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A hora de falarmos de mobilidade urbana

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A hora de falarmos de mobilidade urbana
Foto: Divulgação/Motiva Trilhos

Em artigo à CNN Infra, André Salcedo argumenta que “a mobilidade deixou de ser apenas uma política de transporte para se tornar uma estratégia de desenvolvimento econômico e social”

A infraestrutura brasileira vive uma nova etapa de transformação. Depois de avanços importantes em áreas como logística, energia, saneamento e conectividade, chegou o momento de a mobilidade urbana ocupar o centro da agenda de desenvolvimento do país.

Essa mudança responde à realidade das cidades brasileiras. Hoje, mais de 85% da população vive em áreas urbanas e o crescimento dos grandes centros exige investimentos capazes de reduzir tempos de deslocamento, ampliar o acesso às oportunidades e aumentar a produtividade. A mobilidade deixou de ser apenas uma política de transporte para se tornar uma estratégia de desenvolvimento econômico e social.

Dois acontecimentos recentes simbolizam esse novo momento: O lançamento do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), elaborado pelo BNDES em parceria com o Ministério das Cidades, e a aprovação do Marco Transporte Público Coletivo (Lei nº 15.432/2026) representam um avanço importante na forma como o Brasil passa a enxergar o setor. O estudo oferece uma visão estruturada de longo prazo para a expansão da mobilidade urbana. A nova legislação fortalece a segurança jurídica, moderniza o ambiente regulatório e amplia a previsibilidade necessária para investimentos de longo prazo.

Os números ajudam a dimensionar essa oportunidade. O ENMU identificou 187 projetos estruturantes em 21 regiões metropolitanas, com potencial de investimentos superior a R$ 400 bilhões. A rede brasileira de transporte coletivo de alta capacidade poderá passar dos atuais 1.933 quilômetros para 4.370 quilômetros de extensão.

Mais do que ampliar a infraestrutura, essa expansão significa aproximar pessoas do emprego, da educação e dos serviços públicos, impulsionar o desenvolvimento urbano, aumentar a produtividade das cidades e reduzir emissões. Investir em mobilidade é investir na competitividade do Brasil.

O país já demonstra que esse movimento começou. São Paulo concentra hoje o maior ciclo de investimentos em mobilidade urbana do país, com projetos de expansão metroferroviária, modernização da infraestrutura existente, novas concessões e integração entre diferentes modais. Ao mesmo tempo, o estudo mostra que esse potencial se estende às principais regiões metropolitanas brasileiras, criando uma agenda nacional para o setor.

Também não partimos do zero. O Brasil acumulou experiência na estruturação de concessões, na implantação e operação de sistemas sobre trilhos e na construção de parcerias entre o poder público e a iniciativa privada. Esse conhecimento representa um ativo importante para acelerar uma nova geração de projetos.

Durante muito tempo, a infraestrutura brasileira foi medida pela capacidade de integrar o território nacional, ampliar a malha logística, modernizar aeroportos, fortalecer a matriz energética e expandir a conectividade. Nas próximas décadas, ela também será medida pela capacidade de transformar as cidades em ecossistemas integrados e sustentáveis, universalizar serviços essenciais, ampliar a mobilidade urbana e conectar pessoas às oportunidades.

Nesse contexto, os trilhos deixam de representar apenas um modo de transporte para ocupar um lugar estratégico no desenvolvimento do país.

Fonte: CNN Brasil

IA generativa na gestão pública municipal: eficiência real ou vitrine tecnológica?

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Inteligência Artificial do Google atua como ‘segundo cérebro’ no SUS para desvendar tumores raros no interior do Paraná
Foto: Magnific/Reprodução

Nos últimos dois anos, a IA generativa deixou de ser um experimento de laboratório para se tornar parte da rotina de boa parte das prefeituras brasileiras. Isso não é uma projeção de futuro: é o retrato do presente. A pesquisa TIC Governo 2025, do Cetic.br, mostra que 31% das prefeituras já possuem alguma iniciativa de uso de IA generativa em processos internos, e 17% já a aplicam diretamente em serviços voltados ao cidadão. O número ainda é modesto perto da esfera federal, onde 65% dos órgãos usam a tecnologia internamente, mas o movimento é claro: a máquina pública municipal está, aos poucos, incorporando ferramentas que escrevem, resumem, classificam e até decidem.

A pergunta que interessa não é mais se a IA generativa vai chegar à gestão municipal. Ela já chegou. A pergunta é: com que solidez institucional ela está sendo adotada?

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Onde a tecnologia já está sendo usada de verdade

O caso mais consistente talvez seja o de Porto Alegre. A Procempa, companhia de tecnologia da prefeitura, desenvolveu o SmartGen, uma plataforma própria de IA generativa hospedada em data center municipal, justamente para manter o controle sobre a privacidade dos dados. A ferramenta já foi integrada ao sistema de regulação de internações do SUS na cidade, oferecendo ao médico regulador mais elementos para apoiar decisões sobre prioridade de leitos. O ponto relevante aqui não é apenas o resultado, mas o desenho: infraestrutura própria, escopo definido e a tecnologia posicionada como apoio à decisão humana, não como substituta dela.

No atendimento ao cidadão, a mudança é mais silenciosa, mas igualmente concreta. O canal via WhatsApp e Telegram já responde por 64% do atendimento nas prefeituras brasileiras, atrás apenas do telefone. Por trás desses canais, cresce o uso de assistentes virtuais capazes de emitir segunda via de IPTU, consultar andamento de alvará ou gerar certidões, sem depender da abertura de novos concursos públicos em um cenário de teto de gastos cada vez mais apertado.

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No licenciamento, o uso mais maduro ainda está concentrado na fase interna dos processos: elaboração de documentos técnicos como Termos de Referência, Estudos Técnicos Preliminares e mapas de risco em licitações, seguindo a Lei nº 14.133/2021. É um uso menos visível ao cidadão, mas que já reduz tempo de tramitação em processos que historicamente travavam nas secretarias.

Já na previsão orçamentária, a IA generativa aparece como camada de apoio à análise: cruzamento de indicadores financeiros, identificação de irregularidades em contratos, leitura de séries históricas de arrecadação. É um uso ainda inicial nos municípios, mas que caminha na direção do que a literatura chama de governança algorítmica: decisões públicas cada vez mais mediadas por sistemas que processam volumes de dados que nenhuma equipe conseguiria analisar manualmente em tempo hábil.

