Nos últimos anos, os debates sobre inclusão digital estiveram concentrados nas necessidades de garantir à população brasileira amplo acesso à internet. Agora, essa abordagem mudou. Com o 5G, o Brasil realizou uma grande ampliação de sua infraestrutura de conectividade, digitalizou serviços e incorporou a tecnologia a praticamente todas as dimensões da vida cotidiana. O desafio hoje é garantir que a transformação digital entregue autonomia de maneira efetiva às pessoas.
A pesquisa TIC Domicílios 2025, realizada pelo Cetic.br, aponta um dado positivo: 86% dos domicílios brasileiros possuem acesso à internet. No entanto, apesar do avanço expressivo, 30% da população ainda ocupa o nível mais baixo da chamada conectividade significativa, conceito que considera não só a existência de uma conexão, mas sua qualidade, custo, dispositivos e condições reais de uso.
Os dispositivos são parte essencial dessa equação. Hoje, 65% dos usuários brasileiros acessam a internet exclusivamente pelo telefone celular; nas classes D e E, são 87%. Além disso, 39% dos usuários de internet móvel relatam ter ficado sem seu pacote de dados em algum momento nos três meses anteriores à pesquisa. É por isso que a próxima etapa da inclusão digital precisa ser mais ambiciosa. Já sabemos que infraestrutura é indispensável. Precisamos agora garantir que ela seja acompanhada de bons celulares e computadores, letramento digital e confiança de uso.
No caso dos aparelhos, é importante garantir o poder de compra. Uma família pode estar conectada e depender de um único celular para estudar, trabalhar, movimentar uma conta bancária, fazer ou receber um pix, acessar um benefício ou resolver uma pendência com o poder público.
O relatório técnico do Plano Nacional de Inclusão Digital, de abril de 2026, reconhece que os equipamentos fazem parte do processo de inclusão e propõe, entre outras ações, a criação de linhas de financiamento voltadas a públicos de maior vulnerabilidade. A infraestrutura digital só produz seu potencial quando existe, na outra ponta, um equipamento de qualidade e preço acessível.
Já o letramento digital depende de uma série de iniciativas. A simples habilidade de abrir um aplicativo ou de navegar em uma plataforma não caracteriza competência plena. Uma pessoa pode dominar ferramentas digitais e não compreender como seus dados são utilizados, porque recebe determinada recomendação, quando uma informação merece confiança ou de que maneira um sistema automatizado influencia sua decisão. Na era da inteligência artificial, essa distinção é fundamental.
Os números da TIC Domicílios 2025 mostram que, em 2025, apenas 32% dos usuários de internet utilizaram ferramentas de IA generativa. Na classe A, esse percentual chegou a 69%. Entre aqueles que não utilizaram essas ferramentas, 58% apontaram a falta de habilidade como uma das razões. Se apenas uma parcela da população consegue transformar tecnologias avançadas em oportunidades, corremos o risco de transportar desigualdades antigas para uma nova plataforma tecnológica.
No setor público, a questão torna-se ainda mais sensível. A pesquisa do Cetic.br mostra que 71% dos usuários de internet com 16 anos ou mais utilizaram serviços de governo eletrônico no ano passado. Na plataforma gov.br, 12% precisaram que outra pessoa realizasse um serviço em seu lugar. Quando o acesso a um direito passa por uma interface difícil, não é razoável medir o avanço apenas pela eficiência do sistema. É preciso perguntar se o cidadão tem condições de utilizá-lo com independência. Digitalizar processos sem investir paralelamente em inclusão pode resolver um problema administrativo e criar outro, de natureza social.
Serviços públicos digitais precisam nascer com acessibilidade, segurança e simplicidade como requisitos, e não como correções posteriores. Escolas devem incorporar o letramento digital não apenas para ensinar ferramentas, mas para formar cidadãos capazes de lidar com dados, algoritmos, inteligência artificial, privacidade e segurança. Programas de capacitação precisam alcançar também adultos que já estão no mercado de trabalho e pessoas para quem a transformação digital chegou depois da formação escolar.
Isso exige coordenação entre poder público, empresas, universidades e sociedade civil. Exige também continuidade. Inclusão digital não pode ser tratada como uma sucessão de projetos isolados, lançados e interrompidos a cada novo ciclo de prioridades. Redes e competências necessitam de uma visão de longo prazo.
Há sinais importantes de avanço institucional. A Política Nacional de Educação Digital, instituída pela Lei nº 14.533/2023 após aprovação pelo Congresso Nacional e sanção presidencial, estabeleceu entre seus eixos o letramento digital, ao lado de computação, programação, robótica e outras competências, do ensino fundamental ao médio. A Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec) reforça que preparar professores e estudantes para utilizar a conexão de maneira crítica é o passo seguinte.
Também começam a surgir iniciativas voltadas para além da educação formal. Em 2026, o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) lançou um projeto de inclusão informacional, inicialmente no Distrito Federal, orientado ao uso consciente das plataformas e das tecnologias. É um exemplo importante porque parte de uma visão menos instrumental: não se trata apenas de ensinar a operar um dispositivo, mas de desenvolver compreensão e autonomia no ambiente digital.
O desafio, agora, é transformar essas iniciativas em escala e continuidade. O Brasil não precisa escolher entre expandir infraestrutura e investir em letramento digital. Precisa fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Não faz sentido levar redes de alta capacidade às escolas, digitalizar serviços públicos e ampliar o uso da inteligência artificial sem preparar cidadãos para utilizar esses recursos com eficiência e senso crítico. A infraestrutura digital só completa sua função quando encontra, na outra ponta, pessoas capazes de transformá-la em conhecimento e oportunidades.
Essa discussão amplia o significado de soberania, tema que tem sido debatido com relevância nos últimos meses. Não basta um país possuir redes modernas, capacidade computacional ou profissionais qualificados se parte de sua população não consegue transformar esses recursos em renda e acesso a serviços. A soberania tecnológica de uma nação também se mede pela autonomia digital de seus cidadãos.

Vice-Presidente de Relações Públicas da Huawei na América Latina e Caribe, com contribuição significativa na construção de parcerias que alavancam a transformação digital no Brasil. O executivo já atuou como gestor de Rede e Data Center da Prodam – SP, passando por multinacionais como Cabletron, Enterasys e CISCO, onde foi responsável pela área de Diretorias Regionais de Vendas.





