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Alertas, tecnologias e comunicação social

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As Quatro Dimensões do Sucesso Territorial
Foto: wahyu_t

O avanço das tecnologias de monitoramento amplia a capacidade de resposta a desastres, mas ainda enfrenta desafios de alcance, confiança e conscientização da população.

Por: Stefani Capriolli e Jamile Sabatini Marques

Nos últimos anos, eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte da rotina de diversas regiões do Brasil e do mundo. Enchentes, deslizamentos, ondas de calor e secas prolongadas não somente evidenciam a intensificação das mudanças climáticas, mas também a vulnerabilidade das cidades diante desses fenômenos.

Diante desse cenário, a tecnologia tem assumido um papel cada vez mais estratégico: o de  comunicar riscos com rapidez e eficiência. Sistemas de alerta precoce, como os utilizados pela Defesa Civil Brasileira, representam hoje uma das ferramentas mais importantes para reduzir danos humanos e materiais. No Japão, por exemplo, alertas são enviados de forma quase instantânea para celulares, televisão, rádio e sistemas urbanos integrados, permitindo respostas rápidas da população. Já em São Paulo, o uso de alertas via SMS, sirenes e monitoramento meteorológico tem avançado nos últimos anos, embora ainda enfrente desafios relacionados à cobertura, adesão da população e conscientização sobre os riscos.

No entanto, apesar dos avanços tecnológicos, ainda existe um desafio central: de acordo com o último levantamento de 2026 da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), estima-se que somente cerca de 5% da população brasileira esteja cadastrada para receber alertas via SMS. Por esse motivo, o sistema de alertas da Defesa Civil no Brasil está em fase de expansão, com foco na cobertura nacional via tecnologia Cell Broadcast (notificação na tela do celular), com o objetivo de monitorar 2.095 municípios até o final de 2026, abrangendo áreas onde vivem cerca de 75% da população brasileira, com o propósito de garantir que a informação chegue a todos, no momento certo. Porém, somente emitir o alerta ainda é pouco, é preciso que eles sejam claros, acessíveis e que gerem ação. Em muitos casos, a população desconhece como reagir ou subestima o risco, o que reduz a efetividade desses sistemas.

Além disso, há desigualdades importantes no acesso à informação. Comunidades mais vulneráveis, que muitas vezes são as mais expostas a desastres, também são aquelas com menor acesso a tecnologias digitais ou canais oficiais de comunicação. Isso evidencia que a tecnologia, por si só, mostra o problema, mas não o resolve por completo; ela precisa estar integrada a políticas públicas, educação e planejamento urbano.

Outro ponto crítico é a confiança. Para que os alertas funcionem, a população precisa confiar nas instituições e nos sistemas de monitoramento. Alertas imprecisos ou excessivos podem gerar descrédito, enquanto a ausência deles em momentos críticos pode ter consequências graves.

Nesse contexto, investir em sistemas de alerta precoce é uma questão tecnológica, social e estratégica. É necessário fortalecer a integração entre ciência de dados, gestão pública e comunicação, garantindo que a informação seja produzida, e efetivamente utilizada.

Mais do que prever desastres, o grande desafio do nosso tempo é transformar dados em decisões e alertas em ações que salvam vidas. Entender os riscos de desastres molda a vida da sociedade como um todo; a resiliência sustentável começa nas comunidades bem informadas.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade da autora, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

É preciso integrar justiça social e conservação ecológica nas cidades costeiras, defende docente da Unesp

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É preciso integrar justiça social e conservação ecológica nas cidades costeiras, defende docente da Unesp
Foto: Wikipedia

Em artigo publicado na revista Nature Waters, Débora Martins de Freitas aponta caminhos para que a proteção de manguezais e a justiça habitacional possam se fortalecer mutuamente.

Docente da Unesp no câmpus do Litoral Paulista, em São Vicente, Débora Martins de Freitas publicou na última terça-feira (9) um artigo de opinião na revista Nature Waters em que discute os desafios de promover a proteção aos manguezais alinhada à promoção da justiça ambiental, com foco na oferta de habitação de qualidade para populações vulneráveis. O texto destaca políticas públicas em execução na cidade de Santos, no litoral paulista, e sugere abordagens que contemplem as realidades locais para o sucesso da iniciativa.

O artigo, intitulado Ecological conservation needs to be integrated with social justice in coastal cities, aponta que o Brasil possui a segunda maior área de manguezais do mundo, com mais de 8.000 km² de extensão, formações vegetais que oferecem um conjunto de serviços ecossistêmicos e frequentemente são capazes de capturar mais carbono que as florestas tropicais. No caso brasileiro, explica a professora da Unesp, esse ecossistema também possui grande importância socioambiental, principalmente em populações costeiras das regiões norte e nordeste, onde sustentam a pesca artesanal, que provê segurança alimentar e renda. Além disso, manguezais também oferecem proteção a áreas urbanizadas do litoral brasileiro.

Ciente da importância dos mangues, o governo federal lançou, em 2024, o Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil (ProManguezal). A iniciativa é apontada pela autora como um marco da política ambiental brasileira, uma vez que cria uma estrutura específica inédita, que posiciona esse ecossistema como uma prioridade estratégica de conservação.

Ao mesmo tempo, lembra Freitas, em um cenário de déficit habitacional que afeta milhões de famílias brasileiras, os manguezais têm se tornado, nas últimas décadas, áreas de estabelecimento de populações vulneráveis, fazendo com que a proteção ambiental prevista em políticas como o ProManguezal, e a promoção de moradia digna sejam frequentemente vistos como interesses conflitantes.

Diante dessas duas realidades, o texto argumenta que, quando planejadas de forma integrada, políticas ambientais e sociais podem fortalecer simultaneamente a conservação dos ecossistemas, a adaptação às mudanças climáticas e a qualidade de vida das populações costeiras. A professora usa como exemplo o caso do município de Santos, na Baixada Santista, em que a maior área de palafitas do Brasil, o Dique da Vila Gilda, vem sendo objeto de um projeto-piloto chamado Parque Palafitas, que visa transformar residências precárias em as moradias com saneamento básico e estruturas acessíveis e seguras.