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O risco da IA de vitrine

O problema é que, para boa parte dos municípios brasileiros, a adoção segue mais pelo discurso do que pela estrutura. A mesma pesquisa TIC Governo aponta que a falta de capacitação é o principal obstáculo para o avanço da IA nas prefeituras, citada por 40% delas- à frente até da falta de prioridade orçamentária (36%) e dos custos elevados (34%). Apenas 14% das prefeituras oferecem treinamento sobre o tema aos servidores, e só 10% dispõem de algum guia ou diretriz de uso.

Esse hiato entre anúncio e capacidade técnica é o que venho chamando de IA de vitrine: a prefeitura contrata ou anuncia uma ferramenta de inteligência artificial, ganha uma nota de imprensa favorável, mas não tem estrutura de dados organizados, servidores capacitados ou governança mínima para sustentar o uso responsável daquilo no médio prazo. E o risco não é apenas de ineficiência. É de dano institucional.

Toda ferramenta de IA generativa opera sobre uma base de dados, e essa base carrega escolhas humanas anteriores. Sem auditoria, sem explicabilidade e sem qualidade mínima dos dados de entrada, o sistema pode reproduzir exatamente os mesmos vieses e falhas que a tecnologia prometia corrigir. A literatura sobre o tema já tem um nome para isso: a caixa-preta algorítmica, aquela opacidade que torna quase impossível auditar como uma decisão automatizada foi tomada. No Brasil, esse risco ganha um agravante jurídico: a LGPD protege a privacidade dos dados, mas não garante ao cidadão o direito à explicação sobre uma decisão automatizada que o afete, como já assegura o RGPD europeu.

Leia mais: IA redefine gestão pública e impõe novo padrão de governança no Brasil

Há ainda um precedente nacional que serve de alerta sobre o que acontece quando digitalização acontece sem governança suficiente por trás: o Cadastro Ambiental Rural, criado para ordenar o território, mas que em muitos casos acabou sendo usado para legitimar ocupações irregulares de terra pública, por falta de controle sobre o próprio sistema. A lição não é contra a tecnologia. É sobre o que a sustenta.

O que separa eficiência de vitrine

A diferença entre os dois cenários não está na ferramenta escolhida, mas em três pilares que raramente aparecem nos anúncios de lançamento: dados organizados e atualizados, servidores capacitados para operar e questionar criticamente o que a máquina entrega, e mecanismos claros de responsabilização quando o sistema erra. Nenhum desses três pilares se resolve com a assinatura de um contrato de licença de software.

A IA generativa tem um potencial real de tirar prefeituras do atraso operacional que as sufoca há décadas, especialmente as de menor porte, que dificilmente teriam orçamento para contratar as centenas de servidores que hoje um assistente virtual consegue substituir em tarefas repetitivas. Mas esse potencial só se converte em ganho público duradouro quando a tecnologia é tratada como o que ela é: infraestrutura crítica de decisão, e não um item de modernização estética. A cidade que confunde uma coisa com a outra corre o risco de trocar a fila no balcão por uma fila invisível, mediada por um algoritmo que ninguém no município sabe explicar.

 

Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp

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Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp
Foto: Wikimedia Commons

Pesquisadores apontam que a maior planície alagada do mundo está sendo afetada negativamente pelas atividades humanas e pelas mudanças climáticas. Níveis de precipitação na região não têm sido suficientes para recuperar o estoque hídrico do bioma.

O Pantanal é considerado a maior planície alagada do mundo com uma área de aproximadamente 150 mil km² que se estende por Paraguai, Bolívia e Brasil. A vasta presença de águas superficiais no bioma é fundamental para a manutenção de uma rica biodiversidade que contempla mais de 650 espécies de aves, 150 espécies de mamíferos, 325 espécies de peixes e 2.270 espécies de plantas, além de realizar um papel de grande importância para o equilíbrio ecológico, sequestro de carbono, entre outros serviços ecossistêmicos essenciais.

Um estudo realizado por pesquisadores da Unesp em parceria com outros colegas brasileiros, entretanto, reforça o estado crítico dos corpos d’água localizados no bioma, que há décadas vem apresentando um declínio contínuo e acentuado. Segundo o artigo publicado na revista Advances in Space Research, o Pantanal perdeu cerca de 80% de sua água superficial desde 1985, e o regime atual de precipitações não está dando conta de repor o estoque hídrico da região.

Os pesquisadores apontam a mudança no uso da terra decorrente das atividades humanas e as mudanças climáticas como responsáveis pela variabilidade hídrica negativa das últimas décadas. Segundo o engenheiro florestal Sérvio Túlio Pereira Justino, um dos autores do artigo, esse é o maior trabalho sobre o tema já realizado no Pantanal, pois abrange as mudanças ocorridas nas águas superficiais localizadas na parte brasileira do bioma ao longo das últimas quatro décadas. “Nosso diferencial foi o tamanho da área em que trabalhamos, o período abrangido – de 1985 a 2023 –, e também os quatro índices espectrais utilizados para chegar aos resultados”, relata Justino, que é doutor pelo Programa de Pós-graduação em Ciência Florestal da Faculdade de Ciências Agrárias (FCA) da Unesp, no câmpus de Botucatu.

Os índices espectrais que o autor menciona como diferenciais da pesquisa são fórmulas matemáticas aplicadas a imagens de satélite que, neste trabalho, exploram diferentes valores de reflectância para diferenciar os corpos d’água de outros elementos na superfície da terra. Por meio das imagens registradas ao longo das últimas décadas e dos índices, os cientistas conseguiram obter informações sobre a variabilidade dos corpos d’água do Pantanal ao longo do período.

Índices mostram dinâmica das águas superficiais e das chuvas

As imagens obtidas pelos cientistas remetem aos anos de 1985, 1990, 1995, 2000, 2005, 2010, 2015, 2020 e 2023. Para cada ano, foram gerados quatro mapas, com base nos quatro índices utilizados na pesquisa: Índice de Água por Diferença Normalizada (NDWI); Índice de Água por Diferença Normalizada Modificada (MNDWI); Índice de Proporção de Água (WRI); e Índice Automatizado de Extração de Água (AWEI). A equipe somou, ao final, 36 mapas que indicavam as variações espaço-temporais em corpos d’água superficiais no Pantanal brasileiro.

“Primeiro, fizemos o download das imagens de satélite. Depois, realizamos o processamento, que é o recorte das imagens e avaliação de imperfeições e erros”, explica Justino. Entre essas imperfeições, ele cita, por exemplo, a presença de nuvens, que às vezes são identificadas como corpos d’água e podem acabar interferindo nos resultados. Imagens com interferências desse tipo acabam sendo filtradas, explica o pesquisador.

