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Mercado financeiro reduz previsão da inflação para 5% este ano

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Mercado financeiro reduz previsão da inflação para 5% este ano
Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil

Projeção para o PIB variou de 1,92% para 1,93%

A previsão do mercado financeiro para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), referência oficial da inflação no país, passou de 5,01% para 5% este ano. A estimativa está no Boletim Focus desta terça-feira (8), pesquisa divulgada semanalmente pelo Banco Central (BC) com a expectativa de instituições financeiras para os principais indicadores econômicos.

A previsão está acima do intervalo da meta que deve ser perseguida pelo BC. Estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta é 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual. Ou seja, o limite inferior é 1,5% e o superior, 4,5%.

No mês de julho, os alimentos ficaram mais baratos e contribuíram para que a inflação oficial perdesse força pelo quarto mês seguido e fechar em 0,07%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado fez o IPCA acumular 4,44% em 12 meses, trazendo o indicador de volta para a meta do governo.

A inflação de agosto será divulgada na próxima sexta-feira (11) pelo IBGE.

Para 2027, a projeção da inflação variou de 4,28% para 4,29%. Para 2028 e 2029, as estimativas são de 3,8% e 3,5%, respectivamente.

Taxa Selic

Para alcançar a meta de inflação, o Banco Central usa como principal instrumento a taxa básica de juros, a Selic, definida atualmente em 14% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do BC. Na última reunião, em agosto, o colegiado reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, pela quarta vez seguida.

De junho de 2025 a março deste ano, a Selic ficou em 15% ao ano, o maior nível em quase 20 anos. O Copom voltou a cortar os juros na reunião de março, num cenário de queda da inflação. No entanto, a guerra no Oriente Médio, que se refletiu no aumento dos preços de combustíveis e de alimentos, dificulta a queda da taxa.

O próximo encontro do Copom para definir a Selic será nos dias 15 e 16 de setembro.

Nesta edição do Focus, a estimativa dos analistas de mercado é que a taxa básica chegue a 13,75% ao ano até o fim de 2026. Para 2027 e 2028, a previsão é que a Selic seja reduzida para 12% ao ano e 10,5% ao ano, respectivamente. Em 2029, a taxa deve ficar em 10% ao ano.

Quando o Copom aumenta a Selic, a finalidade é conter a demanda aquecida, o que causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Assim, taxas mais altas também podem dificultar a expansão da economia.

Os bancos ainda consideram outros fatores na hora de definir os juros cobrados dos consumidores, como risco de inadimplência, lucro e despesas administrativas.

Quando a Taxa Selic é reduzida, a tendência é que o crédito fique mais barato, com incentivo à produção e ao consumo, diminuindo o controle sobre a inflação e estimulando a atividade econômica.

PIB e câmbio

Nesta edição do boletim do Banco Central, a estimativa das instituições financeiras para o crescimento da economia brasileira este ano saiu de 1,92% para 1,93%. Para 2027, a projeção para o Produto Interno Bruto (PIB, a soma dos bens e serviços produzidos no país) permanece em 1,5%. Para 2028 e 2029, o mercado financeiro estima expansão do PIB em 1,96% e 2%, respectivamente.

No segundo trimestre de 2026, a economia do país cresceu ​0,5% na comparação com o primeiro trimestre. No acumulado de 12 meses, houve expansão de 1,9%, de acordo com o IBGE.

Em 2025, a economia brasileira cresceu 2,3%, com expansão em todos os setores e destaque para a agropecuária. O resultado representa o quinto ano seguido de crescimento.

No Focus desta semana, a previsão da cotação do dólar está em R$ 5,20 para o final deste ano. No fim de 2027, estima-se que a moeda norte-americana fique em R$ 5,30.

Fonte: Agência Brasil

Santa Rita do Sapucaí sedia Reunião Estratégica Regional da Plataforma CSC durante o HackTown 2026

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Foto: Divulgação

Santa Rita do Sapucaí foi palco, na manhã de quinta-feira, 3 de setembro, de importantes debates sobre inovação, desenvolvimento regional e o futuro das cidades inteligentes.

As atividades integraram a programação do HackTown 2026 e marcaram a realização da Reunião Estratégica Regional da Plataforma CSC no município.

O encontro foi realizado em parceria com a Prefeitura de Santa Rita do Sapucaí, por meio da Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico e do Prointec, com o Sistema Regional de Inovação/Sebrae Minas, o HackTown e a Plataforma CSC, organizada pela Necta.

Santa Rita do Sapucaí integra o calendário nacional de 16 Reuniões Estratégicas Regionais programadas pela Plataforma CSC para 2026, iniciativa que percorre diferentes regiões brasileiras promovendo a conexão entre gestores públicos, empresas, especialistas, academia e demais atores envolvidos na construção de cidades mais inteligentes, humanas e sustentáveis.

Reunião com secretários abre programação

A programação teve início, entre 8h e 9h, com uma reunião estratégica exclusiva voltada a gestores públicos e convidados, contando com a participação do prefeito de Santa Rita do Sapucaí, Leandro Henrique Mendes.

Participaram do encontro o secretário municipal de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, Paulo Sérgio Ribeiro Silva; a secretária municipal de Finanças, Lívia Caponi Alberti; o CEO da TVEX, Carlos Eduardo Cardoso; o secretário municipal de desenvolvimento econômico de Varginha, Henrique Touguinha; o gerente de Negócios do PIT – Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos, Jean Nemanis; o gerente de Smart Cities e Inovação do PIT, Felipe Hammel; e a analista de Cidades Inteligentes da Bright Cities, Renata Viana.

A reunião proporcionou um espaço de diálogo sobre desafios, oportunidades e estratégias relacionadas ao desenvolvimento das cidades, à inovação na gestão pública e à construção de soluções capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável dos territórios.

Debates no Auditório Aureliano Chaves

Na sequência, a programação foi aberta ao público no Auditório Aureliano Chaves, no Inatel, integrando oficialmente a grade do HackTown 2026.

A abertura contou com a participação do prefeito Leandro Henrique Mendes e do sócio e diretor de Novos Negócios da Plataforma CSC, Willian Rigon, que destacaram a importância da cooperação entre diferentes setores para a construção de políticas e soluções voltadas ao desenvolvimento das cidades.

Durante a manhã, especialistas, gestores públicos, empreendedores e representantes do ecossistema de inovação participaram de três painéis temáticos, realizados em formato de mesa-redonda.

O primeiro debate abordou o tema “Captação Internacional, Finanças Verdes e Estruturação de Concessões para Ativos Sustentáveis”, reunindo Henrique Touguinha, secretário de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Varginha, e Ana Elisa Iemini, consultora nas áreas de ESG e mercados de carbono. A mediação foi conduzida por Felipe Hammel, do PIT – Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos.

Em seguida, o painel “Territórios Inteligentes: Inovação como Estratégia de Desenvolvimento Regional” reuniu Paulo Sérgio Ribeiro Silva, secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico de Santa Rita do Sapucaí; Rodolfo R. Alvarenga, secretário de Desenvolvimento Econômico, Urbano e Inovação da Prefeitura de Lavras; Henrique Touguinha, de Varginha; e Giovani Bernardo, CEO e fundador da Exxas. A mediação foi realizada por Paulo Sarto Neto, analista de Inovação do Sebrae Minas.

Encerrando a programação, o terceiro painel discutiu “Sandbox Urbano e o Papel das Deep Techs na Revolução Regenerativa das Cidades Médias”. Participaram Anna Flávia Lourenço, CTO da Connexions Tech e parceira estratégica da Esteio Aerolevantamentos e da Quasar Tecnologia; Daniela Bobsin, arquiteta, urbanista e paisagista; e Lucas Mendes de Faria Rosa Soares, subsecretário de Ciência, Tecnologia e Inovação da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais. A mediação foi conduzida por Thales Tito Borges, especialista de Novos Negócios e Projetos Públicos do PIT.

