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Cortes de renováveis no Nordeste somam 32,7 GW no fim de semana

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Cortes de renováveis no Nordeste somam 32,7 GW no fim de semana
Fonte: Sean Gallup/Getty Images

Restrições chegaram a 12,4 GW no sábado e 20,3 GW no domingo; ONS também acionou plano emergencial para conter excedente de geração

Os picos de restrição à geração renovável no Nordeste somaram 32,7 GW no fim de semana, segundo dados do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). O corte máximo chegou a 12.366 MW no sábado (22) e avançou para 20.312 MW no domingo (23).

Nos dois dias, as restrições no Nordeste ocorreram ao longo de todo o período, das 0h às 23h59.

Os cortes determinados pelo ONS,conhecidos como curtailment, podem ocorrer por problemas ou limitações na infraestrutura de transmissão, quando a energia não consegue ser escoada, ou por excesso de oferta em relação à demanda.

As restrições também atingiram outros submercados ao longo do fim de semana, ainda que em menor escala.

No Sudeste/Centro-Oeste, o corte máximo foi de 2.863 MW no sábado e de 2.332 MW no domingo. No Sul, os valores chegaram a 184 MW e 454 MW, respectivamente, enquanto no Norte foram de 294 MW e 211 MW.

Plano emergencial

No domingo, além das restrições aplicadas à geração renovável, o ONS acionou o Plano de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição, mecanismo que permite reduzir a produção de empreendimentos conectados às redes das distribuidoras e que não estão sob controle direto do operador.

O plano é utilizado para evitar a sobrecarga da rede e o risco de desligamento automático de equipamentos em situações de excesso de geração em relação ao consumo. Foi a segunda vez em 2026 que o mecanismo emergencial foi acionado.

Fonte: CNN Brasil

Com Foz do Amazonas, valor da Petrobras pode ir a R$ 811 bi até fim do ano

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Com Foz do Amazonas, valor da Petrobras pode ir a R$ 811 bi até fim do ano
Foto: Adriano Ishibashi/Framephoto/Estadão Conteúdo

Os até 6 bilhões de barris na Foz do Amazonas tem valor bruto estimado em R$ 3,8 trilhões

Embora a recente identificação de hidrocarbonetos no poço Morpho, no Amapá, ainda não signifique a existência de grandes reservas de óleo e gás natural na Bacia da Foz do Amazonas, a Petrobras pode ver seu valor de mercado saltar dos atuais R$ 632 bilhões para R$ 811 bilhões até o fim do ano, segundo estimativa baseada em um relatório do Itaú BBA (braço do banco voltado a grandes investidores) que analisou a descoberta.

O que você precisa saber

  • A avaliação da Petrobras em R$ 811 bilhões é uma projeção conservadora. No relatório, o Itaú BBA projetou que até o final de 2026 a ação mais negociada da empresa, a PETR4, valerá R$ 63, muito acima dos R$ 44,30 em que fechou na sexta-feira (21). O valor da empresa saltaria de R$ 632,5 bilhões para R$ 811,4 bilhões (valorização de 28%) ao multiplicar os R$ 63 por todas as 12,88 bilhões de ações existentes da Petrobras.
  • Se a projeção se confirmar, a ação da Petrobras vai se aproximar da máxima histórica em termos nominais. O recorde foi em 2008, com a euforia provocada pela descoberta do megacampo de Tupi, na camada pré-sal, meses antes. Em maio daquele ano, a PETR4 chegou a R$ 52,51 (R$ 144,21 em valores de hoje), com a empresa avaliada em R$ 510,3 bilhões, o equivalente a R$ 1,4 trilhão em cifra corrigida pela inflação.
  • No longo prazo, a valorização da Petrobras pode ser ainda maior. Se a estatal confirmar a projeção da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) de que existem 5,7 bilhões de barris recuperáveis (que dá para extrair) só na Foz do Amazonas, as reservas comprovadas de petróleo em todo o Brasil cresceriam 33%, e as da própria Petrobras, até 55%. Para toda a Margem Equatorial, formada por cinco bacias, a EPE estimou em seu PDE (Plano Decenal de Expansão de Energia) 2035 a existência de 41 bilhões de barris em potencial, número superior ao da ANP (Agência Nacional de Petróleo), que projeta 30 bilhões de barris.
  • O otimismo do Itaú BBA para as ações no longo prazo leva em conta a possibilidade de a Petrobras confirmar os 5,7 bilhões de barris na Foz do Amazonas. A conta do banco se apoia no indicador EV/Reserva, que mede quanto vale a empresa para cada barril de petróleo em reservas. O valor despencaria dos atuais US$ 12,7 por barril equivalente para US$ 8,5, abaixo do praticado por concorrentes globais. Essa queda atrairia investidores, valorizando o preço da ação.
  • Os até 6 bilhões de barris recuperáveis na Foz do Amazonas têm valor bruto estimado em R$ 3,8 trilhões. O cálculo, que considera o preço do barril do tipo Brent a US$ 70 e a taxa de câmbio a R$ 5,40, é da FGV-IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
  • Como extrair petróleo naquela região é barato, a margem de lucro valeria a pena. “O custo de extração na região tende a ser muito baixo a julgar pelo que tem sido observado na Guiana, em uma região petrolífera contígua à Margem Equatorial, situando-se entre US$ 15 e US$ 30 o barril, mesmo se tratando de águas profundas”, diz o relatório sobre a região onde a ExxonMobil opera com elevada margem de lucro.
  • O próprio Itaú BBA diz que ainda é cedo para incorporar a descoberta ao plano de investimentos de longo prazo. O banco cita o campo de Búzios, principal referência do pré-sal, que levou cerca de três anos entre a descoberta inicial e a declaração de comercialidade, e mais cinco anos até começar a produzir. “Serão necessárias atividades adicionais de avaliação para determinar a extensão da descoberta, as características do reservatório e, em última instância, se a acumulação pode ser desenvolvida comercialmente”, diz Monique Greco, analista de Óleo e Gás do Itaú BBA.

“Dado o entendimento ainda limitado sobre o potencial geológico da região, ainda é cedo para avaliar a relevância dessa descoberta para a tese de investimento de longo prazo da Petrobras.” Monique Greco, do Itaú BBA

Salvação da Petrobras?

A descoberta no Amapá pode ser vital porque 80% do petróleo brasileiro hoje vem do Pré-sal. Essa camada exploratória, porém, deverá entrar em declínio no início da década de 2030. “A Petrobras tem outras frentes de atuação que devem aportar uma quantidade razoável de reservas tanto de petróleo quanto de gás, como a Bacia de Pelotas e a Sergipe Águas Profundas”, diz Eric Gil Dantas, economista do Ibeps (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais). “Mas não chegam na mesma escala do Pré-sal. Por isso a necessidade da Margem Equatorial para garantir a reposição das reservas.”