Fonte: Jornal da UNESP

Vale entender como o mapa é gerado a partir dos índices. Para aplicar o NDWI, por exemplo, o pesquisador precisa baixar duas imagens: uma em verde (ρGREEN), medida de reflectância na faixa do espectro visível correspondente à cor verde, e outra em infravermelho (ρNIR), reflectância do infravermelho próximo. Depois, é aplicada a fórmula NDWI = (Verde – NIR)/(Verde + NIR). O resultado varia de 1 a -1, com os valores superiores a 0,5 indicando corpos d’água, enquanto os valores próximos de 0 indicam solo com pouca ou nenhuma presença de água. Já os valores negativos indicam a presença de vegetação ou solo seco.

Cada índice tem um cálculo próprio e um espectro de imagens necessário para obter seus resultados. “Todos os índices que utilizamos geraram resultados positivos em relação a detecção de águas superficiais. Mas para chegar a esses resultados fizemos ainda uma análise de precisão desses índices”, comenta Justino. Para isso, os cientistas utilizaram as imagens dos diversos anos e, manualmente, fixaram pontos marcando os corpos d’água. Os pesquisadores então aplicaram um software para cruzar os dados do trabalho com os pontos marcados no mapa e confirmaram os resultados. Todo o trabalho levou cerca de um ano para ser finalizado.

Além dos índices já mencionados para medir a variabilidade hídrica nos corpos d’água, os autores do trabalho também aplicaram três outras fórmulas para obter informações sobre a variabilidade espaço-temporal das chuvas no Pantanal. Para isso, foram utilizados o Índice de Umidade por Diferença Normalizada (NDMI); o Índice de Concentração de Precipitação (ICP); e o Índice de Anomalia Padronizada (SAI).

Enquanto o NDMI também usa imagens espectrais de satélite para analisar a variação da umidade no período, o ICP e o SAI são elaborados a partir de informações do Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station data (CHIRPS), um projeto da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, nos Estados Unidos, que fornece dados de precipitação de quase todo o planeta em séries temporais desde 1981.

Uso sustentável da água e do solo é tarefa prioritária 

Ao final, os quatro índices espectrais (NDWI, MNDWI, WRI e AWEI) mostraram uma redução na área superficial da água, nos últimos 40 anos, em intensidades que variam entre 69,6% e 81,4% a depender do índice. Em complemento aos índices que analisaram principalmente a variação da água superficial, os três índices focados na umidade e precipitação (NDMI, ICP e SAI) apontaram um declínio progressivo na vegetação e na umidade do solo, bem como um aumento na frequência e na intensidade dos eventos de seca no bioma, e maior irregularidade na distribuição de chuvas ao longo das últimas quatro décadas.

Segundo Justino, além das mudanças climáticas, que têm levado a uma diminuição dos níveis de precipitação e tornado as chuvas insuficientes para repor o ciclo hidrológico do Pantanal, existem outros fatores que intensificam a redução da área ocupada por corpos d’água, como as mudanças no uso do solo, com a construção de barragens ou a expansão da agricultura e da pecuária. “Uma área que antes seria alagável, hoje é uma área de pastagem”, relata.

A diminuição da água superficial causa impactos negativos em toda a biodiversidade do bioma, alerta o pesquisador, que usa a cadeia alimentar como exemplo. “Se a redução das águas superficiais afetar o peixe, ela irá afetar os animais que se alimentam do peixe. A onça é um animal que necessita da água para caçar e se alimentar. A redução dessa área com água também diminui seu habitat”, explica. O autor aborda ainda a questão dos ribeirinhos que vivem da pesca e do turismo ecológico e a situação de comunidades indígenas que ocupam as reservas pantaneiras. “As pessoas que vivem ali provavelmente não vão conseguir continuar ocupando aquele espaço porque não terão mais fontes de renda”, complementa.

Justinof ressalta a importância de haver, no Pantanal, um manejo sustentável do uso da água e da terra. No curto prazo, deve-se realizar um monitoramento contínuo para identificar as áreas mais afetadas e também a causa do problema. A agricultura, por exemplo, afeta o território ao reduzi-lo a plantações e causa ainda a contaminação das águas devido ao uso de defensivos agrícolas, tornando-se imprescindível uma mudança. Os ribeirinhos, sem fonte de renda, acabam ingressando em serviços prejudiciais ao bioma, como o desmatamento. “É preciso realizar uma gestão que diminua esses impactos e inclua essas comunidades na conservação do Pantanal, uma vez que, como moradores, eles são os principais afetados”.

Ao analisar quatro décadas de dados de imagens de satélite e do regime de precipitação, a conclusão é que o bioma, considerado a maior área úmida do planeta, vive um processo claro de perda de água que sustenta sua rica biodiversidade e realiza serviços ecossistêmicos essenciais. “O Pantanal está num ponto em que ele precisa urgentemente de ajuda. Se continuarmos nesse mesmo ritmo, infelizmente não teremos mais o bioma daqui 40 ou 50 anos”, afirma Justino.

Fonte: Jornal da UNESP | Carolina Fioratti

A fome além da privação de alimentos: vergonha, culpa e desamparo

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A fome além da privação de alimentos: vergonha, culpa e desamparo
Foto: Adobe Stock

A fome é uma forma de violência que não atinge apenas o corpo, mas também a identidade, a autoestima e a percepção de fazer parte da vida em sociedade

Ao investigar a experiência de pessoas em situação de insegurança alimentar no período em que o Brasil voltou ao Mapa da Fome, em 2022, e deixou a lista em 2024, uma pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP propõe que a fome seja compreendida para além da privação de alimentos. O estudo aponta que ela é resultado de processos históricos, políticos e sociais, e provoca impactos profundos na saúde psíquica de quem a vivencia.

Segundo a psicóloga e psicanalista Júlia Louzada, autora da dissertação de mestrado Fome: do tabu ao mal-estar, orientada pela professora Miriam Debieux Rosa, do Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política (PSOPOL) do IP, “a fome restringe a vida somente à busca pela sobrevivência. A ausência de comida funciona como um sintoma social que desperta sentimentos humanos que refletem como processamos o mundo, como angústia, vergonha, culpa e horror”.

A pesquisa articula conceitos da psicanálise de Sigmund Freud, como tabu e mal-estar, às reflexões de Josué de Castro, pioneiro nos estudos sobre a fome no Brasil. O trabalho também parte da experiência da pesquisadora como voluntária em cozinhas populares e solidárias de São Paulo durante a pandemia de covid-19, quando acompanhou de perto os efeitos da insegurança alimentar sobre a população.