Na perspectiva da docente, que também é vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade de Ecossistemas Costeiros da Unesp, Santos tem neste projeto a oportunidade de demonstrar como a conservação ecológica e a justiça social podem se reforçar mutuamente. No entanto, para que iniciativas como o Parque Palafitas tenham sucesso, algumas medidas devem estar no foco dos gestores.

Entre as orientações citadas pela professora no artigo estão a regularização fundiária associada à conservação ambiental, o desenvolvimento de soluções habitacionais compatíveis com a dinâmica ecológica dos manguezais, o fortalecimento da participação das comunidades nos processos decisórios, o acesso a mecanismos de financiamento climático e o monitoramento contínuo dos resultados ambientais e sociais das intervenções.

Ainda que o texto parta de uma análise da realidade brasileira, a professora do câmpus do Litoral Paulista destaca que a reflexão possui relevância internacional, já que o contexto de expansão urbana e vulnerabilidade social associados à pressão ambiental observado em Santos se repete em outras regiões, desde cidades deltáicas do Sudeste Asiático até assentamentos costeiros da África Ocidenta. “Nesse contexto, experiências desenvolvidas no Brasil podem oferecer contribuições importantes para o avanço de estratégias globais voltadas à construção de cidades mais resilientes, inclusivas e sustentáveis”, afirma Freitas.

Por fim, a publicação reforça a importância da pesquisa científica na formulação de políticas públicas e destaca o papel das universidades na produção de conhecimento capaz de apoiar soluções inovadoras para os desafios socioambientais contemporâneos.

Fonte: Jornal da Unesp

UFRJ desenvolve centros inteligentes para melhorar a mobilidade urbana

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UFRJ desenvolve centros inteligentes para melhorar a mobilidade urbana
Foto: Reprodução Prefeitura de Bogotá

Objetivo é encontrar soluções para os desafios do trânsito

Um estudo desenvolvido no Programa de Engenharia de Transportes da Coppe, da UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro, está criando centros inteligentes para melhorar a mobilidade urbana no estado. A proposta é encontrar soluções para os desafios do trânsito, a partir da escuta da população e da coleta de dados.

Os números justificam a urgência do debate. Segundo o DataSUS, o Brasil registrou mais de 37 mil mortes no trânsito em 2024, o pior patamar em oito anos e um avanço de 6,5% sobre o ano anterior. O cenário é ainda mais crítico para os motociclistas, que representam 40% dessas vítimas.

Na capital fluminense, os impactos também são expressivos. Sete em cada dez atendimentos por trauma envolvem acidentes com motos.

Só entre janeiro e abril, a rede municipal realizou mais de 10 mil atendimentos. Os acidentes com veículos de micromobilidade, como patinetes elétricos e ciclomotores, também tiveram aumento expressivo, de 700% em um ano.

Para o pesquisador da Coppe/UFRJ Matheus Henrique de Sousa Oliveira, melhorar a mobilidade urbana passa por decisões mais eficientes e pelo engajamento da população…

“Que a participação se realize enquanto mudança para os projetos, que sejam considerados enquanto ferramentas de tomada de decisão estratégica e tática dentro de projetos de transporte. A gente precisa de pessoas disponíveis para poder ouvir, participar, pessoas corajosas, capazes de entender as demandas do outro, mesmo que elas sejam distintas, e pessoas abertas, capazes de considerar que a visão dela não é a única”.

O projeto, chamado “Mob 4.0”, propõe a criação de laboratórios vivos de inovação, com foco no planejamento inteligente das cidades. A iniciativa já foi implantada em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, e em Cabo Frio, na Região dos Lagos, com apoio da Faperj.

Entre as soluções defendidas estão a reestruturação do sistema (com prioridade ao transporte coletivo), expansão de ciclovias, criação de espaços seguros para pedestres e até a adoção de tarifa zero no transporte público.

Fonte: Agência Brasil

Patrimônio Inteligente: quando a memória se torna protagonista nas cidades do futuro

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Criciúma sediará encontro nacional sobre cidades inteligentes e inovação na gestão pública
Foto: Divulgação

Tecnologia, participação cidadã e preservação histórica transformam o patrimônio cultural em um dos pilares das Smart Cities contemporâneas

Durante muito tempo, o conceito de cidades inteligentes esteve associado principalmente à tecnologia, à conectividade e à eficiência dos serviços urbanos. Sensores, inteligência artificial, internet das coisas e mobilidade inteligente passaram a ocupar o centro das discussões sobre o futuro urbano. No entanto, à medida que as cidades evoluem, uma nova compreensão ganha força entre especialistas, gestores públicos e urbanistas: uma cidade só pode ser verdadeiramente inteligente quando é capaz de preservar e valorizar sua própria história.

Nesse contexto, surge o conceito de Patrimônio Inteligente, uma abordagem que integra tecnologias digitais à preservação do patrimônio cultural, transformando monumentos, edifícios históricos, espaços públicos e manifestações culturais em ativos vivos de cidadania, educação e desenvolvimento sustentável. Mais do que proteger construções antigas, trata-se de conectar pessoas às suas raízes, fortalecendo identidades locais e promovendo um sentimento de pertencimento cada vez mais necessário em sociedades urbanas em constante transformação.

Leia mais: A concessão pode estar a serviço da preservação do patrimônio público?

A discussão ganha relevância em um momento em que cidades ao redor do mundo buscam equilibrar modernização e preservação. Durante décadas, o desenvolvimento urbano foi frequentemente associado à substituição do antigo pelo novo. Hoje, especialistas alertam para os riscos dessa lógica. Experiências internacionais de cidades planejadas integralmente a partir de soluções tecnológicas, como Masdar City, nos Emirados Árabes Unidos, demonstraram que infraestrutura avançada, por si só, não garante vitalidade urbana. Sem memória, diversidade social e identidade cultural, a cidade corre o risco de se tornar apenas um conjunto eficiente de sistemas, mas desconectado da experiência humana.

A tendência contemporânea aponta para outro caminho: utilizar a tecnologia para fortalecer o patrimônio existente e ampliar o acesso à cultura. É nesse cenário que o conceito de Smart Heritage, ou Patrimônio Inteligente, se consolida. Sua premissa é simples e poderosa: transformar o patrimônio em uma interface de diálogo entre cidadãos, visitantes e instituições por meio das Tecnologias de Informação e Comunicação.