Santa Rita do Sapucaí no debate nacional sobre cidades inteligentes

A realização da Reunião Estratégica Regional da Plataforma CSC em Santa Rita do Sapucaí reforça o protagonismo do município no cenário da tecnologia, da inovação e do desenvolvimento regional.

Conhecida nacionalmente como o Vale da Eletrônica, Santa Rita do Sapucaí foi escolhida como uma das cidades anfitriãs do ciclo nacional de reuniões de 2026. O encontro local foi realizado no dia 3 de setembro, das 9h às 12h30, no Auditório Aureliano Chaves, no Inatel, durante o HackTown 2026.

A iniciativa contribuiu para aproximar experiências e projetos de diferentes municípios e instituições, fortalecendo a articulação regional e ampliando o debate sobre inovação, sustentabilidade, transformação digital, desenvolvimento econômico e qualidade de vida.

Ao sediar uma das 16 Reuniões Estratégicas Regionais previstas para 2026, Santa Rita do Sapucaí reafirma sua vocação como território de inovação e sua capacidade de conectar poder público, instituições de ensino, empresas, empreendedores e sociedade na construção de soluções para os desafios contemporâneos.

As discussões realizadas em Santa Rita do Sapucaí passam a integrar uma agenda nacional de diálogo e articulação que reúne diferentes territórios brasileiros em torno da transformação das cidades e do desenvolvimento inteligente, humano e sustentável.

Soberania tecnológica e cidadania digital na era da IA

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IA
Foto: Getty Images

Nos últimos anos, os debates sobre inclusão digital estiveram concentrados nas necessidades de garantir à população brasileira amplo acesso à internet. Agora, essa abordagem mudou. Com o 5G, o Brasil realizou uma grande ampliação de sua infraestrutura de conectividade, digitalizou serviços e incorporou a tecnologia a praticamente todas as dimensões da vida cotidiana. O desafio hoje é garantir que a transformação digital entregue autonomia de maneira efetiva às pessoas.

A pesquisa TIC Domicílios 2025, realizada pelo Cetic.br, aponta um dado positivo: 86% dos domicílios brasileiros possuem acesso à internet. No entanto, apesar do avanço expressivo, 30% da população ainda ocupa o nível mais baixo da chamada conectividade significativa, conceito que considera não só a existência de uma conexão, mas sua qualidade, custo, dispositivos e condições reais de uso.

Os dispositivos são parte essencial dessa equação. Hoje, 65% dos usuários brasileiros acessam a internet exclusivamente pelo telefone celular; nas classes D e E, são 87%. Além disso, 39% dos usuários de internet móvel relatam ter ficado sem seu pacote de dados em algum momento nos três meses anteriores à pesquisa. É por isso que a próxima etapa da inclusão digital precisa ser mais ambiciosa. Já sabemos que infraestrutura é indispensável. Precisamos agora garantir que ela seja acompanhada de bons celulares e computadores, letramento digital e confiança de uso.

No caso dos aparelhos, é importante garantir o poder de compra. Uma família pode estar conectada e depender de um único celular para estudar, trabalhar, movimentar uma conta bancária, fazer ou receber um pix, acessar um benefício ou resolver uma pendência com o poder público. 

O relatório técnico do Plano Nacional de Inclusão Digital, de abril de 2026, reconhece que os equipamentos fazem parte do processo de inclusão e propõe, entre outras ações, a criação de linhas de financiamento voltadas a públicos de maior vulnerabilidade. A infraestrutura digital só produz seu potencial quando existe, na outra ponta, um equipamento de qualidade e preço acessível.

Já o letramento digital depende de uma série de iniciativas. A simples habilidade de abrir um aplicativo ou de navegar em uma plataforma não caracteriza competência plena. Uma pessoa pode dominar ferramentas digitais e não compreender como seus dados são utilizados, porque recebe determinada recomendação, quando uma informação merece confiança ou de que maneira um sistema automatizado influencia sua decisão. Na era da inteligência artificial, essa distinção é fundamental.

Os números da TIC Domicílios 2025 mostram que, em 2025, apenas 32% dos usuários de internet utilizaram ferramentas de IA generativa. Na classe A, esse percentual chegou a 69%. Entre aqueles que não utilizaram essas ferramentas, 58% apontaram a falta de habilidade como uma das razões. Se apenas uma parcela da população consegue transformar tecnologias avançadas em oportunidades, corremos o risco de transportar desigualdades antigas para uma nova plataforma tecnológica.

No setor público, a questão torna-se ainda mais sensível. A pesquisa do Cetic.br mostra que 71% dos usuários de internet com 16 anos ou mais utilizaram serviços de governo eletrônico no ano passado. Na plataforma gov.br, 12% precisaram que outra pessoa realizasse um serviço em seu lugar. Quando o acesso a um direito passa por uma interface difícil, não é razoável medir o avanço apenas pela eficiência do sistema. É preciso perguntar se o cidadão tem condições de utilizá-lo com independência. Digitalizar processos sem investir paralelamente em inclusão pode resolver um problema administrativo e criar outro, de natureza social.

Serviços públicos digitais precisam nascer com acessibilidade, segurança e simplicidade como requisitos, e não como correções posteriores. Escolas devem incorporar o letramento digital não apenas para ensinar ferramentas, mas para formar cidadãos capazes de lidar com dados, algoritmos, inteligência artificial, privacidade e segurança. Programas de capacitação precisam alcançar também adultos que já estão no mercado de trabalho e pessoas para quem a transformação digital chegou depois da formação escolar.

Isso exige coordenação entre poder público, empresas, universidades e sociedade civil. Exige também continuidade. Inclusão digital não pode ser tratada como uma sucessão de projetos isolados, lançados e interrompidos a cada novo ciclo de prioridades. Redes e competências necessitam de uma visão de longo prazo.

Há sinais importantes de avanço institucional. A Política Nacional de Educação Digital, instituída pela Lei nº 14.533/2023 após aprovação pelo Congresso Nacional e sanção presidencial, estabeleceu entre seus eixos o letramento digital, ao lado de computação, programação, robótica e outras competências, do ensino fundamental ao médio. A Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec) reforça que preparar professores e estudantes para utilizar a conexão de maneira crítica é o passo seguinte.

Também começam a surgir iniciativas voltadas para além da educação formal. Em 2026, o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) lançou um projeto de inclusão informacional, inicialmente no Distrito Federal, orientado ao uso consciente das plataformas e das tecnologias. É um exemplo importante porque parte de uma visão menos instrumental: não se trata apenas de ensinar a operar um dispositivo, mas de desenvolver compreensão e autonomia no ambiente digital.

O desafio, agora, é transformar essas iniciativas em escala e continuidade. O Brasil não precisa escolher entre expandir infraestrutura e investir em letramento digital. Precisa fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Não faz sentido levar redes de alta capacidade às escolas, digitalizar serviços públicos e ampliar o uso da inteligência artificial sem preparar cidadãos para utilizar esses recursos com eficiência e senso crítico. A infraestrutura digital só completa sua função quando encontra, na outra ponta, pessoas capazes de transformá-la em conhecimento e oportunidades. 

Essa discussão amplia o significado de soberania, tema que tem sido debatido com relevância nos últimos meses. Não basta um país possuir redes modernas, capacidade computacional ou profissionais qualificados se parte de sua população não consegue transformar esses recursos em renda e acesso a serviços. A soberania tecnológica de uma nação também se mede pela autonomia digital de seus cidadãos.

