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Discord: quando o território digital se transforma em território de risco

Karina Florido
Karina Florido
possui 30 anos de experiência na gestão pública, é socióloga, administradora, especialista em Direito Penal e tem MBA em Gestão, Inteligência em Segurança Pública. Trabalhou na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, foi Diretora Executiva da Câmara Municipal de São Paulo, Diretora Administrativa e Coordenadora de Esporte e Lazer da Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude do Estado de São Paulo, foi assessora técnica da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, Secretária de Desenvolvimento Econômico de Santo Antônio de Posse/SP, Secretária de Gestão de projetos e Programas, Inovação, Tecnologia e mobilidade Urbana de Louveira/SP, entre outros. Coordenou o Programa de Cidades Inteligentes do município de Jaguariúna, no Estado de São Paulo e com esse projeto a cidade já foi premiada por seis anos consecutivos no ranking da Connected Smart Cities/Urban Systems. Ao longo de sua carreira trabalhou tanto no Poder Executivo como no Legislativo. Ocupou diversos cargos e hoje se dedica a gestão das Smart Cities, acredita que uma cidade inteligente é aquela que utiliza a tecnologia em favor da eficiência no atendimento aos cidadãos. É autora de diversos projetos de Lei regulamentando a tecnologia 5G. Atualmente é Secretaria de Inovação e Tecnologia de Bragança Paulista.

Durante muito tempo, quando falávamos sobre segurança de crianças e adolescentes, pensávamos nos riscos existentes nas ruas, escolas, festas e outros espaços físicos. Hoje, essa preocupação precisa chegar também ao ambiente digital. Uma criança pode estar dentro de casa, no próprio quarto, usando um headset e aparentemente apenas jogando com amigos. Mas isso não significa que esteja sozinha ou segura.

É nesse sentido que precisamos falar sobre o Discord. Criado inicialmente para facilitar a comunicação entre jogadores, o aplicativo tornou-se uma enorme rede de comunidades virtuais. Pense nele como um lugar que abriga milhares de comunidades diferentes. O usuário entra em “servidores” de acordo com seus interesses e, dentro deles, pode conversar por texto, participar de canais de voz, compartilhar arquivos e estabelecer contatos privados.

Existem servidores sobre jogos, música, tecnologia, estudos e inúmeros outros assuntos perfeitamente legítimos. O problema é que essa mesma arquitetura também vem sendo utilizada por grupos criminosos para se aproximar de crianças e adolescentes, disseminar violência, incentivar comportamentos extremos e criar comunidades nas quais práticas criminosas passam a ser tratadas como entretenimento.

Em 2026, investigações realizadas no Brasil revelaram situações envolvendo automutilação, violência contra animais, abuso sexual, ameaças e manipulação psicológica de adolescentes em comunidades digitais. A chamada Operação Lívia, conduzida com participação do Ministério da Justiça e Segurança Pública e das polícias civis, ganhou repercussão após a morte de uma adolescente de 13 anos e revelou a dimensão que esse tipo de organização pode alcançar.

O caso provocou uma mudança importante na discussão. Em agosto, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) instaurou processo de fiscalização contra o Discord para apurar possíveis falhas na proteção de crianças e adolescentes e no cumprimento do ECA Digital. Posteriormente, determinou preventivamente a suspensão das transmissões ao vivo e de funcionalidades equivalentes de vídeo no Brasil.

A decisão trouxe para o centro do debate uma questão fundamental: até onde vai a responsabilidade de uma plataforma pela arquitetura tecnológica que ela própria desenvolveu?

Não estamos falando de videogame

É comum ouvir de alguns responsáveis que jogos violentos sempre existiram. Muitos dizem que jogavam GTA, por exemplo, e que isso nunca os levou à violência. Mas não estamos falando da mesma coisa. Uma coisa é a violência fictícia existente dentro de um videogame. Outra, completamente diferente, é assistir a uma violência real sendo praticada contra uma pessoa ou um animal, incentivar sua continuidade ou pertencer a um grupo no qual a crueldade se transforma em demonstração de poder e instrumento de aceitação.

