Como uma cidade de meio milhão de habitantes se tornou, pela sexta vez consecutiva, a mais inteligente do mundo sem fazer da tecnologia o centro do seu modelo
Em 2025, o IMD Smart City Index coroou Zurique como a cidade mais inteligente do mundo pela sexta vez consecutiva, à frente de Oslo, e atribuiu-lhe pela primeira vez a nota máxima, AAA, em ambas as dimensões avaliadas pelo ranking: estrutura urbana e tecnologia. O dado mais revelador, no entanto, não é a posição no topo da lista, mas o tamanho da cidade que a ocupa. Com pouco mais de 452 mil habitantes no município e cerca de 1,6 milhão de pessoas no cantão que a circunda, Zurique não vence porque é grande, populosa ou tecnologicamente futurista. Vence porque transformou confiança institucional, dados e planejamento territorial em um sistema coerente — uma combinação que nenhuma métrica de inovação isolada consegue capturar sozinha, mas que se torna visível quando se observa o modelo como um todo.
O ponto de partida desse modelo é a própria estratégia Smart City Zürich, lançada para integrar de forma transversal as políticas de inovação, sustentabilidade e transformação digital da cidade. A escolha de palavras importa aqui: transversal, não setorial. Diferente de abordagens que tratam a tecnologia como um departamento à parte da administração pública, Zurique optou por usar dados como insumo estratégico para o planejamento territorial e para a tomada de decisão em todas as áreas de governo. Um dos instrumentos mais sofisticados dessa abordagem é o Digital Twin, ou gêmeo digital da cidade: um modelo virtual que permite simular cenários complexos de mobilidade, infraestrutura e impacto ambiental antes que qualquer intervenção física seja executada no espaço urbano. É uma forma de comprar tempo e reduzir erro — gestores testam decisões no plano virtual antes de assumir o custo, político e financeiro, de errar no mundo real.
Esse uso estratégico de dados só funciona, contudo, porque está apoiado em um pilar mais fundamental: a política de Open Government Data, ou dados abertos governamentais. A prefeitura de Zurique disponibiliza de forma massiva seus dados públicos, e essa decisão cumpre três funções que raramente aparecem juntas em outras cidades. A primeira é ampliar a transparência e a confiança do cidadão nas instituições — não como discurso, mas como prática verificável, já que qualquer pessoa pode acessar e auditar os dados que embasam decisões públicas. A segunda é fomentar o ecossistema de inovação local, permitindo que startups e empresas desenvolvam soluções a partir de dados reais da cidade, em vez de depender de aproximações ou suposições sobre como Zurique funciona. A terceira, talvez a mais subestimada, é estimular a participação cidadã por meio de interfaces digitais que permitem à comunidade colaborar diretamente com a gestão pública. Tomadas em conjunto, essas três funções explicam por que o relatório do IMD atribui à confiança institucional um peso tão decisivo quanto à tecnologia em si na definição do que torna uma cidade inteligente.
Por trás da camada de dados existe ainda uma camada econômica que sustenta tudo isso no longo prazo: o Desenvolvimento Baseado em Conhecimento, ou Knowledge-Based Development. A economia de Zurique é impulsionada pela articulação estreita entre o setor produtivo, o poder público e instituições de ensino de excelência, com destaque para a ETH Zürich, uma das universidades técnicas mais respeitadas do mundo. O modelo segue a lógica da Hélice Tríplice — universidade, governo e empresa — e garante que a pesquisa científica produzida na cidade não fique confinada a laboratórios, mas seja aplicada diretamente na melhoria dos serviços públicos. É esse fechamento de ciclo, entre quem produz conhecimento e quem o transforma em política pública, que distingue um polo universitário de um verdadeiro motor de desenvolvimento territorial.
Esses princípios se tornam concretos, e visíveis no dia a dia de qualquer morador, no setor de mobilidade, onde Zurique é referência mundial em integração multimodal. A estratégia urbana prioriza o transporte coletivo de alta eficiência, incentiva deslocamentos ativos como caminhada e ciclismo, e utiliza monitoramento em tempo real para otimizar o fluxo de veículos e reduzir impactos ambientais. Não é uma política de transporte no sentido tradicional — é uma política de uso do tempo e do espaço urbano, em que cada modal é dimensionado para reduzir o atrito entre as pessoas e a cidade, em vez de simplesmente movê-las de um ponto a outro.
Toda essa engenharia urbana está ancorada em metas de sustentabilidade e eficiência de recursos monitoradas com rigor pouco comum: a cidade utiliza indicadores alinhados a normas internacionais como a ISO 37120 e a ISO 37122 para acompanhar a gestão hídrica, a eficiência energética e a resiliência climática. E, para garantir que esse esforço não se disperse em iniciativas pontuais, Zurique formalizou em abril de 2024 o documento Strategien Zürich 2040, que substituiu o plano anterior, de 2035, e define metas claras de longo prazo para a evolução da infraestrutura e da qualidade de vida urbana. É um detalhe que diz muito sobre a maturidade institucional da cidade: o plano estratégico tem prazo de validade e é revisado, não porque tenha falhado, mas porque o mundo ao seu redor mudou.
O que o chamado Modelo Zurique ensina, em última instância, é que ser uma cidade inteligente depende menos de acumular tecnologia e mais de construir capacidade institucional e governança orientada por evidências. Os dados urbanos só produzem resultado real quando estão associados a um planejamento territorial sólido e a um engajamento social genuíno — sem essa combinação, qualquer painel de indicadores é apenas vitrine. É uma lição igualmente válida para gestores públicos e para organizações privadas que confundem, com frequência, acumular ferramentas digitais com de fato transformar a maneira como decisões são tomadas: a inteligência, urbana ou institucional, não está na tecnologia que se possui, mas na confiança e na evidência que sustentam o seu uso.
Fontes consultadas: Stadt Zürich (Statistik Stadt Zürich; Strategien Zürich 2040); Kanton Zürich (Statistisches Amt); IMD World Competitiveness Center / IMD Smart City Index 2025; Cities Today; S-GE.
As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade da autora, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC.

Engenheira de Produção com experiência na condução de projetos estratégicos e na otimização de processos. Atualmente atua na Universidade de Caxias do Sul (UCS), com foco especial em iniciativas de Tecnologia da Informação (TI). Possui especializações em Planejamento Estratégico, Processos e Engenharia da Qualidade e Gestão de Projetos. É mestranda no Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Gestão de Cidades Sustentáveis da UCS.





