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Análise: As pessoas não concordam mais sobre o que é real, e isso afeta a economia

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Análise: As pessoas não concordam mais sobre o que é real, e isso afeta a economia
Foto: Banco de imagens/istockphoto

A combinação de redes sociais, algoritmos e IA acelera a disseminação de deepfakes, corroendo a confiança em governos, empresas e mercados

Em uma noite iluminada pela lua, em abril de 1775, Paul Revere percorreu Massachusetts levando um aviso — “Os britânicos estão chegando” — enquanto tropas inglesas avançavam em direção a Lexington e Concord.

O episódio tornou-se uma das histórias mais emblemáticas da fundação dos Estados Unidos. No entanto, a cavalgada de Revere teve sucesso por um motivo mais profundo do que a coragem de um único mensageiro. As colônias compreendiam a ameaça britânica. O aviso de Revere forneceu urgência e sincronização, não persuasão. Os americanos agiram coletivamente porque, em grande medida, compartilhavam a mesma percepção da realidade.

Durante boa parte da história do país, as instituições americanas funcionaram com base em uma premissa simples: se um número suficiente de pessoas recebesse as mesmas informações, a maioria chegaria a uma compreensão semelhante dos acontecimentos.

Essa compreensão compartilhada da realidade tornou-se uma espécie de infraestrutura nacional. Os mercados dependiam dela para precificar riscos e alocar capital. As empresas dependiam dela para planejar e investir com confiança. As democracias dependiam dela para sustentar sua legitimidade e a confiança pública.

Os Estados Unidos sobreviveram ao jornalismo sensacionalista, à demagogia política, à propaganda e às teorias da conspiração. O que tornou o sistema resiliente não foi a ausência de mentiras, mas a existência de uma base factual amplamente compartilhada. Essa base agora está se fragmentando.

O perigo já não é a velocidade com que a informação circula. É que a desinformação agora se propaga mais rapidamente do que as instituições conseguem interpretar, verificar ou responder.

O resultado é uma incerteza crescente sobre o que é real — e essa incerteza vem produzindo consequências econômicas cada vez mais significativas.

Toda revolução nas comunicações da história americana remodelou a política, o comércio e a cultura. Jornais e panfletos coloniais alimentaram o debate revolucionário e ampliaram a participação política. Filadélfia e outras capitais coloniais abrigavam publicações concorrentes, expondo os cidadãos a argumentos políticos bastante distintos. Discursos e sermões circulavam amplamente, ajudando a criar uma identidade política nacional antes mesmo da existência formal da nação.

O telégrafo acelerou os mercados financeiros e reduziu as distâncias. O telefone transformou a coordenação dos negócios. O rádio sincronizou a atenção nacional. A televisão centralizou a cultura em torno de um pequeno grupo de grandes redes. A internet eliminou praticamente todo o atrito na publicação e na distribuição de conteúdo.

Cada revolução das comunicações ampliou o acesso à informação. Mas cada uma também concentrou influência — primeiro nos editores, depois nas emissoras e, por fim, nas plataformas digitais. Essas plataformas substituíram o julgamento editorial por algoritmos otimizados para gerar indignação e engajamento. Os benefícios foram enormes. Os riscos também.

O rádio talvez tenha representado o auge da experiência nacional compartilhada. Em 7 de dezembro de 1941, os americanos souberam do ataque a Pearl Harbor por meio de boletins que interromperam a programação regular. As famílias reuniram-se em torno dos aparelhos de rádio e receberam os mesmos fatos no mesmo instante.

Hoje, as plataformas digitais recompensam a indignação, a emoção e o imediatismo em detrimento da verificação. A inteligência artificial está acelerando esse problema ao tornar a fraude mais rápida, barata e escalável. A IA está mudando a economia da enganação.

Deepfakes, áudios sintéticos e vídeos manipulados já não são riscos teóricos. São realidades operacionais. As instituições já não enfrentam apenas o desafio de distribuir informações. Elas lutam para preservar sua credibilidade enquanto mercados, reguladores, consumidores e algoritmos reagem simultaneamente a versões concorrentes da realidade.

Isso deixou de ser apenas um problema de comunicação. Está se tornando um problema de governança, com implicações diretas para os mercados, o desempenho corporativo e a estabilidade democrática.

O Fórum Econômico Mundial já classifica a informação falsa e a desinformação entre os riscos de curto prazo mais significativos para a economia global. A própria confusão tornou-se uma força de mercado. A erosão da confiança não é apenas um fenômeno tecnológico. A cultura política passou a tratar os próprios fatos como instrumentos partidários.

Donald Trump popularizou a expressão “fake news” como uma arma política contra coberturas desfavoráveis. Mas a defesa feita por Kellyanne Conway dos “fatos alternativos”, em 2017, marcou algo ainda mais relevante: a normalização de realidades concorrentes construídas em torno de alegações comprovadamente falsas.

Desde então, os americanos testemunharam narrativas oficiais conflitantes sobre fiscalização da imigração, ameaças à segurança nacional, processos relacionados ao ataque de 6 de janeiro e os arquivos Epstein.

Autoridades públicas passaram a descartar informações prejudiciais como invenções, ao mesmo tempo em que apresentam alegações sem comprovação como se fossem fatos. O efeito cumulativo é a erosão institucional. Os americanos questionam cada vez mais se órgãos governamentais, organizações de mídia, empresas ou líderes políticos estão fornecendo informações verificáveis.

Essa erosão produz consequências econômicas diretas. Os mercados conseguem absorver más notícias. O que têm dificuldade em absorver é a incerteza sobre o que é verdadeiro.

O colapso do Silicon Valley Bank serviu como um alerta inicial. Os depositantes não esperaram o jornal do dia seguinte nem o relatório trimestral dos analistas. Reagiram instantaneamente a capturas de tela, especulações e comentários nas redes sociais. As informações — corretas ou não — circularam mais rapidamente do que a resposta institucional. Essa aceleração está remodelando a gestão de riscos das empresas.

A comunicação não resolve falhas operacionais. Mas decisões lentas e coordenação deficiente podem transformar rapidamente problemas operacionais em crises financeiras e de reputação. Um vídeo manipulado de um executivo, um falso anúncio de resultados financeiros ou um áudio sintético podem movimentar os mercados antes que os mecanismos de verificação consigam reagir.

A Deloitte alertou que as perdas decorrentes de fraudes habilitadas por IA podem alcançar dezenas de bilhões de dólares por ano nos próximos anos. A Gartner prevê um aumento dos casos de falsificação de identidade gerada por IA contra executivos, funcionários e investidores. O perigo não é apenas a desinformação. É o colapso da confiança na autenticidade das próprias evidências.

Quando as partes interessadas passam a presumir que qualquer imagem, vídeo ou declaração pode ser fabricado, a confiança institucional enfraquece em todos os níveis. Nesse ambiente, as organizações perdem velocidade justamente quando os mercados exigem clareza.

Para os CEOs, três prioridades estão se tornando inevitáveis.

Primeiro: tratar a confiança como infraestrutura operacional, e não como um aspecto secundário da reputação. Em um mundo de deepfakes e desinformação gerada por IA, as empresas competirão cada vez mais por sua capacidade de estabelecer o que é real antes que informações falsas movimentem os mercados ou prejudiquem sua credibilidade.

Durante dois séculos, a vantagem institucional frequentemente dependia do controle da distribuição da informação. Na era da IA, a vantagem competitiva pode depender cada vez mais da capacidade de verificação.