Naquele período, cerca de 33,1 milhões de brasileiros viviam em situação de fome e aproximadamente 125 milhões enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). “Isso significa que, naquele momento, cerca de dois terços da população brasileira não tinham acesso regular a alimentos suficientes e de qualidade”, destaca Júlia.  Foi nessa época também que a “fila do osso” tornou-se um símbolo da fome e da crise econômica no Brasil, ganhando enorme repercussão nacional por volta de 2021 e 2022. Pessoas em situação de extrema vulnerabilidade aguardavam a distribuição de restos de ossos e carcaças bovinas descartados por açougues, frigoríficos e supermercados para garantir alguma forma de alimentação.

Vergonha e desesperança

Para a professora Miriam, sob a perspectiva da psicanálise, o sofrimento associado à fome é também sociopolítico, já que a insegurança alimentar resulta de formas de organização social que afetam diretamente a experiência dos indivíduos. “A fome representa uma forma de violência que não atinge apenas o corpo, mas também a identidade, a autoestima e a percepção de fazer parte da vida em sociedade”, argumenta.

Em sua opinião, a privação alimentar fragiliza os vínculos sociais, compromete a confiança no outro, reduz as perspectivas de futuro e limita a capacidade de projetar desejos para além da sobrevivência imediata. Também enfraquece o sentimento de pertencimento e reconhecimento do mundo, expondo quem vive essa realidade a diferentes formas de desamparo, sejam elas materiais, sociais ou subjetivas.

“A culpabilização e a desumanização das pessoas em situação de fome favorecem o silenciamento sobre essa experiência, o que dificulta que elas expressem suas demandas, afirmem seus desejos ou se reconheçam como sujeitos de direitos e de participação política”, explica Mirian.

Panela que alimenta o corpo e escuta que acolhe a dor

Durante o agravamento da pobreza e da insegurança alimentar na pandemia de covid-19, as cozinhas solidárias ativas em bairros de São Paulo consolidaram-se como espaços cruciais de acolhimento e resistência social. Para Júlia, a vivência que teve nesse espaço também redefiniu os parâmetros da metodologia científica de sua pesquisa, transformando o trabalho comunitário em um rico campo de observação participante.

Em vez de aplicar questionários tradicionais ou realizar entrevistas formais, ela se integrou diretamente à rotina de preparo e distribuição de refeições. “Não se podia ocupar simultaneamente a posição de observadora e de cozinheira”, relata Júlia.

No calor do fogão, o diálogo e a escuta qualificada ocorriam de forma orgânica e coletiva durante o trabalho manual. Essa imersão permitiu captar nuances da vulnerabilidade social que dificilmente seriam registradas em abordagens tradicionais de consultório. “Durante o preparo do alimento, a experiência da fome raramente era verbalizada de forma direta; manifestava-se de maneira sutil, entre silêncios, recusas e memórias fragmentadas dos frequentadores”, explica a pesquisadora.

Muito além do prato de comida

“Nas cozinhas, enquanto o fogo e as panelas garantiam comida para o sustento físico, os encontros e as conversas abriam espaço para que os frequentadores pudessem digerir e elaborar, juntos, o próprio sofrimento”, relata Júlia. Relatos espontâneos de quem buscava um prato de comida revelavam que o local entregava mais do que alimento: “A gente sente vergonha de falar que está com fome”, desabafou um frequentador. “Aqui a gente não vem só pegar o prato, a gente conversa, aprende, se fortalece”, destacou outro.

De acordo com a pesquisadora, a vergonha funciona como uma barreira psicológica que silencia quem passa fome. “Ao guardar a dor para si por constrangimento, o indivíduo não consegue dar nome ao que sente [processo que a psicanálise chama de simbolização] e, consequentemente, não consegue enxergar a fome como um problema social e político que exige direitos. Em vez de perceber a fome como o reflexo de uma crise estrutural, a pessoa tende a internalizar o sofrimento”, diz.

A vergonha se entrelaça com outros “sentimentos profundos que paralisam o sujeito, como a culpa individual pela própria miséria, a angústia constante da escassez e o horror de não ter o que comer”, relata Júlia.

Durante a distribuição das refeições, os voluntários ouviam relatos de mulheres vítimas de violência doméstica, jovens LGBTQIAPN+ que enfrentavam o isolamento e a discriminação, mães preocupadas com a falta de acesso dos filhos às aulas remotas e famílias divididas por conflitos em torno da vacinação e da política. “As pessoas não chegavam apenas com a necessidade de comer, mas também com demandas de escuta, acolhimento e reconhecimento”, observa a pesquisadora.

Políticas públicas

Segundo a psicóloga, a fome costuma ser tratada apenas como consequência da pobreza ou da falta de acesso aos alimentos, mas em sua opinião, essa abordagem é insuficiente para explicar seus impactos psíquicos em quem é atravessado por essa condição. A pesquisadora argumenta que a fome é produzida historicamente e está relacionada à desigualdade estrutural, ao racismo, à colonialidade, às desigualdades de gênero e a diferentes formas de violência e exclusão social. Nesse sentido, ela deixa de ser apenas um problema biológico para assumir também uma dimensão política e social.

A pesquisadora explica que políticas voltadas apenas ao combate emergencial da fome são insuficientes. Segundo ela, o Estado precisa enfrentar as desigualdades estruturais que produzem a insegurança alimentar e incorporar o sofrimento psíquico das pessoas atingidas às estratégias de cuidado e proteção social.

Para a orientadora da pesquisa, ao reunir teoria psicanalítica, observação participante e a experiência em cozinhas solidárias a pesquisa ampliou a compreensão da fome como um fenômeno que ultrapassa a privação de alimentos. “Reconhecer os impactos subjetivos da insegurança alimentar é fundamental para compreender a dimensão humana desse problema e contribuir para políticas públicas que articulem o direito à alimentação com ações de cuidado, acolhimento e proteção social”, diz.

A dissertação Fome: do tabu ao mal-estar, foi defendida no Instituto de Psicologia (IP) da USP e em breve estará disponível no site da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.

Mais informações: com Júlia Louzada (autora da pesquisa), e-mail julialouzada@usp.br; Miriam Debieux Rosa (orientadora), e-mail debieux@terra.com.br

Fonte: Jornal da USP | Ivanir Ferreira

Caxias do Sul e o desafio de transformar tradição industrial em inteligência territorial

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São José dos Campos recebe Reunião Estratégica Regional da Plataforma CSC em 3 de dezembro
Foto: Divulgação

Com selo Ouro em cidades inteligentes e reconhecimento federal em 2026, cidade gaúcha chega à Reunião Estratégica Regional do CSC, em agosto, na UCS, para discutir os próximos passos de sua transformação digital 

Poucas cidades no Sul do Brasil carregam uma identidade industrial tão consolidada quanto Caxias do Sul. Erguida sobre a herança da imigração italiana, a cidade gaúcha se tornou, ao longo de décadas, um dos maiores polos manufatureiros do país, com destaque para os setores metal-mecânico, automotivo, moveleiro e vitivinícola. Hoje, com um PIB da ordem de R$ 30 bilhões e um IDH de 0,782, considerado alto, Caxias figura como a segunda cidade mais inteligente do Rio Grande do Sul e ocupa a 44ª posição no Ranking Connected Smart Cities.

