HomeEIXOS TEMÁTICOSGovernançaPorque precisamos avançar de cidades inteligentes a cidades sábias

Porque precisamos avançar de cidades inteligentes a cidades sábias

Luiz Carlos Pinto
Luiz Carlos Pinto
Professor Titular – UFRGS PhD Univ. Leeds Coordenador do PACTO ALEGRE Secretário de Inovação da Cidade de Porto Alegre Vice-presidente do Fórum INOVACIDADES da Frente Nacional de Prefeitos (FNP) Coordenador do Fórum de Gestores de Inovação da GRANPAL Membro do Conselho Superior da FAPERGS Membro do Conselho de Inovação e Tecnologia da Federação de Indústrias do Rio Grande do Sul (CITEC/FIERGS) Membro do Conselho Científico do Plano Rio Grande Membro da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) da CNI Membro do Conselho do Parque Tecnológico de São José dos Campos Membro do Conselho do Parque Científico ZENIT da UFRGS Gestor da ESCOLA DE INOVAÇÃO DE PORTO ALEGRE

Tornar-se inteligente é um caminho, e não um destino — e o próximo passo pede mais do que tecnologia e capacidade de decisão: pede propósito

Fiquei muito feliz e honrado com o convite para me juntar ao grupo de colunistas do Connected Smart Cities, pois tenho grande apreço pelo tema de como melhorar nossas cidades e vivo hoje a alegria de contribuir com a Rede de Cidades + Inteligentes, estruturada pelo Ministério das Cidades (MCid) em parceria com universidades lideradas pela UFRGS e 22 municípios de todo o país.

Antes de mergulhar nessa jornada, em que espero poder trocar ideias e falar de várias agendas urbanas emergentes, queria nessa primeira coluna compartilhar algumas impressões pessoais sobre um tema tão debatido — e tão ligado à própria história do CSC: Cidades Inteligentes.

Começo por uma convicção: a inteligência urbana é mais um caminho do que um estado. O desafio permanente para nossas cidades é entender onde estamos e se esforçar para evoluir, como uma missão permanente. Não à toa, a rede que construímos com o ministério fala em cidades mais inteligentes. 

Outro aspecto é que cheguei a sugerir o uso do termo “cidades sábias”, pois não basta inteligência, é preciso propósito. Essa é uma convicção que firmei ao longo dos anos de trabalho e que queria trazer aqui: para mim existem três níveis de evolução fundamentais na rota das cidades que empregam tecnologia para tentar melhorar.

O primeiro é o das CIDADES CONECTADAS, que usam sensores e outras estratégias de monitoramento para coletar dados em larga escala e em tempo real sobre o funcionamento dos seus sistemas urbanos. É o estágio inicial, muitas vezes impulsionado por fornecedores ou pelo fascínio de acompanhar os ritmos da cidade. Gosto de compará-lo aos sentidos humanos: para a cidade essa camada sensorial agrega a capacidade de perceber a realidade, assim como os sentidos humanos nos permitem interpretar o mundo ao redor.

O segundo nível de maturidade é o que justifica os investimentos do primeiro. Trata-se do que fazer com a montanha de dados captada. Seu melhor uso é para informar e modelar políticas e iniciativas públicas — ou seja, CIDADES INTELIGENTES são fundamentalmente aquelas capazes de tomar decisões baseadas em evidências. Na analogia humana, são cidades que ganham um cérebro, capaz de processar os sinais dos sentidos e agir. Muitos projetos falham exatamente aqui: geram dados que não informam nem melhoram a capacidade pública de decidir. E que muitas vezes acabam em fracasso, pois coletar dados sem estratégia gera custo sem retorno para o cidadão.

Mas não basta ser inteligente. Cada decisão gera impactos diversos — positivos em um aspecto, negativos em outro. Cada investimento, num cenário de recursos escassos, estabelece uma prioridade e carrega um custo de oportunidade. É preciso decidir considerando o que queremos valorizar e quais valores devem nortear a gestão. Na nossa metáfora, é preciso ter coração. A inteligência pura pode servir a fins que não são nobres nem justificáveis.

Por isso defendo a necessidade de avançar para um terceiro nível: o das CIDADES SÁBIAS. Aquelas que decidem com base em dados — processados com a melhor tecnologia disponível —, mas que se orientam por uma visão de desenvolvimento socioeconômico sustentável que coloca as pessoas no centro — buscando redução de desigualdades e seguindo um conjunto de valores claros que ajude a gerar cidades melhores de se viver, que não repitam muitos dos erros que retiraram qualidade urbana de tantas cidades ao longo do século XX.

Esse é um caminho necessário e cada vez mais possível. A inteligência artificial e as novas tecnologias de monitoramento urbano, com a qualificação dos gestores e o compartilhamento de conhecimento e valores, precisamos estimular que os municípios brasileiros avancem em inteligência — e, sobretudo, no caminho da sabedoria urbana. Afinal, a pergunta que importa não é quão inteligente uma cidade consegue ser, mas a serviço de que valores essa inteligência funciona.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

Artigos relacionados
- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img
- Advertisment -spot_img

Mais vistos

Luiz Carlos Pinto
Luiz Carlos Pinto
Professor Titular – UFRGS PhD Univ. Leeds Coordenador do PACTO ALEGRE Secretário de Inovação da Cidade de Porto Alegre Vice-presidente do Fórum INOVACIDADES da Frente Nacional de Prefeitos (FNP) Coordenador do Fórum de Gestores de Inovação da GRANPAL Membro do Conselho Superior da FAPERGS Membro do Conselho de Inovação e Tecnologia da Federação de Indústrias do Rio Grande do Sul (CITEC/FIERGS) Membro do Conselho Científico do Plano Rio Grande Membro da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) da CNI Membro do Conselho do Parque Tecnológico de São José dos Campos Membro do Conselho do Parque Científico ZENIT da UFRGS Gestor da ESCOLA DE INOVAÇÃO DE PORTO ALEGRE