Essa transformação acontece através de diferentes ferramentas. Dados abertos permitem que informações culturais sejam compartilhadas de forma ampla e gratuita. Recursos como realidade aumentada, gamificação e plataformas digitais criam experiências mais acessíveis e envolventes. Já mecanismos colaborativos permitem que a população participe ativamente da construção e atualização das narrativas históricas, tornando-se coautora da memória coletiva.

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Um dos exemplos mais emblemáticos dessa abordagem no Brasil é o projeto Mobile City, desenvolvido em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. A iniciativa transformou o município em um verdadeiro museu a céu aberto por meio da instalação de placas com QR Codes em monumentos, praças e edificações históricas. Ao apontar a câmera do celular para os códigos, moradores e turistas têm acesso imediato a informações históricas, arquitetônicas e culturais sobre cada local.

O diferencial do projeto está na democratização do conhecimento. Ao abandonar o jargão técnico e traduzir conteúdos especializados para uma linguagem acessível, a iniciativa aproxima a população de sua própria história. O cidadão deixa de ser apenas um observador e passa a compreender o significado dos espaços que frequenta diariamente. Esse processo fortalece a valorização do patrimônio e contribui para sua preservação de forma espontânea e contínua.

A experiência também evidencia um aspecto fundamental das cidades inteligentes: a participação social. A preservação não depende apenas de leis ou tombamentos. Ela se fortalece quando a comunidade reconhece valor nos espaços que compõem sua trajetória coletiva. Nesse sentido, ganham destaque os chamados inventários afetivos, que registram não apenas os bens oficialmente reconhecidos, mas também os lugares, histórias e memórias que fazem parte da identidade emocional de uma cidade.

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Além dos benefícios culturais, o patrimônio inteligente também gera impactos econômicos e sociais relevantes. A valorização dos centros históricos impulsiona o turismo sustentável, fortalece a economia criativa e estimula novas oportunidades de negócios. Ferramentas como o Building Information Modeling (BIM), por exemplo, permitem a gestão eficiente da manutenção de edifícios históricos, reduzindo custos e ampliando a longevidade das construções. Ao mesmo tempo, tecnologias digitais transformam monumentos e espaços culturais em ambientes educativos permanentes, aproximando diferentes gerações da história local.

Essa visão está alinhada às diretrizes do Estatuto da Cidade e aos princípios internacionais de desenvolvimento sustentável, que reconhecem o patrimônio cultural como elemento essencial para a construção de cidades mais inclusivas, resilientes e humanas. Afinal, a inteligência urbana não se mede apenas pela capacidade de processar dados, mas também pela habilidade de preservar memórias, fortalecer vínculos comunitários e transmitir conhecimento entre gerações.

Em um mundo cada vez mais conectado, o futuro das cidades depende da capacidade de integrar inovação e identidade. O patrimônio inteligente demonstra que tecnologia e memória não são forças opostas, mas complementares. Quando utilizadas de forma estratégica, as ferramentas digitais transformam o patrimônio em uma plataforma de cidadania ativa, aprendizado contínuo e desenvolvimento sustentável.

Essa reflexão estará no centro da Reunião Estratégica Regional Connected Smart Cities, que acontece em São Luís, capital do Maranhão. Reconhecida por seu rico patrimônio histórico, sua identidade cultural singular e pelos desafios urbanos típicos das grandes cidades costeiras, São Luís vem avançando em agendas de inovação e sustentabilidade sem abrir mão de sua memória e de sua herança cultural. Com o tema “Patrimônio, Cultura e Desenvolvimento Sustentável”, o encontro reunirá gestores públicos, especialistas, lideranças e representantes da sociedade para debater caminhos capazes de conectar passado e futuro na construção de cidades mais inteligentes e humanas. O evento será realizado no Parque Tecnológico – Complexo do Trapiche Santo Ângelo, Espaço Cultural Humberto de Maracanã, localizado na Avenida Vitorino Freire, s/n, Centro, em São Luís (MA), no dia 25 de junho de 2026, das 13h30 às 18h, consolidando-se como uma oportunidade para aprofundar o diálogo sobre o papel estratégico do patrimônio cultural no desenvolvimento das cidades do século XXI.

Para saber mais informações sobre a Reunião Estratégica Regional CSC em São Luís, clique aqui.

Entenda como funciona a IA que hackeia sistemas e por que preocupa bancos

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As Quatro Dimensões do Sucesso Territorial
Foto: wahyu_t

Novo modelo Claude Mythos, da Anthropic, superou hackers humanos em testes e colocou bancos e governos em alerta global contra ameaças cibernéticas

O Claude Mythos, modelo de inteligência artificial revelado pela Anthropic em abril de 2026, provocou um reboliço e acendeu alertas no setor financeiro e em agências reguladoras do mundo inteiro. É que a fabricante afirma que a nova ferramenta, ainda em versão preview, supera humanos em ataques de hacking.

A tecnologia do Mythos opera, na prática, como um verdadeiro “hacker automatizado”, capaz de analisar códigos, detectar falhas e sugerir formas de exploração. Mais do que executar o que apenas especialistas faziam, a nova ferramenta faz isso mais rápido e em uma escala inédita.

De acordo com a Anthropic, os chamados “red teams” — grupos especializados em testar sistemas como se fossem invasores cibernéticos reais — conseguiram localizar bugs escondidos em códigos com décadas de existência e explorá-los com facilidade. Uma dessas vulnerabilidades permanecia ativa há 27 anos sem ter sido detectada.

O “balanço” divulgado pela empresa impressiona: foram identificadas mais de 10 mil vulnerabilidades de alta ou crítica gravidade, incluindo mais de 6 mil em projetos de código aberto. O modelo também encontrou falhas em todos os principais sistemas operacionais e navegadores web do mercado.

Como o Mythos chegou na frente — e as capacidades que ele tem serão eventualmente replicadas por outros modelos —, a Anthropic decidiu conceder acesso da ferramenta para 12 big techs (entre as quais AWS, Apple, Microsoft, Google e Nvidia), mais de 40 fabricantes de softwares de infraestrutura crítica e 150 instituições em setores como energia, água, saúde e comunicações.

Por que o Claude Mythos preocupa bancos e reguladores financeiros?

Em abril, o tema foi pauta de uma reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington. Em entrevista à BBC, o ministro das Finanças do Canadá, François-Philippe Champagne, declarou que o assunto merecia a atenção de todos os ministros das Finanças do mundo.

A preocupação se justifica: segundo especialistas e o próprio FMI, o setor financeiro é um dos mais expostos a esse tipo de risco. Bancos operam sistemas complexos e, muitas vezes, antigos, que podem conter falhas difíceis de detectar manualmente. Com os avanços acelerados da IA, a janela para corrigi-las se estreita cada vez mais.

Antes do Mythos, encontrar brechas em um sistema complexo exigia um hacker humano altamente especializado, trabalhando durante horas ou dias — uma tarefa limitada por tempo, dinheiro e talento. Entretanto, a nova IA executa o mesmo trabalho em minutos e consegue operar em paralelo em vários sistemas ao mesmo tempo.

Além disso, bancos, fintechs, seguradoras e governos não operam cada um em sua própria infraestrutura isolada. Todos usam os mesmos provedores de nuvem (AWS, Azure, Google Cloud), os mesmos sistemas operacionais, as mesmas bibliotecas de código aberto. Portanto, uma vulnerabilidade nessas camadas compartilhadas afeta centenas de instituições ao mesmo tempo.

O Claude Mythos é realmente uma ameaça real à cibersegurança?

Especialistas independentes — que ainda não puderam testar o modelo por conta própria — têm dúvidas quanto à magnitude da ameaça e sobre o quanto o alarmismo serve também a uma estratégia de marketing muito bem construída.

Entre esses céticos, o Instituto de Segurança em IA do Reino Unido concluiu que o Mythos é poderoso contra sistemas mal protegidos — ou seja, infraestruturas velhas, sem atualização, com vulnerabilidades conhecidas e não corrigidas. Mas a organização reconhece que não conseguiu confirmar se a IA seria capaz de atacar sistemas bem protegidos.

Em outras palavras, os experts britânicos ponderam que, antes de entrar em pânico, as pessoas devem aguardar evidências independentes, uma vez que é do interesse comercial da Anthropic, por meio do Project Glasswing, usar o Mythos para se defender dele próprio. A estratégia é conhecida no setor de tecnologia como problema-solução proprietário.

Contudo, o fato de haver um interesse comercial óbvio não significa que a ameaça seja falsa. As duas hipóteses podem ser verdadeiras: o Mythos pode de fato ser perigoso e a Anthropic pode estar capitalizando sobre esse perigo de forma calculada.

O problema é que, no setor financeiro, toda aposta tem uma fatura — e ela raramente chega para quem a propôs.

Fonte: CNN Brasil

Governo Federal sanciona Marco Legal do Transporte Público e moderniza regras da mobilidade urbana no país

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Comissão aprova diretriz de mobilidade urbana para profissionais da educação básica e superior
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasi

Nova legislação fortalece o transporte coletivo, amplia transparência, aprimora contratos e cria bases para sistemas mais sustentáveis e tarifas mais equilibradas

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou o Projeto de Lei nº 3.278/2021, que institui o novo Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano no Brasil. Publicada em edição extra do Diário Oficial da União, neste domingo (14), a medida atualiza o ambiente regulatório da mobilidade urbana, fortalece instrumentos de financiamento e aprimora a organização dos sistemas de transporte coletivo em estados e municípios.

A nova legislação enfrenta um dos principais desafios históricos do setor: a elevada dependência da tarifa paga pelo passageiro como principal fonte de sustentação dos sistemas de transporte. O objetivo é criar condições para serviços mais eficientes, financeiramente sustentáveis e alinhados às diferentes realidades urbanas do país.

O texto também aperfeiçoa a Política Nacional de Mobilidade Urbana e promove ajustes no Estatuto da Cidade, consolidando instrumentos voltados ao planejamento, à gestão e à melhoria do transporte coletivo.

O transporte público é um direito social assegurado pela Constituição e um serviço essencial para milhões de brasileiros. Em um cenário de aumento dos custos operacionais, redução do número de passageiros em muitas cidades e pressão crescente sobre os sistemas locais, o novo marco busca oferecer maior previsibilidade para gestores públicos, mais segurança jurídica e melhores condições para qualificar o atendimento à população.

NOVO MODELO DE FINANCIAMENTO

Entre os principais avanços da legislação está a modernização das formas de financiamento do transporte público coletivo.

Na prática, o novo marco reconhece que o custo do sistema não pode recair exclusivamente sobre o usuário que paga a passagem. A lei estimula a diversificação das fontes de custeio e permite maior clareza entre o valor efetivamente pago pelo passageiro, os custos operacionais e os instrumentos de financiamento utilizados pelo poder público.

A legislação autoriza, por exemplo, o uso de mecanismos urbanísticos e financeiros relacionados à valorização imobiliária decorrente de investimentos públicos, além de receitas acessórias e modelos de subsídio voltados à modicidade tarifária — princípio que busca preservar tarifas mais acessíveis para a população.

O texto também estabelece, de forma expressa, que serviços privados de transporte individual sob demanda não poderão receber subsídios destinados ao transporte público coletivo.

MAIS TRANSPARÊNCIA E MELHOR PRESTAÇÃO DO SERVIÇO

O novo marco amplia exigências de transparência na operação dos sistemas de transporte coletivo.

Dados operacionais e financeiros passam a ter regras mais claras de publicidade, fortalecendo a fiscalização pelos órgãos de controle e ampliando a capacidade de acompanhamento por parte do poder público e da sociedade.

Indicadores de desempenho e parâmetros mínimos de qualidade também ganham maior centralidade nos contratos e regulamentos locais, incluindo regularidade das linhas, pontualidade, acessibilidade, segurança, integração entre modais, conforto dos usuários e redução de impactos ambientais.

A legislação ainda permite maior sofisticação dos contratos de concessão, com mecanismos de metas, produtividade e melhoria contínua dos serviços.

Outro avanço é a vedação de instrumentos precários para organização do transporte coletivo básico, reforçando a necessidade de planejamento, licitação e maior estabilidade regulatória para usuários, municípios e operadores.