Esse desempenho não surgiu do dia para a noite. Em 2024, a cidade aparecia na 52ª colocação do mesmo ranking, com selo Bronze. Em setembro de 2025, o salto foi expressivo: Caxias conquistou o Selo Ouro em Cidades Inteligentes e o Selo Prata em Ecossistemas de Inovação, consolidando-se como referência nacional. O avanço reflete um movimento que vai além da modernização de serviços públicos. Envolve a articulação entre governo, universidade e setor produtivo, o modelo conhecido como hélice tripla, no qual a Universidade de Caxias do Sul (UCS) ocupa papel central na transformação do conhecimento acadêmico em soluções práticas para a indústria e para a gestão urbana.

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Na prática, essa articulação aparece em iniciativas como o Ilumina Caxias, projeto de telegestão da iluminação pública, e nos corredores inteligentes de mobilidade com semáforos adaptativos, pensados para uma cidade que ainda enfrenta os desafios urbanos típicos de polos industriais de grande porte. Somam-se a isso plataformas como o Caxias Digital, voltado à transparência e à abertura de dados públicos, e o aplicativo Caxias Urbano, que permite ao cidadão solicitar serviços e acompanhar a fiscalização em tempo real. Em 2026, o município foi selecionado pelo Ministério das Cidades para receber consultoria federal em transformação digital urbana, no âmbito do Projeto Cidades Mais Inteligentes, um reconhecimento que reforça a trajetória construída nos últimos anos.

É nesse contexto que se insere a Reunião Estratégica Regional do Connected Smart Cities, marcada para o dia 13 de agosto de 2026, das 13h30 às 18h, no Auditório do Bloco H da própria UCS. O encontro tem como tema “Indústria, Empreendedorismo e Desenvolvimento Sustentável” e reunirá lideranças públicas, empresariais e acadêmicas para discutir os próximos passos da cidade rumo à inteligência territorial. A escolha do local não é simbólica por acaso: sediar a reunião dentro da universidade reafirma, na prática, o papel que a instituição já exerce como articuladora entre conhecimento técnico e desenvolvimento urbano.

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O paralelo entre a trajetória industrial de Caxias do Sul e a pauta da reunião de agosto expõe uma questão de fundo que atravessa o debate sobre cidades inteligentes no Brasil: a de que a força econômica de um território, por si só, não garante equidade nem sustentabilidade. A cidade construiu sua reputação sobre uma base manufatureira robusta, mas o próprio conceito de inteligência urbana, tal como discutido por especialistas da área, insiste que tecnologia e infraestrutura só têm sentido quando convertidas em qualidade de vida, inclusão digital e participação cidadã. O risco, apontado por pesquisadores do tema, é que o foco tecnológico acentue assimetrias territoriais, beneficiando sobretudo as áreas centrais e deixando de lado bairros periféricos.

Nesse sentido, encontros como o de agosto funcionam como um espaço de planejamento coletivo, reunindo em um mesmo ambiente os atores que já vêm sustentando essa trajetória. Caxias do Sul demonstrou, em pouco mais de um ano, que é possível sair de uma posição intermediária no ranking nacional para alcançar reconhecimento como referência em cidades inteligentes. Com uma base industrial consolidada, uma universidade atuante e uma agenda de transformação digital em curso, a cidade reúne hoje os elementos para seguir avançando de forma consistente, e a reunião de agosto se soma a esse movimento como mais um passo dessa construção.

Para saber mais sobre a Reunião Estratégica Nacional em Caxias do Sul, clique aqui

Por que Brasil é 2º país com maior incidência de tornados — e registros estão aumentando

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Foto: Getty Images

O tornado que deixou estragos na cidade de Giruá (RS), na última terça-feira (28/7), pode contribuir para o Brasil quebrar um recorde este ano.

Até julho, 81 tornados tinham sido registrados no país em 2026, e isso ainda antes do auge da temporada de tornados, que ocorre geralmente entre o fim do inverno e a primavera.

Com um El Niño forte tornando o clima mais propenso à formação de tempestades severas na região Sul do país, o Brasil pode quebrar o recorde de 92 tornados registrados em 2025, segundo dados da Plataforma de Registro e Observadores de Tempestades Severas (Prevots).

A iniciativa, que tem a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) entre seus parceiros, registra desde 2018 eventos de tempo severo no Brasil — como granizo, tornados, rajadas de vento e chuva intensa —, a partir do trabalho voluntário de meteorologistas.

O Brasil é o segundo país do mundo mais propenso à formação de tornados, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, segundo um estudo de 2012 realizado pelo pesquisador Daniel Henrique Candido, em sua tese de doutorado na Universidade de Campinas (Unicamp).

Este ano pode superar o recorde de tornados registrados em 2025

Tornados registrados no Brasil desde 2018

Fonte: BBC

O que é um tornado?

O tornado é um fenômeno meteorológico caracterizado por um funil de ar em rotação muito intensa, que desce da base de uma nuvem de tempestade.

“Quando a rotação desse funil atinge a superfície, isso caracteriza um tornado, e tem a capacidade de gerar ventos extremamente intensos e causar danos muito significativos”, explica o meteorologista Ernani de Lima Nascimento, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e voluntário da Prevots.

Então, a primeira condição necessária para a formação de um tornado é haver uma tempestade severa.

“Para produzir um tornado, tem que ser uma tempestade que tenha correntes ascendentes, ou seja, um movimento para cima dentro da nuvem extremamente intenso e, se tiver condições favoráveis, como uma intensificação do vento nos primeiros 1.000 metros de altura, e se o vento mudar rapidamente de direção, isso gera um cilindro de ar na horizontal”, diz Nascimento.

“Quando esse cilindro que está na horizontal entra embaixo de uma nuvem, que é um movimento ascendente, ele sai de horizontal para vertical, e o movimento ascendente estica esse cilindro, que gira ainda mais rápido.”

É possível prever tornados?

O pesquisador do Inpe afirma que não é possível prever com antecedência onde exatamente e o horário preciso em que um tornado vai ocorrer.