Margem Equatorial a Foz do Amazonas, que abriga maior sistema de recifes do Brasil e a maior área contigua de manguezais do planetaImagem: UOL/Arte
Margem Equatorial a Foz do Amazonas, que abriga maior sistema de recifes do Brasil e a maior área contigua de manguezais do planeta
Imagem: UOL/Arte
  • Para lucrar com a Foz do Amazonas, a Petrobras poderá encontrar até menos petróleo do que o projetado. “Para gerar excedente econômico, os cálculos estimam mais ou menos 390 milhões de barris recuperáveis, o equivalente a dois terços de Liza, o campo que revelou o potencial petrolífero da Guiana”, explica o professor Luís Eduardo Duque Dutra, do MBA Executivo em Economia do Petróleo, Gás e Energia da Escola Politécnica da UFRJ.
  • Para Dantas, os investidores de longo prazo saberão esperar os anos necessários para lucrar com a comercialização do óleo. Por essa razão, “ainda não houve um impacto visível no preço das ações”. “Estes investidores sabem que o tempo de maturação é longo e que compensa esperar, como compensou com o pré-sal”, diz ele, ao mencionar fundos de investimentos como o BlackRock e GQG Partners LLC, “que juntas detêm mais de R$ 60 bilhões em ações da companhia”.
  • Já o investidor de curto prazo ainda “não acredita” na Foz. “Eu diria que o mercado aplica um desconto muito grande ao valor potencial desses recursos porque boa parte desse valor ainda está cercada de incerteza”, diz Marcos Praça, economista da Zero Markets Brasil. “É exatamente assim que um ativo exploratório deveria ser avaliado.”
  • Apesar dos bilhões que a Petrobras ainda precisará investir na região, os lucros e dividendos estão praticamente garantidos. “Os planos de produção da empresa e a produtividade dos poços do pré-sal asseguram um lucro extraordinário até o final da década se mantido o atual controle acionário, considerando o desempenho das reservas ultra-profundas do Pré-sal e tendo em conta o cenário do comércio de óleo e gás nos próximos cinco anos.”
  • Para Dantas, a atual política de dividendos de 45% de fluxo de caixa livre “é irresponsável”. “A Petrobras tem aumentado seu endividamento para bancar investimentos, quando poderia bancá-los com dinheiro de caixa”, diz. “Será benéfico para as finanças se a Petrobras diminuir a proporção de dividendos pagos.”

“Isto impactará no preço da ação, mas a estratégia de longo prazo da empresa não deve passar por reações de curto prazo do mercado acionário, e sim pelos seus fundamentos financeiros.” Eric Gil Dantas, economista

Da descoberta à exploração

  • A Petrobras confirmou a presença de hidrocarbonetos no poço de Morpho na segunda-feira (17). A perfuração do poço já alcançou 3.000 metros sob a lâmina d’água e outros 3.000 na rocha, faltando cerca de um quilômetro para o fundo. O trabalho termina no mês que vem, mas a viabilidade comercial só será calculada após o envio de amostras ao centro de pesquisas da empresa e da perfuração de um poço para descobrir até onde a poça de petróleo se estende.
  • O poço Morpho fica no bloco FZA-M-59 na bacia da Foz do Amazonas, uma das cinco que compõem a Margem Equatorial: Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar. Essa fronteira se estende por mais de 2.200 quilômetros de costa, com área exploratória que vai da foz do rio Oiapoque, no Amapá, até o litoral do Rio Grande do Norte.
  • A estatal brasileira detém atualmente o controle exclusivo do bloco onde ocorreu a descoberta. Nenhuma outra petroleira tem permissão para pesquisar ou extrair óleo na área, mas as regras do mercado permitem que a Petrobras venda parte dessa participação no futuro para compartilhar os custos da operação
  • Se as projeções de petróleo na região não se confirmarem, a Petrobras ficará com todo o prejuízo. A operação custa cerca de US$ 1 milhão por dia e já acumula gastos superiores a R$ 1,5 bilhão.
  • O mapa da Foz do Amazonas soma 25 blocos de exploração sob concessão de grandes companhias. Seis dessas áreas pertencem à Petrobras desde um leilão de 2013, incluindo o bloco FZA-M-59. Os outros 19 blocos foram arrematados em junho de 2025. Desse lote novo, o consórcio formado por Petrobras e ExxonMobil levou dez áreas, enquanto a parceria entre Chevron e a chinesa CNPC ficou com as outras nove.
  • O avanço operacional das petroleiras na região esbarra nas exigências de licenciamento do Ibama. Recentemente a Petrobras tentou usar a licença do poço Morpho para furar três áreas vizinhas, mas o Ibama barrou o pedido e definiu que cada nova perfuração exigirá estudos de impacto e licenças ambientais específicas.

Fonte: UOL | Wanderley Preite Sobrinho

Free flow: CNH do Brasil passa a exibir passagens e como pagar o pedágio eletrônico

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Free flow: CNH do Brasil passa a exibir passagens e como pagar o pedágio eletrônico
Foto: Getty Image

Concessionárias utilizam sistemas diferentes de cobrança, e motoristas têm relatado dificuldade para realizar os pagamentos. Consulta e até meios de pagamento passam a estar centralizados em um app.

O Ministério dos Transportes atualizou, nesta segunda-feira (24), o aplicativo CNH do Brasil. Com a mudança, a plataforma passa a reunir informações que permitem aos motoristas verificar quando passaram por um pedágio do sistema “free flow”.

O free flow é um sistema de pedágio eletrônico sem cancelas que permite a cobrança automática da tarifa sem que o motorista precise parar ou reduzir a velocidade.

Segundo o Ministério dos Transportes, todas as passagens por rodovias estarão listadas no aplicativo, “sejam elas federais ou estaduais. Além da consulta, o cidadão terá acesso a informações centralizadas para identificar, pela plataforma, a concessionária responsável e acessar o respectivo canal indicado para pagamento do pedágio”.

O ministro dos Transportes, George André Palermo Santoro, revelou que, entre todas as concessionárias que operam o sistema free flow no Brasil, apenas uma ainda não está integrada à plataforma: a responsável pelo Rodoanel, em São Paulo.

Como consequência, as multas por não pagamento da tarifa no sistema free flow não poderão ser aplicadas, e a homologação para o uso da tecnologia será revogada.

Para encontrar as passagens pelo free flow, o motorista precisa:

  • Abrir o aplicativo CNH do Brasil;
  • Tocar na opção “Veículos”;
  • Escolher e tocar no veículo na lista exibida;
  • Tocar na opção “Pedágio eletrônico”.

Nessa etapa, o motorista pode consultar as passagens registradas no sistema free flow, acessar o canal de pagamento da concessionária e acompanhar a confirmação do pagamento.

As passagens ficam registradas no aplicativo da CNH por até cinco anos. O pagamento da tarifa precisa acontecer em até 30 dias após o recebimento da notificação que aponta a passagem pelo pórtico.

“Nada é mais crítico para a concessionária do que a receita. Agora, todos nós que trafegarmos pelo pórtico do free flow recebemos, pelo menos, dois avisos: um para a passagem e o segundo quando estiver acabando o prazo de 30 dias para o pagamento”, disse Marco Aurélio Barcelos, diretor-presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).

As notificações e o registro da passagem, juntamente com o valor do pedágio eletrônico, ficam disponíveis apenas para o proprietário do veículo. Diferentemente da multa, essa cobrança não pode ser transferida para outro motorista identificado.

O ministro George André Palermo Santoro disse ao g1 que o Ministério dos Transportes espera facilitar o pagamento das tarifas com a nova ferramenta. Segundo ele, caso a medida não traga os resultados esperados, o governo poderá incluir uma funcionalidade de pagamento diretamente no aplicativo CNH Digital.

“A gente não quis impor uma solução de pagamento, deixando o mercado tentar encontrar uma solução própria. Se o mercado em pouco tempo não der uma solução, nós vamos dar uma solução. Junto do Serpro, nós vamos criar um portal de pagamento com algum parceiro, ou algum integrador”, disse o ministro.

No mesmo aplicativo, o usuário também pode contestar uma passagem caso entenda que ela não foi realizada pelo veículo.

Dentro do mesmo aplicativo é possível contestar uma passagem, caso o motorista não a tenha feito.