Segundo: reduzir drasticamente o tempo de tomada de decisões. As estruturas tradicionais de resposta — nas quais equipes jurídicas, de comunicação, de cibersegurança e de relações com investidores atuam em sequência — foram criadas para ciclos de mídia mais lentos.

Esse modelo está se tornando obsoleto. Hoje, mercados e plataformas sociais reagem em minutos, enquanto muitas instituições ainda levam horas ou dias para responder. Nas crises futuras, o próprio atraso poderá se transformar em um risco de mercado.

Terceiro: a credibilidade tornou-se uma arma competitiva. A informação circula globalmente em uma velocidade sem precedentes. Sem credibilidade, até mesmo informações corretas têm dificuldade para recuperar o controle quando narrativas falsas se consolidam.

Durante gerações, as instituições acreditaram que os fatos seriam capazes de estabilizar a incerteza. Cada vez mais, acontece o contrário. Narrativas concorrentes agora movimentam mercados, moldam resultados políticos e redefinem o valor das empresas em tempo real.

O que torna este momento diferente é a velocidade com que a tecnologia comprime a criação de mentiras, sua amplificação e suas nconsequências.

O desafio não é restaurar uma era idealizada de concordância perfeita que nunca existiu. Democracias são, por natureza, espaços de debate e divergência. Mas democracias funcionais e mercados estáveis ainda exigem um amplo consenso sobre o que constitui evidência, verdade e realidade. Sem esse alicerce, a confiança se deteriora, as instituições enfraquecem e a instabilidade se espalha.

Há mais de dois séculos, o Pai Fundador James Madison escreveu ao estadista de Kentucky W.T. Barry: “Um governo popular, sem informação popular, ou sem os meios de adquiri-la, não passa de um prólogo para uma farsa ou uma tragédia.”

Madison compreendia que um governo democrático não poderia sobreviver sem informações públicas confiáveis. Na era da inteligência artificial, esse alerta vai muito além da política. Quando as sociedades deixam de concordar sobre o que é real, os mercados se desestabilizam, as instituições enfraquecem e a confiança pública torna-se extraordinariamente difícil de restaurar.

As opiniões expressas nos artigos de opinião do Fortune.com refletem exclusivamente a visão de seus autores e não necessariamente representam as opiniões e convicções da Fortune.

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Fonte: InfoMoney

Aneel aprova alta de 9,4% nas tarifas de transmissão de energia

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Aneel aprova alta de 9,4% nas tarifas de transmissão de energia
Imagem mostra sede da Agência Nacional de Energia Elétrica, a Aneel, em Brasília. Foto: CNN/Reprodução

Empresas transmissoras vão receber quase R$ 55 bilhões no ciclo 2026/2027

A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) aprovou aumento das tarifas de transmissão de energia para o ciclo 2026/2027. Com a decisão, as empresas transmissoras vão receber R$ 54,95 bilhões, alta de 9,4% em relação ao ciclo anterior.

Apesar do aumento, a Aneel estima impacto médio de 1,1% para os consumidores finais atendidos pelas distribuidoras.

O cálculo considera as receitas das instalações de transmissão em operação comercial. Ao todo, foram analisados 356 contratos de concessão de 258 empresas transmissoras.

Segundo a agência, a alta é explicada principalmente pela atualização contratual das receitas, pela expansão da rede de transmissão e por componentes financeiros regulatórios.

Fonte: CNN Brasil

Sistema de alertas da Defesa Civil segue suspenso apesar de chuva persistente que causou transtornos na Grande SP

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Sistema de alertas da Defesa Civil segue suspenso apesar de chuva persistente que causou transtornos na Grande SP
Foto: Defesa Civil/Divulgação

Ferramenta de aviso emergencial em celulares está fora do ar por suspeita de ataque hacker. Temporal já provocou alagamentos, quedas de árvores e abertura de crateras.

A Grande São Paulo enfrenta desde terça-feira (23) uma chuva persistente que já provoca transtornos em diferentes regiões, enquanto o sistema de alertas emergenciais da Defesa Civil permanece suspenso. A ferramenta que envia mensagens diretamente aos celulares da população teve funcionamento interrompido por determinação do governo federal após suspeita de invasão hacker na madrugada do sábado (20).

A suspensão foi definida pela Defesa Civil Nacional, responsável pela gestão da plataforma, enquanto são conduzidas investigações e adotadas medidas para reforçar a segurança do sistema. O órgão afirma que segue monitorando as condições meteorológicas e divulgando orientações por canais oficiais.

De acordo com o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) da Prefeitura de São Paulo, junho registra até agora 113,6 mm de precipitação – o equivalente a 136,7% da média histórica para o mês, que é de 48 mm. Em apenas 24 horas, a capital já recebeu cerca de metade da chuva prevista para todo o mês.

Na Zona Leste da capital, ruas da Vila Mendes, na Vila Prudente, ficaram alagadas desde a noite de terça, especialmente nas proximidades do córrego do Oratório. Embora o nível da água tenha baixado na manhã desta quarta, ainda havia vias com pontos de alagamento.

A região metropolitana também acumula volumes expressivos de chuva, cujos efeitos são sentidos em diferentes cidades. Em Cajamar, uma cratera se abriu na noite de terça e engoliu parcialmente um carro. O Corpo de Bombeiros informou que o motorista foi retirado por moradores antes da chegada das equipes e não houve feridos.

Situação semelhante ocorreu em Ribeirão Pires, onde outro carro caiu em um buraco que se formou após o asfalto ceder durante a chuva. O caso aconteceu na Rua Pedro Mozelli, no Parque Aliança. De acordo com a prefeitura, não houve vítimas e a via passa por obras de drenagem. O local foi isolado para avaliação técnica.

Dados do Corpo de Bombeiros indicam que, entre a meia-noite e a manhã desta quarta-feira, foram registradas ao menos nove ocorrências de quedas de árvores e um caso de desabamento na Grande São Paulo.

Mesmo sem o sistema de alertas emergenciais, os órgãos públicos orientam a população a acompanhar as atualizações por canais oficiais e adotar medidas de precaução, como evitar áreas de risco e vias alagadas.

A manhã segue com tempo fechado, chuva intermitente e temperaturas baixas. A mínima média foi de 12°C, com registro de 9,4°C em Parelheiros, na Zona Sul. A máxima não deve passar de 14°C, o que pode confirmar o dia mais frio do ano, segundo o CGE.

A tendência é de continuidade das chuvas nos próximos dias, ainda que com menor intensidade. A previsão indica precipitações fracas a moderadas na quinta-feira (25) e pancadas isoladas na sexta-feira (26), mantendo a sensação de frio e a umidade elevada.

Fonte: G1

Mortes e violência policial: Sé tem pior índice de segurança em São Paulo

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Bahia tem 5 das 10 cidades mais violentas do Brasil em 2025
Foto: Divulgação/SSP-SP

O distrito da Sé, na região central de São Paulo, concentra os piores indicadores de segurança pública da capital.

Os dados são do Mapa da Desigualdade, levantamento anual da Rede Nossa São Paulo que compara diferentes recortes entre os 96 distritos do município.

O que aconteceu

  • No ranking geral de segurança pública, a Sé aparece com o pior desempenho. Observando indicadores isolados, o distrito ocupa a pior posição também no número de homicídios, homicídios de jovens e agressões por intervenção policial. Na ponta oposta, o distrito de Carrão, na zona leste, fica na melhor colocação.
  • A Sé registra 25,2 ocorrências de homicídio a cada 100 mil habitantes. A região de Carrão tem 1,17. Vale destacar que o distrito da zona leste obteve a melhor colocação geral em segurança pública por combinar bons resultados em diferentes indicadores, mas não necessariamente aparece em primeiro lugar em cada um deles quando analisados separadamente.
  • Os números na Sé são explicados, em parte, por particularidades do centro de São Paulo. Igor Pantoja, coordenador de relações institucionais da Rede Nossa São Paulo, destaca que, além de a Sé ser um distrito com grande passagem de pessoas e população de rua, é um distrito pequeno em população, o que faz com que cada caso tenha mais impacto no índice.