Sargaço: invasão de algas no litoral brasileiro está mais frequente

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Foto: Carolina Calvo Brenes/Commons wikimedia
Foto: Jade Queiroz/Ministério do Turismo

Com a emissão de gases tóxicos, acúmulo de algas tem potencial impacto sobre a saúde, ecossistemas, o turismo e a pesca, dificultando a limpeza das praias

Toneladas de sargaço, um tipo de alga acastanhada, têm chegado com maior frequência às praias brasileiras, formando extensos bancos que alteram as condições da zona costeira e podem afetar atividades como turismo e pesca. Pará e Maranhão estão entre os Estados que registraram os maiores volumes nos últimos anos. Apesar do aumento dos encalhes, o País ainda carece de dados sistemáticos sobre a ocorrência, a quantidade e a composição desses organismos, o que dificulta o planejamento de ações de monitoramento, manejo e remoção da biomassa.

Para reunir informações, ampliar o monitoramento do fenômeno e subsidiar ações de conservação e gestão costeira, pesquisadores da USP analisaram registros científicos e notícias publicadas pela imprensa sobre encalhes de sargaço no litoral brasileiro entre 2010 e 2025. Os resultados foram publicados no artigo Encalhes de sargaço no litoral brasileiro: integrando registros científicos e midiáticos para apoiar a conservação e o monitoramento costeiro, na revista Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems.

Segundo o estudo, o sargaço que chega às praias brasileiras é formado principalmente pelas espécies pelágicas Sargassum natans e Sargassum fluitans. Diferentemente das algas que vivem fixadas no fundo do mar, essas espécies permanecem livres e flutuando na superfície do oceano. Elas podem formar grandes concentrações no Atlântico tropical e ser transportadas por correntes marítimas por longas distâncias até alcançar a costa brasileira. O aumento dos encalhes está associado à interação de diferentes fatores oceanográficos e ambientais. Entre eles estão a disponibilidade de nutrientes, as condições de temperatura e salinidade da água e as alterações nos padrões de ventos e correntes, que influenciam tanto o crescimento das algas quanto seu transporte pelo oceano.

Na mídia e na ciência

Os pesquisadores reuniram artigos científicos e reportagens publicadas em meios de comunicação digitais. Os documentos produziram informações diferentes, mas complementares, sobre os encalhes de sargaço no litoral brasileiro. Enquanto a imprensa conseguia registrar rapidamente a ocorrência dos eventos e seus impactos sobre as comunidades costeiras, a pesquisa científica buscava identificar as espécies, quantificar a biomassa e analisar as condições ambientais associadas aos encalhes.

“A imprensa registra aquilo que é mais perceptível para a população: a presença do sargaço, o mau cheiro, os impactos sobre o turismo e a pesca, a limpeza das praias e as dificuldades enfrentadas pelos municípios”, explica Leonardo Capeleto de Andrade, pesquisador de pós-doutorado da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga.

Segundo o pesquisador, essa rapidez permite identificar eventos em diferentes pontos da costa, mas os registros jornalísticos podem apresentar algumas limitações. “É comum, por exemplo, que diferentes tipos de macroalgas sejam chamados genericamente de ‘sargaço’, sem que haja uma identificação precisa das espécies. Também podem faltar informações sobre as condições ambientais do local e sobre a quantidade de biomassa que chegou à praia”, relata.

Além da distribuição geográfica, os pesquisadores também identificaram diferenças importantes na qualidade das informações divulgadas. Todos os trabalhos científicos analisados confirmaram a presença das espécies pelágicas Sargassum natans e Sargassum fluitans, responsáveis pela formação da Grande Faixa de Sargaço do Atlântico. Já as reportagens analisadas classificaram equivocadamente macroalgas bentônicas — que vivem fixadas no fundo marinho — como se fossem sargaço pelágico. Segundo os autores, esse tipo de confusão dificulta a padronização dos registros e pode comprometer a compreensão da dimensão do problema.

Detalhar e aprofundar

Os artigos científicos, por sua vez, seguem procedimentos de coleta, identificação e análise dos dados. Esses estudos podem determinar quais espécies estão presentes, estimar a quantidade de biomassa, localizar os encalhes, estabelecer quando ocorreram e relacionar os eventos a condições ambientais. “Isso torna os dados científicos mais confiáveis para compreender a dimensão e a dinâmica do fenômeno”, afirma Andrade.

A produção científica, entretanto, é mais lenta e menos numerosa. Entre a realização do trabalho de campo e a publicação de um artigo há etapas de coleta de amostras, identificação, análise dos dados e avaliação dos resultados. Assim, um encalhe pode ser noticiado pela imprensa poucos dias depois de ocorrer, enquanto sua documentação científica pode levar meses ou até anos.

Foto: Figura retirada do artigo | Jornal da USP

Para Andrade, o problema está na ausência de um monitoramento sistemático que permita reunir e comparar essas diferentes fontes de informação. No Brasil, ainda existem lacunas sobre onde, quando e em que quantidade o sargaço chega às praias. A falta de séries históricas abrangentes dificulta a avaliação da evolução dos encalhes e a elaboração de estratégias de monitoramento e manejo.

Nesse contexto, os registros da imprensa podem contribuir para indicar a ocorrência e a distribuição dos eventos, enquanto os estudos científicos fornecem informações mais detalhadas sobre sua composição e magnitude. “Integrar essas informações pode ajudar a construir uma base de dados mais consistente sobre os encalhes de sargaço e acompanhar a evolução do fenômeno ao longo da costa brasileira”, diz Andrade.

Pará: maior número de ocorrências

O Pará teve o principal foco de encalhes de sargaço no Brasil, seguido do Maranhão. Segundo Geison Mesquita, primeiro autor do artigo e também pesquisador de pós-doutorado da FZEA, o principal aspecto que chamou sua atenção foi a falta de conhecimento, monitoramento e divulgação sobre os encalhes de sargaço no Brasil.

Durante sua atuação em Salinópolis, no Pará, ele acompanhou a chegada das algas em 2025 e constatou a dimensão do problema. Um artigo publicado na revista Phycologia estimou em 42,8 mil toneladas a biomassa de sargaço que chegou às praias do município, sendo o primeiro trabalho a quantificar o fenômeno no Brasil por meio de coletas primárias de biomassa e mapeamento aéreo com uso de drones.

Para o pesquisador, os dados mostram que Salinópolis é um dos principais pontos de ocorrência desses eventos no País, embora ainda não seja possível prever quando e em que quantidade o sargaço chegará às praias.

A experiência que teve na região também evidenciou a falta de preparo dos municípios para lidar com grandes volumes de biomassa. Das 42,8 mil toneladas estimadas em 2025, apenas cerca de 4% foram retiradas das praias, mesmo com o reforço do governo do Pará, que disponibilizou mais caminhões para a operação. Foram necessárias, em média, 45 viagens de caminhão por dia, durante 11 dias, para remover a biomassa de sargaço. Segundo o pesquisador, a realização de estimativas, mesmo que preliminares, é fundamental para que os municípios possam se preparar com antecedência e planejar recursos, logística e estratégias de manejo quando ocorrerem novos encalhes.

Matéria-prima para a construção civil

Na USP, pesquisadores investigam formas de incorporar a biomassa do sargaço a soluções construtivas, buscando dar um destino a esse material que atualmente precisa ser retirado das áreas costeiras e, muitas vezes, não tem uma destinação definida. Uma das pesquisas é coordenada pelo professor João Adriano Rossignolo, do Departamento de Engenharia de Biossistemas da FZEA e coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Materiais para Biossistemas (BioSMA). O projeto Valorização do Sargassum para Construção Sustentável: Caracterização, Pré-tratamento e Aplicações em Soluções com Terra reúne duas frentes de pesquisa.

A primeira investiga as características físico-químicas e morfológicas da biomassa e testa diferentes formas de pré-tratamento, como a hornificação — processo utilizado para reduzir a capacidade de absorção de água de fibras vegetais — e a impregnação com polímeros, como o SBR.

O objetivo é avaliar como esses tratamentos podem melhorar a estabilidade da biomassa e seu potencial de uso em materiais de construção. A segunda frente pesquisa a incorporação do sargaço em técnicas de construção com terra, utilizando a biomassa como aditivo natural na produção experimental de blocos de terra comprimida. Os pesquisadores avaliam propriedades físicas e mecânicas dos materiais para verificar como a presença da alga interfere no desempenho dos blocos.

