HomeEIXOS TEMÁTICOSUrbanismoCidade do futuro ou cidade à prova de futuro?

Cidade do futuro ou cidade à prova de futuro?

Caio Esteves
Caio Esteves
Fundador da N/Lugares Futuros. Especialista em place branding, placemaking e futuro das cidades. Autor, professor e keynote speaker, presente nas principais redes e institutos internacionais que discutem e promovem lugares e futuros.

Mais do que imaginar cidades do futuro, o desafio está em construir territórios capazes de se adaptar às incertezas sem perder sua identidade.

“Cidade do futuro” é provavelmente uma das expressões mais usadas e menos questionadas do urbanismo contemporâneo, pelo menos quando aparece em discursos e campanhas institucionais. Ela aparece em todos os lugares, de discurso de prefeito a relatório de organismo internacional, passando por nome de evento e slide de consultoria, e ninguém aparentemente acha estranho. O problema não está em falar de futuro, mas naquilo que a expressão costuma manter de fora: na maior parte dos discursos que ouvimos hoje, “cidade do futuro” funciona como promessa estética: ela diz “veja o que virá”, como se o futuro fosse um lugar já desenhado, esperando apenas a hora de chegar, mas o que ela quase nunca questiona, porque não a compreende, é se de fato estamos preparados para o que ainda não tem forma, para o que ninguém colocou no planejamento.

Trago essa questão em Lugares Futuros: a confusão entre prever e explorar. Quem trabalha com futuros seriamente, e não com aquele verniz marqueteiro chamado de futurewashing, sabe que a tarefa nunca foi adivinhar o que vem pela frente, adivinhação é coisa de oráculo, e oráculo, convenhamos, tem um histórico de acerto bastante questionável. A tarefa é outra, mais difícil e infinitamente menos vendável: construir a capacidade de atravessar o que vier sem perder a essência, porque projetar o presente para frente, esticá-lo por vinte ou trinta anos e revesti-lo de tecnologia digital não é pensar o futuro, é apenas maquiar o presente e torcer para que ele continue imutável.

O urbanismo já tentou construir “o” futuro

Houve um momento, entre 1920 e 1960, em que uma geração inteira de arquitetos  e urbanistas tiveram a convicção de estar projetando a cidade que viria, e antes mesmo da arquitetura despejar sua certeza em concreto, alguém já tinha descoberto como vendê-la. 

Mas seu impacto mais sensível provavelmente se deu através de sua manifestação no planejamento urbano. A Carta de Atenas, que Le Corbusier publicou em 1943 a partir das discussões do CIAM, repartia a cidade em funções estanques, morar, trabalhar, circular, recrear, como se um organismo vivo pudesse ser desmontado e remontado sem perda. Na prática, era um urbanismo hermético, desenhado como se fosse imune à rua, ao imprevisto, um sistema que já tinha todas as respostas antes de conhecer qualquer uma das perguntas do lugar, pressupunha-se a existência de uma verdade universal e, com ela, de um humano “tipo”.

Chandigarh, cujo plano Le Corbusier reformulou para a nova capital do Punjab, e Brasília, planejada por Lúcio Costa e marcada pela arquitetura monumental de Oscar Niemeyer, são talvez as duas materializações mais completas da ideia de cidade do futuro produzidas pelo século XX. Envelheceram como monumentos a uma visão de futuro que acreditava poder encerrar a própria história, não porque tenham permanecido modernas ou deixado de sê-lo, mas porque foram concebidas como respostas completas demais para um mundo que jamais permaneceria estável.

Brasília, a cidade que deveria ser a mais moderna do país, se esforçou para manter a informalidade fora do Plano Piloto, e a viu emergir nas cidades-satélites que brotaram na periferia quase antes do concreto secar, o trabalhador que construiu a utopia não foi convidado a morar dentro dela, talvez não fosse “tipo” o bastante.

É o mesmo achatamento de que falo, e o que essas cidades deixam evidente, é o risco de transformar a ambição de pensar longe em certeza, e a certeza em uma resposta completa demais para continuar válida quando o mundo muda. Elas não cumpriram a promessa de futuros completos justamente por isso: um lugar erguido sobre uma única certeza não tem para onde ir quando essa certeza passa ou a visão que a sustentava se esgota. Foram projetadas como se pudessem nascer prontas, e pronta é precisamente o que uma cidade não pode ser.

Coerência antes de tecnologia

Um dos principais problemas de muitas cidades hoje não é a falta de recursos, de tecnologia ou mesmo de vontade política, por mais estranha que essa afirmação possa parecer, mas a falta de coerência entre aquilo que um lugar é, aquilo que oferece como experiência no dia a dia e a direção para a qual diz estar seguindo.

Essa coerência tem um nome, e é o que atravessa tudo o que vou dizer daqui para frente: identidade. Não o slogan, mas a identidade entendida como direção estratégica, aquilo que um lugar é ao invés de decidir fingir ser. Esse é o ponto em que costumo perder parte da plateia técnica nas palestras, porque soa impreciso diante de tantos sensores e dashboards, mas vou insistir nele: a identidade é provavelmente uma das infraestruturas mais críticas que uma cidade tem, e a mais negligenciada, considero-a parte do que chamo “infraestrutura invisível”, não por ser subterrânea, mas por ser intangível.

