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Emprego em tecnologia também é política de cidade

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Um ecossistema digital gratuito mostra como qualificação, emprego remoto e governança aberta reduzem a desigualdade entre grandes centros e cidades do interior.

Uma cidade só é verdadeiramente inteligente quando melhora a qualidade de vida das pessoas. A tecnologia é o meio para chegar lá e um dos meios mais diretos é o mercado de trabalho que ela cria. É esse pensamento que sustenta a RH Tech, plataforma gratuita de empregabilidade e qualificação em tecnologia que a ABES – Associação Brasileira das Empresas de Software mantém desde 2022 — e que nasceu, na origem, como um projeto de cidade.

A tecnologia comprime distância geográfica de um jeito que poucos setores conseguem replicar, mas de uma forma que consegue também atingi-los. Um profissional qualificado numa cidade pequena do interior presta serviço remoto para uma grande empresa em São Paulo ou no exterior, da área tecnologia ou não. É o mesmo trabalho com a mesma remuneração, mas sem precisar migrar. É a promessa concreta do mercado de trabalho em tecnologia: redistribuir oportunidade geograficamente, algo raro na indústria tradicional.

A pesquisa que deu origem à plataforma nasceu na Universidade de São Paulo, entre 2021 e 2024, dentro do Programa Global Cities do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), em parceria com a professora Roseli de Deus Lopes. O projeto intitulado como: O Setor de tecnologia como motor de desenvolvimento sustentável, gerando emprego, renda e competitividade — e cidades menos desiguais. A ABES adotou esse resultado de pesquisa, financiou seu desenvolvimento tecnológico e o transformou na plataforma RH Tech em 2022.

A literatura sobre plataformas urbanas costuma pensar no nível do governo municipal: prefeituras que usam dados e participação digital para melhorar serviços públicos. A RH Tech, por sua vez, aplica esse raciocínio a uma organização setorial, com atuação multiestadual, sem território fixo, cuja missão mira explicitamente gerar resultados de cidades. A plataforma é parte de uma associação empresarial operando como orquestradora de um ecossistema de conhecimento, em escala nacional. Há um eco da economista Elinor Ostrom nesse desenho: conhecimento e qualificação funcionam como bem comum, que floresce sob governança coletiva do acesso: regras claras, curadoria de qualidade, participação de quem usa e de quem contribui.

Os números sustentam essa leitura. Mais de 40 mil acessos acumulados desde o lançamento. Mais de vinte parceiros (empresas, escolas técnicas, organizações da sociedade civil) sustentando hubs de vagas, cursos gratuitos e um painel de inteligência do mercado de trabalho. Reconhecimentos externos e independentes confirmam o resultado: Troféu IOS de Impacto Social (IOS, 2023), Prêmio Empregabilidade Jovem (CIEE) em duas edições (2023 e 2024) e o primeiro lugar no Prêmio Marco Maciel (ABRIG, 2025)

Outro dado interessante a ser analisado é que mulheres são mais da metade da força de trabalho brasileira, mas ocupam hoje 16% dos profissionais de tecnologia mapeados pela plataforma. Pesquisas de mercado apontam que este percentual pode ser ainda menor. A RH Tech responde a esse desequilíbrio com parceiros do terceiro setor dedicados a mudar esse quadro como Reprograma e Programaria, que formam mulheres para o desenvolvimento de software, ao lado de organizações voltadas à inclusão racial e socioeconômica no setor. Formar mais gente por meio desses programas é desenvolvimento econômico baseado em conhecimento em ação, ampliando a competitividade do setor e reduzindo a desigualdade na vida das cidades.

Cidade inteligente é a cidade que qualifica quem mais precisa de oportunidade. A tecnologia é o instrumento; a governança de plataformas setoriais, bem desenhada, é o caminho para um país mais digital e menos desigual.

Por que devemos ter uma logística mais resiliente?

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Por que devemos ter uma logística mais resiliente?
Reprodução: Assessoria de Imprensa

Em artigo à CNN Infra, professor da Fundação Dom Cabral explica por que eventos climáticos extremos expõem a fragilidade da logística e defende mais investimentos em infraestrutura resiliente

O Brasil já experimentou, em diferentes regiões e sob diferentes formas, o custo de uma infraestrutura logística pouco preparada para eventos climáticos extremos. A severa estiagem de 2024 na Região Amazônica restringiu a navegação de grandes embarcações no Porto de Manaus, elevando os custos logísticos e gerando impactos econômicos bilionários. A queda drástica da profundidade do Rio Negro e dos rios de apoio limitou o transporte, enquanto alternativas como o deslocamento pelo aéreo atenderam apenas produtos de maior valor agregado e baixo peso, e sobrecarregaram o sistema rodoviário, principalmente a BR-319.

Estima-se que a estiagem tenha imposto custo extra de R$ 34 bilhões às empresas do Polo Industrial de Manaus. Destacaram-se a formação de estoques de segurança para evitar a escassez de insumos, matérias-primas e componentes e a “taxa da seca”, relacionada ao maior custo de frete na cabotagem e à utilização de embarcações menores. As linhas de produção mais afetadas foram as de motocicletas, eletroeletrônicos, bens de consumo e químicos. A restrição à navegação de grandes porta-contêineres provocou escassez temporária de componentes e até antecipação de férias coletivas. O encarecimento do frete reduziu margens e competitividade e afetou também a arrecadação de ICMS e impostos federais.

Do outro lado da régua, nesse caso excesso de chuvas, as enchentes históricas no Rio Grande do Sul provocaram impactos econômicos multibilionários, paralisando polos industriais, destruindo estoques e estradas e elevando os custos logísticos devido a desvios de rotas e à interrupção de terminais essenciais. Algumas estimativas apontam prejuízos superiores a R$ 87 bilhões.

A logística foi extremamente afetada, com centenas de trechos de rodovias federais e estaduais, como a BR-290 e BR-116, interditados total ou parcialmente. Houve também a interrupção prolongada das operações no Aeroporto Internacional Salgado Filho e danos em estruturas aquaviárias e ferroviárias, levando ao redirecionamento de cargas para outros estados, com aumento de prazos e fretes. A dificuldade no escoamento de insumos e matérias-primas gerou rupturas nas cadeias de suprimentos locais.

Embora sejam eventos distintos – uma severa estiagem na Amazônia e o excesso de chuvas no Sul -, Manaus e Rio Grande do Sul revelam uma mesma vulnerabilidade: quando uma infraestrutura logística é submetida a eventos extremos, os efeitos ultrapassam os danos físicos e se propagam pelas cadeias de suprimentos, atingindo estoques, produção, transporte, custos e, em última instância, a competitividade das empresas.

Essa não é, entretanto, uma questão exclusivamente brasileira. Na Europa, o baixo nível do Rio Reno tem provocado uma crise logística severa.