Segundo o professor Rossignolo, a pesquisa ainda está em desenvolvimento e os resultados deverão orientar estudos posteriores sobre o uso do sargaço na construção civil. A proposta é investigar se uma biomassa que chega em grandes quantidades às praias pode ser aproveitada como recurso para materiais construtivos, contribuindo para o desenvolvimento de alternativas mais sustentáveis e adaptadas a regiões costeiras.

Mais informações: João Adriano Rossignolo, e-mail rossignolo@usp.br; Leonardo Capeleto de Andrade, e-mail eng.capeleto@gmail.com; e Geison Mesquita, e-mail geison.mesquita@usp.br

Fonte: Jornal da USP

As 4 regras de ouro do Japão para tornar suas cidades mais habitáveis

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As 4 regras de ouro do Japão para tornar suas cidades mais habitáveis
Foto: Giro 10

O que faz com que uma cidade seja realmente fácil de se habitar?

A resposta não está necessariamente em arranha-céus envidraçados nem em atrações mundialmente famosas, mas sim na possibilidade de se ir ao trabalho sem precisar de carro, de se fazer compras a pé, transitar por uma estação de trem em uma cadeira de rodas ou empurrar um carrinho de bebê com segurança pela calçada.

As cidades do Japão são especialmente boas nesses atributos.

No Índice Global de Habitabilidade de 2026 da Economist Intelligence Unit, Osaka ocupou o sétimo lugar e Tóquio subiu três posições, chegando ao décimo posto, o que faz do Japão o único país asiático com duas cidades entre as dez primeiras.

Essa ascensão reflete as pontuações máximas obtidas nos critérios de estabilidade, assistência médica e educação, além de boa infraestrutura.

Seus moradores afirmam, no entanto, que o verdadeiro diferencial reside nas decisões de design, tomadas com o objetivo de fazer com que a vida cotidiana flua com o mínimo possível de contratempos.

“O Japão foi construído para funcionar para todos”, diz Josh Grisdale, usuário de cadeira de rodas motorizada, diretor da plataforma Accessible Japan, que compartilha informações sobre acessibilidade no país, e morador de Tóquio há 18 anos.

“As mesmas rampas, elevadores e espaços que utilizo como cadeirante também ajudam um pai ou mãe com carrinho de bebê, um idoso ou alguém que chega do aeroporto carregando uma mala”, ressalta.

Para o arquiteto Francis Aguillard, que estudou o design urbano japonês, os detalhes mais simples do dia a dia costumam ser os que geram maior impacto. “A habitabilidade muitas vezes se resume a reduzir os entraves da vida cotidiana”, afirma.

“Uma pessoa consegue chegar ao trabalho, à escola, ao supermercado, a um parque, ao médico e visitar amigos sem ter que organizar todo o seu dia em torno do carro?”, continua.

Para muitos japoneses, a resposta é sim. Conversamos com eles e com especialistas em planejamento urbano para entender como o país projeta cidades que funcionam bem e quais são os aspectos que as tornam tão fáceis de se viver.

1. Construir cidades em torno da vida cotidiana

Grande parte da vida cotidiana no Japão acontece nos “shotengai” — ou seja, ruas comerciais cobertas repletas de estabelecimentos independentes, cujos proprietários muitas vezes moram acima de suas próprias lojas.

“Uma quitanda, uma cafeteria tradicional, uma clínica, uma loja de produtos a 100 ienes (R$ 3,2) e opções para jantar podem ser encontradas ao longo de algumas poucas quadras planas e cobertas”, diz Grisdale.

Comprar mantimentos era uma tarefa que o americano Patrick Lydon detestava quando vivia nos Estados Unidos.

Isso mudou depois que ele e a esposa se mudaram para um bairro moderno de Osaka, ainda que a casa menor e a geladeira minúscula os tenham obrigado a fazer compras com mais frequência.

Agora, em vez do carro, eles vão de bicicleta ao mercado.

“De certa forma, a experiência é realmente agradável”, diz Lydon, autor de The Possible City (“A Cidade Possível”, em tradução literal), uma série de ensaios ilustrados que examina a vida no Japão e na Coreia.

“Ir ao supermercado pode se transformar em uma experiência social cotidiana que conecta você ao bairro. Todos, desde crianças até idosos, percorrem essa rua a pé todos os dias”, explica.

É um conceito difícil de replicar em outros lugares, mas Lydon o compara ao que tornava tão especial a antiga “main street” dos Estados Unidos (via local que costumava concentrar parte do comércio em algumas áreas).

Projetar em uma escala centrada nas pessoas traz resultados.

“O cheiro de croquetes fritos que se espalha pelas ruas, os pequenos comércios administrados pelos proprietários dos imóveis, o fácil acesso ao transporte público, a sensação de segurança e comunidade para pessoas de todas as idades… é difícil exagerar o quanto tudo isso funciona bem”, afirma.

As cidades japonesas também são projetadas para que os veículos se adaptem às ruas, e não o contrário, com vans de entrega compactas e pequenos caminhões circulando por vias construídas em escala humana.

“As ruas das cidades no Japão costumam funcionar como espaços compartilhados onde pedestres, bicicletas e veículos podem conviver”, afirma Aguillard. “Longe de gerar caos, isso cria uma bela dança de atividades.”

2. Projetar o transporte para todos

Os sistemas de transporte do Japão são reconhecidos por sua confiabilidade, segurança e limpeza.

“O incrível sistema de transporte público pode levar você a qualquer lugar”, diz Keiko Ota, gerente regional de operações da G Adventures que vive em Tóquio há mais de uma década.

“Não tenho carteira de motorista, mas, mesmo assim, sinto total liberdade para ir aonde quiser”, acrescenta.

Grisdale gosta do fato de que o transporte público é acessível no Japão e de não precisar planejar seus deslocamentos com antecedência, como precisa fazer em outros países.

“Vindo do Canadá, ainda acho estranho poder ir a quase qualquer estação [no Japão] e chegar ao meu destino de trem ou ônibus, no horário sem hesitar”, afirma.

“Os elevadores raramente estão fora de serviço e, quando um não funciona, existe um plano B: a equipe utiliza um dispositivo portátil para subir escadas, em vez de me dizer que não é possível fazer o trajeto.”

Sua experiência reflete uma transformação nacional de duas décadas, impulsionada pela Lei de Acessibilidade sem Barreiras aprovada no Japão em 2006.

Em 2020, mais de nove em cada dez estações com grande fluxo de passageiros haviam eliminado a necessidade de subir escadas, graças à instalação de milhares de elevadores em todo o país.

Em Tóquio, Grisdale considera que a cidade continua receptiva a sugestões e comentários de seus habitantes. Quando os vasos de flores de seu parque local estavam muito próximos, impedindo a passagem de sua cadeira de rodas, ela relatou o problema ao departamento de parques.

Em poucos dias, foram colocados adesivos para lembrar a equipe de deixar espaço suficiente para a passagem de usuários de cadeiras de rodas.

A abordagem japonesa em relação à acessibilidade influenciou cidades muito além de suas fronteiras. O piso tátil amarelo com relevo, utilizado por pessoas com deficiência visual em todo o mundo, foi inventado pelo engenheiro japonês Seiichi Miyake em 1967 para ajudar um amigo que estava perdendo a visão.

Em menos de uma década, seu uso tornou-se obrigatório nas estações ferroviárias do país. “O Japão deu isso ao mundo inteiro”, diz Grisdale.

3. Preservar a essência do lugar

Apesar de seus famosos trens-bala e de seus centros urbanos agitados, o Japão também valoriza a paciência, a continuidade e o respeito pela tradição.

Quando Lydon registrou sua residência em Osaka, o funcionário do órgão distrital que o atendeu pegou um enorme livro de mapas, apagou o nome do ocupante anterior e escreveu o dele a lápis.