Motoristas que utilizam tags de pagamento continuam recebendo a cobrança automaticamente pela plataforma contratada, com o valor sendo pago diretamente para a empresa emissora da etiqueta.

Confusão fez ministério suspender multas

Antes da implementação da funcionalidade em um único aplicativo, o motorista precisava identificar o canal de atendimento de cada concessionária pela qual passava. Essa fragmentação das informações facilitava golpes por meio de sites falsos e dificultava o pagamento das tarifas.

Desde abril deste ano, o Ministério dos Transportes suspendeu 3,7 milhões de multas em rodovias no sistema de pedágio eletrônico. A medida também suspendeu os pontos da(CNH) aplicados por causa da infração.

Segundo a pasta, a suspensão serviu para que fossem feitos os ajustes necessários e para que as concessionárias pudessem adotar uma comunicação integrada com o sistema do governo federal.

Para emitir a multa, o governo federal recebe a comunicação da concessionária da rodovia e registra a infração no aplicativo CNH do Brasil. A evasão de pedágio, seja em praças tradicionais ou no free flow, gera multa de R$ 195,23 e cinco pontos na CNH.

“Está em elaboração uma deliberação do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) para prorrogar o prazo de homologação até dezembro de 2026. A proposta ainda está em tramitação interna e aguarda manifestação da Consultoria Jurídica”, disse a pasta em nota.

Assim, o motorista que passar pelo pórtico do “free flow” e não fizer o pagamento terá uma segunda chance de quitar a dívida sem a cobrança de multa. Não se trata de perdão: a penalidade continuará valendo caso o pagamento não seja feito até dezembro.

O que é o pedágio eletrônico (free flow)?

O pedágio eletrônico, ou free flow (“fluxo livre”, em inglês), é um sistema de cobrança que dispensa cabines de atendimento e não exige o uso de tag pelo motorista.

Nesse sistema, o motorista não precisa reduzir a velocidade para que os dados do veículo sejam lidos. Outra vantagem é a cobrança proporcional ao trecho percorrido, já que o sistema identifica onde o carro entrou e saiu da rodovia.

O pedágio eletrônico já é adotado em mais de 20 países, como Noruega, Portugal, Estados Unidos, Itália, China e Chile — um dos pioneiros na América Latina a implementar o sistema em suas rodovias.

O pedágio free flow aplica multa?

Não. A função do pedágio eletrônico é apenas identificar corretamente o veículo para realizar a cobrança. As câmeras e sensores instalados nos pórticos são usados exclusivamente para esse propósito.

Diesel verde é promessa de combustível mais estável, mais energético e menos danoso ao ambiente para impulsionar frota brasileira

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Diesel verde é promessa de combustível mais estável, mais energético e menos danoso ao ambiente para impulsionar frota brasileira
Fonte: Jornal da UNESP

Projeto desenvolvido no Instituto de Química prevê prospecção de biomassas e catalisadores para testar a viabilidade da produção industrial do HVO, alternativa capaz de substituir derivados do petróleo sem necessidade de misturas ou alterações no motor.

A ampla adoção dos motores flex, que são movidos a gasolina ou etanol, nos veículos brasileiros, combinados à nossa expertise na produção do combustível derivado da cana-de-açúcar têm colaborado para minimizar as recentes variações dos preços do petróleo. Mas apenas  para os condutores de automóveis.

Esses benefícios não alcançam os caminhões e ônibus do Brasil, dos quais 99% dos ainda são movidos a diesel, um derivado do petróleo. E, embora representem apenas 5% da frota em circulação, esses veículos são responsáveis por quase metade de toda a demanda de combustível líquido consumido no país.

Isso ocorre porque são esses veículos que percorrem as distâncias mais longas, seja para sustentar mais de 60% do transporte de cargas pelo país, seja para promover a mobilidade das pessoas dentro e entre as cidades. Além disso, em função de seu peso e tamanho, caminhões e ônibus necessitam de motores mais potentes, o que implica maior consumo de combustível.

Por isso, a redução da dependência de derivados do petróleo, como o diesel, se revela extremamente estratégica para proteger a economia brasileira da volatilidade no preço dos combustíveis fósseis, uma preocupação cada vez mais frequente em virtude das guerras e dos atritos geopolíticos que, periodicamente, impactam a economia global, e que tem sido tão intensos nos últimos meses.

No Instituto de Química da Unesp, no câmpus de Araraquara, pesquisadores têm estudado a produção de uma alternativa prática e sustentável ao diesel fóssil, chamado diesel verde, também conhecido pela sigla HVO, do inglês Hydrotreated Vegetable Oil (óleo vegetal hidrotratado, em português). O termo “verde” faz referência à forma como o combustível é produzido: a partir de óleos extraídos da biomassa, que podem ser de origem vegetal, como a soja ou a carnaúba, de resíduos, como o óleo de cozinha usado em frituras, ou mesmo de origem animal, como a banha de gordura bovina.

A matéria prima do diesel verde é a mesma de outro candidato a substituto do combustível fóssil, o biodiesel. Embora ambos tenham como matéria prima óleos derivados da biomassa, existem algumas diferenças relevantes entre os dois e que acabam determinando a sua viabilidade tecnológica e econômica [ver tabela].

A principal delas está no tratamento dado a esse óleo durante a sua produção. No caso do biodiesel, ele precisa passar por um processo de baixo custo e amplamente consolidado na indústria chamado transesterificação, que transforma a gordura em ácidos graxos com longas cadeias de carbono. Já a produção do diesel verde depende da hidrogenação, que coloca o óleo em contato com o hidrogênio sob alta pressão e temperatura, removendo o oxigênio da molécula e gerando hidrocarbonetos. Ao contrário da transesterificação, o processo tem um alto custo, é tecnicamente mais complexo, mas gera um combustível praticamente idêntico ao diesel fóssil.

A professora Sandra Pulcinelli, do Instituto de Química da Unesp, no câmpus de Araraquara, explica o processo. “Quando a matéria prima do biodiesel, os triglicerídeos, é submetida a outra reação química denominada hidroprocessamento gera-se um combustível que é mais rico em energia e emite menos CO2”, diz ela. Outras vantagens desse combustível são a possibilidade de uma queima melhor e uma maior estabilidade,o que permite o armazenamento por mais tempo.

Porém, embora possua várias qualidades, o HVO ainda tem uma desvantagem relevante em relação ao biodiesel e o diesel fóssil: o custo de produção ainda é elevado.

Prospectando as melhores alternativas para o diesel verde

Sandra é pesquisadora de um projeto que pretende colaborar com esse cenário, tornando o HVO uma alternativa viável técnica e economicamente. Intitulado Materiais aplicados na transformação de biomassa em diesel verde: do laboratório ao piloto, a iniciativa começou em 2025 e conta com um financiamento de R$ 5 milhões da Fapesp por um período de cinco anos.

A proposta prevê o desenvolvimento de uma plataforma tecnológica para transformar óleos de diferentes tipos de biomassa em diesel verde pronto para abastecer o tanque de caminhões e ônibus movidos à diesel. Essa, inclusive, é a principal vantagem do combustível em estudo no câmpus de Araraquara em relação ao biodiesel: abastecer veículos pesados em seu estado puro, sem a necessidade de misturá-lo ao diesel fóssil ou alterar os motores, o que na indústria é chamado de combustível drop-in.

Atualmente, praticamente todo o diesel que abastece os caminhões e ônibus brasileiros é misturado ao biodiesel. Desde 2025, essa proporção está em 15%, e conforme o cronograma previsto na Lei do Combustível do Futuro deve aumentar a cada ano até atingir 20% em 2030. As limitações para a proporção da mistura ocorrem porque o biodiesel é um líquido higroscópico, ou seja, possui a característica de absorver a umidade do ar. Por isso, a mistura, a depender da quantidade e do tempo de uso, pode prejudicar para os motores, gerando queixas dos fabricantes e proprietários de veículos pesados.