    “Esse fenômeno demográfico, juntamente com a alta circulação de pessoas, faz com que esse índice seja mais alto que a média da cidade” Igor Pantoja, coordenador de relações institucionais da Rede Nossa São Paulo

  • Entre os menores índices, alguns distritos registram valor zerado. Isso não significa necessariamente que não houve nenhuma ocorrência no período estudado, apenas que o índice foi desprezível proporcionalmente. Consolação, Socorro, Lapa e Vila Sônia registram índice zero. Em seguida, Itaim Bibi aparece com taxa de 0,98.
  • Os indicadores do mapa são avaliados separadamente e observam anos distintos, dependendo da divulgação mais recente de cada dado. No caso dos homicídios, o recorte utilizado é de 2021, com dados disponibilizados pelo painel Seade.
Fonte: UOL
  • A Sé também tem maiores números no ranking de “homicídios de jovens”, com idades entre 15 e 29 anos. A taxa é de 133,99 casos por 100 mil habitantes, sensivelmente maior do que nas demais faixas de idade. Neste indicador, 22 distritos aparecem zerados, entre os quais Itaim Bibi, Alto de Pinheiros, Santo Amaro e Moema.
  • Os índices combinados impactam também na diferença de expectativa de vida em cada localidade. Enquanto na Sé a média de idade média ao morrer é de 65 anos, no distrito de Carrão são 10 anos a mais, 75. No melhor avaliado da lista, Alto de Pinheiros, vive-se em média até os 82 anos.

Violência policial

  • A avaliação de segurança pública do Mapa traz dois indicadores relacionados à atuação policial: “agressões decorrentes de intervenção policial” e “mortes decorrentes de intervenção policial”. A Sé volta a liderar o ranking de agressões, desta vez com dados de 2024.

  • No recorte de mortes por intervenção policial, o Morumbi aparece na primeira posição, com taxa de 10,84 casos por 100 mil habitantes. Igor Pantoja avalia que parte dos números pode estar relacionada às frequentes operações policiais em Paraisópolis, comunidade vizinha ao distrito e cujo contraste com o bairro do Morumbi, área de classe média alta, é um dos símbolos mais conhecidos da desigualdade paulistana.

“Paraisópolis oficialmente está na Vila Andrade, mas, como o Morumbi é muito maior, muitas ocorrências acabam sendo registradas lá.” Igor Pantoja.

  • Na sequência aparecem República (8,21), Bom Retiro (7,2) e Jaguara (5,39). A média dos distritos da capital é de 1,76 caso por 100 mil habitantes. Já Bela Vista, Belém, Perus, Mandaqui, Carrão e Ponte Rasa registram índices próximos de zero.
  • O documento observa que as mortes causadas por violência policial não seguem padrão semelhante aos demais crimes de assassinato na capital paulista. “Mesmo com a queda expressiva e contínua nas taxas de homicídio nos últimos 20 anos, a violência policial letal não diminuiu, o que representa forte indício de uso excessivo da força letal contra certos grupos específicos”, diz o texto.

Outros indicadores

  • O Mapa da Desigualdade é produzido anualmente desde 2012 pela Rede Nossa São Paulo e reúne indicadores de saúde, educação, segurança, mobilidade, meio ambiente e renda. O estudo compara os 96 distritos da capital paulista com base em dados oficiais de diferentes órgãos públicos.
  • O documento também observa que moradores de Alto de Pinheiros vivem, em média, 20 anos a mais do que os de Cidade Tiradentes. O índice de idade média ao morrer entre moradores de Alto de Pinheiros chega a 82 anos. Em Cidade Tiradentes, pior avaliado, a média é de apenas 62.
  • O ranking segue com bairros de classe média alta entre os locais onde mais se envelhece. Em Moema, Jardim Paulista e Pinheiros, a idade média é de 81 anos. Na ponta contrária, Guaianases, Iguatemi e Grajaú seguem nos piores desempenhos, com 63 anos de idade média.
  • A comparação entre a renda média de cada distrito chama atenção. De acordo com o mapa, moradores da região de Itaim Bibi têm uma média de renda de R$ 8.234, a maior de São Paulo. O pior lugar do índice ficou com o Pari, tradicional polo comercial, onde a média salarial é de R$ 1.232, abaixo da média da cidade (R$ 3.598,55).
  • O segundo lugar entre os que mais ganham ficou com Alto de Pinheiros, com R$ 8.115; seguido por Santo Amaro e Moema (R$ 8.092 e R$ 8.051). No penúltimo lugar aparece a região de São Miguel (R$ 2.014). Antes, Marsilac (R$ 2.077) e Ponte Rasa (R$ 2.150).
  • O tempo médio de deslocamento em transporte público é outro ponto que vale nota. Enquanto em Pinheiros, o melhor desempenho, a média é de 25 minutos, Marsilac, no extremo sul da capital, exige 1 hora e 11 minutos em média. O tempo considerado foi o pico de deslocamento pela manhã em dias úteis.
  • A Secretaria de Segurança Pública informou que estudos produzidos por diferentes instituições são considerados fontes complementares de análise. Em nota, a pasta informou que usa bases oficiais de segurança para orientar suas estratégias e ações operacionais. Sobre a região central da cidade, a SSP diz que “possui características próprias que influenciam a dinâmica criminal”, citando grande circulação de pessoas e ocorrências relacionadas ao tráfico de drogas e crimes patrimoniais. Já em relação ao Morumbi, a pasta informa que as unidades policiais responsáveis pela área desenvolvem ações de prevenção e combate à criminalidade.
  • Procurada, a Prefeitura de São Paulo afirmou que distribui investimentos considerando as diferentes realidades da cidade. Segundo a gestão, o Programa de Metas 2025-2028 regionaliza 87 das 132 metas, enquanto o Plano Plurianual (PPA) 2026-2029 utiliza o Índice de Distribuição Regional do Gasto Público (IDRGP) para direcionar recursos conforme as vulnerabilidades de cada território.
  • Na segurança, a administração diz que a cidade registrou entre janeiro e abril os menores índices criminais desde 2001. Na Sé, houve queda de 14,33% nos furtos e de 8,14% nos roubos em relação ao mesmo período de 2025. A gestão também destaca o programa Smart Sampa, com 50 mil câmeras de monitoramento em toda a cidade, sendo 12 mil na região central. Sobre mobilidade, a prefeitura cita a entrega do Terminal Estação Varginha, obras na Estrada do M’Boi Mirim, a expansão de faixas exclusivas de ônibus e o programa Domingão Tarifa Zero, que já atendeu mais de 380 milhões de passageiros.