Ela se deixa ver na coerência entre o que a cidade diz de si e o que se vive na rua, nos tipos de investimento que se repetem ao longo dos anos e na forma como crises são narradas e enfrentadas. E ela não se compra pronta, não desembarca de uma missão técnica a Cingapura ou Medellín, não está à venda em estande de feira, ela se constrói camada por camada, ao longo de anos de decisões, num trabalho lento e pouco fotogênico.

Quando a tecnologia é a resposta antes da pergunta

Quando um lugar pula a pergunta primordial: quem sou eu? alguma coisa corre para ocupar o vazio, e, atualmente, quase sempre é a tecnologia. Não são raras as cidades que investiram pesado em centros de operações integradas e sistemas de monitoramento invejáveis, e que continuam, apesar de tudo isso, tomando cada decisão importante pelo horizonte do próximo mandato. A tecnologia está lá, a inteligência estratégica, que seria a parte que realmente importa, ainda não chegou.

Não tenho nada contra as ferramentas, que fique claro, o que me incomoda é a ordem das coisas. Quando a tecnologia chega antes da identidade, ela tende a virar solução à procura de um problema que justifique sua compra. E a pergunta que de fato importa não é qual plataforma adquirir, mas para quais futuros estamos nos preparando, e quem decidiu isso, com quem, e principalmente para quem.

Aprender com o choque, mas em qual direção

Em Cidade Antifrágil tentei marcar uma distinção que ainda não chegou à grande parte das agendas de smart cities: existe uma diferença entre resistir a um choque e aprender com ele. Quem resiste, leva a pancada e se reconstrói exatamente como era, com as mesmas fragilidades intactas, esperando a próxima. Quem aprende, metaboliza o choque e volta com mais camadas, mais sensibilidade, mais capacidade de acolher o próximo imprevisto sem se desfigurar. É a diferença entre a Fênix, que renasce idêntica, e a Hidra, que volta com mais cabeças do que tinha.

Antifragilidade, conceito cunhado por Nassim Taleb, também depende de opcionalidade: da existência de alternativas, experimentos e caminhos diferentes que permitam ampliar os ganhos possíveis sem expor todo o sistema ao mesmo risco. Na escala urbana, isso significa não depender de uma única atividade econômica, de uma única infraestrutura, de uma única resposta ou de uma única ideia de futuro.

Uma cidade pode aprender rápido, mudar rápido, se adaptar a cada choque e ainda assim não ir a lugar nenhum, porque aprender pressupõe uma direção, e direção é o que a identidade sustenta. Sem identidade, o que a gente chama de antifragilidade corre o risco de ser só agilidade sem direção. 

Sem identidade não há foresight de cidades

Explorar futuros urbanos sem ancorá-los na identidade do lugar produz aquelas visões que poderiam pertencer a qualquer cidade e, por isso mesmo, não pertencem a nenhuma, não orientam decisão alguma. É o destino melancólico de muitos planos estratégicos municipais: documentos caprichados, com horizonte de vinte anos e slides coloridos, descrevendo um futuro tão intercambiável que daria para trocar o nome da cidade na capa sem que ninguém percebesse a diferença.

É justamente dessa compreensão que nasce a abordagem que desenvolvemos na consultoria, que chamamos de N/Urbanology©, e que integra Place Branding, Placemaking Estratégico e Place Strategic Foresight© como camadas interdependentes, não modulares. A identidade orienta quais futuros valem a pena explorar, os futuros explorados devolvem perguntas que tensionam e aprofundam a própria identidade, e o placemaking aterrissa tudo isso na experiência cotidiana, nos ritmos, nos usos, nas pessoas que habitam e dão vida ao lugar todos os dias.

Inteligente para quem e para quê?

Não sou contra smart cities, obviamente, até porque não conheço nenhuma dumb city, o que critico com algum ativismo é a versão da smart city que aparece como solução antes de ter entendido o problema. Sensores, inteligência artificial, por exemplo, podem ser extraordinariamente úteis, desde que respondam a uma direção estratégica e não tentem substituí-la. Uma praça bem cuidada e genuinamente viva diz mais sobre a inteligência de uma cidade do que um sistema de monitoramento que ninguém usa. 

O guia “Cidade à Prova de Futuros” que publicamos termina com algumas perguntas simples, e é justamente essa simplicidade que incomoda tanto. Depois da última crise relevante que o lugar atravessou, climática, econômica, política, o que mudou estruturalmente? Ele aprendeu ou só sobreviveu? A narrativa que o lugar conta sobre si é vivida nas ruas ou existe apenas em documentos e campanhas? O projeto que está na mesa considera o tempo de gestão ou também o tempo de quem vai herdar o que for construído?

Nenhum software responde a essas perguntas sozinho, não porque a tecnologia seja inimiga, ela não é, mas porque a inteligência que realmente orienta um lugar diante do imprevisível começa antes de qualquer plataforma, antes de qualquer painel, no instante em que a cidade para de fingir que sabe o que vai acontecer e reconhece quem ela é, com honestidade suficiente para construir a capacidade de atravessar o que vier sem se perder de si mesma.

A diferença é que algumas cidades encontrarão os futuros já em movimento, ainda se reconhecendo em meio a mudança, enquanto outras vão descobrir, tarde demais, que passaram anos se preparando para um futuro que nunca foi o delas.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

Artigos relacionados
- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img

Mais vistos

Caio Esteves
Caio Esteves
Fundador da N/Lugares Futuros. Especialista em place branding, placemaking e futuro das cidades. Autor, professor e keynote speaker, presente nas principais redes e institutos internacionais que discutem e promovem lugares e futuros.