Apesar disso, pode-se dizer que o biodiesel já é uma tecnologia madura, que conta com um parque industrial estruturado, com mais de 50 plantas instaladas majoritariamente em regiões produtoras de soja, que é hoje a principal matéria prima do produto. Já o diesel verde ainda é uma tecnologia incipiente no país, com iniciativas esparsas e baixíssimos volumes de produção.

O projeto em andamento no câmpus de Araraquara tem entre seus objetivos fornecer subsídios técnicos e científicos para apoiar uma produção em escala comercial. A iniciativa está dividida em quatro partes. A primeira compreende a prospecção de biomassas condizentes com o contexto tropical brasileiro e economicamente viáveis para o fornecimento do óleo usado na produção do diesel verde. “Existe um desafio que é escolher uma fonte de matéria prima que seja tecnicamente praticável e que não vá competir com a produção de alimentos no país”, explica Sandra Pulcinelli.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores também buscam novas alternativas de catalisadores que orientem as reações químicas, um ponto importante do projeto que terá o apoio do Grupo de Pesquisa em Catálise (GPCat), coordenado pelo professor Leandro Martins. Atualmente, as opções de catalisadores disponíveis no mercado são as mesmas usadas na indústria do petróleo, como o paládio ou platina, considerados materiais muito caros. “Queremos desenvolver alternativas baseadas em metais mais baratos, como o níquel ou o cobalto, de forma que sejam eficientes e também acessíveis”, afirma.

Conforme as matérias primas e os catalisadores se mostrem promissoras, o passo seguinte é testá-los na produção do HVO em escala de laboratório, usando reatores de bancada que parametrizam pequenos volumes de até 750 ml. Os dados obtidos nessa escala irão orientar as condições para a etapa seguinte do projeto: a produção piloto do combustível em um reator de 50 litros, recém adquirido pelo projeto com os recursos da Fapesp.

Por fim, o diesel verde produzido com o uso dos reatores de 50 litros será levado para testes de avaliação no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), por meio de uma parceria com o professor Pedro Lacava. Ali, no Laboratório de Combustão, Propulsão e Energia (LCPE), o combustível será testado em um motor real construído especialmente para uso em pesquisas, onde é possível obter dados de emissões de gases e desempenho do HVO em comparação com o diesel e biodiesel.

Além de docentes do IQ e do ITA, a equipe do projeto conta com pelo menos quatro pós-doutores, cinco doutorandos, mestrandos e alunos de iniciação científica, mas os planos da pesquisadora é agregar ainda mais colaboradores. “Estamos formando profissionais para atuarem em uma área de importância estratégica para o país e a expectativa é que no ano que vem os projetos dos alunos produzam os primeiros artigos”, afirma Sandra.

Da larva ao combustível

Entre as diferentes alternativas já em estudo pelos pesquisadores projeto, uma biomassa pouco convencional já desponta como candidata à matéria prima do diesel verde: larvas de mosca soldado-negro (Hermetia illucens), cujo organismo concentra um grande volume de lipídios. Durante a sua fase de crescimento, elas são consumidoras vorazes de material orgânico, sendo bastante usadas na compostagem de resíduos dessa natureza. Quando alcançam um tamanho ideal, o composto restante é usado como adubo orgânico, as larvas são processadas e sua proteína enviada para produção de ração animal. Outro produto desse processamento é um óleo ainda pouco valorizado, que os pesquisadores da Unesp estão testando para a produção do diesel verde.

“A larva do mosquito soldado-negro tem uma imensa capacidade de concentrar lipídios durante sua fase de crescimento. Basicamente, ela é o único ser vivo que consegue pegar o lixo orgânico e transformar em óleo”, explica o professor Rodrigo Costa Marques, integrante do projeto coordenado pela professora Sandra e orientador de uma tese de doutorado que estuda o uso da larva como matéria prima do HVO. O fornecedor para o estudo é uma fábrica localizada em Piracicaba que processa larvas que serão usadas por empresas de ração animal.

O projeto, que tem colaboração do ITA e da Universidade de Queensland, na Austrália, foi apresentado em junho, na 10a edição da Conferência Internacional de Biorrefinaria e Biomanufatura, realizada na Universidade de Tecnologia Química de Pequim, na China.

“As larvas da mosca soldado-negro são eficientes na transformação do lixo orgânico em lipídio. O catalisador desenvolvido no grupo funcionou bem e provamos que é possível produzir HVO a partir desse óleo”, afirma o pesquisador. Até agora, entre todas as candidatas em estudo no projeto, essa biomassa foi a primeira a gerar os primeiros volumes de diesel verde e ser parametrizada no reator de bancada. O próximo passo é levar esses parâmetros para o reator de 50 litros e testar a sua produção em condições e volume que possam ser testados em um motor real.

Entre as vantagens dessa tecnologia, explica Marques, está o fato de a matéria prima não competir com a produção de alimentos, como ocorre no caso do óleo de soja, e poder integrar a biorrefinaria com a compostagem de resíduos sólidos orgânicos e com a produção de ração animal. A produtividade é outro ponto forte: do ovo, passando pela fase de engorda e acúmulo de lipídios, até o abate, são apenas 12 dias.

Por outro lado, alguns desafios comuns à produção do diesel verde ainda permanecem, como o alto custo para a obtenção do hidrogênio para o processo de hidrogenação. Neste projeto, a fonte da molécula usada pelos pesquisadores foi o glicerol, um subproduto da fabricação do biodiesel, mas o ideal é utilizar o hidrogênio verde, onde a eletrólise (processo que separa a molécula de hidrogênio da água) é feita a partir de fontes de energia limpa, como solar ou eólica.

Com pouco mais de um ano de atividades, o projeto em andamento no câmpus da Unesp em Araraquara já indica possíveis caminhos para diversificar as fontes de biomassa para produção de biocombustíveis. Segundo a pesquisadora Sandra Pulcinelli, no próximo ano o grupo deve começar a publicar artigos com os resultados da avaliação das biomassas, dimensionando não apenas a viabilidade técnica, mas também os custos da tecnologia para uma produção em escala industrial.

Fonte: Jornal da UNESP | Marcos do Amaral Jorge

Cidade CSC 2026 reúne prefeitos de todo o país para discutir o futuro da gestão urbana

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Cidade CSC 2026 reúne gestores públicos, executivos e especialistas em debates sobre GovTechs, inteligência artificial, burocracia, cibersegurança e gêmeos digitais
Foto: Divulgação

Evento que acontece em novembro, em São Paulo, já confirma a presença de gestores de 17 municípios e passa a integrar planejamento urbano, gestão pública e mobilidade em uma única programação

 

O Cidade CSC, o maior evento da América Latina de cidades inteligentes, já tem confirmada uma lista expressiva de prefeitos que participarão da edição de 2026. O evento acontece nos dias 16, 17 e 18 de novembro, em São Paulo, e reúne em um único espaço três iniciativas que já eram referência isoladamente: o Connected Smart Cities, o CSC GovTech e o Parque da Mobilidade Urbana.

A proposta da edição deste ano é justamente essa integração. Organizado pela Necta, o Cidade CSC passa a ser estruturado em três dimensões que buscam refletir o funcionamento real das cidades: espaço (como a cidade é planejada e vivida), sistema (como é operada e governada) e movimento (como se desloca e funciona no tempo). Na prática, isso significa que planejamento urbano, gestão pública e mobilidade deixam de ser tratados como frentes separadas e passam a dialogar dentro da mesma programação.