VETOS PRESERVAM EQUILÍBRIO FISCAL, AUTONOMIA FEDERATIVA E POLÍTICAS SOCIAIS

A sanção ocorreu com vetos pontuais voltados à preservação do interesse público, da responsabilidade fiscal e da autonomia dos entes federativos.

Entre os dispositivos vetados estão trechos que poderiam gerar obrigações financeiras sem previsão de custeio para estados e municípios, especialmente em relação à implementação de gratuidades e descontos tarifários.

A avaliação técnica do Governo Federal apontou risco de pressão excessiva sobre os orçamentos locais, sobretudo em municípios de pequeno e médio porte, o que poderia comprometer a manutenção de benefícios já consolidados em diversas cidades, como gratuidades para idosos, estudantes e pessoas com deficiência.

Os vetos também evitaram a criação de obrigações automáticas para a União no financiamento de tarifas locais e impediram interferências em competências estaduais e municipais, como a imposição legal de isenções de pedágio em rodovias sob gestão dos entes federativos.

Na área ambiental, foi vetada a possibilidade de utilização de recursos vinculados a compensações ambientais para financiar infraestrutura de mobilidade urbana, preservando a destinação legal desses instrumentos para ações de proteção ambiental e conservação.

Também foram excluídos dispositivos que poderiam ampliar passivos indenizatórios para o poder público em contratos de concessão ou criar novas estruturas administrativas permanentes sem estimativa de impacto orçamentário.

Os vetos adotados também não inviabilizam que, no futuro, União, Estados, Distrito Federal e Municípios avancem no debate sobre novos modelos de financiamento do transporte público urbano. Permanecem abertas discussões sobre alternativas para ampliação da modicidade tarifária, inclusive a possibilidade de implementação da tarifa zero, bem como estudos de cenários para eventual concretização de subsídios federais aos entes federativos, caso haja condições fiscais e orçamentárias para tanto.

O texto tampouco impede a futura apresentação, pelo Poder Executivo, de proposta legislativa específica que estabeleça, de forma mais concreta, obrigações da União no tocante ao transporte urbano coletivo de passageiros, inclusive quanto à possibilidade de subsídios, nos termos previstos no projeto.

TRANSPORTE COLETIVO MAIS FORTE E CIDADES MAIS PREPARADAS

O novo Marco Legal do Transporte Público Coletivo estabelece bases mais modernas para a organização dos sistemas urbanos de mobilidade e fortalece instrumentos de planejamento, regulação e transparência.
A expectativa é ampliar a capacidade de resposta dos municípios diante dos desafios enfrentados pelo setor, estimular soluções mais sustentáveis e contribuir para serviços de maior qualidade, eficiência e previsibilidade para a população.

Com vigência prevista para um ano após a publicação, tem-se prazo adequado para que os entes federados se adequem às diretrizes da nova lei, que devem ser implementadas respeitando as competências constitucionais de estados e municípios e as particularidades de cada rede local de transporte.

Fonte: Casa Civil

A charrette ou a arte de cocriar sem ninguém

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A charrette ou a arte de cocriar sem ninguém
Foto: Júlio César Santos/TV Globo

Como o mercado imobiliário aprendeu a parecer participativo e por que isso quase nunca dá certo.

Tenho os dois pés atrás sempre que ouço a palavra “novo” colada em qualquer coisa. Novo morar, novo trabalhar, novo viver, nova forma de fazer cidade: quase sempre, atrás do prefixo, não tem nada de novo, tem remarketing de conceito velho com roupa nova. E talvez nenhum exemplo seja tão eloquente quanto o Novo Urbanismo e sua herança predileta, aquela que o mercado imobiliário brasileiro adotou com entusiasmo de quem encontrou um atalho: a charrette.

Comecemos pelo começo, porque a origem já explica quase tudo. A charrette é palavra francesa, significa carroça, da mesma forma que usamos charrete em português. Na École des Beaux-Arts de Paris, no século XIX, conta-se que uma carroça circulava para recolher os trabalhos finais dos estudantes de arquitetura; como o prazo não esperava, alguns alunos ainda faziam os últimos ajustes enquanto os desenhos eram levados. Daí a associação entre charrette e esse estado muito conhecido dos estudantes de arquitetura pelo mundo: trabalhar no limite, contra o relógio, tentando salvar uma ideia antes que o prazo a atropele ou a charrete passe.

O Novo Urbanismo não inventou a charrette, mas ajudou a transformá-la em método de projeto; a partir dos anos 1980, ela foi incorporada ao repertório de escritórios e urbanistas ligados ao movimento, especialmente no ambiente norte-americano, como uma forma intensiva de reunir técnicos, decisores, interessados e, em tese, comunidade para produzir uma visão de projeto em poucos dias. O problema está justamente nesse “em tese”, porque a participação prometida pela charrette raramente equivale a um processo real de engajamento, desses que começam antes do workshop, sobrevivem depois dele e não cabem no teatro metodológico de quatro dias. 

O problema nunca foi a cocriação

Não sou contra criação coletiva, seria absurdo, eu vivo de processos cocriativos. O problema não está no conceito, está na forma, e está no que essa forma decide deixar de fora.

E a charrette, pelo menos como feita na maioria das vezes no Brasil, deixa quase tudo de fora. Ela se concentra na expertise e na visão de mundo dos participantes, que não raro são profissionais brilhantes, premiados, com portfólio de dar inveja, e que nunca pisaram no lugar em questão antes do evento, nem pisarão depois. O resultado pode até sair impecável do ponto de vista formal, daqueles que rendem desenhos bonitos, mas dificilmente será autêntico, e capaz de gerar qualquer senso de pertencimento ou transformação, afinal pertencimento não se desenha em poucos dias, ele se constrói, e quem o constrói não é o urbanista ou consultor de grife, é quem dá vida ao lugar.

Aqui mora a parte mais incômoda, a que o mercado prefere não encarar: palavras como colaboração e cocriação viraram moeda corrente no mercado, ainda mais nesta era em que tudo precisa ter selo de ESG, só que colaborar de verdade dá um trabalho danado, e esse trabalho não cabe num cronograma de fim de semana, não cabe em Kronos, no tempo do relógio.