“O que é possível prever com várias horas de antecedência são condições atmosféricas favoráveis à formação de tempestades que podem produzir tornados numa determinada região”, afirma.

Para um alerta de tornado, é preciso confirmar antes a formação de uma tempestade do tipo supercélula, que é uma tempestade que gira em torno do seu próprio eixo.

“Pelo fato de ter rotação, ela gera esses movimentos ascendentes muito intensos, que é uma das condições para formar tornados”, diz Nascimento.

“Nesse caso, o máximo de antecedência que se pode dar para as cidades que estiverem no caminho daquela tempestade é de 15, 20 minutos, meia hora no máximo — temos um tempo de antecedência muito curto.”

Quais regiões do Brasil são mais propensas a tornados?

A região do Brasil mais propensa a tornados é o contorno oeste dos três Estados do Sul e também o sul do Mato Grosso, diz o pesquisador do Inpe.

“Essa é a região onde há a maior frequência desses tornados mais intensos, que podem produzir danos significativos”, diz Nascimento, alertando que isso não significa que esses fenômenos só ocorrem ali.

“Nós já tivemos tornados intensos no Estado de São Paulo, por exemplo.”

Segundo o meteorologista, o que explica a maior propensão da região à formação de tornados é o fluxo de ar que se desloca da Amazônia rumo ao Sul do país.

“A região que primeiro é visitada por esse escoamento de ar quente e úmido é justamente o oeste da região Sul. Esse fenômeno tem um nome: é chamado de jato de baixos níveis”, afirma.

Ele leva esse nome por se tratar de um movimento de ar em alta velocidade que ocorre em torno de 1.500 metros de altura, o que na meteorologia ainda é considerado um nível baixo.

Essa massa de ar quente e muito úmida, com propensão para girar em torno de si mesma, às vezes é acelerada por um ciclone tropical na costa do Uruguai, que é uma queda de pressão acentuada, acompanhada de uma frente fria.

O contraste entre o ar quente e úmido da Amazônia e o ar frio que vem da Patagônia argentina ajuda a intensificar o vento, diz o especialista.

“Quanto maior o contraste, mais o vento se intensifica com altura, e esse é um ingrediente-chave para formar essas tempestades que são rotativas.”

Por que registros de tornados estão se tornando mais frequentes?

Os especialistas concordam com um fato: os registros de tornados são hoje mais frequentes devido à proliferação dos celulares com câmera, que permitem a documentação desses fenômenos. Mas eles divergem quanto ao papel das mudanças climáticas nesse maior número de registros.

Marcelo Seluchi, coordenador-geral de operações e modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), é um dos que refuta a ideia de que esses fenômenos estejam de fato mais frequentes. Para o meteorologista, eles são apenas mais registrados.

“Tornado é um fenômeno que tem uma escala muito pequena — metros, dezenas de metros — e dura muito pouco tempo. É difícil detectar tornados com imagens de satélite, inclusive com radar meteorológico”, observa.

“Então, os registros que nós temos são basicamente afirmações e fotografias. É aí que aumenta a sensação de que nós estamos tendo mais, porque, por exemplo, este da região Sul foi perfeitamente filmado”, destaca.

“Não temos dúvida nenhuma de que se tratou de um tornado, mas, antigamente, você não tinha um celular no bolso pronto para filmar ou para tirar uma foto.”

Além disso, diz Seluchi, a população hoje está muito mais espalhada e é muito maior. “Ocupamos maior território, todo mundo com celular, então hoje é difícil um tornado escapar.”

Luci Hidalgo Nunes, professora aposentada do Instituto de Geociências da Unicamp, concorda com essa avaliação.

“Tornados, assim como inundações, acontecem em qualquer lugar no mundo, não sendo exclusivo de um tipo de clima. Isso diferencia esse fenômeno, por exemplo, de furacões, que acontecem apenas em alguns locais do mundo”, diz Nunes.

“Eles são bem mais comuns do que se pensa, mas como nos últimos anos tem havido facilidades para seus registros no mundo inteiro, pode dar a impressão de que estaria ocorrendo, necessariamente, aumento desses episódios, e que eles estariam associados às mudanças climáticas — algo que aqueles que são realmente especialistas nesse tipo de fenômeno refutam.”

Já o meteorologista Francisco de Assis Diniz, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), avalia que os tornados estão mais frequentes e mais intensos nos últimos 20 anos, e que isso tem, sim, relação com as mudanças climáticas.

“A Terra está passando por um período quente, que faz com que haja aumento dos temporais, dos vendavais, das ondas de calor, e das chuvas fortes também”, diz Diniz. “Consequentemente, muitas vezes, dentro dos temporais, ocorrem essas micro explosões ou tornados.”

Ernani Nascimento, do Inpe, acredita que os dois fatores — mais celulares com câmera e mudanças climáticas — se combinam para explicar o maior número de registros de tornados nos últimos anos.

“Na primavera, principalmente, há um aumento da frequência das condições que são favoráveis a formar tempestades severas na região da tríplice fronteira, onde junta Paraguai, Brasil e Argentina, e isso se estende pelo sudoeste da região Sul”, diz Nascimento.

Segundo ele, há nessa região uma intensificação dos ventos com altura, aqueles que vão desde o chão até cerca de 6.000 metros, o que, combinado com umidade e calor, pode gerar tempestades rotativas.

“A melhor explicação que temos para isso é uma mudança da região onde tem o contraste de massas de ar, e isso é resultante de mudanças climáticas a nível global”, afirma.

“Como o planeta todo está aquecendo, a região de massa de ar quente está tomando um espaço geográfico maior, está indo mais para sul, e é isso que está trazendo para essa região Sul do Brasil a intensificação desses ventos.”

Brasil é de fato o segundo país mais propenso a tornados?

O pesquisador do Inpe acredita que sim, embora tenha algumas discordâncias metodológicas com o estudo da Unicamp que chegou a essa conclusão.

“Podemos afirmar, com uma boa dose de confiança, que quando pegamos os registros de tornados intensos e que são realmente muito destrutivos, fora dos Estados Unidos, não tem outro país com tanta documentação”, diz Nascimento.

“Já estou há mais de dez anos estudando esse tipo de fenômeno, e consigo afirmar que o Brasil, em termos de tornados intensos, só fica atrás dos Estados Unidos nessa frequência de registros. Lógico, que com os Estados Unidos muito à frente.”

Essa também é a avaliação de Luci Hidalgo Nunes, professora aposentada da Unicamp.

“O sul da América do Sul — incluindo o Sul e partes do Sudeste do Brasil — apresenta condições atmosféricas e fisiográficas particularmente favoráveis para a formação de tornados”, diz Nunes.