Investigações da Polícia Civil de São Paulo identificaram transmissões de tortura de animais em ambientes digitais, especialmente no Discord. Autoridades chegaram a relatar o acompanhamento de diversos episódios durante uma mesma madrugada. Em outros casos investigados no país, adolescentes foram induzidos à automutilação e submetidos a ameaças e coerção psicológica.

Quando alguém pratica uma violência e existe uma plateia acompanhando, comentando e incentivando, surge uma dinâmica ainda mais preocupante: a violência vira entretenimento e a audiência passa a fazer parte do mecanismo que a alimenta. Para um adolescente, cuja identidade, percepção de limites e necessidade de pertencimento ainda estão em formação, entrar em uma comunidade assim pode produzir consequências muito sérias.

É importante compreender como acontece o aliciamento digital. O criminoso não chega dizendo que é criminoso. Ele pode se apresentar como alguém da mesma idade, gostar dos mesmos jogos, conhecer os mesmos memes e passar horas conversando. A aproximação começa pela identificação e pela confiança. Depois podem surgir pedidos para manter conversas em segredo, migrar para canais privados, compartilhar fotografias, vídeos ou informações pessoais. Em situações mais graves aparecem chantagens, ameaças, violência sexual, automutilação ou exigências cada vez mais extremas. É justamente por isso que os pais precisam compreender que conhecer apenas o aplicativo utilizado pelo filho não é suficiente. É necessário saber quais ambientes ele frequenta dentro daquele aplicativo e com quem se relaciona.

Tecnicamente, o Discord apresenta um desafio diferente das redes sociais tradicionais. Não existe apenas uma linha do tempo pública que possa ser moderada. A comunicação está distribuída entre milhares de servidores, canais, grupos, mensagens privadas e conversas por voz. Uma mesma pessoa pode participar simultaneamente de diversos servidores e migrar rapidamente de uma conversa pública para um ambiente privado. Criminosos podem utilizar contas diferentes, códigos, gírias e estratégias para evitar filtros automáticos. 

Identificar aliciamento é muito mais complexo do que localizar uma palavra proibida. Uma conversa aparentemente normal pode fazer parte de um processo de manipulação construído durante semanas. O risco está muitas vezes no contexto e na sequência do comportamento, e não em uma única mensagem.

Há ainda a questão das comunicações por áudio e vídeo. O Discord implementou criptografia de ponta a ponta para essas modalidades, o que aumenta a proteção da privacidade, mas também cria desafios para mecanismos de detecção automatizada. A própria ANPD apontou limitações relacionadas à capacidade de análise das transmissões enquanto aconteciam ao determinar a suspensão preventiva desses recursos no Brasil.

Esse é um dos grandes dilemas atuais da tecnologia: como preservar a privacidade sem transformar a arquitetura da plataforma em uma zona de invisibilidade para práticas criminosas? Privacidade é um direito. Proteção de crianças também. uma coisa não pode eliminar a outra.

Com o ECA Digital, instituído pela Lei nº 15.211/2025, o Brasil passou a estabelecer obrigações específicas para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Isso significa que já não basta uma plataforma afirmar que possui regras proibindo determinado comportamento. Precisamos perguntar se existem mecanismos tecnicamente eficazes de prevenção, detecção, interrupção e resposta, compatíveis com o risco das funcionalidades oferecidas. Um botão de denúncia não pode ser a única barreira entre uma criança e um criminoso.

Se uma empresa oferece servidores privados, mensagens, voz, vídeo ou qualquer outro mecanismo de interação, precisa avaliar previamente como esses recursos poderão ser utilizados de forma abusiva e desenvolver salvaguardas proporcionais ao risco. A arquitetura tecnológica não pode servir como justificativa para o descumprimento da legislação. Adequação legal não é opcional. Essa mudança é importante porque, pela primeira vez, a discussão começa a ultrapassar a pergunta tradicional: “Onde estavam os pais?”

Também precisamos perguntar: quais mecanismos de proteção a plataforma oferecia? O risco era conhecido? Poderia ter sido reduzido? A empresa agiu quando identificou o problema?

Responsabilizar as plataformas não significa retirar a responsabilidade das famílias. Talvez uma das frases mais perigosas atualmente seja: “Meu filho está no quarto, então está seguro.” