O distrito da Sé, na região central de São Paulo, concentra os piores indicadores de segurança pública da capital.
Os dados são do Mapa da Desigualdade, levantamento anual da Rede Nossa São Paulo que compara diferentes recortes entre os 96 distritos do município.
O que aconteceu
- No ranking geral de segurança pública, a Sé aparece com o pior desempenho. Observando indicadores isolados, o distrito ocupa a pior posição também no número de homicídios, homicídios de jovens e agressões por intervenção policial. Na ponta oposta, o distrito de Carrão, na zona leste, fica na melhor colocação.
- A Sé registra 25,2 ocorrências de homicídio a cada 100 mil habitantes. A região de Carrão tem 1,17. Vale destacar que o distrito da zona leste obteve a melhor colocação geral em segurança pública por combinar bons resultados em diferentes indicadores, mas não necessariamente aparece em primeiro lugar em cada um deles quando analisados separadamente.
- Os números na Sé são explicados, em parte, por particularidades do centro de São Paulo. Igor Pantoja, coordenador de relações institucionais da Rede Nossa São Paulo, destaca que, além de a Sé ser um distrito com grande passagem de pessoas e população de rua, é um distrito pequeno em população, o que faz com que cada caso tenha mais impacto no índice.
“Esse fenômeno demográfico, juntamente com a alta circulação de pessoas, faz com que esse índice seja mais alto que a média da cidade” Igor Pantoja, coordenador de relações institucionais da Rede Nossa São Paulo
- Entre os menores índices, alguns distritos registram valor zerado. Isso não significa necessariamente que não houve nenhuma ocorrência no período estudado, apenas que o índice foi desprezível proporcionalmente. Consolação, Socorro, Lapa e Vila Sônia registram índice zero. Em seguida, Itaim Bibi aparece com taxa de 0,98.
- Os indicadores do mapa são avaliados separadamente e observam anos distintos, dependendo da divulgação mais recente de cada dado. No caso dos homicídios, o recorte utilizado é de 2021, com dados disponibilizados pelo painel Seade.

- A Sé também tem maiores números no ranking de “homicídios de jovens”, com idades entre 15 e 29 anos. A taxa é de 133,99 casos por 100 mil habitantes, sensivelmente maior do que nas demais faixas de idade. Neste indicador, 22 distritos aparecem zerados, entre os quais Itaim Bibi, Alto de Pinheiros, Santo Amaro e Moema.
- Os índices combinados impactam também na diferença de expectativa de vida em cada localidade. Enquanto na Sé a média de idade média ao morrer é de 65 anos, no distrito de Carrão são 10 anos a mais, 75. No melhor avaliado da lista, Alto de Pinheiros, vive-se em média até os 82 anos.
Violência policial
- A avaliação de segurança pública do Mapa traz dois indicadores relacionados à atuação policial: “agressões decorrentes de intervenção policial” e “mortes decorrentes de intervenção policial”. A Sé volta a liderar o ranking de agressões, desta vez com dados de 2024.

- No recorte de mortes por intervenção policial, o Morumbi aparece na primeira posição, com taxa de 10,84 casos por 100 mil habitantes. Igor Pantoja avalia que parte dos números pode estar relacionada às frequentes operações policiais em Paraisópolis, comunidade vizinha ao distrito e cujo contraste com o bairro do Morumbi, área de classe média alta, é um dos símbolos mais conhecidos da desigualdade paulistana.
“Paraisópolis oficialmente está na Vila Andrade, mas, como o Morumbi é muito maior, muitas ocorrências acabam sendo registradas lá.” Igor Pantoja.
- Na sequência aparecem República (8,21), Bom Retiro (7,2) e Jaguara (5,39). A média dos distritos da capital é de 1,76 caso por 100 mil habitantes. Já Bela Vista, Belém, Perus, Mandaqui, Carrão e Ponte Rasa registram índices próximos de zero.
- O documento observa que as mortes causadas por violência policial não seguem padrão semelhante aos demais crimes de assassinato na capital paulista. “Mesmo com a queda expressiva e contínua nas taxas de homicídio nos últimos 20 anos, a violência policial letal não diminuiu, o que representa forte indício de uso excessivo da força letal contra certos grupos específicos”, diz o texto.

Outros indicadores
- O Mapa da Desigualdade é produzido anualmente desde 2012 pela Rede Nossa São Paulo e reúne indicadores de saúde, educação, segurança, mobilidade, meio ambiente e renda. O estudo compara os 96 distritos da capital paulista com base em dados oficiais de diferentes órgãos públicos.
- O documento também observa que moradores de Alto de Pinheiros vivem, em média, 20 anos a mais do que os de Cidade Tiradentes. O índice de idade média ao morrer entre moradores de Alto de Pinheiros chega a 82 anos. Em Cidade Tiradentes, pior avaliado, a média é de apenas 62.
- O ranking segue com bairros de classe média alta entre os locais onde mais se envelhece. Em Moema, Jardim Paulista e Pinheiros, a idade média é de 81 anos. Na ponta contrária, Guaianases, Iguatemi e Grajaú seguem nos piores desempenhos, com 63 anos de idade média.
- A comparação entre a renda média de cada distrito chama atenção. De acordo com o mapa, moradores da região de Itaim Bibi têm uma média de renda de R$ 8.234, a maior de São Paulo. O pior lugar do índice ficou com o Pari, tradicional polo comercial, onde a média salarial é de R$ 1.232, abaixo da média da cidade (R$ 3.598,55).
- O segundo lugar entre os que mais ganham ficou com Alto de Pinheiros, com R$ 8.115; seguido por Santo Amaro e Moema (R$ 8.092 e R$ 8.051). No penúltimo lugar aparece a região de São Miguel (R$ 2.014). Antes, Marsilac (R$ 2.077) e Ponte Rasa (R$ 2.150).
- O tempo médio de deslocamento em transporte público é outro ponto que vale nota. Enquanto em Pinheiros, o melhor desempenho, a média é de 25 minutos, Marsilac, no extremo sul da capital, exige 1 hora e 11 minutos em média. O tempo considerado foi o pico de deslocamento pela manhã em dias úteis.
- A Secretaria de Segurança Pública informou que estudos produzidos por diferentes instituições são considerados fontes complementares de análise. Em nota, a pasta informou que usa bases oficiais de segurança para orientar suas estratégias e ações operacionais. Sobre a região central da cidade, a SSP diz que “possui características próprias que influenciam a dinâmica criminal”, citando grande circulação de pessoas e ocorrências relacionadas ao tráfico de drogas e crimes patrimoniais. Já em relação ao Morumbi, a pasta informa que as unidades policiais responsáveis pela área desenvolvem ações de prevenção e combate à criminalidade.
- Procurada, a Prefeitura de São Paulo afirmou que distribui investimentos considerando as diferentes realidades da cidade. Segundo a gestão, o Programa de Metas 2025-2028 regionaliza 87 das 132 metas, enquanto o Plano Plurianual (PPA) 2026-2029 utiliza o Índice de Distribuição Regional do Gasto Público (IDRGP) para direcionar recursos conforme as vulnerabilidades de cada território.
- Na segurança, a administração diz que a cidade registrou entre janeiro e abril os menores índices criminais desde 2001. Na Sé, houve queda de 14,33% nos furtos e de 8,14% nos roubos em relação ao mesmo período de 2025. A gestão também destaca o programa Smart Sampa, com 50 mil câmeras de monitoramento em toda a cidade, sendo 12 mil na região central. Sobre mobilidade, a prefeitura cita a entrega do Terminal Estação Varginha, obras na Estrada do M’Boi Mirim, a expansão de faixas exclusivas de ônibus e o programa Domingão Tarifa Zero, que já atendeu mais de 380 milhões de passageiros.
Quais foram os indicadores medidos pelo Mapa
- População em situação de rua;
- Famílias em atendimento habitacional provisório;
- Quantidade de domicílios em favelas;
- Velocidade média dos ônibus;
- Tempo médio de deslocamento em transporte público;
- Acesso a transporte de massa;
- Acesso à infraestrutura de bicicleta;
- Acesso à internet móvel por área;
- Acesso à internet móvel por população;
- Oferta de emprego formal;
- Remuneração média mensal do emprego formal;
- Desigualdade salarial;
- Gravidez na adolescência;
- Mortalidade materna;
- Mortalidade infantil;
- Idade média ao morrer;
- Tempo médio para consultas na rede de atenção básica;
- Mortalidade por covid-19;
- Tempo de atendimento para vaga em creche;
- Matrículas no ensino básico em escolas públicas;
- Quantidade de alunos atrasados na série do ensino fundamental da rede municipal;
- Abandono escolar no ensino fundamental da rede municipal;
- Ideb nos anos iniciais em escolas públicas;
- Ideb nos anos finais em escolas públicas;
- Adequação da formação dos professores;
- Esforço dos professores (aqueles que têm mais de 300 alunos, atuam nos três turnos, em duas ou mais escolas);
- Quantidade de centros culturais;
- Quantidade de equipamentos públicos de cultura;
- Quantidade de cinemas;
- Quantidade de espaços culturais independentes;
- Quantidade de equipamentos públicos de esporte;
- Quantidade de quadras esportivas nas escolas públicas;
- Violência contra população LGBTQIA+;
- Violência racial;
- Feminicídios;
- Homicídios;
- Homicídios de jovens;
- Agressões por intervenção policial;
- Mortes por intervenção policial;
- Deslocamento médio para denúncias de violência contra mulher;
- Emissão de poluentes atmosféricos por área;
- Cobertura vegetal;
- Pontos de entrega voluntária;
- Número de áreas contaminadas.
Fonte: UOL