“Falta um banco de eventos mais completo na América do Sul e mesmo radares do tipo Doppler que permitem melhor aferição desse fenômeno. Mas, depois da América do Norte, esse setor é o que apresenta condições mais propícias para a formação de tempestades tornádicas no mundo”, afirma.

“Simplificando ao máximo, essas condições favorecem o encontro de sistemas atmosféricos distintos, facilitadas por condições de relevo”, conclui.

E vêm mais tornados por aí?

Infelizmente, os especialistas acreditam ser provável que teremos mais tornados pela frente.

“Tipicamente falando, anos de El Niño são anos onde as tempestades severas são mais frequentes no Sul do Brasil”, diz Nascimento, acrescentando que esse quadro se agrava com a expectativa de um El Niño forte.

O fenômeno, marcado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico, provavelmente explica também por que essa temporada de tornados começou mais cedo, com muitos registros desde junho, ainda no início do inverno.

“Entre agora, o final de inverno e toda a primavera, é um período que vai ser acompanhado de perto, com uma certa prontidão, já tendo essa expectativa de que os tornados podem ocorrer com mais frequência”, afirma o pesquisador do Inpe.

Francisco de Assis Diniz, do Inmet, observa ainda que é esperado para o início de agosto a chegada de uma nova frente fria de maior intensidade entre a região Sul e a Argentina, trazendo maiores condições para temporais.

Fonte: BBC News

O calor europeu é pior que o do Brasil?

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O calor na Europa e a pergunta que falta no debate sobre o ar-condicionado
Foto: Gerard Julien/AFP

Com temperaturas próximas dos 35 graus na Alemanha, a comparação com o calor brasileiro volta à tona. Especialistas explicam por que fatores como radiação solar, umidade e construções podem tornar as ondas de calor mais perigosas na Europa.

Quase 35 graus onde eu estou na Alemanha. Sensação horrível. Mas sempre ouço gente dizendo: “O brasileiro é acostumado, no Brasil também faz calor.”

Eu conversei com dois especialistas e vou te contar por que aqui na Europa pode ser pior.

Começando por um detalhe geográfico. Uma animação mostra a incidência de radiação solar no dia mais longo do ano: o solstício de verão.

No Brasil, é em dezembro. Em Belo Horizonte, por exemplo, o sol nasce por volta das cinco da manhã e se põe por volta das seis e meia da tarde.

Agora vamos para Berlim? Lá, o solstício é em junho. O sol nasce antes das quatro da manhã e se põe perto das oito e meia da noite, desconsiderando o horário de verão europeu. O que na prática significa horas a mais de luz solar, que se mantém por semanas.

Niterói transforma semana de ciência em um exemplo de inovação e gestão pública

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Niterói transforma semana de ciência em um exemplo de inovação e gestão pública
Foto: Prefeitura de Niterói/ Divulgação

Com a inauguração do Distrito de Inovação da Cantareira, a realização da 78ª SBPC e o avanço da transformação digital, Niterói reforça seu compromisso com um modelo de cidade inteligente que conecta ciência, tecnologia e gestão pública

Durante uma semana, Niterói viveu uma experiência que vai muito além da realização de um grande evento científico. Ao sediar a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), entre os dias 26 de julho e 1º de agosto, a cidade se transformou em um verdadeiro laboratório vivo de inovação, reunindo pesquisadores, estudantes, gestores públicos, empresas e cidadãos em torno de um objetivo comum: pensar soluções para melhorar a vida das pessoas.

A presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, de universidades, centros de pesquisa e milhares de participantes reforçou a importância da ciência como instrumento de desenvolvimento nacional. Para Niterói, entretanto, o maior legado do evento foi demonstrar que cidades inteligentes não se constroem apenas com tecnologia, mas principalmente pela capacidade de conectar conhecimento, inovação e políticas públicas.

Um dia antes da abertura da SBPC, inauguramos o Distrito de Inovação da Cantareira, um espaço criado para aproximar universidades, startups, empresas, poder público e empreendedores. Mais do que um novo equipamento urbano, o distrito representa uma estratégia de desenvolvimento baseada na economia do conhecimento, capaz de transformar pesquisa em inovação, inovação em desenvolvimento e desenvolvimento em qualidade de vida para os niteroienses.

Essa visão esteve presente também na palestra que tive a oportunidade de apresentar durante a programação da SBPC: “Governança Inteligente: Como a Transformação Digital Está Modernizando Niterói”.

A principal mensagem dessa palestra foi mostrar que transformação digital não começa pela tecnologia. Ela começa pela forma como o governo organiza seus processos, integra informações e utiliza dados para tomar decisões mais acertivas. A tecnologia é consequência de uma gestão pública orientada por evidências e focada no cidadão.

Em Niterói, essa estratégia vem sendo conduzida pela Secretaria Executiva por meio da Subsecretaria de Transformação Digital, estruturando uma agenda que integra projetos como o Sistema Eletrônico de Informações (SEI), o Escritório de Dados, o SIGeo, o Gêmeo Digital, o Data Center Municipal, a ampliação da conectividade da administração pública e a implantação de uma arquitetura moderna de governança digital.

O objetivo é tornar a Prefeitura mais eficiente, transparente e preparada para oferecer serviços públicos de maior qualidade. Quando diferentes sistemas passam a conversar entre si, os dados deixam de ficar isolados e passam a gerar inteligência para mobilidade, segurança, planejamento urbano, saúde, educação e sustentabilidade. Essa integração é um dos pilares de uma cidade verdadeiramente inteligente.

A própria SBPC mostrou, na prática, como essa visão pode ser aplicada. A Prefeitura participou do evento com dois estandes que apresentaram iniciativas desenvolvidas por diversas secretarias municipais, demonstrando que inovação é uma política transversal.

A Secretaria Municipal de Saúde instalou um posto de vacinação dentro do evento, aproximando prevenção e acesso aos serviços públicos. A Educação levou experimentos científicos e atividades voltadas à popularização do conhecimento. A Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia apresentou as Plataformas Urbanas Digitais (PUDs), oferecendo experiências interativas que aproximaram a população das novas tecnologias. Além disso, um videocast produzido pela Prefeitura recebeu especialistas, pesquisadores e gestores para discutir temas como educação, saúde, ciência, tecnologia e inovação, ampliando o diálogo com a sociedade e fortalecendo a cultura da inovação.

Essas iniciativas mostram que o verdadeiro valor da tecnologia está em ampliar oportunidades, democratizar o acesso ao conhecimento e qualificar as políticas públicas.

