têm levado a uma diminuição dos níveis de precipitação e tornado as chuvas insuficientes para repor o ciclo hidrológico do Pantanal, existem outros fatores que intensificam a redução da área ocupada por corpos d’água, como as mudanças no uso do solo, com a construção de barragens ou a expansão da agricultura e da pecuária. “Uma área que antes seria alagável, hoje é uma área de pastagem”, relata.

A diminuição da água superficial causa impactos negativos em toda a biodiversidade do bioma, alerta o pesquisador, que usa a cadeia alimentar como exemplo. “Se a redução das águas superficiais afetar o peixe, ela irá afetar os animais que se alimentam do peixe. A onça é um animal que necessita da água para caçar e se alimentar. A redução dessa área com água também diminui seu habitat”, explica. O autor aborda ainda a questão dos ribeirinhos que vivem da pesca e do turismo ecológico e a situação de comunidades indígenas que ocupam as reservas pantaneiras. “As pessoas que vivem ali provavelmente não vão conseguir continuar ocupando aquele espaço porque não terão mais fontes de renda”, complementa.

Justinof ressalta a importância de haver, no Pantanal, um manejo sustentável do uso da água e da terra. No curto prazo, deve-se realizar um monitoramento contínuo para identificar as áreas mais afetadas e também a causa do problema. A agricultura, por exemplo, afeta o território ao reduzi-lo a plantações e causa ainda a contaminação das águas devido ao uso de defensivos agrícolas, tornando-se imprescindível uma mudança. Os ribeirinhos, sem fonte de renda, acabam ingressando em serviços prejudiciais ao bioma, como o desmatamento. “É preciso realizar uma gestão que diminua esses impactos e inclua essas comunidades na conservação do Pantanal, uma vez que, como moradores, eles são os principais afetados”.

Ao analisar quatro décadas de dados de imagens de satélite e do regime de precipitação, a conclusão é que o bioma, considerado a maior área úmida do planeta, vive um processo claro de perda de água que sustenta sua rica biodiversidade e realiza serviços ecossistêmicos essenciais. “O Pantanal está num ponto em que ele precisa urgentemente de ajuda. Se continuarmos nesse mesmo ritmo, infelizmente não teremos mais o bioma daqui 40 ou 50 anos”, afirma Justino.

Fonte: Jornal da UNESP | Carolina Fioratti

A fome além da privação de alimentos: vergonha, culpa e desamparo

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A fome além da privação de alimentos: vergonha, culpa e desamparo
Foto: Adobe Stock

A fome é uma forma de violência que não atinge apenas o corpo, mas também a identidade, a autoestima e a percepção de fazer parte da vida em sociedade

Ao investigar a experiência de pessoas em situação de insegurança alimentar no período em que o Brasil voltou ao Mapa da Fome, em 2022, e deixou a lista em 2024, uma pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP propõe que a fome seja compreendida para além da privação de alimentos. O estudo aponta que ela é resultado de processos históricos, políticos e sociais, e provoca impactos profundos na saúde psíquica de quem a vivencia.

Segundo a psicóloga e psicanalista Júlia Louzada, autora da dissertação de mestrado Fome: do tabu ao mal-estar, orientada pela professora Miriam Debieux Rosa, do Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política (PSOPOL) do IP, “a fome restringe a vida somente à busca pela sobrevivência. A ausência de comida funciona como um sintoma social que desperta sentimentos humanos que refletem como processamos o mundo, como angústia, vergonha, culpa e horror”.

A pesquisa articula conceitos da psicanálise de Sigmund Freud, como tabu e mal-estar, às reflexões de Josué de Castro, pioneiro nos estudos sobre a fome no Brasil. O trabalho também parte da experiência da pesquisadora como voluntária em cozinhas populares e solidárias de São Paulo durante a pandemia de covid-19, quando acompanhou de perto os efeitos da insegurança alimentar sobre a população.

Naquele período, cerca de 33,1 milhões de brasileiros viviam em situação de fome e aproximadamente 125 milhões enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). “Isso significa que, naquele momento, cerca de dois terços da população brasileira não tinham acesso regular a alimentos suficientes e de qualidade”, destaca Júlia.  Foi nessa época também que a “fila do osso” tornou-se um símbolo da fome e da crise econômica no Brasil, ganhando enorme repercussão nacional por volta de 2021 e 2022. Pessoas em situação de extrema vulnerabilidade aguardavam a distribuição de restos de ossos e carcaças bovinas descartados por açougues, frigoríficos e supermercados para garantir alguma forma de alimentação.

Vergonha e desesperança

Para a professora Miriam, sob a perspectiva da psicanálise, o sofrimento associado à fome é também sociopolítico, já que a insegurança alimentar resulta de formas de organização social que afetam diretamente a experiência dos indivíduos. “A fome representa uma forma de violência que não atinge apenas o corpo, mas também a identidade, a autoestima e a percepção de fazer parte da vida em sociedade”, argumenta.