Programa Nacional de Regionalização do Turismo: a união em prol do desenvolvimento turístico

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Foto: Carolina Calvo Brenes/Commons wikimedia
Foto: Jade Queiroz/Ministério do Turismo

Unidas, as cidades conseguem criar rotas turísticas mais atraentes, fazendo com que os visitantes fiquem mais dias, gerando mais empregos e impulsionando a economia local

O tema desta edição do Ciência e Turismo é o Programa Nacional de Regionalização do Turismo (PRT) e o papel que cumpre nos inúmeros municípios espalhados por todos os cantos do Brasil. Afinal, como pensar numa política pública que auxilie no desenvolvimento do turismo, levando em conta tantos “Brasis” dentro de um mesmo Brasil?

O PRT nasceu em 2004, mas sua ideia inicial veio em meados da década de 90, com outro programa que nasceu antes mesmo da criação do Ministério do Turismo, que era chamado Programa Nacional de Municipalização do Turismo. O PNMT tinha como tripé fundamental chamar os municípios e entregar a estes a responsabilidade do seu desenvolvimento do turismo, pois julgava-se importante a autonomia das cidades na criação de políticas e estratégias que desenvolvessem sua atividade turística. O PNMT atuou entre 1994 até o início dos anos 2000 e, dessa iniciativa  de descentralização nasceu, em 2004, o Programa Nacional de Regionalização do Turismo, uma estratégia do Ministério do Turismo para que as pequenas cidades, que não possuem grandes atrativos ou equipamentos turísticos, pudessem se unir e formar um grande produto ao invés de competirem entre si.

A ideia central é simples, segundo Gracimar Tavares, doutoranda em Turismo pela Universidade de São Paulo: unidas, as cidades conseguem criar rotas turísticas mais atraentes, fazendo com que os visitantes fiquem mais dias, gerando mais empregos e impulsionando a economia local.

“No Brasil, um dos maiores exemplos de regionalização ocorre com a Serra Gaúcha, composta de várias cidades da região Sul e que, ao longo dos anos, além das mais conhecidas Gramado e Canela, foram criando mais e mais atrações na região. Isso aumentou o tempo de estada dos turistas e levou ao desenvolvimento não somente de uma, mas de um conjunto de cidades próximas, que se unem para formar uma região turística.”

Municípios de Estados diferentes

Ela conta que a regionalização também pode acontecer envolvendo municípios de Estados diferentes, porém vizinhos e com características similares, como acontece na “Rota das Emoções”, composto pelos lençóis maranhenses (MA), Delta do Parnaíba (PI) e Jericoacara (CE). “Os três Estados juntos formaram um produto regional que ganhou competitividade internacional e que possibilitou uma relação de parceria e políticas interestaduais pensadas para os três Estados.”

Para o turista, prossegue Gracimar, a regionalização se torna uma oportunidade de conhecer mais sobre a região visitada, comprar produtos locais direto na fonte, como vinhos e queijos, além de permitir um contato maior com as comunidades de cada lugar, trocando experiências autênticas e vivenciando o cotidiano local.

Sob a tutela do Ministério do Turismo, o PRT atua nos Estados, via Secretarias de Turismo Estaduais, “que unem os municípios com vocações turísticas similares e as dividem em Instâncias de Governança Regionais (IGR’s). As IGR’s são organizações sem fins lucrativos compostas de participação ativa do poder público, do setor privado e da sociedade civil. Elas assumem a coordenação do programa em âmbito regional, identificando carências, capacitando profissionais locais e formatando produtos de maneira coletiva; mas, para que um município faça parte de uma IGR, ele precisa cumprir uma série de requisitos. O principal deles é entrar para o Mapa do Turismo Brasileiro, ferramenta fundamental para classificar o desenvolvimento dos municípios”, diz Gracimar.

Fonte: Jornal da USP | Gracimar Tavares 

 

O país que enfrenta a escassez de água com sistemas hídricos abandonados há centenas de anos

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O país que enfrenta a escassez de água com sistemas hídricos abandonados há centenas de anos
Foto: Alamy

Em 2025, a água do Moosi Rani Sagar — um “baori”, ou poço com degraus, na cidade de Alwar, no estado indiano do Rajastão — transbordou para a calçada pela primeira vez em mais de 30 anos.

O poço com degraus, um grande reservatório onde se acessa a água por meio de lances de escada, faz parte de um sistema histórico de captação de água construído no início do século 19. Até 2021, os níveis de água do poço, que ocupa cerca de 0,5 hectare, eram irregulares e a água estava fortemente contaminada.

Hoje, no entanto, ele contém água a profundidades de até 9 metros. Vijay Sarswat, um morador de Alwar de 60 anos, afirma que o nível raramente cai abaixo de 6 metros, mesmo durante os meses mais secos do ano.

O poço restaurado reforça a ideia de que algumas das ferramentas mais úteis para a gestão da água em um clima cada vez mais quente e imprevisível podem ser bem antigas e estarem inclusive semienterradas sob a lama.

Em toda a Índia, centenas de comunidades estão chegando a conclusões semelhantes. O que durante muito tempo foi considerado uma relíquia cultural — isto é, formas tradicionais de gestão da água abandonadas há décadas — está sendo reconhecido hoje como sistemas resilientes às mudanças climáticas, que funcionaram por mais de mil anos e estão prontos para voltar a ser utilizados.

Estruturas antigas

Nos últimos anos, a Índia tem recorrido cada vez mais à recuperação de antigas estruturas hidráulicas como forma de enfrentar a iminente crise hídrica do país.

No caso de Moosi Rani Sagar, foi um consórcio de organizações sem fins lucrativos que se propôs a restaurar o sistema em 2021, com a esperança de combater a grave escassez de água e resgatar esse patrimônio histórico de 200 anos.

Esse é apenas um exemplo do que um novo investimento pode alcançar quando associado à infraestrutura tradicional, em vez de substituí-la.

Os sistemas recuperados na Índia recebem muitos nomes: “baori”, “johad”, “kund”, “tanka”, “nadi”. Todos são estruturas tradicionais que abasteceram grande parte das regiões rurais do país durante séculos e que deixaram de ser utilizadas, em muitos casos, apenas nos últimos 200 anos.

Eles funcionam de maneira diferente, mas compartilham o mesmo propósito: desacelerar o fluxo da água para favorecer a infiltração no solo.

Os “baoris” — ou antigos poços escalonados, com grandes estruturas de pedra talhada e degraus que descem até o lençol freático, permitindo o acesso à água subterrânea — são os mais impressionantes.

Milhares desses poços subterrâneos desativados, construídos entre o século 7º e meados do século 19, pontilham a paisagem da Índia.

De Nova Délhi a Jodhpur, dezenas deles foram restaurados nos últimos anos.

A Índia abriga 18% da população mundial, mas possui apenas 4% da água doce do planeta, e grande parte dela está contaminada. O país extrai mais água subterrânea — isto é, água armazenada em aquíferos e reabastecida pela lenta infiltração das chuvas — do que qualquer outra nação.