“Como alguém que cresceu trabalhando em empresas de tecnologia do Vale do Silício, isso me impressionou”, diz ele.

“No Japão, muitas vezes os sistemas não são substituídos simplesmente porque existe uma tecnologia mais nova. Se algo continua funcionando de maneira confiável, há menos pressão para reinventá-lo”, explica.

Essa paciência também se reflete na paisagem, onde árvores centenárias sobrevivem em bairros comuns e até mesmo em estações de trem, como a cânfora de 700 anos que cresce atravessando o telhado da estação de Kayashima, perto de Osaka.

“Viver no Japão me fez notar com que frequência as árvores antigas são tratadas como algo que vale a pena ser preservado e adaptado, em vez de eliminado”, conta Lydon.

“Seja pela tradição xintoísta ou simplesmente pelo carinho das pessoas, o resultado é marcante. Há uma diferença entre construir infraestrutura sobre um lugar e construí-la com um lugar”, continua.

Mesmo nos distritos comerciais mais movimentados, a vida cotidiana está integrada à trama da cidade.

“Você vê pessoas correndo para chegar a reuniões e, ao virar a esquina, encontra um pequeno santuário que está ali há gerações, ou um restaurante minúsculo onde o proprietário parece conhecer pelo nome todos os clientes habituais”, diz Masato Kominami, gerente geral do 1 Hotel Tokyo, que percorre o distrito de Akasaka na maioria dos dias.

“Em meio a uma jornada de trabalho muito agitada, você ouve o canto dos pássaros, nota como a luz muda entre as árvores ou percebe os aromas da estação.”

4. Seguir regras de convivência em espaços compartilhados

A infraestrutura projetada em escala humana é apenas uma parte da história: as pessoas que vivem nas cidades japonesas também criam as condições para que elas prosperem.

“Tóquio é incrivelmente agitada, mas as pessoas pensam instintivamente em como suas ações afetam os outros”, diz Kominami. “Não é algo de que se fale muito; simplesmente faz parte do dia a dia.”

Grisdale depende dessa cooperação e, após quase duas décadas vivendo lá, considera-a tão importante quanto qualquer obra que um governo possa realizar. “As boas maneiras são tão importantes quanto a infraestrutura”, afirma.

E explica: “As pessoas formam filas seguindo as marcações nas plataformas, mantêm o silêncio nos trens e cedem os assentos preferenciais e o espaço sem que se precise pedir. Em uma cidade desse porte, isso ajuda a tornar a vida cotidiana mais tranquila para todos”.

Em Osaka, Lydon descobriu que ele mesmo mudou graças à maneira como o Japão funciona, com consciência e consideração pelo próximo.

“Seja formar fila para pegar o trem, falar baixo em público, não jogar lixo no chão, separar resíduos para reciclagem ou dizer “itadakimasu” (“recebo humildemente”) antes de uma refeição, muitos hábitos cotidianos lembram você de que faz parte de algo maior do que si mesmo”, conta.

“Talvez não seja uma fórmula mágica para resolver os males do mundo, mas, pessoalmente, isso me ajudou a me voltar mais para a gentileza, a beleza e a paz.”

Fonte: BBC News

Apesar de resilientes, plantas do Cerrado dependem de polinizadores para atingir o sucesso reprodutivo

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Apesar de resilientes, plantas do Cerrado dependem de polinizadores para atingir o sucesso reprodutivo
Crédito: CBioClima/Unesp

Estudo acompanhou, ao longo de dois anos, treze tipos de arbustos canela-de-ema, espécies com alta taxa de endemismo e adaptadas ao fogo. Resultados apontaram que indivíduos que apresentaram os frutos e as sementes mais vigorosas foram aqueles que receberam visitas de beija-flores e abelhas.

A Serra do Cipó, no estado de Minas Gerais, atrai turistas de todo o Brasil interessados em conhecer suas cachoeiras com poços cristalinos e realizar trilhas em meio ao cerrado. Mas não são apenas as quedas d’água que chamam a atenção na região: a biodiversidade local também é riquíssima, com mais de 1500 espécies de plantas já catalogadas nos arredores. Entre as espécies que compõem a vegetação da Serra do Cipó, destacam-se representantes da família Velloziaceae, especialmente do gênero Vellozia, popularmente conhecidos como canelas-de-ema.

A família Velloziaceae compreende cerca de 265 espécies endêmicas da América do Sul, sendo 85% ocorrendo em campos rupestres, áreas que combinam afloramentos rochosos, solos com poucos nutrientes, sazonalidade climática, isolamento geográfico e áreas de altitude. Essa combinação específica colabora para que 75% das espécies sejam endêmicas. Isso quer dizer que três quartos das plantas da família Velloziaceae existem apenas em sua região de ocorrência. Portanto, as canelas-de-ema que os turistas observam nos campos da Chapada Diamantina, no sertão da Bahia, não são as mesmas encontradas na Serra do Cipó mineira ou no cerrado goiano, por exemplo.

Esse isolamento acaba representando um risco para esses grupos, uma vez que um incêndio intenso na vegetação local ou mesmo a mudança no uso do solo de uma vasta área pode resultar na perda de toda uma espécie. Ao mesmo tempo, também desperta a curiosidade de cientistas. Um estudo conduzido pelas pesquisadoras Irene Gélvez-Zúñiga e Patricia Morellato, ambas associadas ao CBioClima (Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima) e ao Instituto de Biociências da Unesp, no câmpus de Rio Claro, buscou aprofundar o entendimento da ciência sobre o gênero Vellozia, no intuito de oferecer uma base científica para a conservação dessas espécies endêmicas.

Durante dois anos, uma equipe de pesquisadores especializados em ecologia, fenologia e biologia reprodutiva de plantas e incluiu colegas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Nacional de Córdoba, da Argentina, acompanhou populações de Vellozia para investigar os principais padrões de floração dessas plantas e também a importância dos polinizadores para a sua reprodução.

O trabalho, financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), foi publicado na revista Annals of Botany e recebeu apoio logístico do Parque Nacional da Serra do Cipó, do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e de pousadas da região, o que revela a preocupação e envolvimento da comunidade nos estudos envolvendo as espécies locais.

Etapas de construção da pesquisa

Para o estudo, a equipe analisou 13 espécies de canela-de-ema no Parque Nacional da Serra do Cipó e na Reserva Vellozia, localizada na porção sul da Serra do Espinhaço (MG). Dessas espécies, três são classificadas como “em risco de extinção”, uma como “quase ameaçada”, uma como “baixa preocupação” e sete têm seus estados de conservação como “não avaliados”.

Gélvez-Zúñiga, autora principal do artigo, divide a metodologia do trabalho em quatro partes: a primeira envolveu viagens quinzenais à campo, permitindo aos cientistas anotar a frequência em que as plantas floriam e também a intensidade dessa floração, considerada em uma escala de zero a um. Com isso, a equipe conseguiu avaliar a intensidade da floração das diferentes espécies, quais florescem ao mesmo tempo, quais florescem em períodos muito distintos, entre outros fatores.

A segunda parte envolveu as polinizações. “Basicamente, o que fizemos foi acompanhar a formação das flores desde o botão e isolá-las em saquinhos de organza para evitar a visita de polinizadores e outros agentes”, explica a cientista. Dessa forma, um grupo de flores ficou exposto aos visitantes, outro foi polinizado manualmente pelos pesquisadores e o terceiro ficou restrito, com acesso impedido dos animais. Depois, a equipe quantificou quantas flores produziam frutos, se esses frutos produziam sementes e se essas sementes germinavam ou não.

A terceira etapa do processo ocorreu já dentro dos laboratórios dos pesquisadores. “Nós juntamos os grupos de sementes formadas em cada tipo de polinização e levamos para germinar em laboratório. Essa é uma abordagem que geralmente não costuma ser feita em outros projetos de pesquisa porque demanda muito tempo e paciência. Mas ela é importante pois mostra o ciclo completo de reprodução da planta”, relata Gélvez-Zúñiga sobre a penúltima etapa do trabalho.