Em sua opinião, a privação alimentar fragiliza os vínculos sociais, compromete a confiança no outro, reduz as perspectivas de futuro e limita a capacidade de projetar desejos para além da sobrevivência imediata. Também enfraquece o sentimento de pertencimento e reconhecimento do mundo, expondo quem vive essa realidade a diferentes formas de desamparo, sejam elas materiais, sociais ou subjetivas.

“A culpabilização e a desumanização das pessoas em situação de fome favorecem o silenciamento sobre essa experiência, o que dificulta que elas expressem suas demandas, afirmem seus desejos ou se reconheçam como sujeitos de direitos e de participação política”, explica Mirian.

Panela que alimenta o corpo e escuta que acolhe a dor

Durante o agravamento da pobreza e da insegurança alimentar na pandemia de covid-19, as cozinhas solidárias ativas em bairros de São Paulo consolidaram-se como espaços cruciais de acolhimento e resistência social. Para Júlia, a vivência que teve nesse espaço também redefiniu os parâmetros da metodologia científica de sua pesquisa, transformando o trabalho comunitário em um rico campo de observação participante.

Em vez de aplicar questionários tradicionais ou realizar entrevistas formais, ela se integrou diretamente à rotina de preparo e distribuição de refeições. “Não se podia ocupar simultaneamente a posição de observadora e de cozinheira”, relata Júlia.

No calor do fogão, o diálogo e a escuta qualificada ocorriam de forma orgânica e coletiva durante o trabalho manual. Essa imersão permitiu captar nuances da vulnerabilidade social que dificilmente seriam registradas em abordagens tradicionais de consultório. “Durante o preparo do alimento, a experiência da fome raramente era verbalizada de forma direta; manifestava-se de maneira sutil, entre silêncios, recusas e memórias fragmentadas dos frequentadores”, explica a pesquisadora.

Muito além do prato de comida

“Nas cozinhas, enquanto o fogo e as panelas garantiam comida para o sustento físico, os encontros e as conversas abriam espaço para que os frequentadores pudessem digerir e elaborar, juntos, o próprio sofrimento”, relata Júlia. Relatos espontâneos de quem buscava um prato de comida revelavam que o local entregava mais do que alimento: “A gente sente vergonha de falar que está com fome”, desabafou um frequentador. “Aqui a gente não vem só pegar o prato, a gente conversa, aprende, se fortalece”, destacou outro.

De acordo com a pesquisadora, a vergonha funciona como uma barreira psicológica que silencia quem passa fome. “Ao guardar a dor para si por constrangimento, o indivíduo não consegue dar nome ao que sente [processo que a psicanálise chama de simbolização] e, consequentemente, não consegue enxergar a fome como um problema social e político que exige direitos. Em vez de perceber a fome como o reflexo de uma crise estrutural, a pessoa tende a internalizar o sofrimento”, diz.

A vergonha se entrelaça com outros “sentimentos profundos que paralisam o sujeito, como a culpa individual pela própria miséria, a angústia constante da escassez e o horror de não ter o que comer”, relata Júlia.

Durante a distribuição das refeições, os voluntários ouviam relatos de mulheres vítimas de violência doméstica, jovens LGBTQIAPN+ que enfrentavam o isolamento e a discriminação, mães preocupadas com a falta de acesso dos filhos às aulas remotas e famílias divididas por conflitos em torno da vacinação e da política. “As pessoas não chegavam apenas com a necessidade de comer, mas também com demandas de escuta, acolhimento e reconhecimento”, observa a pesquisadora.

Políticas públicas

Segundo a psicóloga, a fome costuma ser tratada apenas como consequência da pobreza ou da falta de acesso aos alimentos, mas em sua opinião, essa abordagem é insuficiente para explicar seus impactos psíquicos em quem é atravessado por essa condição. A pesquisadora argumenta que a fome é produzida historicamente e está relacionada à desigualdade estrutural, ao racismo, à colonialidade, às desigualdades de gênero e a diferentes formas de violência e exclusão social. Nesse sentido, ela deixa de ser apenas um problema biológico para assumir também uma dimensão política e social.

A pesquisadora explica que políticas voltadas apenas ao combate emergencial da fome são insuficientes. Segundo ela, o Estado precisa enfrentar as desigualdades estruturais que produzem a insegurança alimentar e incorporar o sofrimento psíquico das pessoas atingidas às estratégias de cuidado e proteção social.

Para a orientadora da pesquisa, ao reunir teoria psicanalítica, observação participante e a experiência em cozinhas solidárias a pesquisa ampliou a compreensão da fome como um fenômeno que ultrapassa a privação de alimentos. “Reconhecer os impactos subjetivos da insegurança alimentar é fundamental para compreender a dimensão humana desse problema e contribuir para políticas públicas que articulem o direito à alimentação com ações de cuidado, acolhimento e proteção social”, diz.