Essa água supre a maior parte da demanda por água potável nas áreas rurais e para a irrigação agrícola, e serve a cerca de 1,4 bilhão de pessoas.

Em algumas regiões, contudo, extrai-se anualmente muito mais água do que as chuvas conseguem repor.

As mudanças climáticas agravam o problema, uma vez que o ar mais quente seca o solo com maior rapidez e torna as precipitações mais intensas. Como consequência, uma proporção maior da água que cai escoa pela superfície antes de conseguir infiltrar-se na terra.

Embora reservatórios modernos a céu aberto, como canais e represas, também possam ajudar até certo ponto a recompor as águas subterrâneas, eles são muito menos eficazes nessa função e podem perder água por evaporação a uma taxa surpreendentemente alta.

As estruturas tradicionais abertas, como os poços com degraus, também não evitam totalmente a evaporação; contudo, ao ajudarem a conduzir a água para longe da exposição solar e em direção aos aquíferos, permitem que ela permaneça fresca e acessível por meio de poços ou bombas manuais nas proximidades.

A recuperação de uma ‘zona crítica’

Os poços escalonados são as estruturas antigas mais impressionantes da Índia, embora outros modelos, muito mais simples, também estejam se mostrando valiosos.

Por exemplo, o ressurgimento dos “johads” — barragens de terra simples em forma de crescente que retêm as chuvas das monções por tempo suficiente para que infiltrem no solo — também tem se mostrado uma ferramenta eficaz para combater a escassez de água em Alwar.

Durante o domínio colonial britânico, a rede de “johads” que administrava a paisagem entrou em colapso à medida que a mineração e a exploração madeireira devastavam as florestas e danificavam as bacias hidrográficas da região. A crescente dependência de poços perfurados extraía água sem repô-la e, em meados da década de 1980, os rios secaram.

Muitos homens migraram para trabalhar nas cidades, e deixaram para trás mulheres e idosos. O governo declarou algumas áreas como “zonas críticas” — locais onde a extração de água havia excedido a capacidade de reposição dos aquíferos.

Em 1985, Rajendra Singh, um praticante de medicina ayurvédica, chegou a Alwar com a intenção de abrir uma clínica de saúde. Mas quando os moradores de Gopalpura lhe disseram que a água era um problema mais urgente, ele começou a construir os “johads”.

O projeto piloto que ele liderou funcionou quase imediatamente: quando chegou a monção de 1986, o reservatório restaurado encheu-se e, durante a mesma estação, os poços em Gopalpura, que estavam secos há anos, voltaram a encher-se de água. As aldeias vizinhas viram o que havia acontecido e pediram ajuda à Tarun Bharat Sangh, organização fundada por Singh, para replicar o projeto.

O trabalho expandiu-se. Entre 1994 e 2007, mais de 10 mil estruturas de captação de água foram construídas em Alwar, restauraram o fluxo permanente de cinco rios anteriormente sazonais e beneficiaram cerca de 250 aldeias.

O próprio rio Arvari, que estava seco fora da época das monções quando Singh chegou, voltou a fluir durante o verão de 1996 pela primeira vez em décadas.

A prática revitalizada espalhou-se por mais de 700 aldeias no Rajastão, onde as comunidades reconstruíram suas “gram sabhas”, ou assembleias gerais de aldeia, juntamente com obras de terraplenagem anteriormente abandonadas.

Recuperações semelhantes estão sendo observadas em toda a Índia. Marathwada, por exemplo, na península ocidental do país, está sobre uma rocha basáltica, que é muito dura e tem pouca capacidade de reter água subterrânea. Portanto, há a necessidade de absorver rapidamente a água da chuva ou perdê-la por escoamento superficial.

Mas um projeto lançado no final da década de 2010 levou mais de 6 mil aldeias a construir ou restaurar suas próprias obras de conservação de solo e água, e criou mais de 550 bilhões de litros de capacidade de armazenamento, de acordo com a organização sem fins lucrativos Paani Foundation, que liderou a iniciativa.

O contraste com as alternativas modernas era gritante. Um poço perfurado podia extrair água, mas não devolvê-la. Um canal transporta água de um rio distante, mas deixa intocado o solo sob os campos. Em contraste, os “johads”, construídos manualmente a uma fração do custo, recarregaram os aquíferos em toda a bacia hidrográfica e continuaram a fazê-lo ano após ano.

Um tesouro perdido

Muitas dessas estruturas sobreviveram séculos sem qualquer uso.

Pesquisadores argumentam que, embora essas construções tenham permanecido, a administração colonial britânica desmantelou os sistemas descentralizados de governança e direitos de água que as mantinham. Ninguém ficou para remover a lama acumulada.

Após a independência, a Índia investiu pesadamente em infraestrutura moderna para extrair e distribuir água: grandes barragens, redes de canais e, posteriormente, poços artesianos eletrificados.

Ao inaugurar o sistema de canais Bhakra-Nangal em 1954, o então primeiro-ministro Jawaharlal Nehru saudou essas obras como “os templos da nova Índia”. No entanto, muito pouco dessa ambição foi direcionado para o reabastecimento das águas subterrâneas, que continuaram a diminuir.

Nos últimos anos, porém, as políticas mudaram. A construção de “johads”, “tankas”, “baoris” e “kunds” faz parte de uma iniciativa lançada pelo governo indiano em 2019 para garantir que todas as famílias rurais tenham acesso a uma torneira de água potável limpa.

Outro programa governamental construiu 69 mil lagoas comunitárias. Em todo o país, a recarga hídrica proveniente de tanques, lagoas e estruturas de conservação aumentou de 14 bilhões de metros cúbicos em 2017 para 25 bilhões de metros cúbicos em 2024.

Em 2020, o governo revelou o seu plano diretor para a recarga artificial de aquíferos, que planeja redirecionar a água da chuva e o escoamento subterrâneo para reabastecer aquíferos esgotados, em vez de deixar que se percam.

O plano inclui a construção de 14 milhões de estruturas de captação e recarga capazes de reter 185 bilhões de metros cúbicos de chuva das monções. Muitas das estruturas descritas já existem e foram escavadas manualmente há séculos.

Antea da aldeia onde vive Varsha, 67 anos, ter construído um “johad”, o poço que eles usavam fornecia água irregularmente durante os meses de seca. Agora, há água o ano todo, diz ela.

Varsha nunca costumava falar nas assembleias da sua aldeia, mas tornou-se uma forte entusiasta destas estruturas.

O que é necessário agora, afirma ela, é remover periodicamente o lodo acumulado e construir mais sistemas, para que ninguém dependa de uma única fonte.

Na verdade, o conhecimento sobre a importância dos “tankas” e dos “nadis” nunca se perdeu nas comunidades, diz Pratap Moharana, cientista do Instituto de Investigação da Zona Árida Central (Cazri), uma instituição governamental localizada em Jodhpur.