A charrette se tornou a forma rápida, fácil e barata de simular cocriação e de aplacar a consciência de governança de quem precisa dizer que ouviu a comunidade, ela entrega a aparência da “escuta”(cujo termo por si só já é carregado de problemas) sem o ônus de escutar, no que envolve a comunidade, é, muitas vezes, participação performática com cara de método.

Quatro dias contra o tempo do lugar

Tenho insistido, em quase tudo que escrevo, que as cidades vivem tempos múltiplos e sobrepostos. O tempo do cotidiano de quem habita, o tempo das gerações que vão herdar o que construímos, o tempo lento da identidade que se acumula em décadas de prática, memória e afeto. O teólogo e filósofo queniano John Mbiti, ao discutir concepções africanas de tempo, distingue o Sasa, o tempo vivido e imediato, do Zamani, o tempo profundo da ancestralidade; os gregos separavam Kronos, o relógio, de Kairós, a hora pertinente. A charrette, com sua estética de competição contra o cronômetro, opera num único tempo, e logo no mais pobre de todos: o tempo da urgência, o tempo do prazo de entrega, o tempo da charrete que passa recolhendo projetos.

Comprimir num evento de poucos dias a leitura de um lugar que levou gerações para se tornar o que é não é eficiência; o que se ganha em velocidade se perde, integralmente, em profundidade, e o que se perde em profundidade reaparece depois, quase sempre, na forma de empreendimento genérico, de projeto que poderia estar em qualquer cidade e por isso não pertence a nenhuma, ou ainda pior, de projeto lindo na maquete, mas morto na rua.

Não é coincidência que o exemplo mais celebrado do Novo Urbanismo reflita exatamente isso. Seaside, na Flórida, é a cidade onde filmaram o Truman Show, literalmente, confesso que usei aquela cidade cenográfica como exemplo de tudo que há de torto no urbanismo por anos, antes de descobrir que se tratava de um projeto endeusado do próprio movimento. Achei sempre que era cenário, e o problema é que era mesmo. 

A velhice do que se diz novidade

A charrette é apenas o método, mas o método denuncia a epistemologia. O Novo Urbanismo, ao tentar superar o urbanismo modernista, herdou dele justamente o pior: a crença de que as pessoas devem se adequar a uma forma decidida de antemão pelos detentores do conhecimento. O movimento fala em comunidade, mas a prática que chegou ao mercado muitas vezes reduziu comunidade a cenário, referência ou justificativa posterior, fala-se em vida urbana, mas o processo frequentemente se organiza em torno da forma, da norma e da regulação rígida, sufocando o orgânico, o inesperado, o improviso, exatamente onde a vida da cidade acontece.

No Brasil, pelo menos nas experiências que acompanhei de perto, e das quais deixei de participar justamente por isso, a maioria esmagadora das charrettes é conduzida por um grupo de técnicos diretamente envolvidos no projeto, o que produz uma pergunta simples e bastante constrangedora: se um bom lugar é um lugar com significado, e o significado é dado por quem fez e fará aquele lugar, o que um bando de técnicos tem a ver com isso? A resposta mais honesta e, ao mesmo tempo, a mais dura é: nada, se esses técnicos estiverem ali para substituir o engajamento. A coisa só muda mesmo de figura quando o grupo técnico aceita que seu papel é servir ao processo, e não o sequestrar. É nesse ponto que o Novo Urbanismo se revela o velho urbanismo modernista que apenas aprendeu a dizer “colaboração” sem ter muita ideia do que a palavra significa, especialmente no que se refere a sua abrangência.

Há algo de profundamente colonial nessa importação acrítica. Adotamos a técnica nascida de uma escola de arte europeia, processada por um movimento norte-americano, e a aplicamos no Brasil como se fosse neutra, como se um método carregasse a verdade independentemente do chão onde pisa, mas todo método é uma forma de olhar, e olhar de fora, de cima, com pressa, é precisamente o olhar que produz lugares que darão um trabalho enorme, posterior, para construir um senso de pertencimento que poderia, e deveria, ser inato.

O que fazer em vez disso

A alternativa não é sofisticada, é só trabalhosa, e talvez seja por isso que reverbere tão pouco. Ela passa, necessariamente, por compreender o lugar antes de desenhar qualquer coisa, e compreender o lugar significa envolver as pessoas do lugar desde o primeiro minuto.

Começa por uma imersão profunda, com técnicas de pesquisa que passam pela etnografia em suas várias formas, para entender a dinâmica, as culturas e as pessoas que formam aquele lugar. Evolui para um processo de colaboração com a comunidade, o levantamento honesto de problemas, anseios e sonhos, e aqui vale uma observação que faz toda a diferença: envolva a equipe de projeto nessa fase, deixe que os técnicos escutem antes de propor, para só então avançar para a cocriação de soluções, e nessa etapa o time de projeto deveria assumir o papel de espectador atento, porque a última coisa de que esse momento precisa é de direcionamento técnico contaminando o que a comunidade tem a dizer. Só depois de todo esse material levantado e depurado, com matéria suficiente para que o projeto não nasça órfão de lugar, é que faz sentido sentar para um workshop de projeto, agora com o reconhecimento da comunidade, e às vezes até do mercado, sobre a seriedade do esforço.

Repare que nada disso cabe em vinte e quatro horas, e nem em uma semana. O engajamento comunitário tem sua própria curva, seu próprio tempo de maturação, e os resultados costumam ser de outra natureza, porque vão muito além de qualquer insight qualificado que o urbanista mais genial do mundo produziria sozinho. A maior contribuição desse processo não é o projeto, é a rede de defensores que ele cria desde o momento zero, a comunidade que se reconhece naquilo e passa a sustentar a ideia. É isso que dá autenticidade ao processo e, no fim, sucesso ao empreendimento, porque se você teve o trabalho de fazer tudo certo, a última coisa que vai querer é um projeto genérico.