A quarta parte da pesquisa entra como um extra. Ao longo do período de acompanhamento das plantas, os pesquisadores instalaram câmeras que, acionadas pelo movimento no entorno, detectavam e registravam a presença de visitantes. “Isso nos permitiu ver o comportamento dos polinizadores, a sua frequência, o horário e quais as espécies visitadas”, explica a pesquisadora.

Beija-flores e abelhas são essenciais para a reprodução

Já era de conhecimento dos cientistas que as plantas canela-de-ema costumam apresentar floração massiva, em grandes quantidades dentro de um período curto de tempo. Isso foi corroborado no estudo para várias espécies, mas os pesquisadores observaram também uma segunda estratégia de floração que consistia na produção de pequenas quantidades de flores ao longo dos meses de transição entre chuva e seca.

Outra constatação dos pesquisadores foi que algumas espécies, como a Vellozia alata e Vellozia caruncularis, têm suas florações estimuladas pelo fogo. Os incêndios naturais ou antrópicos, causados pela ação humana, são recorrentes no bioma Cerrado e essas duas espécies apresentaram produção de flores poucas semanas após a ocorrência de queimadas na região, o que indica uma adaptação ecológica a esses eventos.

Um dos principais resultados do estudo foi demonstrar a importância da atividade dos polinizadores para a reprodução bem-sucedida da canela-de-ema. Sete das 11 espécies avaliadas nos experimentos reprodutivos não produziram frutos ou sementes quando os polinizadores foram excluídos. Em alguns casos, havia frutos, mas suas sementes apresentavam baixa qualidade ou não germinavam, o que mostra que esse não deve ser o único parâmetro para julgar o sucesso reprodutivo das plantas.

A produção de sementes saudáveis é fundamental para a viabilidade de novos indivíduos e para a manutenção da diversidade genética das populações. “As plantas do gênero Vellozia transitam um pouco por esse espectro da autonomia para a reprodução. Ainda assim, elas encontram seu maior resultado quando são polinizadas pelos animais”, conclui Gélvez-Zúñiga. Os principais polinizadores registrados no estudo foram os beija-flores Colibri serrirostris e Chlorostilbon lucidus e abelhas do gênero Trigona – abelhas sem ferrão do grupo Meliponini. A abelha-africanizada (Apis mellifera) também foi observada visitando diversas espécies.

“Os nossos resultados sobre a dependência de polinizadores, desafios reprodutivos e relação da floração com potenciais mudanças ambientais podem colaborar para o entendimento dos riscos reais para as espécies de canela-de-ema, construindo ferramentas para que os tomadores de decisão usem e cataloguem as plantas ainda não avaliadas, garantindo assim a manutenção delas”, orienta a pesquisadora.

Gélvez-Zúñiga explica que essas plantas ocorrem em habitats montanhosos, rupestres e áridos, o que pode dar a impressão de que são ambientes inférteis ou já degradados. Segundo a pesquisadora, esse sentimento pode abrir precedentes para a ocupação do espaço pela produção pecuária ou pela indústria extrativista, ações que costumam trazer graves impactos à qualidade do solo ou à biodiversidade.

Nesse sentido, explica a pesquisadora, realizar o mapeamento da ocorrência das espécies é uma forma de aprofundar o conhecimento sobre sua ecologia, os serviços ambientais prestados e, dessa forma, conscientizar sobre a importância da canela-de-ema nos campos rupestres. “Essas espécies também estão alimentando a fauna, sendo positivas para o turismo de natureza e também para a produção de frutos para outros organismos. Se a gente mantiver populações viáveis de beija-flores e abelhas, por exemplo, iremos beneficiar não só as canelas-de-ema, mas várias outras espécies, mantendo os ecossistemas saudáveis e resilientes”, finaliza a autora.

Fonte: Jornal da UNESP | Carolina Fioratti

A mineração pode se aproximar do fim; o território, não

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A mineração pode se aproximar do fim; o território, não
Foto: REUTERS/Luc Gnago

Em artigo, Gustavo Roque, especialista em inovação e transição pós-mineração e colunista da CNN Infra, defende que municípios minerários usem a riqueza gerada pela atividade para planejar o futuro antes que as minas se esgotem

Nos últimos dois meses, passei boa parte do tempo entrando e saindo de minas, antigas áreas industriais, projetos de reconversão e cidades que, em algum momento, precisaram responder a uma pergunta que nós, no Brasil, ainda fazemos pouco: o que acontece com um território quando a mineração deixa de ocupar o lugar que teve durante décadas?

Foram dez países, entre América do Norte e Europa, nessa etapa das gravações de “Um Futuro Possível”, série documental que idealizei e co-produzimos com a Dromedário Filmes, para investigar diferentes caminhos construídos por territórios minerários. A viagem não começou para me convencer de que é preciso planejar o pós-mineração antes do fechamento de uma mina. Essa é uma missão que já escolhi abraçar. O que eu queria ver de perto era como outros lugares haviam enfrentado esse desafio, quais escolhas fizeram e, principalmente, o que poderíamos aprender com seus acertos e erros.

Em Sudbury, no Canadá, desci quase dois quilômetros para conhecer o SNOLAB, laboratório instalado dentro de uma mina de níquel em operação. Enquanto a atividade mineral mantém sua rotina, cientistas de diferentes países estudam neutrinos, matéria escura e algumas das questões mais complexas da física. No País de Gales, antigas estruturas ligadas à extração de ardósia abriram espaço para turismo e aventura. Em outros pontos da viagem, encontrei cultura, tecnologia, educação e novas atividades produtivas em territórios cuja história econômica esteve, por muito tempo, diretamente ligada à mineração.

Os exemplos impressionam. Ainda assim, depois de tantos quilômetros, voltei ainda mais convencido de que seria um erro retornar ao Brasil com uma lista de projetos para copiar. O aprendizado mais importante está na lógica por trás deles: territórios que começaram a pensar no futuro enquanto ainda tinham recursos, infraestrutura, conhecimento e capacidade de fazer escolhas.

É essa lógica que considero decisiva para os municípios minerários brasileiros. Se sabemos que a mineração tem um ciclo, precisamos aproveitar o período em que ela gera mais riqueza e arrecadação para construir condições capazes de permanecer quando sua participação na economia mudar. Esperar a exaustão da atividade para iniciar essa conversa significa começar justamente quando o território terá menos recursos e menos margem de decisão.

Isso coloca a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais – CFEM em uma discussão muito mais ampla e profunda. Não apenas quanto se recebe ou onde se gasta, questões evidentemente importantes, mas quanto desse recurso consegue se transformar em capacidade que permaneça no município.

Uma escola técnica, por exemplo, pode atender às demandas atuais da mineração e ampliar competências úteis a outras cadeias. O mesmo vale para saneamento, conectividade, qualificação profissional e infraestrutura urbana. Por isso, defendo que projetos estruturantes podem resolver problemas imediatos e, ao mesmo tempo, preparar uma cidade menos dependente de uma única atividade.

Parece uma pequena diferença? Não é, acredite! Quando toda a receita de uma atividade finita se converte apenas em resposta ao presente, a dependência é alimentada, fomentada e continua praticamente intacta. Quando parte dela ajuda a criar novas capacidades, o município começa a comprar algo muito mais valioso: opções.

Há também uma questão de tempo. Transformar a economia de um território dificilmente cabe em um mandato. Em muitos casos, sequer cabe em dois ou três. Por isso, planejamento de longo prazo exige governança, indicadores, segurança jurídica e mecanismos capazes de preservar uma direção mesmo quando os governos mudam. Continuidade não significa insistir em uma solução que deixou de funcionar. Significa poder corrigir o caminho sem voltar, a cada quatro anos, ao ponto de partida.