Isto porque em muitos lugares eles continuaram a ser construídos. O que se perdeu foi a vontade política de levá-los a sério.

Arun Krishnamurthy, fundador da Fundação Ambiental da Índia e participante da restauração do poço Moosi Rani Sagar, viu essa lacuna de perto.

“Nenhuma quantidade de dinheiro, tecnologia ou trabalho de campo pode salvar os poços com escada, a menos que haja uma forte disciplina cívica”, explica ele.

Fonte: BBC News

Facções no Amazonas mantêm domínio dos rios e expandem poder na floresta

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Facções no Amazonas mantêm domínio dos rios e expandem poder na floresta
Foto: Natália Póvoas/Rede Amazônica

Balanço oficial do Ministério da Justiça mostra avanço em apreensões e investimentos no Amazonas, enquanto especialistas alertam que extensão territorial, falta de efetivo e corrupção mantêm a força de grupos como CV e PCC nas rotas fluviais.

Uma sequência de operações integradas entre as Forças de Segurança Estadual e Federal resultou na prisão de 1.902 pessoas e provocou um prejuízo estimado em R$ 263,48 milhões ao crime organizado no Amazonas entre 2024 e 2026. Apesar do cerco financeiro e do volume de apreensões, especialistas alertam que as facções continuam dominando calhas de rios e expandindo sua influência territorial.

Os números, obtidos com exclusividade pelo g1, fazem parte do balanço elaborado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), por meio da Diretoria de Inteligência e Operações Integradas (Diopi).

Segundo o relatório, nesses dois anos, o Governo Federal investiu R$ 265 milhões em recursos diretos no estado para modernizar a infraestrutura, adquirir equipamentos e apoiar ações ostensivas de combate ao narcotráfico.

De acordo com o levantamento, a atuação conjunta entre os governos buscou bloquear os corredores logísticos estratégicos usados para a circulação de ilícitos na Amazônia. Entre os resultados contabilizados no período estão:

  • 20 operações estratégicas deflagradas e 139 mandados de prisão cumpridos;
  • 457.946 ações ostensivas e 164 operações de inteligência executadas;
  • 9,1 toneladas de drogas apreendidas e 48,8 toneladas incineradas;
  • 471 armas de fogo e 56 veículos confiscados;
  • 72 toneladas de minério ilícito recolhidas.

O relatório aponta ainda o repasse de R$ 1,21 milhão em materiais estruturantes, incluindo sete drones, sete viaturas operacionais, munições e softwares de extração de dados, além do treinamento oferecido a mais de 90 agentes de segurança no estado.

Duas grandes operações aconteceram recentemente. Em maio, as Forças Armadas interceptaram mais de 15 toneladas de drogas durante a Operação Ágata Amazônia, realizada na faixa de fronteira do estado com o Peru e a Colômbia. A maior parte da droga, cerca de 14 toneladas de maconha do tipo skunk, estava escondida às margens do Rio Javari.

A outra aconteceu em julho deste ano, quando forças de segurança apreenderam mais de 2,5 toneladas de cocaína e um fuzil com munições nas proximidades do município de Codajás, no interior do Amazonas.

Gargalos estruturais e domínio fluvial 

Apesar dos aportes milionários e das prisões, analistas de segurança ressaltam que o prejuízo financeiro acaba sendo absorvido pelo crime organizado como custo operacional frente aos lucros do setor.

Para o cientista político e historiador Joel Paviotti, as facções continuam agindo com força justamente onde a presença do Estado não é frequente.

“As principais dificuldades têm relação com a histórica falta de investimento em estrutura que possa possibilitar a alocação e facilitar o trabalho da polícia e das Forças Armadas. Não há como fazer segurança pública sem muito dinheiro investido. A falta de integração entre forças policiais e Forças Armadas também tem sido apontada como um dificultador para o combate ao crime organizado”, avalia Paviotti.

O especialista explica que a extensão das rotas dificulta a contenção do tráfico de cocaína pela calha do Rio Solimões até os grandes centros e o exterior.

“Essas rotas são gigantescas e o efetivo das Forças Armadas e da Polícia Federal não dá conta de mapear, fiscalizar e conter a quantidade de drogas transportada pelos grupos criminosos. Também existe a corrupção. A venda de cocaína gera lucros enormes, o que sustenta todo um sistema de corrupção que, inclusive, dificulta o trabalho do pouco efetivo policial que o Brasil dispõe para fiscalizar uma área gigantesca”, afirma.

Disputas por rotas e a nova fronteira dos crimes ambientais

Levantamentos feitos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a atuação das facções na região está mais complexa:

  1. Disputa territorial: Com o colapso da facção Família do Norte (FDN), o Comando Vermelho (CV) assumiu posição dominante na Rota do Solimões e trava confrontos com o Primeiro Comando da Capital (PCC). A disputa abrange a tríplice fronteira (Brasil, Colômbia e Peru), a cooptação de comunidades ribeirinhas e alianças com grupos armados estrangeiros.
  2. Avanço sobre o meio ambiente: Para além do narcotráfico, organizações criminosas avançaram sobre a exploração ilícita da floresta em um “sistema híbrido”. O garimpo ilegal, a extração de madeira, a grilagem e o tráfico de ouro são utilizados como instrumentos diretos de lavagem de dinheiro e como moeda para financiar a compra de drogas e armas nas fronteiras.

O que diz o poder público

Ao g1, as Forças Armadas afirmaram que atuam de forma subsidiária e integrada no combate a crimes ambientais e em região de fronteira, destacando que as Operações Ágata e ações de patrulhamento fluvial e aéreo na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia reforçam a presença do Estado e o controle de rotas do tráfico.

Já o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que atua na região por meio do Programa Território Seguro, Amazônia Soberana, priorizando o Alto Solimões e o Alto Rio Negro para desarticular o crime organizado e oferecer alternativas lícitas à população.

O g1 questionou a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) sobre a ação das facções no estado, mas até a última atualização desta reportagem, não obteve retorno.

Fonte: G1 | Amazônica

Uma cidade inteira vacinada contra a Covid-19 em um dia

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Nova vacina: Ministério da Saúde vai ofertar pneumo20 para quem tem mais de 85 anos
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Em plena pandemia, a Faculdade de Medicina da Unesp conduziu estudo inédito de efetividade da vacina Oxford/AztraZeneca e imunizou toda a população de Botucatu em uma só jornada. A ação permitiu avaliar o desempenho do imunizante na população geral e comprovar sua segurança.

No mês de maio de 2021, no auge da pandemia de Covid-19, a cidade de Botucatu foi palco de uma ação de saúde pública sem precedentes no Brasil: a vacinação em massa da população contra a doença em um único dia. A iniciativa foi parte de um estudo de efetividade da vacina Oxford/AstraZeneca, conduzido pela Faculdade de Medicina de Botucatu e pela prefeitura municipal. A ação envolveu também a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que produzia a vacina no país, o Ministério da Saúde, a Universidade de Oxford, do Reino Unido, e a Fundação Bill e Melinda Gates.