No fim das contas, a pergunta que importa não é qual método adotar, é por que se aprisionar a um só quando o que está em jogo é a vida das pessoas na cidade. Mais do que escolher entre esta ou aquela corrente, é preciso ter a inteligência de absorver o que cada uma tem de útil e descartar o que cada uma tem de dogma. A charrette pode até ser parte de um processo robusto, desde que chegue no fim e não no começo, o que ela não pode é continuar sendo o que se tornou majoritariamente: um atalho que permite ao mercado parecer que ouviu, sem nunca ter engajado de fato.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

Entraves ambientais travam projetos bilionários de infraestrutura

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Entraves ambientais travam projetos bilionários de infraestrutura
Foto: Divulgação/Ecovias Leste Paulista

Ferrogrão, BR-319, e hidrovias enfrentam disputas judiciais, resistência de comunidades indígenas e dificuldades no licenciamento ambiental

Projetos considerados estratégicos para a infraestrutura e logística brasileira enfrentam atrasos por impasses ambientais, disputas judiciais e dificuldades de diálogo com populações indígenas e comunidades tradicionais.

Entre os empreendimentos afetados estão a Ferrogrão, a Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste), a repavimentação da BR-319, a concessão da Hidrovia do Tapajós e a derrocagem do Pedral do Lourenço.

Uma das principais reclamações do setor de infraestrutura é a demora para obtenção de licenças ambientais. Procurado pela reportagem, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) afirmou que adota medidas para garantir eficiência nos processos, mas destacou que “a celeridade dos processos está diretamente associada às questões afetas à qualidade dos projetos, judiciais e obrigações dos empreendedores”.

Mesmo enfrentando obstáculos relevantes para tirar as obras do papel, em maio, o governo federal conseguiu avançar em alguns desses projetos. No STF (Supremo Tribunal Federal), houve o reconhecimento da constitucionalidade da lei que mudou os limites do Parque Nacional do Jamanxim, no Pará, para viabilizar a construção da Ferrogrão.

Nesse sentido, o Ministério dos Transportes também conseguiu finalizar a licitação dos quatro lotes para repavimentar o “trecho do meio” da BR-319 e afirmou, naquele momento, que esses contratos seriam homologados até o final da primeira semana de junho.

Procurada, ao final deste prazo, a pasta afirmou que “até junho todas as licitações estarão concluídas e com ordem de serviço”. O primeiro lote já foi homologado e a ordem de serviço foi assinada no final de maio com a presença do presidente Lula.

De acordo com o ministério, o segundo lote terá a ordem de serviço assinada na próxima semana, enquanto os contratos dos demais trechos serão firmados até 15 de junho. Com isso, a expectativa é que todos os quatro lotes do “trecho do meio” estejam em obras até o final deste mês.

Protestos

Outro impasse recente envolveu a concessão da Hidrovia do Tapajós. Durante a COP30, o governo federal se comprometeu com lideranças indígenas a realizar consultas previstas seguindo as orientações da Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que determina consultas livres, prévias e informadas em projetos que afetem populações tradicionais.

Segundo apurou a CNN, essas consultas poderiam chegar a um custo de R$ 30 milhões aos cofres públicos, o que poderia inviabilizar o projeto. O valor elevado está relacionado à necessidade de contratar organizações especializadas para conduzir as oitivas, com domínio da língua e dos costumes das comunidades indígenas afetadas.

Porém, esse acordo realizado na COP30 gerou conflitos após indígenas associarem serviços de manutenção de dragagem do rio ao processo de concessão da hidrovia. Esse movimento causou protestos, que chegaram a atingir um terminal da Cargill no Pará.

Após a repercussão, o governo decidiu revogar o decreto do PPI (Programa de Parcerias de Investimentos) que permitia a concessão da hidrovia do Tapajós e outros dois projetos hidroviários (Rio Madeira e Rio Tocantins). Agentes do setor avaliam que a decisão gerou insegurança regulatória e pode atrasar o cronograma das concessões.

Procurado, o Ministério de Portos e Aeroportos afirmou que os estudos técnicos seguem em andamento e que a primeira fase deve ser concluída no segundo semestre de 2026.

A pasta também informou que mantém articulação com o Ministério dos Povos Indígenas, Ibama, Secretaria-Geral da Presidência e Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), “sempre se guiando pela transparência e o diálogo com as populações das áreas abrangidas pelo empreendimento”.

Novo cronograma

A obra de derrocagem do Pedral do Lourenço, no Pará, também enfrenta atrasos relacionados a discussões ambientais e diálogo com comunidades locais. Segundo apurou a reportagem, o empreendimento aguarda manifestação do Ministério Público para avanço das próximas etapas.

Recentemente, o secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier, afirmou que o projeto não encontrou novos questionamentos judiciais, que a expectativa é instalar o canteiro de obras no segundo semestre e que as detonações previstas devem ficar para 2027.

O cronograma foi alterado desde o início de maio, quando a previsão era implementar o canteiro de obras até o final do mês e iniciar as intervenções piloto em julho.

À reportagem, o Ministério de Portos e Aeroportos afirmou que trabalha para garantir o avanço “responsável e tecnicamente estruturado” da obra e declarou que mantém diálogo institucional com comunidades locais, lideranças e órgãos ambientais.

Por sua vez, o Ibama informou que o empreendimento possui Licença de Instalação desde maio de 2025 e que o projeto está em fase de implantação.

Entre os principais pontos acompanhados pelo órgão estão impactos sobre fauna aquática, atividade pesqueira, comunidades ribeirinhas e programas de compensação socioambiental.

A ex-presidente do Ibama, Suely Araújo, que atualmente está como coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, afirmou que ficou pouco claro como o processo de licitação iria abranger as questões ambientais do Tapajós.

Afirmou ainda que a região é “muito sensível do ponto de vista ecológico”, e conta com um grande volume de terras indígenas, que podem ser afetadas com a licitação. Além disso, Araújo mencionou que há impactos ambientais para a dragagem que também não foram levados em consideração.

Prejuízos para outros projetos

A Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste) também enfrenta dificuldades relacionadas a questões ambientais e conflitos com populações indígenas. A ferrovia deveria ser construída pela Vale dentro do acordo de renovação antecipada das concessões ferroviárias da companhia.

A empresa, porém, informou ao governo que não consegue executar o trecho entre Água Boa (MT) e Cocalinho (MT), com cerca de 100 quilômetros, por entraves ambientais, relacionados às comunidades indígenas.