O reconhecimento conquistado por Niterói nos últimos anos, figurando entre as cidades mais inteligentes do país, não é fruto de projetos isolados. É resultado de uma estratégia consistente que combina planejamento de longo prazo, transformação digital, sustentabilidade, inovação e boa articulação entre governo, universidades, setor produtivo e sociedade civil.

A experiência da SBPC deixa uma lição importante para todas as cidades brasileiras. O futuro urbano será cada vez mais definido pela capacidade de transformar conhecimento em políticas públicas, dados em decisões inteligentes e inovação em qualidade de vida.

É exatamente esse caminho que Niterói escolheu seguir: construir uma cidade onde ciência, tecnologia e gestão caminham juntas para melhorar a vida das pessoas. Porque cidades inteligentes não são aquelas que possuem mais tecnologia, mas aquelas que se utilizam dela para gerar desenvolvimento sustentável, inclusão e bem-estar para todos.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC. 

Início do pedágio Free-Flow na Anchieta-Imigrantes é adiado; entenda

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Free flow: CNH do Brasil passa a exibir passagens e como pagar o pedágio eletrônico
Foto: Getty Image

Projeto do sistema eletrônico de cobrança foi alterado após revisão dos impactos sobre moradores e deslocamentos locais

O início da cobrança do pedágio eletrônico no Sistema Anchieta-Imigrantes foi adiado. Inicialmente previsto para entrar em operação neste sábado (1º), a nova data ainda não foi divulgada.

O governo de São Paulo decidiu rever o projeto antes da entrada em operação do sistema free flow, alterando a posição de um dos pórticos instalados na Rodovia dos Imigrantes.

Até que a mudança seja concluída, os motoristas continuarão pagando a tarifa de R$ 40,60 nas atuais praças de pedágio, enquanto a nova data para o início da cobrança eletrônica ainda depende da conclusão das adaptações.

Segundo a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), o equipamento instalado na pista norte da Rodovia dos Imigrantes será transferido para a altura do km 38.

A alteração do pórtico na pista sentido São Paulo procura evitar impactos para moradores da região conhecida como Pós-Balsa, onde vivem comunidades rurais e aldeias indígenas que utilizam a Rodovia dos Imigrantes como principal ligação terrestre com o restante do município.

Com a mudança, o pórtico da Imigrantes no sentido litoral permanecerá no km 29, enquanto o equipamento da pista norte será instalado no km 38. Os dois pórticos da Via Anchieta continuam previstos para o km 33. Até que a operação comercial seja iniciada, todos os equipamentos permanecerão funcionando apenas para monitoramento do tráfego e validação dos sistemas.

Enquanto o novo modelo não entra em vigor, o sistema de pedágio continua funcionando exatamente como hoje. A tarifa de R$ 40,60 segue sendo cobrada apenas no sentido litoral, nas praças físicas da Via Anchieta, em Riacho Grande (km 31), e da Rodovia dos Imigrantes, em Piratininga (km 32).

Quando o Siga Fácil começar a operar, essa cobrança será dividida entre os dois sentidos da serra. Motoristas pagarão R$ 20,30 na descida e R$ 20,30 na subida. Motocicletas permanecerão isentas.

Quando entrar em vigor, os proprietários terão duas opções de pagamento. A primeira é utilizar tags eletrônicas para pagamento em tempo real, enquanto a outra é fazer o pagamento posterior. Após utilizar a rodovia, o motorista deve entrar no site da concessionária e regularizar os débitos.

Como determina a Deliberação 277 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), o prazo para regularizar débitos de pedágios eletrônicos vale até 16 de novembro. Depois dessa data, deverá voltar a valer o prazo anterior, de 30 dias após a passagem pelos pórticos. O condutor que não realizar o pagamento pode ser multado por Evasão de Pedágio (Art 209 CTB) em R$ 195,23 e cinco pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

Fonte: CNN Brasil

Tecnologia desenvolvida na USP pode evitar acidentes entre trens e plataformas do Metrô

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Tecnologia desenvolvida na USP pode evitar acidentes entre trens e plataformas do Metrô
Foto: Divulgação/Metrô de São Paulo

Sistema utiliza sensores ópticos para detectar passageiros ou objetos presos entre as portas, aumentando a segurança e reduzindo falhas dos métodos tradicionais

Uma nova tecnologia desenvolvida para monitorar a presença de passageiros ou objetos presos no vão entre as portas dos trens e das plataformas foi patenteada em convênio entre a USP e o Metrô de São Paulo. O sistema foi criado durante o mestrado de Marcos Diniz, colaborador da Engenharia de Manutenção do Metrô de São Paulo, sob orientação do professor Josemir Coelho Santos, coordenador do Laboratório de Sensores Ópticos (LSO) e docente do Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétricas (PEA) da Escola Politécnica (Poli) da USP.

Diferentemente das soluções convencionais, que utilizam câmeras com processamento de imagens ou sensores infravermelhos, a nova tecnologia monitora diretamente a estrutura da porta por meio de sensores de fibra óptica. O sistema identifica a deformação provocada pelo peso de uma pessoa, animal ou objeto preso entre o trem e a plataforma.

Essa alteração é detectada por um sensor óptico de alta precisão, que envia um alerta ao sistema e impede a partida da composição até que a situação de risco seja resolvida. Segundo os pesquisadores, essa abordagem torna o sistema mais robusto e menos suscetível a interferências ambientais, como chuva e neblina, além de reduzir falhas provocadas por objetos que não representam risco.

Outro diferencial é o monitoramento de uma área considerada vulnerável e pouco coberta pelos sistemas tradicionais: o espaço sob as soleiras inclinadas das portas das plataformas, onde a detecção de obstáculos costuma ser mais difícil.

Como surgiu a parceria?

A parceria entre a Escola Politécnica da USP e o Metrô de São Paulo surgiu a partir de uma demanda da própria companhia. A pesquisa foi desenvolvida para solucionar uma vulnerabilidade identificada no sistema de segurança das portas das plataformas.

Atualmente a tecnologia está na fase de validação dos resultados obtidos em simulações computacionais. O próximo passo será a construção e a instalação de um protótipo em um módulo experimental cedido pelo Metrô de São Paulo, que reproduz as condições reais de uma plataforma. Nessa etapa, serão realizados testes para verificar se o sensor detecta corretamente a presença de pessoas ou objetos presos entre as portas.

Caso os resultados sejam satisfatórios, a tecnologia seguirá para testes em uma estação do Metrô e, posteriormente, poderá passar pelo processo de homologação e licenciamento para futura implantação no sistema metroviário.

Fonte: Jornal da USP | Marcos Diniz