Naquele período, a vacinação no país estava em andamento empregando os dois imunizantes até então liberados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Oxford/AztraZeneca e Coronavac, este produzido pelo Instituto Butantan. Mas as doses ainda eram destinadas a grupos específicos considerados como de risco, incluindo trabalhadores da área da saúde e idosos.

Antes de serem liberadas ao público, as vacinas passaram por diferentes etapas, incluindo pesquisas laboratoriais, testes pré-clínicos em animais, ensaios clínicos em seres humanos e pela avaliação dos órgãos regulatórios competentes. Mas também era preciso submetê-las aos estudos de efetividade, também chamados de estudos de vida real, que avaliam o desempenho do imunizante nas condições do dia a dia da população.

O pesquisador principal do estudo, o professor Carlos Magno Fortaleza, atual diretor da Faculdade de Medicina de Botucatu, lembra que a ideia surgiu a partir de uma experiência similar que estava sendo realizada na cidade de Serrana, também no interior paulista. Por meio de uma parceria com a Universidade de São Paulo (USP), o município estava vacinando moradores de alguns bairros com Coronavac e comparando-os aos não vacinados.

“Mário Pardini, então prefeito de Botucatu, procurou a mim e ao professor Pasqual Barretti, reitor da Unesp na época, e perguntou se poderíamos fazer o mesmo aqui na nossa cidade. Respondemos que gostaríamos de ir além: vacinar a cidade inteira e comparar o antes e o depois”, conta.

Em um único dia foram aplicadas 66.730 doses da vacina contra a Covid-19 na população de Botucatu (Crédito: Wellington Alves)

As tratativas para a realização do estudo

Para conduzir a vacinação em massa, Fortaleza dialogou com um grupo de pesquisadores da Universidade de Oxford e também com Nísia Trindade, então presidente da Fiocruz.

“Explicamos que havia na cidade um Sistema Único de Saúde muito bem estabelecido. E que as quatro unidades da Unesp em Botucatu, FMB, IBB, FMVZ e FCA, dispunham de um parque de biologia molecular capaz de efetuar o diagnóstico dos casos e a detecção de possíveis variantes do vírus SARS-COV-2 ao longo do estudo. A partir da demonstração de toda essa possibilidade de recursos tecnológicos, somada à importante experiência anterior de vacinação em situação de emergência, ficou planejada a vacinação em massa”, relembra o pesquisador.

A experiência prévia a que Fortaleza se refere foi a vacinação da população de Botucatu contra a febre amarela em 2009. Após o registro de casos da doença em cidades vizinhas, a rede de saúde municipal se organizou e vacinou os botucatuenses ao longo de uma semana, nas unidades básicas de saúde e em postos volantes em escolas e supermercados.

Faltava ainda o aval do Ministério da Saúde para que o estudo fosse realizado. A mediação ficou sob responsabilidade do então secretário de saúde municipal, André Spadaro. “O André Spadaro é filho do professor Joel Spadaro, que também foi diretor da Faculdade de Medicina de Botucatu anos atrás. Ele conhecia o ministro da saúde da época, Marcelo Queiroga. Ambos são cardiologistas. E foi ele que conseguiu junto ao ministro a assinatura de autorização do uso da vacina”, recorda Fortaleza.

Na corrida contra o tempo para dar início o quanto antes à vacinação da população, Fortaleza lembra que escreveu o projeto do estudo de efetividade em apenas dois dias.

“Era um projeto detalhado, em inglês. Fiquei escrevendo direto, de uma quinta-feira à noite até o fim do sábado. Foram 48 horas sem dormir. No domingo de manhã, já estávamos discutindo a proposta com os pesquisadores de Oxford”, relembra.

O delineamento metodológico do estudo contou também com a colaboração da professora Rejane Grotto, que coordenou os laboratórios de diagnóstico e sequenciamento genético do vírus SARS-COV-2, e do próprio reitor Barretti.

A vacinação em massa

No primeiro dia de vacinação dos botucatuenses, em 16 de maio de 2021, 66.730 doses foram aplicadas. Esse número já equivalia a 80% do público-alvo, estimado em 80 mil pessoas com idades entre 18 e 60 anos. A definição do critério de idade levou em conta que os maiores de 60 anos já estariam vacinados e não havia liberação para inocular as vacinas em menores de idade.

Fortaleza atribui o sucesso da ação de vacinação a uma série de fatores. Um deles foi a opção por utilizar as sessões eleitorais do município como pontos de vacinação.

“O Dr. André Spadaro e o então prefeito estavam voltando de Brasília de carro e o motorista da prefeitura que os acompanhava teve a ideia. Ele disse: ‘Se todo o mundo vota em um dia só, por que a gente não usa as sessões eleitorais e vacina todo o mundo em um dia só?’. Uma ideia brilhante. E foi o que a gente fez”, esclarece. Os 45 locais de votação utilizados para as eleições de 2020 foram transformados em pontos de vacinação.

Outro elemento fundamental para o sucesso foi o engajamento da população, que se voluntariou para trabalhar na checagem dos documentos exigidos e se mobilizou intensamente tanto para receber a vacina quanto para aplicá-la. “A população estava muito mobilizada”, avalia o diretor da FMB. “Houve uma corrida para se voluntariar. Chegamos a dispensar mesários, que eram as pessoas que organizariam a vacinação”, conta. As equipes do Centro de Saúde Escola e as equipes das unidades básicas de saúde foram distribuídas entre os locais de vacinação. “Conseguimos atingir a meta de vacinação em um só dia”, destaca Fortaleza.

Ao longo de uma semana, aqueles moradores que não puderam se vacinar por não terem em mãos os dois documentos exigidos para a vacinação, o comprovante de residência e o título de eleitor, tiveram a oportunidade de regularizar a situação e receber o imunizante. Isso expandiu para 75 mil o total de doses aplicadas ao fim do período.

Uma grande preocupação dos pesquisadores era evitar que moradores das cidades vizinhas se vacinassem burlando os critérios exigidos. “Se a gente tivesse uma invasão de outras cidades, a efetividade da vacina não seria comprovada. Poderíamos pensar que vacinamos 80 mil moradores e o número real ser bem menor. Mas conseguimos fazer um bom controle”, diz Fortaleza.

Mesmo assim, alguns episódios curiosos ocorreram. “Ficamos sabendo de um ou outro caso de invasão. Em um deles, uma pessoa que estava em uma fazenda no Acre veio de jatinho para Botucatu. Ela possuía os documentos para comprovar residência aqui, se vacinou e foi embora. Tamanho era o entusiasmo com a vacina”, conta.