Quais foram os indicadores medidos pelo Mapa

  • População em situação de rua;
  • Famílias em atendimento habitacional provisório;
  • Quantidade de domicílios em favelas;
  • Velocidade média dos ônibus;
  • Tempo médio de deslocamento em transporte público;
  • Acesso a transporte de massa;
  • Acesso à infraestrutura de bicicleta;
  • Acesso à internet móvel por área;
  • Acesso à internet móvel por população;
  • Oferta de emprego formal;
  • Remuneração média mensal do emprego formal;
  • Desigualdade salarial;
  • Gravidez na adolescência;
  • Mortalidade materna;
  • Mortalidade infantil;
  • Idade média ao morrer;
  • Tempo médio para consultas na rede de atenção básica;
  • Mortalidade por covid-19;
  • Tempo de atendimento para vaga em creche;
  • Matrículas no ensino básico em escolas públicas;
  • Quantidade de alunos atrasados na série do ensino fundamental da rede municipal;
  •  Abandono escolar no ensino fundamental da rede municipal;
  • Ideb nos anos iniciais em escolas públicas;
  • Ideb nos anos finais em escolas públicas;
  • Adequação da formação dos professores;
  • Esforço dos professores (aqueles que têm mais de 300 alunos, atuam nos três turnos, em duas ou mais escolas);
  • Quantidade de centros culturais;
  • Quantidade de equipamentos públicos de cultura;
  • Quantidade de cinemas;
  • Quantidade de espaços culturais independentes;
  • Quantidade de equipamentos públicos de esporte;
  • Quantidade de quadras esportivas nas escolas públicas;
  • Violência contra população LGBTQIA+;
  • Violência racial;
  • Feminicídios;
  • Homicídios;
  • Homicídios de jovens;
  • Agressões por intervenção policial;
  • Mortes por intervenção policial;
  • Deslocamento médio para denúncias de violência contra mulher;
  • Emissão de poluentes atmosféricos por área;
  • Cobertura vegetal;
  • Pontos de entrega voluntária;
  • Número de áreas contaminadas.

Fonte: UOL

Brasil ganha duas novas companhias aéreas estrangeiras autorizadas a operar voos internacionais

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Aeroporto Santos Dumont tem voos cancelados no início da manhã desta sexta-feira após acidente com jato
Foto: Gerada por IA | Magnific

Wamos Air, da Espanha, e Air Peace, da Nigéria, receberam aval da Anac após cumprirem requisitos previstos na legislação brasileira.

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) autorizou duas novas companhias aéreas estrangeiras a operar serviços regulares de transporte internacional de passageiros e carga com origem ou destino no Brasil. As empresas aprovadas são a espanhola Wamos Air S.A. e a nigeriana Air Peace Ltd.

As autorizações foram concedidas por meio das Portarias nº 19.439 e nº 19.449, de 15 de junho de 2026, após as companhias cumprirem os requisitos previstos no Código Brasileiro de Aeronáutica e nas normas da Anac para empresas estrangeiras interessadas em atuar no mercado brasileiro.

Segundo a agência, a medida faz parte de uma estratégia para ampliar a conectividade aérea internacional e estimular um ambiente regulatório mais competitivo no setor.

Wamos Air pode viabilizar voos internacionais da Gol

Com sede na Espanha, a Wamos Air S.A. tem um papel estratégico na expansão internacional da Gol. A empresa faz parte do Grupo Abra, principal grupo de transporte aéreo da América Latina, que também controla a companhia brasileira e a colombiana Avianca.

Diferentemente de uma companhia aérea tradicional, a Wamos Air é especializada em operações de fretamento e no modelo conhecido como wet lease — quando uma empresa aérea fornece para outra não apenas a aeronave, mas também tripulação, manutenção e seguro.

A empresa foi adquirida pelo Grupo Abra em outubro de 2024 e passou a ser uma peça importante para ampliar a capacidade de voos de longa distância do grupo. Isso porque a Gol ainda não possui aeronaves de longo alcance em sua frota atual.

Na prática, a Wamos Air é a estrutura que permite a realização de operações internacionais de maior distância. Mesmo quando o voo é realizado em uma aeronave da companhia espanhola, o passageiro mantém a experiência da Gol, com compra de passagens, check-in, embarque e atendimento seguindo os padrões da empresa brasileira.

A trajetória da Wamos Air começou em 2003, ainda como Pullmantur Air, quando recebeu suas primeiras certificações operacionais e de aeronavegabilidade. Em 2014, a companhia adotou o nome atual e ampliou sua atuação no mercado internacional.

Ao longo de mais de duas décadas, a empresa se consolidou como uma das principais referências europeias em operações charter e wet lease. Atualmente, conecta mais de 200 aeroportos em 87 países e oferece mais de 3 milhões de assentos por ano.

Sua frota inclui modelos como os Airbus A330-200 e A330-300, além de aeronaves que fizeram parte da história da companhia, como o Boeing 747-400.

Air Peace

A Air Peace Ltd., da Nigéria, também recebeu autorização para operar voos internacionais regulares de passageiros e carga com origem ou destino no Brasil.

Criada com o objetivo de ampliar a conectividade aérea da Nigéria, a companhia tem sede em Lagos e atua nos mercados doméstico, regional e internacional.

Ao longo de sua trajetória, a empresa expandiu sua rede de destinos e sua capacidade operacional, tornando-se uma das principais companhias aéreas da África Ocidental e Central. A Air Peace também mantém investimentos em frota, segurança operacional e expansão internacional.

Com as novas autorizações, as duas companhias estão habilitadas a operar no mercado brasileiro, seguindo as regras estabelecidas pela aviação civil do país.

Fonte: G1

Entre Ecossistemas, Governança e Futuro: as lições do 15ST Prodem para a América Latina

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Entre Ecossistemas, Governança e Futuro: as lições do 15ST Prodem para a América Latina
Foto: Tiago Pavan

Introdução

Entre os dias 12 e 15 de maio de 2026, a cidade de Santo Domingo, na República Dominicana, tornou-se um dos principais centros de discussão sobre empreendedorismo, inovação e políticas públicas da América Latina ao sediar o 15° Seminario Taller para Profesionales del Ecosistema Emprendedor de América Latina (15ST Prodem), promovido pela Prodem em parceria com a Universidad Iberoamericana. O encontro celebrou os 15 anos do evento e reuniu lideranças governamentais, universidades, aceleradoras, organismos multilaterais, investidores, empreendedores e especialistas de diversos países latino-americanos.

Mais do que um seminário técnico, o 15ST Prodem consolidou-se como um espaço estratégico de articulação continental sobre o futuro dos ecossistemas de inovação e sobre o papel do Estado diante das transformações econômicas, sociais e tecnológicas que atravessam a região.

A participação de Criciúma neste evento de caráter internacional representou algo particularmente simbólico: uma cidade de médio porte brasileira, localizada no sul do país, sendo convidada a dividir experiências ao lado de referências latino-americanas como a Ruta N de Medellín, ANDE e o Ministério da Indústria, Comércio e MIPYMES da República Dominicana.

O convite oficial para minha participação como painelista foi realizado pela própria organização do evento, destacando a relevância da experiência desenvolvida em Criciúma no campo da governança pública, inovação e transformação digital.

Num cenário historicamente concentrado em grandes capitais econômicas e polos globais de tecnologia, a presença de uma cidade média brasileira em um debate continental sobre o futuro dos ecossistemas latino-americanos revela mudanças importantes na própria geografia da inovação. Cada vez mais, experiências territoriais bem estruturadas passam a disputar espaço não pelo tamanho de seus mercados, mas pela capacidade de articulação, visão estratégica e consistência institucional. Isso talvez diga muito sobre o momento atual da América Latina: os territórios que conseguem se organizar começam, finalmente, a ser percebidos.

Um encontro que vai além do empreendedorismo tradicional

O 15ST Prodem não se limitou a discutir startups, aceleração ou investimento. A agenda do evento evidenciou uma mudança importante no debate latino-americano: o empreendedorismo deixou de ser tratado apenas como mecanismo econômico e passou a ser compreendido como instrumento de transformação territorial, inclusão social e fortalecimento institucional.