 

Leia mais: Muito Além da Tecnologia: como o Ecossistema Cidade CSC está refefinindo o futuro das cidades brasileiras

Prefeitos confirmados

Entre os gestores municipais que já confirmaram presença estão:

– Geninho Zuliani – Prefeitura de Olímpia (SP)
– Michell Peninha – Prefeitura de Imbituba (SC)
– Celso Florêncio – Prefeitura de Jacareí (SP)
– Sidney Jorge Rosa – Prefeitura de Paragominas (PA)
– André Paccola Sasso – Prefeitura de Lençóis Paulista (SP)
– Franco Fiorot – Prefeitura de Linhares (ES)
– Vagner Espindola – Prefeitura de Criciúma (SC)
– Rodolfo Mota – Prefeitura de Apucarana (PR)
– Anderson Farias – Prefeitura de São José dos Campos (SP)
– Rejane Gambin – Prefeitura de Joinville (SC)
– Getúlio Sampaio – Prefeitura de Amargosa (BA)
– José Arimatéa Lima Barros Júnior – Prefeitura de Eusébio (CE)
– Fernando Pellozo – Prefeitura de Senador Canedo (GO)
– Tiago Amaral – Prefeitura de Londrina (PR)
– Egidio Maciel Ferrari – Prefeitura de Blumenau (SC)
– Jerri Adriani Meneghetti – Prefeitura de Dois Irmãos (RS)
– André Vechi – Prefeitura de Brusque (SC)

A lista reúne municípios de diferentes portes e regiões do país, de cidades médias do interior paulista a capitais regionais do Nordeste, Norte e Sul, o que dá uma dimensão da abrangência que o evento busca ter na discussão sobre gestão municipal.

Referência no setor, o Cidade CSC vem crescendo a cada edição. Em 2025, o evento reuniu 9 mil participantes, 120 expositores e mais de 500 palestrantes, distribuídos por mais de 20 áreas de conteúdo. A programação inclui mais de 20 palcos simultâneos, transmissão ao vivo de entrevistas e talks, além de uma área de exposição voltada a produtos, serviços e tecnologias para o setor público.

Leia mais: Cidade CSC 2026 será realizado em novembro para ampliar o debate com os novos governos eleitos

O evento também é palco de premiações que têm ganhado peso no setor, como o Ranking CSC, os Selos de Cidades Inteligentes e Ecossistemas de Inovação e os Prêmios CSC e PMU, que reconhecem cidades, empresas e profissionais que se destacam na transformação urbana.

Para os prefeitos e suas equipes técnicas, a participação no Cidade CSC funciona como uma oportunidade de comparar experiências, conhecer soluções já testadas em outros municípios e negociar parcerias com o setor privado e com órgãos de fomento. Para o público em geral do setor, é também um termômetro de para onde caminha a agenda de gestão pública no Brasil.

Mais informações sobre programação, inscrições e patrocinadores estão disponíveis no site oficial do evento, cidadecsc.com.br.

 

De quem é o valor da inovação?

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inovação
Reprodução: Banco de imagem

Prefeituras pagam a conta da inovação e ainda induzem a proteção de um ativo que nunca será público. A economia explica por que esse é um dos melhores investimentos que uma cidade pode fazer — e por que, sem ele, a inclusão tem prazo de validade.

Quando uma prefeitura anuncia um parque tecnológico, uma incubadora ou um edital de fomento, uma pergunta aparece mais cedo ou mais tarde. Ela costuma vir do vereador, do jornalista local ou do contribuinte na audiência pública, e é sempre a mesma:

Por que o dinheiro público deve bancar a inovação — e ainda pagar para que o criador registre a patente ou a marca no nome dele — se quem vai lucrar é ele?

Traduzida no vocabulário de quem paga imposto: socializar custos e privatizar lucros.

É a objeção mais difícil que existe nesse campo. Também é a pior respondida. A resposta habitual vem em linguagem de intenção — “é para fomentar o ecossistema”, “é para gerar oportunidades” — quando deveria vir em linguagem de evidência. E a evidência existe. É farta, internacional e convergente.

O ganho não fica com quem inventa

A economia da inovação mede há décadas duas taxas de retorno diferentes: a privada, que fica com quem investiu, e a social, que se espalha pelo resto da economia. Elas nunca são iguais.

A revisão de cerca de 900 estudos consolidada pela Frontier Economics em 2023 aponta que o retorno social da inovação é de duas a quatro vezes o retorno privado. Hall, Mairesse e Mohnen, na revisão que virou referência no campo, encontram retornos privados na faixa de 7% a 15% e retornos sociais entre 30% e 50%. Para investimento público em P&D especificamente, Fieldhouse e Mertens estimam retorno social entre 140% e 210%.

No Brasil não é diferente. As avaliações de impacto do Ipea sobre a Lei do Bem mostram que as empresas beneficiadas aumentaram seus próprios gastos em P&D entre 43% e 81% — ou seja, o incentivo público não substituiu o investimento privado, puxou. As empresas apoiadas pela Finep gastaram 54% a mais em pesquisa. E os dados da RAIS mostram que empresas que inovam e diferenciam produtos pagam salários 80,5% acima da média da indústria.

Esse é o ponto que a objeção não enxerga: a inovação transborda. Não por generosidade do inventor, mas por um mecanismo econômico. O conhecimento vaza — para o fornecedor, o concorrente, o funcionário que sai e abre o próprio negócio. O emprego qualificado gera massa salarial que circula no comércio local. A empresa que cresce recolhe mais tributo no território onde está.

O poder público não recebe uma patente com o brasão da cidade. Recebe um território transformado. A literatura econômica encontra de forma recorrente retornos sociais superiores aos retornos privados da inovação.

A proteção importa mais do que parece

Há um segundo argumento, menos discutido e mais incômodo.

O Instituto Nacional da Propriedade Industrial divulgou em 2026 seus rankings referentes a 2025. Os 51 maiores depositantes residentes responderam por 1.957 dos 7.021 pedidos de patente de invenção do ano, e cerca de sete em cada dez deles são universidades, institutos federais e centros de pesquisa. 

Faça a conta do que sobra. O micro e pequeno negócio — que é a esmagadora maioria das empresas brasileiras e praticamente toda a economia de uma cidade de porte médio — quase não aparece nessa estatística.

Não é necessariamente por falta de criação. Para o pequeno empreendedor, transformar uma ideia em um ativo protegido ainda envolve barreiras de acesso: é preciso reconhecer o que pode ser protegido, identificar o instrumento adequado e compreender os procedimentos necessários para fazê-lo. 

A isso se somam os custos de depósito, acompanhamento e eventual assessoria especializada. Sem informação, orientação e suporte técnico, a propriedade intelectual acaba permanecendo distante justamente de quem tem menos estrutura para acessá-la.

E aqui está a consequência social que raramente se nomeia. Quando o poder público forma, capacita e incuba sem proteger, ele entrega ao mercado um criador desarmado. A costureira que desenvolveu a modelagem, o produtor familiar que criou o processo de beneficiamento, o jovem que programou o aplicativo: todos ficam mais expostos à apropriação, reprodução ou exploração econômica por agentes com maior capacidade jurídica e financeira.

Formação sem proteção é inclusão com prazo de validade. A pessoa entra na economia e depois é empurrada de volta para a margem, agora sabendo exatamente o que perdeu.