A segunda dose foi aplicada em 08 de agosto de 2021 e a operação repetiu a mesma organização. Nesse dia, foram imunizados 61.741 botucatuenses. O número era um pouco inferior àquele registrado quando da inoculação da primeira dose. Mas ainda era expressivo e dentro das metas estabelecidas para o estudo.

A metodologia previa um acompanhamento dos vacinados durante os seis meses seguintes. Durante aquela etapa, seria observada a efetividade da vacina, assim como possíveis efeitos colaterais eventualmente ainda não relatados nas etapas anteriores de análise do imunizante. Para isso, Fortaleza teve a ideia de pesquisar, a partir de todas as portas de entrada do hospital da Faculdade de Medicina, os códigos de doenças registrados seis semanas antes e seis semanas depois da aplicação de cada dose da vacina.

“O resultado foi muito interessante. Constatamos que houve um aumento da ida aos prontos-socorros, por exemplo. Mas elas aconteciam por razões inusitadas, como traumas, cortes em membros inferiores, gestantes com náuseas. Ou seja, as pessoas que antes não estavam saindo de casa por medo de pegar Covid, passaram a buscar esse atendimento. Mas de efeitos colaterais neurológicos ou trombóticos, que eram uma preocupação na época, não houve registro”, pontua Fortaleza.

Durante os meses de estudos que se seguiram, registros de pessoas vacinadas foram comparados aos de pessoas não vacinadas. E dados de cidades próximas que não tinham recebido o imunizante dessa forma também foram utilizados, como a vizinha São Manuel. Para Fortaleza, mais uma vez, os resultados foram surpreendentes. “Tivemos uma efetividade contra a Covid-19 de 74%. E contra a doença em sua forma grave, de 100%. Não houve nenhuma morte e nenhuma internação entre os vacinados. Já no grupo de pessoas da mesma faixa etária de Botucatu que não foram vacinadas por não terem buscado a vacina, e nos moradores de São Manuel, houve várias internações e várias mortes”, diz.

Até a produção da Oxford/AztraZeneca ser interrompida, em 2024, mais de 153 milhões de doses foram aplicadas no Brasil. Fortaleza explica que a interrupção não teve relação com a efetividade ou a segurança do imunizante. “Apesar de muita informação desencontrada ter circulado naquele período, o motivo para a retirada da Oxford/Aztrazeneca do mercado não teve relação com algum perigo ligado a efeitos colaterais. Começaram a surgir novas variantes, para as quais não foi possível atualizar a vacina. E ninguém queria mais comprá-la porque estava obsoleta. Então, por uma questão mercadológica, ela foi retirada”, conta.

O legado para a Universidade

Grotto e Fortaleza ressaltam que o câmpus em Botucatu não atuou sozinho no enfrentamento da pandemia de Covid-19. Todas as 34 unidades universitárias distribuídas em 24 cidades paulistas tiveram ações de destaque em suas regiões e fortaleceram a ciência desenvolvida na Unesp. E destacam a maturidade científica que a comunidade universitária alcançou a partir do enfrentamento da pandemia.

“O enfrentamento exigiu que fôssemos além do procedimento usual de pensar e criar um projeto, submeter a uma agência de fomento, conseguir o recurso e organizar a execução”, diz Fortaleza. “ As circunstâncias nos permitiram fazer o que chamamos de ciência emergencial, ou seja, em condições difíceis, agir rapidamente para fazer um projeto de pesquisa claro e com um retorno imediato para a comunidade”, diz.

Ele aponta como um importante aprendizado dessa experiência o fato de que a atuação da universidade no campo das políticas públicas, especialmente em situações emergenciais, é um dever.

“A Unesp cresceu muito nesse período e foi a universidade que, de fato, cuidou da pandemia no interior paulista. Por isso, penso que essa experiência se aplica em outras políticas de importância social. Então, devemos cada vez mais trabalhar em conjunto com as autoridades governamentais”, diz o diretor da FMB.

***

Além da vacinação em massa, o estudo de efetividade da vacina Oxford/AztraZeneca previa o acompanhamento dos vacinados por um período de 6 meses. Os detalhes dessa etapa, coordenada pela professora Rejane Grotto, da Faculdade Ciências Agronômicas de Botucatu, serão apresentados na segunda parte desta reportagem, que será publicada na terça-feira (01/09).

Fonte: Jornal da UNESP | Leire Bevilaqua

Prefeitura inicia nova etapa do Plano de Mobilidade da Zona Sudoeste

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Prefeitura inicia nova etapa do Plano de Mobilidade da Zona Sudoeste
Foto: Prefeitura do Rio de Janeiro

O prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, acompanhou, neste sábado (29/08), o início de duas novas obras do Plano de Mobilidade da Zona Sudoeste na Avenida Ayrton Senna.

As intervenções incluem a ampliação da ponte sobre o Canal do Arroio Fundo, que passará de quatro para seis faixas no sentido Linha Amarela, e a reconfiguração das agulhas no trecho entre o Casa Shopping e o Via Parque Shopping, garantindo uma terceira faixa contínua na avenida. Com investimento de R$ 46,9 milhões, as obras vão aumentar a capacidade da via e melhorar a circulação entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá.

– Estamos avançando em mais uma etapa do plano de mobilidade da Zona Sudoeste, com um pacote de investimentos para Jacarepaguá, Barra da Tijuca, Recreio e toda essa região. É uma área que cresce muito e que enfrenta desafios importantes de mobilidade. Isso é sinal de planejamento e de gestão – destacou o prefeito Eduardo Cavaliere.

Lançado em janeiro, o Plano de Mobilidade da Zona Sudoeste reúne seis intervenções prioritárias para melhorar os deslocamentos na Barra da Tijuca, Barra Olímpica, Recreio dos Bandeirantes e Jacarepaguá. Desenvolvido pela Secretaria Municipal de Infraestrutura, o conjunto de obras tem previsão de conclusão até 2028.

Na Avenida Ayrton Senna, a ponte sobre o Canal do Arroio Fundo será construída ao lado da ponte existente e contará também com passagem para pedestres e ciclovia. A obra vai aumentar a capacidade da via e melhorar a ligação entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá.

– Vamos ter aqui dois anos de obra e, junto com essa intervenção de ampliação da ponte sobre Arroio Fundo, vamos também fazer a requalificação das agulhas da Ayrton Senna pra melhorar a fluidez do trânsito. Vai melhorar muito para a população – disse o secretário municipal de Infraestrutura, Wanderson Santos.

Presente no evento, o presidente da Câmara, Carlo Caiado, destacou o papel do Legislativo na construção e viabilização das políticas públicas de mobilidade urbana na Zona Sudoeste:

– São políticas públicas escritas por legislação e executadas pelo Poder Executivo. É uma felicidade enorme ver essa região avançando, com investimentos em mobilidade, infraestrutura e saneamento, e com uma intervenção dessa magnitude, com seis grandes obras sendo realizadas.

