À medida que sistemas ficam mais complexos e a inteligência artificial avança, preparar quem vai operar essas ferramentas deixa de ser detalhe e passa a ser condição vital para que a inovação chegue, de fato, ao cidadão.
Existe um erro de percepção frequente na modernização do setor público: acreditar que basta comprar tecnologia ou adquirir soluções inovadoras para transformar serviços. Sistemas são contratados, plataformas são implantadas, mas, sem pessoas preparadas para operá-los, a inovação trava — muitas vezes não por falha técnica, e sim por falta de gente capaz de dar sentido a ela.
Essa distância entre a ferramenta e quem a utiliza tende a crescer. As tecnologias que chegam à administração pública estão cada vez mais complexas, e é natural que servidores reajam com insegurança diante do que não conhecem. O receio de errar, a ausência de familiaridade e a sensação de não ter domínio sobre a novidade fazem com que muitas equipes resistam ao que poderia facilitar seu trabalho. O resultado é conhecido e triste: soluções caras que viram peças decorativas, usadas de forma cosmética, sem alterar de verdade os processos.
A partir dessa percepção Porto Alegre criou em 2025 uma Escola de Inovação voltada aos próprios servidores. Ela complementa a Escola de Desenvolvimento de Servidores, que já realiza um trabalho fundamental de formação para os processos tradicionais e a gestão administrativa, com um novo foco: preparar servidores para lidar com tecnologias emergentes e promover a cultura da mudança e da inovação. Mais do que ensinar a operar um sistema específico, a proposta é ajudar as pessoas a entender e enxergar para onde a tecnologia está avançando, o que ela pode resolver e como pode ser aliada no dia a dia.
Quando o servidor percebe esse movimento e se sente apoiado, sua relação com a inovação começa a mudar. Ele deixa de encarar a novidade como ameaça e passa a buscá-la com mais segurança — e, muitas vezes, com entusiasmo. Isso é fundamental para que as novas tecnologias e soluções sejam usadas de forma efetiva a favor do serviço público, transformando projetos e rotinas em vez de apenas maquiá-los.
Com o avanço da inteligência artificial, essa necessidade só se aprofunda. Sistemas de IA só entregam valor real quando as pessoas compreendem o que eles podem fazer, quais são seus limites, suas potencialidades e, sobretudo, seus riscos. Sem esse repertório, a tendência é usá-los apenas para tarefas rasas — ou, pior, empregá-los de maneira insegura, sem consciência do que está em jogo. Trabalhar com IA no setor público exige, portanto, servidores capazes de dialogar criticamente com a máquina, e não apenas de apertar botões.
Os verdadeiros protagonistas da transformação digital não são os softwares, mas os atores que vão receber e operar a inovação dentro do Estado. Investir na capacitação desses profissionais é reconhecer que a tecnologia é meio, e não fim — e que ela só cumpre sua promessa social quando encontra, do outro lado, alguém preparado para usá-la em benefício da população.
Pelos resultados que temos obtido — a turma inicial de formação sobre as potencialidades e os riscos dos sistemas de IA foi um sucesso e desencadeou muitas iniciativas em diferentes setores —, acredito que a implantação de algum tipo de modelo de formação para a inovação deveria estar na agenda prioritária dos gestores municipais. Tenho convicção de que essa aposta pode acelerar, ou até mesmo viabilizar, os processos de transformação digital e a adoção de soluções inovadoras nas prefeituras – e melhorar os resultados obtidos.
As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC.

Professor Titular – UFRGS
PhD Univ. Leeds
Coordenador do PACTO ALEGRE
Secretário de Inovação da Cidade de Porto Alegre
Vice-presidente do Fórum INOVACIDADES da Frente Nacional de Prefeitos (FNP)
Coordenador do Fórum de Gestores de Inovação da GRANPAL
Membro do Conselho Superior da FAPERGS
Membro do Conselho de Inovação e Tecnologia da Federação de Indústrias do Rio Grande do Sul (CITEC/FIERGS)
Membro do Conselho Científico do Plano Rio Grande
Membro da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) da CNI
Membro do Conselho do Parque Tecnológico de São José dos Campos
Membro do Conselho do Parque Científico ZENIT da UFRGS
Gestor da ESCOLA DE INOVAÇÃO DE PORTO ALEGRE