Abrir, preparar, consolidar

Desenvolvimento não vira inclusão por acaso. Vira por desenho, e o desenho tem três tempos.

Abre: novos negócios geram emprego e renda, e a inclusão vem pela demanda. Prepara: formação e incubação fazem com que a gente do lugar ocupe essas vagas e crie os próprios negócios, e a inclusão vem pela oferta. Consolida: a propriedade intelectual protege o ativo de quem acabou de entrar, e a inclusão deixa de ser reversível.

Sem o terceiro tempo, os dois primeiros são investimento em algo que evapora.

Existem, no fim, dois tipos de poder público. O que aposta apenas no crescimento e espera que a inclusão aconteça sozinha. E o que induz, capacita e protege, para que a riqueza fique no território e nas pessoas que a criaram.

Uma marca registrada no nome de um artesão de fronteira não é um presente ao artesão. É a garantia de que, daqui a dez anos, o valor que ele criou ainda esteja na cidade que o formou.

O poder público não precisa ser dono da inovação para capturar o seu valor. Precisa da coragem de induzi-la — e da maturidade de proteger o que ela cria.

Os novos desafios dos BCs com a venda em massa no mercado de títulos

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Os novos desafios dos BCs com a venda em massa no mercado de títulos
Fonte: CNN Brasil | Gearada por IA

Rendimento do Tesouro americano de 30 anos atinge maior nível desde 2007, enquanto investidores reagem à inflação e aos déficits governamentais crescentes

As preocupações dos investidores com uma série de questões, da inflação aos elevados déficits governamentais, estão impulsionando uma venda em massa no mercado de títulos, criando um problema para os formuladores de políticas e elevando os custos de empréstimos para governos e consumidores.

Como as comunidades periféricas se arrefecem em Moçambique, em tempos de Super El Niño?

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Alerta na primavera: órgãos de SC classificam El Niño como ‘muito forte’ e preveem chuva acima da média
Foto: NOAA/Via MetSul

Nos bairros periféricos de Moçambique, o calor de um Super El Niño não encontra ar condicionado. Encontra chapa de zinco, quintais sem árvores e uma rede elétrica que oscila. A desigualdade térmica é menos uma questão de clima do que de renda, habitação e infraestrutura.

Em junho de 2026, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos elevou o alerta de vigilância para aviso de El Niño. Os modelos convergem para um evento forte, com probabilidade estimada em cerca de 63% de atingir a categoria de muito forte (aquilo a que a imprensa chama Super El Niño) entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Para a África Austral, a experiência recente indica o que isso significa: o episódio de 2023-2024 deixou 68 milhões de pessoas afetadas pela seca na região e fez subir de 20% para 33% a proporção de moçambicanos em risco de insegurança alimentar.

A conversa pública sobre o El Niño organiza-se, quase sempre, em torno da chuva que falta e da colheita que se perde. É uma conversa legítima e incompleta. Falta-lhe o calor e, sobretudo, falta-lhe a pergunta de como é que uma família sem recursos para um aparelho de ar condicionado atravessa uma onda de calor dentro de uma casa de chapa.

Esta pergunta não é secundária. Ela revela que o sofrimento térmico, ao contrário do que a linguagem meteorológica sugere, não é distribuído pela atmosfera. É distribuído pela renda, pelo material do telhado, pela presença ou ausência de uma árvore no quintal e pela qualidade da corrente que chega à tomada. O El Niño não cria essas desigualdades: revela-as e amplifica-as.

As comunidades periféricas nesta reflexão induzem a erro se forem lidas apenas como distância geográfica. Na literatura urbana moçambicana, a distinção clássica opõe a cidade de cimento à cidade de caniço: a primeira planejada, infraestruturada e servida; a segunda autoproduzida, densa e sem rede formal de serviços. Bairros como Chamanculo, Maxaquene ou Mafalala, em Maputo, situam-se a poucos quilômetros do centro e são, ainda assim, plenamente periféricos.

A periferia define-se, portanto, por privação acumulada e não por localização. Reúne, num mesmo território, habitação autoconstruída com materiais de fraco desempenho térmico, densidade populacional elevada, arruamentos sem pavimento, cobertura vegetal escassa, saneamento deficiente e ligação precária ou inexistente às redes públicas. Em Moçambique, mais de 70% da população reside em áreas rurais, mas o crescimento urbano faz-se sobretudo por adição desses bairros autoproduzidos nas franjas das cidades.

O conceito ganha densidade quando lhe acrescentamos a dimensão socioecológica. Uma comunidade em vulnerabilidade socioecológica é aquela cujos sistemas sociais e ecológicos foram simultaneamente degradados, de modo que a capacidade de absorver um choque externo depende de recursos que já não existem. Não há poupança para comprar um ventilador, não há árvore para dar sombra, não há vala de drenagem para escoar a chuva, não há posto de saúde próximo para tratar a criança desidratada. Quando a vaga de calor chega, encontra um sistema sem folga. É esta ausência de folga que distingue a periferia — é um evento que atravessa a casa, o corpo, o sono, a escola e o rendimento do dia seguinte.

Dupla exposição: quando o clima encontra a economia

Em 2000, Karen O’Brien e Robin Leichenko publicaram na revista Global Environmental Change um artigo que propunha uma ideia aparentemente simples e analiticamente poderosa. Determinadas regiões, setores e grupos sociais, escreveram, serão confrontados simultaneamente pelos impactos das mudanças climáticas e pelas consequências da globalização econômica. Chamaram-lhe dupla exposição. O argumento central é que esses dois processos não se limitam a somar-se: influenciam mutuamente a exposição e a vulnerabilidade um do outro, e aceleram o ritmo da mudança.

O quadro é particularmente útil para pensar Moçambique porque desfaz uma ilusão persistente, a de que existe um problema climático que a política climática resolve e um problema econômico que a política econômica resolve. Na periferia moçambicana, os dois problemas são o mesmo problema visto de ângulos diferentes.

Consideremos os estressores não climáticos que compõem o lado econômico e institucional da dupla exposição. O produto interno bruto per capita de Moçambique rondava os US$ 450 em 2023, e o Banco Mundial descreve o período entre 2016 e 2025 como uma década perdida em termos de bem-estar, com queda de cerca de 8% no PIB per capita entre 2015 e 2024. O Índice de Desenvolvimento Humano situa-se em 0,461, na posição 183 entre 191 países. O coeficiente de Gini aproxima-se de 50, colocando o país entre os dez mais desiguais do mundo. Cerca de 71% da população vivia abaixo do limiar internacional de pobreza.

Estes números não descrevem um pano de fundo. Descrevem o mecanismo. Um agregado familiar que gasta a quase totalidade do rendimento em alimentação não tem excedente para bens de conforto térmico. O ar condicionado, nesse contexto, não é um bem caro: é um bem inexistente no universo de escolhas possíveis.

A primazia dos estressores não climáticos

Há uma tentação, no discurso sobre adaptação climática, de tratar o clima como variável dominante e as condições sociais como contexto. A evidência empírica sugere a inversão desta hierarquia. Aquilo que determina se uma vaga de calor se converte em crise sanitária não é, primordialmente, a magnitude da anomalia térmica. É a configuração dos estressores não climáticos que a recebem.

O caso mais bem documentado em Moçambique vem do bairro da Mafalala, em Maputo. Um estudo publicado em 2025 monitoriza, pela primeira vez, temperatura e umidade no interior de cinco habitações durante duas campanhas realizadas em 2023. Os resultados são inequívocos: em períodos quentes, algumas habitações atingiram 49°C no interior. O uso generalizado de chapa de aço galvanizado nas coberturas, e por vezes nas paredes, foi identificado como fator determinante. As habitações de blocos de betão apresentam maior inércia térmica, mas permanecem vulneráveis por deficiência de isolamento e ventilação.