Avenida Ayrton Senna terá terceira faixa contínua

Também começaram neste sábado as obras de reconfiguração das agulhas da Avenida Ayrton Senna, entre o Casa Shopping e o Via Parque Shopping. Atualmente, essas estruturas provocam estreitamentos e reduzem o espaço disponível para os veículos.

Com o novo desenho, a terceira faixa terá continuidade ao longo do trecho, eliminando os atuais estreitamentos. Os acessos de entrada e saída também serão reorganizados para aproveitar melhor o espaço da avenida e facilitar a circulação.

Rotatória entre Ayrton Senna e Lúcio Costa entra na reta final

O início das duas novas frentes acontece enquanto a primeira obra do Plano de Mobilidade da Zona Sudoeste entra na reta final. A nova rotatória no encontro das avenidas Ayrton Senna e Lúcio Costa, com investimento de R$ 5,7 milhões, será entregue neste ano.

A estrutura vai criar novos acessos entre as duas avenidas e reduzir percursos hoje necessários para fazer retornos. Quem vem da Praia da Reserva, por exemplo, poderá entrar diretamente na Avenida Ayrton Senna para seguir em direção à Avenida das Américas ou a Jacarepaguá. Já quem vem da Ayrton Senna poderá acessar a Lúcio Costa, no sentido Zona Sul, sem precisar avançar pela avenida para fazer o retorno.

Plano prevê novas obras na região

As próximas etapas incluem uma nova passarela para pedestres na estação Asa Branca do BRT, na Avenida Salvador Allende, além da reorganização dos retornos e semáforos no entorno. A intervenção vai melhorar a circulação e ampliar a segurança de pedestres e usuários do BRT.

Também estão previstas a criação de uma nova ligação entre as avenidas Sobral Pinto e a Alda Garrido, na Barra da Tijuca, e a construção de uma passagem inferior na Avenida Alfredo Baltazar da Silveira, na altura do Barra Bali, no Recreio dos Bandeirantes, que contará também com uma alça de acesso da Avenida das Américas para a Salvador Allende.

Fonte: Prefeitura do Rio de Janeiro

Colapso glacial: o fenômeno que causou a enchente repentina na fronteira entre Nepal e Tibete

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Colapso glacial: o fenômeno que causou a enchente repentina na fronteira entre Nepal e Tibete
Foto: Navesh Chitrakar/Reuters

As inundações que atingiram o Nepal e o Tibete na manhã de quarta-feira (26/8) deixaram centenas de mortos e milhares de desaparecidos. 

Imagens registradas durante o desastre mostram as pessoas correndo segundos antes de uma enorme massa de lama tomar conta de comunidades e destruir pontes, edifícios e outras estruturas.

Inicialmente, os cientistas acreditavam que a causa do evento havia sido um terremoto. Mas depois descobriram que os tremores estavam relacionados a um “colapso glacial”.

O diretor do Centro de Estudos de Desastres da Universidade Tribhuvan, no Nepal, Basanta Raj Adhikari, disse à BBC News que há risco de uma “segunda e terceira ondas” de inundações nesta quinta-feira (27/8) ou na sexta-feira (28/8).

“Nós ainda não sabemos”, afirmou ele, acrescentando que segue discutindo a situação com colegas na China. Segundo Adhikari, não há previsão de chuvas intensas, mas novos deslizamentos de terra podem acontecer. “Estamos observando, mas não sabíamos que isso aconteceria em um determinado dia.”

Adhikari afirmou ainda que os pesquisadores vêm monitorando os riscos associados às montanhas do Himalaia. “A mudança climática realmente está acontecendo.”

O que gerou a enchente?

Inicialmente, porta-vozes do governo do Nepal e de agências de geologia disseram que o gatilho para a enchente havia sido um terremoto. Sensores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) chegaram a registrar um tremor de magnitude 4,4 na mesma região, momentos antes da enxurrada.

Algumas horas depois, porém, o próprio serviço americano se corrigiu: o tremor não teria sido a causa da enchente, mas, sim, uma consequência de um grande deslocamento de gelo e detritos.

Segundo o USGS, o evento sísmico provocado pelo colapso glacial foi equivalente à magnitude 5,2 e aconteceu perto da fronteira entre Nepal e China às 8h37 da manhã, no horário local — ou 22h52 do dia anterior, no horário de Brasília.

Alguns funcionários nepaleses sugeriram que o colapso poderia ter ocorrido no Tibete, no lado chinês da fronteira. Mas uma nova análise das autoridades indica que o evento aconteceu no lado nepalês, no monte Langtang Lirung, próximo ao rio Lhende.

Em outras palavras, uma grande parte de uma geleira se desprendeu no monte Langtang Lirung e despencou pelo vale, incorporando gelo, pedras e sedimentos pelo caminho. Essa hipótese também é sustentada por observações feitas a partir de imagens de satélite.

Simon Cook, professor de energia, ambiente e segurança da Universidade de Dundee, na Escócia, especializado em glaciologia, contou à BBC News que um colega de sua equipe identificou, na quarta-feira, que uma parte inferior de uma geleira próxima à área atingida havia desaparecido.

A imagem indicava que havia ocorrido “algum tipo de avalanche de gelo ou colapso de geleira”, segundo Cook.

Ele diz que algumas pessoas inicialmente acreditaram que o terremoto havia provocado uma avalanche, mas, segundo um sismólogo da equipe, o tremor teria sido causado pelo próprio colapso da geleira ao atingir o fundo do vale. “Isso mostra a magnitude do evento”, afirma Cook.

Essa massa de gelo, pedras e detritos atingiu o rio Lhende Khola e teria bloqueado temporariamente o curso da água. Quando o bloqueio se rompeu, uma enorme onda de água, gelo, pedras e lama avançou rio abaixo.

Especialistas ouvidos pelo serviço nepali da BBC destacam que a geografia da região, marcada por vales estreitos e terrenos muito íngremes, favorece a propagação rápida dessas ondas de água e detritos.

Os cientistas, no entanto, ainda precisam confirmar os detalhes dessa sequência de eventos.

Mudanças climáticas podem ter tido influência

Ainda é muito cedo para dizer qual foi o papel das mudanças climáticas no desastre.

Cook diz que sua equipe ficou “chocada com a escala” da tragédia e lembra que houve vários eventos semelhantes nos últimos anos em lugares como o Himalaia, a Suíça e as Dolomitas, na Itália.

“Mas quando você olha para o padrão desses eventos, pensa que as mudanças climáticas podem ter um impacto”, afirma.

Segundo Cook, o aquecimento global pode estar fazendo com que o permafrost — solo, sedimento ou rocha que permanece congelado por longos períodos — descongele e se degrade.

O permafrost ajuda a manter algumas encostas de montanhas unidas. Quando ele perde estabilidade, esses ambientes de alta montanha podem ficar mais instáveis, segundo o pesquisador.

Isso pode levar a mais deslizamentos de terra, fluxos de detritos, derretimento de geleiras, rompimentos de lagos e colapsos de geleiras, acrescenta.