Outra convicção que a viagem reforçou é que nem toda mina precisa virar alguma coisa extraordinária depois. Há uma tendência de nos encantarmos com parques, laboratórios, museus e destinos turísticos. Em alguns lugares, essas soluções fazem sentido, já em outros, a decisão tecnicamente mais responsável será recuperar a área e devolvê-la à paisagem. O que vale, de verdade, é que o território venha antes da ideia.

IA pode ameaçar sistema financeiro global ao facilitar ataques cibernéticos, alerta presidente do Banco da Inglaterra

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As preocupações que levaram a OpenAI, do ChatGPT, a abandonar lançamento de novo sistema de IA
Foto: Qilai Shen/Bloomberg

Andrew Bailey, que também preside órgão internacional de estabilidade financeira, diz que avanço de modelos de IA pode aumentar velocidade e escala de ataques e ampliar riscos nos mercados

O avanço da inteligência artificial pode aumentar o risco de uma crise no sistema financeiro global, principalmente ao facilitar ataques cibernéticos, alertou Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra e presidente do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB).

Em carta enviada a ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G20, Bailey afirmou que sistemas de IA mais avançados podem alterar a velocidade, a escala e o custo de ataques cibernéticos.

Segundo Bailey, esse é o risco mais imediato da inteligência artificial para a estabilidade financeira. Ele afirmou que um ataque cibernético pode se espalhar entre diferentes países e instituições em razão da forte conexão entre os sistemas financeiros.

IA pode ampliar ataques

Bailey também chamou atenção para a falta de protocolos em vários países para acompanhar o desenvolvimento, o lançamento e a utilização de modelos avançados de inteligência artificial.

O avanço da tecnologia pode acelerar a identificação de vulnerabilidades nos sistemas, aumentando a necessidade de que bancos e outras instituições consigam corrigir falhas e recuperar seus serviços rapidamente.

Outro ponto de preocupação é a dependência do setor financeiro de um número reduzido de grandes fornecedores de tecnologia.

Segundo Bailey, essa concentração pode fazer com que um problema em uma empresa afete diversas instituições e prejudique a confiança dos investidores no sistema como um todo.

Risco também está nos mercados

Além dos ataques cibernéticos, Bailey alertou para a possibilidade de uma queda nos mercados financeiros ser ampliada pelo entusiasmo dos investidores com a inteligência artificial.

Segundo ele, ações relacionadas à IA estão sendo negociadas a valores elevados, enquanto o aumento do uso de dívida para investir em mercados de ações e títulos pode deixar o sistema mais vulnerável.

A combinação desses fatores poderia ampliar os efeitos de uma eventual correção dos mercados, especialmente se diferentes problemas ocorrerem ao mesmo tempo.

Bailey afirmou que governos e autoridades financeiras precisam priorizar medidas para garantir que modelos avançados de IA sejam desenvolvidos e colocados em funcionamento de forma segura e responsável em escala global.

O que é o FSB

O Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) é um órgão internacional que reúne autoridades financeiras de diferentes países e busca identificar e reduzir riscos ao sistema financeiro global.

Bailey assumiu a presidência do órgão no ano passado e também é governador do Banco da Inglaterra desde março de 2020.

*Com informações da agência Reuters

Fonte: G1

Por que o Brasil ainda não sabe quantos entregadores se acidentam no trabalho?

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Por que o Brasil ainda não sabe quantos entregadores se acidentam no trabalho?
Foto: Vitor Serrano/BBC

Após um acidente, o entregador Silvio Luiz Pinheiro pensou em desistir da profissão.

Quando entrou na central para devolver uma bicicleta alugada, ele ainda estava machucado. O ombro doía, o braço quase não acompanhava os movimentos.

Pouco antes, na Avenida Sumaré, na Zona Oeste de São Paulo, o freio dianteiro da bicicleta elétrica havia travado de repente. Ele precisou desviar de pedestres que estavam no meio da ciclovia. Com areia perto da pista, a bicicleta perdeu a estabilidade, e ele caiu.

“Para não machucar o rosto, eu coloquei o braço esquerdo na frente, um reflexo natural que a gente tem”, conta.

Ele levou a bicicleta alugada até o balcão da central de locação, em Pinheiros, também na Zona Oeste da capital paulista, explicou que estava devolvendo o equipamento porque havia sofrido um acidente e esperou alguma reação.

Os funcionários fizeram os procedimentos necessários, confirmaram a devolução e encerraram o atendimento. A preocupação parecia ser apenas uma: registrar que a bicicleta havia voltado, diz ele.

Este foi o momento em que Silvio quase desistiu da profissão. “Foi uma coisa muito fria”, lembra. “A preocupação deles é você devolver a bicicleta, pagar e não gerar muita preocupação para o aplicativo.”

O resultado foi a clavícula e o cotovelo machucados, e uma recuperação mais lenta do que imaginava. “Eu achava que era uma lesão leve. Mas depois eu percebi que mexer com o ombro foi difícil até para voltar a fazer atividade física”, diz. Hoje, ele avalia que está “99,9%” recuperado.

A experiência fez Silvio abandonar temporariamente as entregas e voltar a um emprego de carteira assinada em um restaurante. “Voltei para a CLT por causa do convênio, porque a plataforma não te dá essa segurança.”

Hoje, ele voltou às entregas por aplicativo, atraído pelos benefícios de saúde do ciclismo. Pré-diabético, descobriu que passar o dia pedalando o ajudava a controlar o peso. E também lhe devolveu um prazer antigo, já que gosta da bicicleta muito antes de ela virar instrumento de trabalho.

Silvio gosta de trabalhar depois das 20h, quando os carros deixam de disputar cada centímetro de asfalto. Há menos motoristas, menos calor e, segundo ele, um risco menor de voltar para casa machucado.

Geralmente, sua jornada se estende até meia-noite. Em dias bons, continua pedalando até uma ou duas da manhã pelos bairros da República, da Santa Cecília e da Barra Funda.

O acidente mudou sua forma de enxergar o trabalho, mas não eliminou os riscos. Enquanto pedala, ele divide a atenção entre trânsito, pedestres e notificações do aplicativo, tentando equilibrar velocidade e segurança a cada cruzamento. Todos os dias, sai de casa com uma meta: faturar, idealmente, R$ 200. No mínimo, R$ 100.

“A gente anda com cuidado o tempo todo, mas é uma coisa que um dia pode acontecer. Desde que não seja fatal, pode acontecer com qualquer um.”

Os acidentes que o Brasil não consegue contar

O trabalho por aplicativos segue em expansão no Brasil. Em 2024, eram 1,7 milhão de pessoas nessa modalidade, segundo o IBGE, o equivalente a 1,9% dos ocupados no setor privado. Em dois anos, houve um crescimento de 25,4%, com a entrada de mais 335 mil trabalhadores.

A maioria atua no transporte de passageiros: são 58,3% (964 mil). Já os entregadores representam 29,3% — ou seja, 485 mil pessoas. O grupo não é homogêneo: os trabalhadores que atuam em entregas se dividem principalmente pela idade e pelo veículo utilizado.

A renda média dos trabalhadores plataformizados, na época, era de R$ 2.996 com jornadas acima de 40 horas semanais. O rendimento médio da população brasileira atinge R$ 3.367 em 2025.

Medir o tamanho dos riscos que os entregadores enfrentam ainda é um desafio. O principal obstáculo é a falta de dados oficiais que permitam identificar se uma pessoa acidentada estava trabalhando no momento da ocorrência.

Sistemas estaduais registram acidentes de trânsito, e o Ministério da Saúde reúne notificações de atendimentos hospitalares.

No Estado de São Paulo, um dos que mais concentram o uso de aplicativo, os dados do Detran indicam que acidentes fatais envolvendo ciclistas cresceram nos últimos cinco anos. Em 2021, foram registradas 320 situações que envolveram mortes. Já em 2025, 409 — um aumento de 27,8% em cinco anos.