Os painéis abordaram temas como:

  • governança de ecossistemas;
  • inteligência artificial aplicada a políticas públicas;
  • empreendedorismo de impacto;
  • articulação entre atores públicos e privados;
  • internacionalização;
  • venture capital;
  • inovação aberta;
  • sustentabilidade institucional;
  • continuidade das políticas públicas além dos ciclos políticos.

Essa abordagem revela uma maturidade importante dos ecossistemas latino-americanos. Durante muitos anos, grande parte das políticas públicas da região concentrou-se em ações isoladas, programas descontínuos ou iniciativas excessivamente dependentes de governos específicos. O debate atual parece caminhar em outra direção: construir estruturas permanentes de governança capazes de sobreviver às mudanças políticas e gerar impacto sistêmico.

Não por acaso, um dos workshops centrais do encontro discutiu exatamente a construção de “governanças colaborativas” para ecossistemas de inovação.

Ao longo das discussões, tornou-se evidente que muitos dos desafios latino-americanos não decorrem necessariamente da ausência de ideias, talentos ou criatividade empreendedora, mas da dificuldade histórica de transformar iniciativas promissoras em políticas públicas duradouras e institucionalizadas. Em outras palavras: a América Latina já aprendeu a criar projetos; agora precisa aprender a sustentar processos.

A presença de Criciúma no debate latino-americano

A participação de Criciúma ocorreu no Panel 8: “La política pública frente a los nuevos desafíos del emprendimiento y de la sociedad”, realizado no dia 15 de maio.

O painel reuniu representantes de diferentes escalas de governo e ecossistemas:

  • Yamandú Delgado (ANDE – Agencia Nacional de Desarrollo – Uruguai); 
  • Jorge Morales (Ministerio de Industria, Comercio y Mipymes – República Dominicana);
  • Geiner Orlando Toro (Ruta N | Medellin – Colômbia);
  • Tiago Ferro Pavan (Prefeitura de Criciúma – Brasil);
  • moderação de Jairo Tiusaba (CAF – Banco de Desarollo de America Latina y el Caribe – Peru).

A proposta do painel era particularmente relevante: discutir como políticas públicas podem responder aos novos desafios da sociedade contemporânea, especialmente em temas como inovação, inclusão, inteligência artificial, sustentabilidade e articulação territorial.

As perguntas orientadoras do debate revelam a profundidade da discussão proposta pelo evento:

  • As políticas de empreendedorismo estão avançando ou perdendo espaço nos governos?
  • Como conectar políticas nacionais e iniciativas locais? 
  • Como utilizar IA em programas públicos?
  • Como garantir impacto social?
  • Como manter políticas públicas além dos ciclos eleitorais?

Nesse contexto, a experiência de Criciúma chamou atenção justamente por apresentar uma combinação pouco comum na América Latina: transformação digital associada a governança estruturada.

Em diversos momentos do encontro, ficou clara a percepção de que a adoção de tecnologia, isoladamente, já não é suficiente para caracterizar inovação pública. Ferramentas digitais, inteligência artificial e plataformas tecnológicas passam a gerar valor real apenas quando conectadas a planejamento, integração institucional e capacidade de coordenação entre diferentes atores. Talvez por isso tantas iniciativas aparentemente modernas fracassem: porque digitalizam processos, mas não transformam estruturas.

O diferencial latino-americano: cidades médias como laboratórios de inovação pública

Historicamente, os grandes debates internacionais sobre inovação urbana concentram-se em megacidades. Contudo, o 15ST Prodem mostrou um movimento importante: cidades médias começam a ganhar protagonismo como espaços mais ágeis para implementação de políticas públicas inovadoras.

Nesse aspecto, Criciúma apresentou uma perspectiva particularmente relevante.

Ao invés de apostar apenas em ações isoladas de inovação, a cidade estruturou mecanismos permanentes de governança:

  • planejamento estratégico integrado;
  • monitoramento sistemático de projetos;
  • transformação digital;
  • integração entre áreas;
  • transparência pública;
  • fortalecimento institucional;
  • legislação específica de inovação;
  • fundo municipal de inovação;
  • articulação entre governo, universidades e ecossistema local.

Essa lógica dialoga diretamente com um dos principais consensos que emergiram do evento: ecossistemas fortes não surgem apenas de investimento financeiro. Eles dependem de coordenação institucional, confiança entre atores e continuidade administrativa.

Em outras palavras: inovação não é apenas tecnologia. É capacidade de coordenação coletiva.

O próprio ambiente do evento demonstrava isso. Experiências territoriais distintas, vindas de diferentes países e realidades econômicas, frequentemente convergiam para desafios semelhantes relacionados à fragmentação institucional, dificuldade de continuidade e baixa articulação entre atores públicos e privados. Curiosamente, os casos mais sólidos apresentados não eram necessariamente os que possuíam mais recursos financeiros, mas os que demonstravam maior capacidade de alinhamento estratégico entre governo, academia, setor privado e sociedade civil.

Inteligência artificial e o novo papel do Estado

Outro eixo recorrente do 15ST Prodem foi a inteligência artificial. Diferentemente de muitos debates superficiais sobre IA, o evento trouxe uma discussão mais madura: como governos podem utilizar inteligência artificial para ampliar eficiência, alcance e capacidade operacional sem aprofundar desigualdades.

A questão central deixou de ser “usar IA” e passou a ser: como utilizar IA de forma ética, estratégica e inclusiva dentro das políticas públicas.

Essa discussão é especialmente relevante para a América Latina, região marcada por profundas desigualdades sociais e digitais.

Durante o encontro, ficou evidente que muitos governos ainda estão em estágio inicial de adoção tecnológica. Ao mesmo tempo, surgem experiências relevantes de utilização da IA para:

  • automação de processos;
  • atendimento digital;
  • análise de dados;
  • gestão documental;
  • apoio à tomada de decisão;
  • monitoramento de políticas públicas;
  • ampliação da transparência.

Nesse cenário, experiências a nível municipal tornam-se particularmente importantes porque conseguem testar soluções com maior velocidade e menor complexidade institucional.

Ao mesmo tempo, os debates evidenciaram que a inteligência artificial tende a ampliar diferenças já existentes entre governos mais organizados e estruturas públicas ainda fragilizadas. Em muitos casos, a capacidade de utilização estratégica da tecnologia depende menos da ferramenta em si e mais da maturidade institucional já existente. Afinal, tecnologias emergentes costumam potencializar aquilo que as organizações já são, inclusive suas fragilidades.

A principal lição do evento: governança importa

Talvez a maior conclusão do 15ST Prodem tenha sido a percepção de que os ecossistemas mais resilientes não são necessariamente os mais ricos, mas sim os mais coordenados.

Ao longo dos debates, ficou evidente que muitos programas fracassam não por falta de boas ideias, mas por:

  • descontinuidade política;
  • baixa articulação institucional;
  • ausência de visão estratégica;
  • fragmentação entre atores;
  • dependência excessiva de lideranças individuais.

Por outro lado, os casos mais sólidos apresentados no evento tinham algo em comum: governança estruturada. Isso apareceu em diferentes escalas: cidades, universidades, organismos multilaterais, agências de desenvolvimento e redes de inovação.

A própria estrutura do GEIAL (rede latino-americana vinculada ao Prodem) demonstra essa tentativa de criar inteligência coletiva regional para além de governos específicos.