Ainda não é possível determinar, porém, qual foi exatamente a influência das mudanças climáticas neste desastre específico. Mas o Nepal perdeu quase um terço de seu volume de gelo nas últimas três décadas, e suas geleiras derreteram em uma velocidade 65% mais rápida de 2011 a 2020 do que o usual, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Por que esta região é tão vulnerável?

Especialistas dizem que a região da fronteira entre o Nepal e a China é especialmente suscetível a desastres naturais por causa de sua geografia.

A área abriga algumas das montanhas mais altas do mundo, extensas geleiras, campos de neve e encostas íngremes e instáveis. Os rios que drenam o Planalto Tibetano descem rapidamente por vales profundos antes de chegar às áreas povoadas do Nepal.

Cientistas dizem que isso cria condições para desastres em cadeia, em que um evento pode desencadear outro.

Eles afirmam que as condições de monção podem aumentar ainda mais o risco de desastres em cadeia, com chuvas intensas desestabilizando encostas e interagindo de maneiras complexas com geleiras, campos de neve e sistemas fluviais.

Chuvas intensas podem desestabilizar encostas. Geleiras, massas de gelo e campos de neve podem desabar. Deslizamentos de terra podem bloquear rios. Represas temporárias podem então romper subitamente, liberando enchentes destrutivas rio abaixo.

Risco de novas inundações

A enxurrada de água, lama e detritos avançou com rapidez impressionante sobre comunidades do norte do Nepal, incluindo áreas que recebem muitos peregrinos e turistas.

Nas imagens do desastre, é possível ver uma enorme parede de lama arrastando prédios, pontes e veículos enquanto as pessoas tentavam fugir.

A onda de água e detritos atingiu primeiro o rio Lhende Khola e, na sequência, avançou por outros rios que estão conectados, como o Bhote Koshi, o Trishuli e o Narayani.

O Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas publicou um relatório alertando que novas inundações podem acontecer nos próximos dias.

Isso porque enormes quantidades de detritos foram carregadas pelos rios e podem gerar novos bloqueios em trechos mais estreitos, aumentando o risco de formação de represas e novas inundações.

As autoridades e os cientistas trabalham para avaliar a dimensão desses bloqueios e evitar novos desastres.

Equipes de resgate também trabalham para encontrar desaparecidos e atender os feridos, em uma operação dificultada pelas condições geográficas e climáticas da região.

É possível prevenir esse tipo de desastre?

Fenômenos como deslizamentos de terra, avalanches e colapsos de geleiras não podem ser totalmente evitados, mas seus impactos podem ser reduzidos, dizem especialistas.

Sistemas de alerta precoce estão sendo cada vez mais instalados em vales vulneráveis e no entorno de lagos glaciais. Eles podem monitorar mudanças nas condições e dar um tempo valioso para a realização de evacuações.

Pesquisadores também defendem que uma cooperação transfronteiriça melhor é essencial, porque muitos desses fenômenos têm origem em áreas remotas do Tibete antes de afetarem o Nepal.

“Se tivesse começado no Nepal, poderíamos ter visto daqui. Mas, em incidentes como este, o sistema de compartilhamento de informações entre os países precisa ser fortalecido”, disse o diretor do Centro de Estudos de Desastres da Universidade Tribhuvan, no Nepal, Basanta Raj Adhikari.

Ele acrescentou que os mecanismos atuais de compartilhamento de informações entre os países não parecem ser suficientes para desastres desse tipo, que evoluem rapidamente. A longo prazo, especialistas dizem que reduzir a exposição pode ser a defesa mais eficaz.

Fonte: BBC News

Governo renova concessão de hidrelétrica da Cemig por mais 30 anos

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Governo renova concessão de hidrelétrica da Cemig por mais 30 anos
Foto: Divulgação/Cemig

Com a autorização, companhia tem um prazo de 210 dias para avaliar e assinar o contrato de concessão junto ao ministério

O MME (Ministério de Minas e Energia) autorizou nesta sexta-feira (28) a Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) a renovar por mais 30 anos a concessão da usina hidrelétrica de Sá Carvalho. A concessão se encerraria no final deste mês.

Ausina possui capacidade instalada de 78 MW (Megawatts) e era a primeira das três concessões com vencimento previsto para os próximos meses.

Com a autorização, a companhia agora tem um prazo de 210 dias para avaliar e assinar o contrato de concessão junto ao Ministério de Minas e Energia.

As outras duas são as usinas de Emborcação e Nova Ponte, com contratos que se encerram em maio e agosto de 2027, respectivamente. Juntas, as três usinas respondem hoje por 55% do parque gerador próprio da companhia.

Em fato relevante, a companhia afirmou que a medida “também encaminha uma solução para os dois ativos remanescentes, fundamentais para a robustez da geração de energia” da empresa.

Fonte: CNN Brasil

Quarenta anos em quatro

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Quarenta anos em quatro

A partir dessa semana, você vai ser inundado, ou sobrecarregada, de propaganda eleitoral. Muita gente ainda não vai prestar atenção até a semana da votação em outubro, mas deveria. Esta eleição pode ter um impacto muito significativo na sua vida tecnológica, para o bem ou para o atraso.

Lembrando a importância dessa eleição: vamos escolher presidente, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual.

É muito importante que olhemos com atenção quais as propostas de todos eles para inovação, cidade inteligente e inteligência artificial. 

Não preciso dizer a velocidade incrível dos avanços tecnológicos. Mas trazendo para o recorte de eleições, no último pleito federal e estadual que tivemos, não usávamos IA nem ChatGPT no dia a dia. Lembra? Além de eleições, teve Copa do Mundo em 2022, sem VAR, sem impedimento semiautomático e sem chip na bola. Diferente do que acabamos de ver na Copa, que aliás aconteceu em três países pela primeira vez.

Todos esses políticos que vamos eleger em outubro podem ter uma participação muito relevante nos quatro anos de seus mandatos em relação ao avanço tecnológico. Nesse campo, o mundo vai ver quarenta anos aconteceram em quatro, para usar frases que governantes gostam.

Assim como temos um cenário muito diferente de 2022, as mudanças serão drásticas até 2030. Robôs, humanoides, etc, tudo em torno da Inteligência Artificial Geral, com capacidade para realizar tarefas de forma idêntica ou superior a um ser humano.

A grande questão é se nosso País, nossos Estados e nossa legislação vão acompanhar tudo isso na mesma velocidade. No setor privado, não temos dúvida que este processo já está acontecendo. E no público?

Os grandes temas eleitorais sempre são Saúde, Segurança e Educação. Vão continuar sendo, mas as soluções para estas áreas não podem ignorar as novas realidades tecnológicas que teremos daqui para a frente, no mínimo, a cada semestre. 

Então, preste atenção nas propostas que os candidatos vão apresentar, elas vão impactar bastante o seu futuro. Bem-vindo a 2070.