Diante disso, a mineradora propôs devolver o trecho ao governo mediante indenização. Porém, pelo acordo, o valor que seria repassado ao poder público seria de R$ 2 bilhões, enquanto o custo estimado para concluir o trecho supera os R$ 3,5 bilhões.

Na última semana, a Infra S.A. fez mais uma rodada de conversas com lideranças do povo Xavante, que é afetado pela construção deste trecho da ferrovia. Desde o início do ano, a autarquia tem se reunido com as comunidades impactadas pela Fico. Até o momento foram realizados encontros com representantes dos territórios indígenas Pimentel Barbosa, Marechal Rondon e Parabubure.

Nos bastidores, há um entendimento de que, caso a construção fique sob responsabilidade da União, o trecho corre risco de não ser executado por falta de recursos públicos.

No entanto, a definição de quem será o responsável pela construção da ferrovia está travando não só o início das obras, mas também a conclusão da repactuação contratual entre o governo e a Vale.

Além disso, a conclusão dessa malha é considerada estratégica para viabilizar outros projetos ferroviários planejados pelo Ministério dos Transportes.

Procurado, o Ibama informou que o empreendimento possui Licença de Instalação válida até setembro de 2026 para o trecho entre Mara Rosa (GO) e Água Boa (MT) – traçado completo do corredor – e afirmou que o projeto segue em conformidade com as condicionantes ambientais estabelecidas.

Fonte: CNN Brasil

ANA e ANTAQ alinham ações para fortalecer a navegação e o monitoramento dos rios da Região Norte

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ANA e ANTAQ alinham ações para fortalecer a navegação e o monitoramento dos rios da Região Norte
Foto: Jhampier Giron M / Shutterstock

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) se reuniram na última quarta-feira, 3 de junho, para discutir temas que impactam diretamente a navegação, a gestão das águas e a segurança hídrica na região Norte do País.

O encontro reuniu a diretora-presidente interina da ANA, Larissa Rêgo, e o diretor-geral da ANTAQ, Frederico Carvalho Dias, e reforçou a importância da troca de informações e da atuação integrada entre as instituições para enfrentar desafios cada vez mais complexos relacionados ao uso dos recursos hídricos.

Entre os principais temas discutidos estiveram os conflitos pelo uso da água na Hidrovia do Rio Tocantins, as condições de navegabilidade na região e o panorama das secas na Amazônia e demais estados da região Norte.

No caso da Hidrovia do Rio Tocantins, foi debatido o contexto operacional relacionado ao Pedral do Lourenço, formação rochosa localizada entre Marabá (PA) e a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, que se torna um obstáculo à navegação durante os períodos de baixas vazões e redução dos níveis do reservatório, o que evidencia a necessidade de diálogo permanente entre os setores envolvidos na gestão dos usos múltiplos da água.

Embora a situação de navegabilidade no rio Tocantins ainda demande aprofundamento técnico, a reunião destacou a importância do envolvimento da operação do setor elétrico nas discussões sobre soluções para a hidrovia. O objetivo é buscar alternativas que conciliem a geração de energia, a segurança hídrica e a navegação, respeitando os diferentes usos dos recursos hídricos.

Outro tema abordado foi o cenário de secas na região Norte. A ANA apresentou ações preventivas voltadas à manutenção da navegabilidade em rios estratégicos para o transporte de cargas e o abastecimento regional. Entre as medidas em curso está o acompanhamento das condições operacionais da Hidrovia do Rio Madeira, considerada fundamental para o escoamento de grãos e combustíveis na Amazônia.

A reunião também abordou oportunidades de cooperação para ampliar a rede de monitoramento hidrometeorológico do País. Com a perspectiva de novos leilões de concessão de hidrovias, as duas agências discutiram formas de integrar esforços para expandir a coleta e o compartilhamento de dados, contribuindo para decisões mais seguras e eficientes tanto para a navegação quanto para a gestão dos recursos hídricos.

Pela ANA, participaram também do encontro o superintendente de Gestão da Rede Hidrometeorológica, Marcelo Medeiros; o superintendente de Operações e Eventos Críticos, Joaquim Gondim; e a assessora de gabinete Ticiane Fukushima. Pela ANTAQ participaram, ainda, Karoline Brasileiro Quirino Lemos, chefe de gabinete; Eduardo Pessoa de Queiroz, superintendente de Estudos e Projetos Hidroviários; e Daniel Chedid Pereira Jordão Ramos, chefe da Assessoria Parlamentar.

Fonte: Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)

Menos de 5% dos municípios estão perto de universalizar o saneamento, aponta estudo

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Guerra faz insumo essencial para tratamento de água "sumir" do mercado
Foto: Jakob Schlothane/Pexels

Levantamento mostra que apenas 94 das 2.558 cidades analisadas se aproximam das metas previstas no Marco Legal do Saneamento.

Um estudo mostrou que menos de 5% dos municípios brasileiros estão próximos da universalização do saneamento. Ou seja, de 2.558 cidades analisadas, apenas 94 delas estão próximas de garantir que toda a população tenha acesso aos serviços de água potável, de coleta e tratamento de esgoto.

O levantamento, divulgado nesta terça-feira (9), é da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes). Os municípios avaliados incluem todas as capitais do país e abrangem aproximadamente 80% da população brasileira.

Entre as capitais, Curitiba apresenta o melhor desempenho. Salvador, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Aracaju estão na segunda categoria mais alta. Já Porto Velho, capital de Rondônia, registrou o menor desempenho, seguida de outras capitais da região Norte, como Belém, Macapá e Manaus.

Com base no levantamento, a Abes destaca que a maior parte das cidades do país está distante da meta do Marco Legal do Saneamento. A lei prevê universalizar os serviços até 2033, garantindo água potável para 99% da população brasileira e coleta e tratamento de esgoto para 90%.

O estudo também analisou a relação entre os níveis de saneamento e as internações por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado, como diarreias, hepatite A, cólera e febre tifoide.

Entre os municípios de saneamento mais crítico, a taxa média de internações é de 198 por 100 mil habitantes. Em cidades com níveis melhores, essa taxa cai para 84 por 100 mil habitantes, mostrando a importância do tratamento de esgoto para a saúde da população.

Fonte: CBN Brasil