Curiosamente, embora governança tenha sido uma das palavras mais recorrentes ao longo do encontro, ela aparecia menos como conceito teórico e mais como elemento prático de sustentação. Em praticamente todos os casos apresentados, os avanços mais consistentes estavam associados à existência de mecanismos permanentes de coordenação, planejamento e continuidade institucional. Talvez porque projetos possam nascer de entusiasmo momentâneo, mas somente estruturas organizadas conseguem atravessar o tempo.

América Latina: desafios semelhantes, soluções compartilhadas

Outro aspecto marcante do encontro foi perceber como os desafios latino-americanos são profundamente semelhantes.

Independentemente do país, surgiam problemas recorrentes:

  • burocracia;
  • baixa integração entre atores;
  • dificuldade de financiamento;
  • descontinuidade administrativa;
  • exclusão digital;
  • dificuldade de escalar políticas públicas;
  • concentração de oportunidades.

Ao mesmo tempo, o evento mostrou algo extremamente positivo: a América Latina começa a construir uma cultura mais colaborativa de compartilhamento de experiências.

O seminário não foi estruturado como uma vitrine de “cases perfeitos”. Pelo contrário. A proposta explícita do painel orientava os participantes a compartilharem também fracassos, limitações e aprendizados.

Essa maturidade talvez seja um dos sinais mais promissores para o futuro dos ecossistemas latino-americanos.

Ao longo das conversas, tornava-se perceptível que muitos países da região começam a abandonar a lógica de simples reprodução de modelos internacionais para construir soluções mais adaptadas às suas realidades econômicas, sociais e institucionais. Há uma diferença importante entre importar inovação e desenvolver capacidade própria de transformação e o evento demonstrou que essa consciência começa a amadurecer na região.

Santo Domingo como símbolo do encontro

A escolha de Santo Domingo como sede também teve significado importante.

O material oficial do evento apresentava a cidade como um ponto de encontro entre história, cultura e modernidade, destacando sua condição de primeira cidade do continente americano e sua crescente relevância regional.

O ambiente do encontro reforçou uma percepção importante: os ecossistemas de inovação não podem ser dissociados da cultura, da identidade territorial e das relações humanas.

Em muitos momentos, networking, trocas informais e conexões culturais pareciam tão relevantes quanto os próprios painéis técnicos.

Essa dimensão humana do evento talvez tenha sido um de seus aspectos mais relevantes. Em meio a discussões sobre inteligência artificial, venture capital e transformação digital, permanecia evidente que ecossistemas continuam sendo construídos, sobretudo, por relações de confiança, colaboração e capacidade de articulação entre pessoas. Nenhuma plataforma substitui completamente a construção de vínculos institucionais e humanos duradouros.

Considerações finais

O 15ST Prodem deixou uma mensagem clara: o futuro da inovação latino-americana dependerá menos de soluções importadas e mais da capacidade regional de construir modelos próprios de governança, colaboração e desenvolvimento.

A experiência de Criciúma no evento demonstra que cidades médias brasileiras podem ocupar espaço relevante nos debates internacionais quando conseguem transformar gestão pública em estratégia de longo prazo.

Mais do que representar um município brasileiro em um painel internacional, a participação no 15ST Prodem evidenciou algo maior:

a América Latina começa a compreender que inovação não é apenas criar tecnologia, é criar capacidade institucional para enfrentar desafios complexos de forma colaborativa, sustentável e humana.

E talvez essa seja a principal lição do encontro: ecossistemas fortes não são construídos apenas por startups, investimentos ou tecnologia.

São construídos por pessoas, confiança, articulação e governança.

Em um período marcado por rápidas transformações tecnológicas e instabilidade política em diferentes países da região, o encontro deixou evidente que a capacidade de construir futuro dependerá, cada vez mais, da habilidade dos territórios em combinar inovação com continuidade, tecnologia com estratégia e desenvolvimento econômico com fortalecimento institucional. Porque, no fim, cidades e ecossistemas não se transformam apenas quando adotam novas ferramentas, mas quando conseguem criar visão coletiva de longo prazo.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC.

PF abre inquérito para investigar alerta falso da Defesa Civil após possível ataque hacker

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PF abre inquérito para investigar alerta falso da Defesa Civil após possível ataque hacker
Foto: Divulgação/Polícia Federal

Milhões de brasileiros receberam mensagem sonora, em diferentes unidades da Federação, devido aos 10 disparos de aviso distintos

A PF (Polícia Federal) abriu um inquérito, nesta segunda-feira (22), para investigar a invasão ao sistema nacional de notificações de desastres da Defesa Civil, entre a noite de sexta-feira (19) e a madrugada de sábado (20).

Na manhã seguinte ao possível ataque cibernético, o órgão vinculado ao MIDR (Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional) anunciou que acionaria a PF. Horas depois, a corporação abriu um procedimento preliminar de investigação do caso.

As autoridades acreditam que o disparo das notificações de “alerta extremo” tenha sido fruto de um ataque coordenado de crackers — cibercriminosos comumente chamados de “hackers”. A Defesa Civil Nacional detalhou que milhões de brasileiros receberam as mensagens, devido ao envio de nove alertas distintos pelo sistema Cell Broadcast, de avisos emergenciais do órgão, e de um SMS.

No caso de alertas extremos, os aparelhos que recebem o aviso emitem um alerta sonoro, devido a situações de risco iminente. O primeiro sinal disparou no Paraná, mas houve registro de ocorrência semelhantes em São Paulo, no Mato Grosso do Sul, no Rio de Janeiro e no Distrito Federal

O que é misantropia

As mensagens de aviso incluíram um alerta com a palavra “misantropia” ou variações dela. O termo remete a “aversão, desprezo ou ódio à humanidade”. Com base nisso, a Secretaria de Justiça e Cidadania do Paraná emitiu uma nota, a qual sugere que os responsáveis pelo ato sejam penalizados com base na Lei Antiterrorismo do Brasil.

O órgão justifica que pode ter havido uma “finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo a paz pública ou a incolumidade pública”. “A mensagem disparada foi do tipo ‘alerta extremo’ e continha a palavra ‘misantropia’, que significa ódio à humanidade, conduta que se enquadra, em tese, à prática do tipo penal”, argumentou a secretaria.

A pasta destacou, ainda, o “impacto negativo causado no Paraná”; que a investigação cabe à Polícia Federal e à Justiça Federal; e que “aguarda com a certeza de que todas as medidas legalmente cabíveis serão tomadas”.

Posicionamento do MIDR

Após o caso, o governo federal divulgou um comunicado sobre o ocorrido e informou que desativaria o sistema Defesa Civil Alerta, sem data prevista para reativação dele.

“A plataforma de envio do Defesa Civil Alerta foi tirada do ar à 1h30 deste sábado (20/6), após sofrer uma invasão e disparar um alerta para diversas regiões do país, ordenado remotamente por alguém alheio ao Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil.

A mensagem disparada foi do tipo ‘alerta extremo’ e continha a palavra ‘misantropia’ — que significa ódio à humanidade. Provavelmente se trata de um ataque hacker.

A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) acionará a Polícia Federal e tomará as providências para religar o sistema o mais rapidamente possível, quando todas as condições de segurança forem restabelecidas.”

Fonte: R7

Petrobras assina protocolo com BNDES e deve entrar em minerais críticos

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Com Foz do Amazonas, valor da Petrobras pode ir a R$ 811 bi até fim do ano
Foto: Adriano Ishibashi/Framephoto/Estadão Conteúdo

Acordo para parceria entre estatal e banco foi assinado durante evento nesta segunda (22) e permitirá a troca de informações e realização de análises para a construção das iniciativas

A Petrobras assinou nesta segunda-feira (22) um protocolo de intenções para uma iniciativa de pesquisa, desenvolvimento e inovação ligada a minerais críticos e estratégicos.