Esse número se refere a ciclistas em geral, não especificamente a entregadores de aplicativo, já que essas bases historicamente não diferenciam se os envolvidos nos acidentes estavam trabalhando ou não.

Segundo o procurador do trabalho Rodrigo Castilho, coordenador nacional de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho do Ministério Público do Trabalho (MPT), essa lacuna levou o órgão a criar um projeto estratégico voltado à subnotificação de acidentes de trabalho entre trabalhadores plataformizados.

Os formulários do sistema de saúde (Sinan) não registravam se a vítima trabalhava para aplicativos — e, mais importante, se estava de fato em jornada de trabalho no momento do acidente. Após o projeto, o Ministério da Saúde publicou, em abril de 2025, uma nota técnica orientando profissionais de saúde a registrar essa informação.

Mesmo assim, um ano depois, não existem estatísticas consolidadas. “Não temos ainda o dado compilado para saber se realmente esses agravos estão sendo registrados”, afirma Castilho. O próximo passo do MPT, segundo ele, é verificar se a orientação está sendo de fato aplicada pelas unidades de saúde.

Para o procurador, essa ausência de dados impede que o país conheça a real dimensão do problema. “O senso comum é que esses agravos têm aumentado. Mas não temos os dados compilados para traçar o perfil desse aumento.”

Além das falhas nos registros de saúde, Castilho aponta um segundo obstáculo: a opacidade das próprias plataformas.

“As empresas não vão fornecer o número de ciclistas acidentados trabalhando”, diz, classificando a situação como incomum na atuação do MPT.

“São as únicas empresas que o Ministério Público do Trabalho não tem nenhuma informação, porque, sob a alegação de que o algoritmo é como se fosse uma pedra filosofal, um segredo que ninguém pode saber por conta da concorrência, nenhum dado é prestado por essas empresas”, continua o procurador do trabalho.

“Nem ao menos o número de trabalhadores que estão ativos, quantos trabalhadores realizam entregas por mais de doze horas por dia, por dez horas, por oito horas. A gente não tem acesso a nenhum dado.”

Milhares de trabalhadores como Silvio seguem nas ruas todos os dias, em um setor que ainda busca regulamentação específica. Em março de 2024, o governo federal apresentou uma proposta de regulamentação para motoristas de aplicativo — mas os entregadores ficaram de fora, e as negociações sobre essa categoria seguem sem consenso.

Embora muitos rejeitem a ideia de um vínculo empregatício tradicional, isso não significa satisfação com a ausência de proteção social.

“Eu acho que o entregador poderia ter uma ajuda no sentido de um convênio. A plataforma tem condição de dar melhorias para o entregador e, às vezes, ela não dá. Seja para o motoboy, seja para o ciclista, seja para o motorista de carro”, defende Silvio.

Para Rodrigo Castilho, a vulnerabilidade não está apenas no atendimento imediato após um acidente, mas na ausência de rede de proteção de longo prazo: o empregado formal tem proteção previdenciária de aposentadoria e de afastamento por doença, acidente ou invalidez temporária — cobertura que os seguros oferecidos por algumas plataformas, geralmente restritos a morte, não substituem.

Procuradas pela BBC News Brasil, as plataformas afirmaram que a segurança dos entregadores é prioridade.

O iFood informou que não incentiva comportamentos de risco, que os tempos de entrega consideram trânsito e distância, que entregadores podem recusar pedidos sem prejuízo, e que oferece seguro para acidentes pessoais, auxílio financeiro durante afastamentos e canal de comunicação de acidentes.

A 99Food disse que utiliza tecnologia para definir tempos de entrega, orienta o respeito às leis de trânsito e oferece seguro contra acidentes pessoais com cobertura durante o período conectado ao aplicativo.

Já a Keeta afirmou que sua operação prioriza a segurança, que os prazos são calculados sem estimular excesso de velocidade, e que mantém políticas de prevenção de acidentes e cobertura securitária.

Para Castilho, no entanto, falta comprovação: “A empresa alega. Mas eu não tenho como nem confirmar, nem desconfirmar, a informação. Quantos trabalhadores foram de fato beneficiados por essa assistência?”

Fonte: BBC News

Emprego em tecnologia também é política de cidade

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Um ecossistema digital gratuito mostra como qualificação, emprego remoto e governança aberta reduzem a desigualdade entre grandes centros e cidades do interior.

Uma cidade só é verdadeiramente inteligente quando melhora a qualidade de vida das pessoas. A tecnologia é o meio para chegar lá e um dos meios mais diretos é o mercado de trabalho que ela cria. É esse pensamento que sustenta a RH Tech, plataforma gratuita de empregabilidade e qualificação em tecnologia que a ABES – Associação Brasileira das Empresas de Software mantém desde 2022 — e que nasceu, na origem, como um projeto de cidade.

A tecnologia comprime distância geográfica de um jeito que poucos setores conseguem replicar, mas de uma forma que consegue também atingi-los. Um profissional qualificado numa cidade pequena do interior presta serviço remoto para uma grande empresa em São Paulo ou no exterior, da área tecnologia ou não. É o mesmo trabalho com a mesma remuneração, mas sem precisar migrar. É a promessa concreta do mercado de trabalho em tecnologia: redistribuir oportunidade geograficamente, algo raro na indústria tradicional.

A pesquisa que deu origem à plataforma nasceu na Universidade de São Paulo, entre 2021 e 2024, dentro do Programa Global Cities do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), em parceria com a professora Roseli de Deus Lopes. O projeto intitulado como: O Setor de tecnologia como motor de desenvolvimento sustentável, gerando emprego, renda e competitividade — e cidades menos desiguais. A ABES adotou esse resultado de pesquisa, financiou seu desenvolvimento tecnológico e o transformou na plataforma RH Tech em 2022.

A literatura sobre plataformas urbanas costuma pensar no nível do governo municipal: prefeituras que usam dados e participação digital para melhorar serviços públicos. A RH Tech, por sua vez, aplica esse raciocínio a uma organização setorial, com atuação multiestadual, sem território fixo, cuja missão mira explicitamente gerar resultados de cidades. A plataforma é parte de uma associação empresarial operando como orquestradora de um ecossistema de conhecimento, em escala nacional. Há um eco da economista Elinor Ostrom nesse desenho: conhecimento e qualificação funcionam como bem comum, que floresce sob governança coletiva do acesso: regras claras, curadoria de qualidade, participação de quem usa e de quem contribui.

Os números sustentam essa leitura. Mais de 40 mil acessos acumulados desde o lançamento. Mais de vinte parceiros (empresas, escolas técnicas, organizações da sociedade civil) sustentando hubs de vagas, cursos gratuitos e um painel de inteligência do mercado de trabalho. Reconhecimentos externos e independentes confirmam o resultado: Troféu IOS de Impacto Social (IOS, 2023), Prêmio Empregabilidade Jovem (CIEE) em duas edições (2023 e 2024) e o primeiro lugar no Prêmio Marco Maciel (ABRIG, 2025)

Outro dado interessante a ser analisado é que mulheres são mais da metade da força de trabalho brasileira, mas ocupam hoje 16% dos profissionais de tecnologia mapeados pela plataforma. Pesquisas de mercado apontam que este percentual pode ser ainda menor. A RH Tech responde a esse desequilíbrio com parceiros do terceiro setor dedicados a mudar esse quadro como Reprograma e Programaria, que formam mulheres para o desenvolvimento de software, ao lado de organizações voltadas à inclusão racial e socioeconômica no setor. Formar mais gente por meio desses programas é desenvolvimento econômico baseado em conhecimento em ação, ampliando a competitividade do setor e reduzindo a desigualdade na vida das cidades.

Cidade inteligente é a cidade que qualifica quem mais precisa de oportunidade. A tecnologia é o instrumento; a governança de plataformas setoriais, bem desenhada, é o caminho para um país mais digital e menos desigual.