A dissertação Fome: do tabu ao mal-estar, foi defendida no Instituto de Psicologia (IP) da USP e em breve estará disponível no site da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.

Mais informações: com Júlia Louzada (autora da pesquisa), e-mail julialouzada@usp.br; Miriam Debieux Rosa (orientadora), e-mail debieux@terra.com.br

Fonte: Jornal da USP | Ivanir Ferreira

Caxias do Sul e o desafio de transformar tradição industrial em inteligência territorial

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Do café à urna eletrônica: como uma cidade de 43 mil habitantes virou o Vale da Eletrônica do Brasil
Foto: Divulgação

Com selo Ouro em cidades inteligentes e reconhecimento federal em 2026, cidade gaúcha chega à Reunião Estratégica Regional do CSC, em agosto, na UCS, para discutir os próximos passos de sua transformação digital 

Poucas cidades no Sul do Brasil carregam uma identidade industrial tão consolidada quanto Caxias do Sul. Erguida sobre a herança da imigração italiana, a cidade gaúcha se tornou, ao longo de décadas, um dos maiores polos manufatureiros do país, com destaque para os setores metal-mecânico, automotivo, moveleiro e vitivinícola. Hoje, com um PIB da ordem de R$ 30 bilhões e um IDH de 0,782, considerado alto, Caxias figura como a segunda cidade mais inteligente do Rio Grande do Sul e ocupa a 44ª posição no Ranking Connected Smart Cities.

Esse desempenho não surgiu do dia para a noite. Em 2024, a cidade aparecia na 52ª colocação do mesmo ranking, com selo Bronze. Em setembro de 2025, o salto foi expressivo: Caxias conquistou o Selo Ouro em Cidades Inteligentes e o Selo Prata em Ecossistemas de Inovação, consolidando-se como referência nacional. O avanço reflete um movimento que vai além da modernização de serviços públicos. Envolve a articulação entre governo, universidade e setor produtivo, o modelo conhecido como hélice tripla, no qual a Universidade de Caxias do Sul (UCS) ocupa papel central na transformação do conhecimento acadêmico em soluções práticas para a indústria e para a gestão urbana.

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Na prática, essa articulação aparece em iniciativas como o Ilumina Caxias, projeto de telegestão da iluminação pública, e nos corredores inteligentes de mobilidade com semáforos adaptativos, pensados para uma cidade que ainda enfrenta os desafios urbanos típicos de polos industriais de grande porte. Somam-se a isso plataformas como o Caxias Digital, voltado à transparência e à abertura de dados públicos, e o aplicativo Caxias Urbano, que permite ao cidadão solicitar serviços e acompanhar a fiscalização em tempo real. Em 2026, o município foi selecionado pelo Ministério das Cidades para receber consultoria federal em transformação digital urbana, no âmbito do Projeto Cidades Mais Inteligentes, um reconhecimento que reforça a trajetória construída nos últimos anos.

É nesse contexto que se insere a Reunião Estratégica Regional do Connected Smart Cities, marcada para o dia 13 de agosto de 2026, das 13h30 às 18h, no Auditório do Bloco H da própria UCS. O encontro tem como tema “Indústria, Empreendedorismo e Desenvolvimento Sustentável” e reunirá lideranças públicas, empresariais e acadêmicas para discutir os próximos passos da cidade rumo à inteligência territorial. A escolha do local não é simbólica por acaso: sediar a reunião dentro da universidade reafirma, na prática, o papel que a instituição já exerce como articuladora entre conhecimento técnico e desenvolvimento urbano.

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O paralelo entre a trajetória industrial de Caxias do Sul e a pauta da reunião de agosto expõe uma questão de fundo que atravessa o debate sobre cidades inteligentes no Brasil: a de que a força econômica de um território, por si só, não garante equidade nem sustentabilidade. A cidade construiu sua reputação sobre uma base manufatureira robusta, mas o próprio conceito de inteligência urbana, tal como discutido por especialistas da área, insiste que tecnologia e infraestrutura só têm sentido quando convertidas em qualidade de vida, inclusão digital e participação cidadã. O risco, apontado por pesquisadores do tema, é que o foco tecnológico acentue assimetrias territoriais, beneficiando sobretudo as áreas centrais e deixando de lado bairros periféricos.

Nesse sentido, encontros como o de agosto funcionam como um espaço de planejamento coletivo, reunindo em um mesmo ambiente os atores que já vêm sustentando essa trajetória. Caxias do Sul demonstrou, em pouco mais de um ano, que é possível sair de uma posição intermediária no ranking nacional para alcançar reconhecimento como referência em cidades inteligentes. Com uma base industrial consolidada, uma universidade atuante e uma agenda de transformação digital em curso, a cidade reúne hoje os elementos para seguir avançando de forma consistente, e a reunião de agosto se soma a esse movimento como mais um passo dessa construção.

Para saber mais sobre a Reunião Estratégica Nacional em Caxias do Sul, clique aqui