O acordo foi firmado pela estatal junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e prevê a troca de informações e realização de análises das principais lacunas de capacidade produtiva ou tecnológica, além de projetos e iniciativas em execução e/ou em fase de desenvolvimento.

A assinatura ocorreu durante a celebração de aniversário de 74 anos do Banco, durante evento com a participação do presidente Lula, do presidente do BNDES, Aloizio Mercadante e da presidente da Petrobras, Magda Chambriard.

Novas iniciativas que contribuam para o desenvolvimento das cadeias de transição energética e de óleo e gás também estão dentro do acordo.

Segundo Mercadante, o acordo foi firmado junto com o Cenpes, unidade do Centro de Pesquisas da Petrobras responsável pela pesquisa e desenvolvimento e engenharia básica da empresa, e há a intenção de estender a parceria com a Vale, mirando o estudo dos minerais críticos.

“Nós queremos também estender isso depois de uma parceria com a Vale, para estudar minerais críticos”, disse.

Segundo ele, a iniciativa mira a geração de valor no Brasil a partir dessas cadeias.

O Brasil possui a terceira maior produção mundial de alumina (um tipo de mineral crítico), além da quarta maior reserva de estanho, a segunda maior reserva de grafite natural, estando entre os cinco maiores produtores de lítio do planeta, e detendo a quarta maior reserva de manganês e a terceira maior reserva de níquel.

Fonte: CNN Brasil

Muito Além da Tecnologia: como o Ecossistema Cidade CSC está redefinindo o futuro das cidades brasileiras

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o Cidade CSC promove uma visão integrada do desenvolvimento urbano, mostrando que cidades inteligentes são construídas com inovação, governança, sustentabilidade e participação social
Foto: Divulgação

Reunindo iniciativas como o Connected Smart Cities, o GovTech e o Parque da Mobilidade Urbana, o Cidade CSC promove uma visão integrada do desenvolvimento urbano, mostrando que cidades inteligentes são construídas com inovação, governança, sustentabilidade e participação social – e não apenas com tecnologia.

A discussão sobre cidades inteligentes costuma ser associada, de forma quase automática, à tecnologia. Sensores espalhados pelas ruas, aplicativos de serviços públicos, inteligência artificial e plataformas digitais frequentemente ocupam o centro do debate. No entanto, a transformação urbana que está em curso vai muito além da adoção de novas ferramentas tecnológicas. Ela envolve governança, participação social, educação, sustentabilidade, planejamento e a construção de redes de colaboração capazes de responder aos desafios complexos das cidades contemporâneas.

É justamente essa visão ampliada que orienta o trabalho do ecossistema Cidade CSC, uma das principais plataformas de discussão e articulação sobre desenvolvimento urbano no Brasil. Mais do que um evento, o Cidade CSC se consolidou como um ambiente permanente de conexão entre gestores públicos, empresas, universidades, organizações da sociedade civil, investidores e especialistas que atuam na construção de cidades mais inteligentes, humanas e sustentáveis. Seu propósito é criar espaços de diálogo, compartilhamento de experiências e desenvolvimento de soluções capazes de gerar impacto real nos territórios.

Leia mais: Cidade CSC 2026 será realizado em novembro para ampliar o debate com os novos governos eleitos

A proposta rompe com uma visão limitada que reduz a inteligência urbana à simples digitalização de serviços. Em um momento em que a tecnologia se torna cada vez mais presente na gestão pública, cresce também a necessidade de compreender seus impactos políticos, sociais e éticos. Afinal, a infraestrutura que molda a vida urbana já não é composta apenas por ruas, pontes ou edifícios, mas também por sistemas digitais, bancos de dados e algoritmos que influenciam decisões sobre mobilidade, habitação, segurança, saúde e educação.

Nesse contexto, a digitalização pode ser entendida como uma nova forma de urbanização. Se, no passado, o crescimento das cidades era marcado pela expansão física de avenidas, bairros e equipamentos públicos, hoje a expansão ocorre também em camadas invisíveis de informação. O código passa a desempenhar um papel semelhante ao do concreto, organizando fluxos, definindo prioridades e orientando investimentos. A gestão urbana torna-se cada vez mais dependente da capacidade de produzir, interpretar e utilizar dados.

Essa transformação traz oportunidades significativas. O uso inteligente de informações pode melhorar serviços públicos, ampliar a eficiência administrativa e contribuir para decisões mais precisas. Porém, também levanta questões importantes. Quando decisões passam a ser mediadas por sistemas automatizados, o poder deixa de estar exclusivamente nas mãos dos agentes públicos que atuam diretamente com a população e passa a ser compartilhado com aqueles que projetam, programam e controlam as tecnologias utilizadas. O risco é que a lógica técnica seja tratada como neutra, quando, na realidade, toda tecnologia incorpora escolhas, prioridades e visões de mundo.

Leia mais: Cidade CSC 2026 é lançado após edição histórica que reuniu mais de 7 mil participantes e projetou R$1,2 bilhão em investimentos para as cidades brasileiras

É por isso que o debate sobre cidades inteligentes precisa necessariamente incluir temas como transparência, ética digital e governança de dados. Não basta perguntar quais tecnologias estão sendo implementadas, mas também quem as desenvolve, quem controla os dados produzidos e quais interesses orientam sua utilização. Em uma cidade verdadeiramente inteligente, a inovação não pode servir apenas à eficiência administrativa ou à atração de investimentos; ela deve fortalecer direitos, ampliar a participação cidadã e promover inclusão.

O Cidade CSC tem buscado justamente estimular essa reflexão ao reunir diferentes atores do ecossistema urbano em torno de agendas que vão além da tecnologia. A plataforma integra iniciativas voltadas à produção de conhecimento, capacitação de lideranças, reconhecimento de boas práticas, desenvolvimento de indicadores e promoção de encontros estratégicos. Entre suas frentes de atuação estão o evento nacional Cidade CSC, o Ranking Connected Smart Cities, Encontros Regionais, Selos e Prêmios e canais permanentes de produção de conteúdo sobre inovação urbana.

Dentro desse ecossistema estão algumas das principais iniciativas nacionais dedicadas à inovação urbana. O Cidade CSC engloba o Connected Smart Cities, referência nacional na discussão sobre cidades inteligentes e desenvolvimento urbano sustentável; o GovTech, voltado à transformação digital dos governos e à aproximação entre setor público e soluções tecnológicas inovadoras; e o Parque da Mobilidade Urbana, espaço dedicado ao debate sobre mobilidade, acessibilidade, transporte e qualidade de vida nas cidades. Juntas, essas plataformas promovem encontros, pesquisas, conteúdos, capacitações e conexões estratégicas que fortalecem o ecossistema urbano brasileiro.

Leia mais: Diálogos sobre o futuro das cidades: a inteligência além da tecnologia

Essa atuação reforça a compreensão de que cidades inteligentes não são construídas apenas com softwares ou equipamentos de última geração, mas por meio de ecossistemas colaborativos. São as conexões entre governos, universidades, empresas, empreendedores, movimentos sociais e cidadãos que tornam possível transformar conhecimento em soluções concretas para problemas urbanos. A inteligência de uma cidade não está apenas na tecnologia que utiliza, mas na sua capacidade de articular diferentes saberes e interesses em favor do bem comum.