O dado merece ser lido devagar. Quarenta e nove graus dentro de casa não é uma medida de desconforto. É uma medida próxima do limiar em que o corpo humano perde capacidade de termorregulação, sobretudo em crianças, idosos e pessoas com doença crônica. E o fator causal identificado não é o clima: é o material de construção, ou seja, a renda que determinou esse material.

Vale a pena enumerar os estressores não climáticos que, na periferia moçambicana, determinam a experiência do calor.

A renda condiciona todo o resto. Define o material da cobertura, a possibilidade de adquirir um ventilador, a capacidade de pagar a fatura de eletricidade e a margem para deixar de trabalhar num dia de calor extremo. Numa economia em que a maioria dos rendimentos é informal e diário, parar de trabalhar significa não comer.

A habitação traduz a renda em graus centígrados. Chapa de zinco sem teto falso, ausência de isolamento, dimensão reduzida do compartimento, ventilação cruzada inexistente e sobreocupação combinam-se para transformar a casa no ponto mais quente do bairro. A casa deixa de ser abrigo e passa a ser fonte de exposição.

Os equipamentos são, em rigor, uma consequência da renda e da rede. Mesmo quando uma família consegue adquirir um ventilador ou uma geladeira de segunda mão, a sua utilidade depende de uma corrente estável, o que nos conduz ao problema energético tratado adiante.

Tão importante quanto, o saneamento estabelece a ligação entre calor e doença. Em contextos de temperatura elevada, água armazenada em recipientes abertos, drenagem obstruída e resíduos não recolhidos aceleram a proliferação de vetores e a contaminação. O calor não mata diretamente na maioria dos casos: mata através da desidratação, da diarreia e da doença transmitida por água contaminada. Nenhum destes cinco fatores é climático. Todos determinam, de forma mais decisiva do que a anomalia de temperatura, quem sobrevive confortavelmente a um super El Niño e quem não sobrevive.

Que zonas de Moçambique serão mais atingidas

O Instituto Nacional de Meteorologia estabeleceu um padrão regional consistente para os episódios de El Niño em Moçambique. Nas regiões Sul e Centro, prevê-se risco elevado de chuvas irregulares com tendência abaixo do normal e temperaturas acima da média climatológica. Na região Norte, a probabilidade aponta para chuvas regulares com tendência acima do normal.

A assimetria é relevante para a análise do calor. As províncias do Sul e do Centro (Gaza, Inhambane, Maputo, Sofala, Manica e Tete) combinam o déficit de precipitação com a anomalia térmica positiva. É a conjugação mais desfavorável possível: menos água disponível para consumo, higiene e arrefecimento evaporativo, num período de temperaturas mais altas.

A energia: um sistema hidráulico exposto à seca

Existe uma ironia estrutural na situação moçambicana que merece exposição cuidadosa. O país que precisa de energia para arrefecer depende, para produzir, do mesmo recurso que o El Niño escasseia: a água.

A Hidrelétrica de Cahora Bassa, na província de Tete, concentra 2075 MW dessa capacidade e é a terceira maior central hidrelétrica de África.

Dois terços da produção da maior central do país destinam-se à exportação. O governo prevê a reversão deste contrato em 2030, com o objetivo declarado de repatriar entre 8 e 10 TWh atualmente exportados.

A sequência lógica é direta e preocupante. Um super El Niño reduz a precipitação nas bacias que alimentam as albufeiras. A redução do armazenamento diminui a capacidade de geração. A diminuição da geração ocorre num sistema que já opera próximo do limite, pressionado simultaneamente pela procura interna crescente e pelos compromissos de exportação regional. O resultado da qualidade do fornecimento.

Esta última expressão merece tradução concreta. Qualidade de energia significa tensão estável e frequência constante. Ventiladores, geladeiras e aparelhos de refrigeração são particularmente sensíveis a variações de tensão: subtensões prolongadas danificam compressores e motores. Para uma família da periferia, a avaria de uma geladeira adquirida com meses de poupança não é um contratempo, é a perda de um ativo insubstituível e o fim da possibilidade de conservar alimentos e água fresca.

Acresce a questão do acesso. A taxa de acesso doméstico à energia elétrica progrediu de 36,8% em 2020 para 61,4% em 2025, resultado do Programa Energia para Todos. É um avanço assinalável. Mas significa que cerca de quatro em cada dez moçambicanos permanecem sem ligação, e a distribuição é profundamente desigual: em 2020, apenas 4,5% da população rural tinha acesso à eletricidade, contra 75% da população urbana. Para esses agregados, a discussão sobre eficiência de equipamentos de arrefecimento é abstrata. Não existe equipamento porque não existe corrente.

Aqui a dupla exposição de O’Brien e Leichenko manifesta-se na sua forma mais nítida. O estressor climático, a seca induzida pelo El Niño, atua sobre um estressor não climático preexistente, a dependência hidrelétrica combinada com compromissos de exportação e cobertura incompleta da rede.

Como se arrefecem, então

Perante a ausência de arrefecimento mecânico, as comunidades periféricas desenvolveram um repertório de estratégias que a literatura designa por adaptação autônoma. Vale a pena registrá-lo sem romantismo: trata-se de engenho sob constrangimento, não de solução.

A gestão do tempo é a estratégia mais difundida. Desloca-se a atividade doméstica e produtiva para as primeiras horas da manhã e para o fim da tarde, evacuando o período central do dia. Dorme-se no exterior, no quintal ou na varanda, quando a temperatura interior não desce durante a noite, o que é frequente, dado que a chapa reirradia calor acumulado durante horas após o pôr do sol.

A gestão do corpo inclui banhos sucessivos, roupa úmida, redução da atividade física e aumento do consumo de água. Esta última prática depende, evidentemente, da disponibilidade de água segura, que o El Niño precisamente reduz.

A gestão do espaço traduz-se na procura ativa de sombra coletiva: a árvore do bairro, o alpendre do vizinho, o interior do mercado. A sombra funciona, nestes contextos, como bem comum e a sua distribuição desigual entre bairros é uma questão de justiça ambiental raramente tratada como tal.

Estas estratégias têm um custo que raramente é contabilizado. Deslocar o trabalho para fora das horas de calor reduz o rendimento diário. Dormir mal degrada a saúde e o desempenho escolar.

Reduzir a atividade física em contexto de trabalho informal significa, muitas vezes, não trabalhar. A adaptação autônoma funciona, mas consumindo o capital humano e econômico de quem a pratica. É adaptação que empobrece.

Alternativas de adaptação orientadas ao calor

Se o diagnóstico identifica os estressores não climáticos como determinantes, então a resposta deve incidir sobre eles. Quatro linhas de intervenção merecem consideração, ordenadas por relação entre custo e efeito.

A primeira é a intervenção na envolvente construtiva, e é a que apresenta melhor relação custo-benefício.

A segunda é a arborização orientada. Plantar árvores não é ornamento urbano: é instalação de infraestrutura de arrefecimento com custo de operação baixo.

A terceira é a criação de espaços públicos de refúgio térmico. Escolas, centros comunitários, mercados cobertos e unidades sanitárias podem ser adaptados para funcionar como pontos de arrefecimento durante episódios de calor extremo, à semelhança do que ocorre com abrigos em situações de ciclone.

A quarta é o arrefecimento descentralizado por via solar. Em comunidades sem ligação à rede ou com fornecimento instável, sistemas fotovoltaicos autônomos dimensionados para ventilação e refrigeração básica contornam simultaneamente o problema do acesso e o da qualidade da energia.