O próprio crescimento do Cidade CSC reflete essa visão. Ao longo dos últimos anos, a plataforma consolidou-se como um dos principais espaços de articulação da agenda urbana brasileira, reunindo milhares de participantes e centenas de cidades em discussões sobre inovação, sustentabilidade, mobilidade, governança e transformação digital. O foco não está apenas em apresentar soluções tecnológicas, mas em construir pontes entre aqueles que planejam, financiam, executam e vivenciam as políticas públicas diariamente.

Diante de um cenário em que algoritmos influenciam decisões públicas, dados se tornam ativos estratégicos e a digitalização redefine a forma como as cidades funcionam, a pergunta central deixa de ser quais tecnologias serão adotadas. A questão mais importante passa a ser quem participa das decisões sobre o futuro urbano e quais valores orientam essa transformação. Nesse sentido, o debate promovido pelo Cidade CSC aponta para uma conclusão fundamental: falar sobre cidades inteligentes não é falar apenas sobre tecnologia. É falar sobre pessoas, governança, democracia, sustentabilidade e sobre a capacidade coletiva de construir cidades que utilizem a inovação como ferramenta para ampliar direitos e melhorar a vida de quem nelas habita.

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A inteligência artificial vai criar mais empregos, e não menos, afirma Jeff Bezos

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Cidade Mais Inteligente do Mundo e líder em qualidade de vida entre as capitais: a metrópole com quase 70 m² de área verde por morador
Foto: wahyu_t

Para ele, a tecnologia reduzirá barreiras que hoje limitam a produtividade humana, criando novas demandas e mais empregos

Há meses, alarmistas vêm alertando para o “fim dos tempos” da IA e para como ela poderia, eventualmente, deixar grandes parcelas da força de trabalho desempregadas, enquanto o restante passaria a gerenciar funcionários virtuais. Mas, para Jeff Bezos, esses temores são exagerados e, em vez disso, a IA trará ainda mais empregos do que pessoas disponíveis para ocupá-los.

Falando durante a VivaTech, conferência anual de tecnologia realizada em Paris, o fundador da Amazon e quarta pessoa mais rica do mundo apresentou uma visão otimista sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho — uma tese que vem defendendo há semanas.

“Eu sei que há muita preocupação de muitas pessoas, inclusive de pessoas muito inteligentes, de que a IA tornará os seres humanos desnecessários”, disse Bezos em conversa com David Limp, CEO da Blue Origin. “Discordo totalmente desse ponto de vista. E acho que, na verdade, a IA vai criar uma escassez de mão de obra.”

Não foi a primeira vez que ele apresentou esse argumento. Em uma entrevista à CNBC em maio, Bezos usou a metáfora da “escavadeira versus a pá” para defender que a IA elevará a produtividade dos trabalhadores em vez de substituí-los; previu deflação impulsionada por ganhos de produtividade; e descartou especificamente os temores de substituição de profissionais qualificados, como radiologistas e engenheiros de software. Na ocasião, ele chamou o fenômeno de “escassez de mão de obra”.

Os seres humanos têm uma quantidade “infinita” de coisas que desejam fazer, disse Bezos durante a conferência, e atualmente são limitados apenas por barreiras que a IA ajudará a reduzir. Ao eliminar essas restrições, argumentou, a demanda por esforço humano só tende a aumentar.

As declarações o colocam em desacordo com uma parcela significativa dos americanos, incluindo algumas das vozes mais influentes do próprio setor de tecnologia. Uma pesquisa Reuters/Ipsos publicada neste mês constatou que metade dos entrevistados nos Estados Unidos teme que o avanço da IA possa deixar eles próprios ou alguém de sua família sem trabalho.

Em fevereiro, um diretor do Federal Reserve alertou que um “boom de desemprego”, que deixaria trabalhadores “praticamente sem condições de conseguir emprego”, era “totalmente possível”.

Até mesmo líderes de grandes empresas de IA, como Dario Amodei, CEO da Anthropic, já previram que a IA poderia causar uma disrupção “extraordinariamente dolorosa” em ocupações de escritório.

No entanto, tanto ele quanto Sam Altman, da OpenAI, desde então amenizaram essas previsões às vésperas das megaberturas de capital de suas empresas.

Os comentários de Bezos também acontecem em um momento particularmente difícil para o setor. As demissões em tecnologia até maio de 2026 já ultrapassaram 115 mil vagas, aproximando-se do total registrado em todo o ano de 2025.

Meta, Amazon e Snap estão entre as empresas que apontaram a IA como um dos fatores por trás dos cortes.

O Goldman Sachs estimou que a IA está eliminando cerca de 16 mil empregos por mês nos Estados Unidos, com trabalhadores iniciantes e da geração Z sofrendo o maior impacto.

Uma pesquisa com diretores financeiros indicou que as demissões relacionadas à IA podem ser nove vezes maiores em 2026 do que no ano passado.

Bezos, por sua vez, concentra-se no argumento de que as revoluções industriais do passado sempre criaram mais empregos do que destruíram, embora não tenha abordado diretamente os dados sobre como as demissões estão afetando o setor.

Prometheus

A participação de Bezos no palco da VivaTech também lhe deu a oportunidade de falar sobre a Prometheus, startup de IA que ele cofundou em novembro de 2025 ao lado de Vik Bajaj, ex-cientista do Google X.

A empresa, que captou US$ 12 bilhões com uma avaliação de mercado de aproximadamente US$ 41 bilhões — tornando-se uma das maiores captações da história para uma startup de IA em estágio inicial — atua na interseção entre inteligência artificial e aquilo que chama de “economia física”.

Seu foco está em engenharia e manufatura, nos setores aeroespacial, automotivo e de desenvolvimento de medicamentos.

Em outra entrevista à CNBC, Bezos descreveu a empresa como criadora de algo próximo a um “engenheiro geral artificial” — uma ferramenta de design de próxima geração capaz de modelar, prever e otimizar a criação de objetos físicos, de motores a jato a produtos farmacêuticos. Ele a definiu como “uma versão muito, muito moderna do CAD”.

Bezos também fez questão de corrigir equívocos sobre o que a Prometheus realmente faz. Na mesma entrevista à CNBC, interrompeu uma pergunta que descrevia a startup como uma iniciativa de “robótica com IA”.

“Não temos nada a ver com robótica”, afirmou.

A exploração espacial, disse Bezos, tem como objetivo salvar a Terra. Se os custos de lançamento caírem o suficiente, matérias-primas poderão ser obtidas de asteroides, da Lua e de objetos próximos à Terra — uma questão particularmente relevante em um momento em que a corrida por minerais de terras raras atinge níveis recordes, acompanhada por tensões geopolíticas e escassez real.

Recentemente, a McKinsey previu um déficit de 30% nos minerais magnéticos de terras raras até 2035. Ir para o espaço, segundo Bezos, também ajudaria a humanidade ao transferir para fora do planeta as indústrias mais poluentes.

“Se as viagens espaciais se tornarem suficientemente confiáveis e baratas, e conseguirmos obter materiais de asteroides, de objetos próximos à Terra e da Lua, então este planeta-jardim poderá retornar ao estado em que estava antes da Revolução Industrial”, disse Bezos.

Limp, da Blue Origin, que participou do evento ao lado de Bezos na VivaTech, apresentou a primeira atualização pública sobre a recuperação da empresa após a explosão ocorrida em maio na plataforma de lançamento do foguete New Glenn, em Cabo Canaveral, na Flórida. A reconstrução da plataforma já começou, confirmou Limp, embora nenhum cronograma para novos lançamentos tenha sido divulgado.

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Fonte: InfoMoney