A estas acresce uma dimensão institucional transversal. Os sistemas de aviso prévio moçambicanos foram construídos, com mérito reconhecido, para ciclones e cheias, eventos de início súbito e efeito visível. O calor extremo tem outra assinatura: instala-se lentamente, não destrói a infraestrutura e mata de forma dispersa e mal atribuída.

A pergunta com que este texto começou (como as comunidades periféricas se arrefecem em Moçambique, em tempos de Super El Niño?) tem, no fundo, uma resposta desconfortável. Arrefecem-se mal, à custa do próprio sono, do próprio rendimento e da própria saúde. E continuarão a arrefecer-se mal enquanto a política de adaptação climática for pensada como política de clima, e não como política de habitação, de solo urbano, de saneamento e de energia.

Fonte: Jornal da USP | Tomás de Azevedo Júlio e Maria da Penha Vasconcellos

Contran atualiza fiscalização da Lei Seca e prevê testes para outras drogas

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Contran atualiza fiscalização da Lei Seca e prevê testes para outras drogas
Foto: Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) atualizou as regras de fiscalização da Lei Seca e passou a prever testes para detectar drogas.

O chamado drogômetro poderá usar amostras de saliva para identificar substâncias psicoativas. O resultado positivo, porém, não será suficiente sozinho para caracterizar a infração. O agente também terá que registrar pelo menos dois sinais de alteração da capacidade psicomotora. A norma também cria uma etapa de triagem antes do bafômetro.

O Conselho Nacional de Trânsito atualizou as regras para a fiscalização de motoristas sob influência de álcool e de outras substâncias psicoativas.

A resolução cria uma etapa de triagem nas blitzes. Nela, poderão ser usados testes passivos, que identificam indícios de álcool sem que o motorista precise soprar o bafômetro. O resultado desse pré-teste serve apenas para orientar a fiscalização e, sozinho, não poderá resultar em autuação. A Lei Seca está em vigor desde 2008 e estabeleceu tolerância zero para a combinação entre álcool e direção. A senadora Jussara Lima, do PSD do Piauí, destaca que a legislação mudou o comportamento dos motoristas.

(sen. Jussara Lima) – Provocou importantes mudanças nos hábitos da população brasileira, no que diz respeito à combinação perigosa de beber e de dirigir. De fato, a Lei Seca tornou-se instrumento fundamental de intervenção na área de saúde pública e de segurança viária em nosso país.

Outra novidade da resolução do Contran é a regulamentação de testes para detectar outras substâncias psicoativas além do álcool. O chamado drogômetro funciona a partir de uma amostra de saliva e poderá indicar a presença de substâncias como maconha, cocaína, anfetaminas e opioides.

Mas a simples presença de vestígios não será suficiente para caracterizar a infração. O agente também terá que identificar sinais de alteração da capacidade para dirigir e registrar pelo menos dois deles, como dificuldade de equilíbrio, desorientação ou fala comprometida.

A resolução também tenta evitar resultados provocados pelo chamado álcool residual. Produtos como enxaguante bucal ou bombom de licor podem deixar resíduos temporários na boca. Nesses casos, a norma prevê uma nova avaliação.

O bafômetro vai continuar sendo usado normalmente e as penalidades previstas no Código de Trânsito continuam as mesmas.

A resolução não cria novas multas nem aumenta as punições. A principal mudança está na forma de fiscalizar e comprovar o uso de álcool ou drogas.

Fonte: Rádio Senado, Marcella Cunha

Dados Climáticos como Bem Comum: governança, informação e resiliência urbana

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Dados Climáticos como Bem Comum: governança, informação e resiliência urbana
Foto: Magnific

Como transformar informações climáticas em instrumentos de governança, prevenção e resiliência para as cidades brasileiras

Em fevereiro de 2023, deslizamentos causados por chuvas extremas devastaram bairros inteiros em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. Em abril de 2024, o Rio Grande do Sul viveu a maior catástrofe climática de sua história: mais de 420 municípios inundados, centenas de pessoas desalojadas. Em ambos os casos, os dados estavam disponíveis e os sistemas de monitoramento registraram os sinais. O que faltou foi o que Elinor Ostrom, prêmio Nobel em economia, caracteriza como arranjos coletivos capazes de transformar informação compartilhada em ação coordenada. Ostrom demonstrou que comunidades conseguem gerir bens comuns com eficiência e legitimidade quando têm acesso à informação, regras construídas de forma participativa e confiança entre os atores envolvidos. Aplicada ao contexto climático urbano, essa visão aponta um caminho concreto: tratar os dados de monitoramento como patrimônio coletivo das cidades e construir, ao redor deles, uma cultura de governança que proteja vidas antes que a tragédia bate à porta.

O Brasil possui uma das redes de monitoramento climático mais abrangentes da América Latina. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais – CEMADEN opera mais de 4.000 estações distribuídas pelo território nacional, gerando registros quase em tempo real de precipitação, movimentos de massa e riscos hidrológicos. O Monitor de Secas da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico – ANA publica mensalmente a situação hídrica de cada região do país. São instrumentos robustos, financiados com recursos públicos e cada vez mais acessíveis. A questão não é a ausência de dados: é como eles circulam, por quem são lidos e em quais decisões aterrisam.

É nessa abertura que reside a oportunidade. Quando dados climáticos são tratados como bens comuns, compartilhados, interpretados coletivamente e integrados às decisões do cotidiano, eles ganham um poder que nenhum sistema centralizado consegue oferecer sozinho: o poder de ser compreendido por quem vive no território. Aplicado ao contexto climático urbano, esse modelo sugere uma arquitetura em que os dados não ficam concentrados em uma única secretaria, mas circulam entre planejamento, obras, assistência social e comunidades, com responsabilidades claras e linguagem acessível.

O desafio, portanto, não é técnico, é de mediação. É nesse ponto que se insere o painel de monitoramento climático desenvolvido no âmbito da plataforma de dados para tomada de decisão. Construído com ferramentas abertas e de baixo custo, ele integra registros do CEMADEN e de estações locais em uma interface visual acessível a equipes técnicas municipais, gestores de defesa civil e representantes comunitários. Seu princípio de design é direto: se o dado é patrimônio coletivo, sua leitura não pode ser privilégio de especialistas. O painel é uma infraestrutura de sentido. Um espaço onde o dado climático se torna legível para quem vive o território e acionável para quem precisa decidir sobre ele. Quando desenhado com a participação de equipes técnicas e representantes de bairros vulneráveis, torna-se instrumento vivo de governança, alimentado por quem conhece o chão, e analisado por quem precisa agir. A barreira financeira, frequentemente usada como justificativa para a inação, deixou de ser um argumento válido.

Países como Japão e Holanda já demonstraram que essa integração é possível e replicável. No Japão, dados climáticos cruzados com informações urbanas permitem evacuações preventivas com horas de antecedência. Na Holanda, o planejamento é estruturado a partir de modelos hidrológicos participativos que atualizam continuamente as zonas de risco. Esses países não eliminaram os riscos climáticos, aprenderam a governá-los com informação e confiança institucional.

Cidades inteligentes são as que constroem, coletivamente, a capacidade de ler o ambiente, antecipar riscos e agir com coordenação, tendo a tecnologia como meio e a qualidade de vida do cidadão como fim. O dado climático, quando tratado como patrimônio comum, passa a fazer parte de uma cultura de cuidado compartilhado que fortalece vínculos, distribui responsabilidades e torna as cidades mais humanas, inteligentes e sustentáveis.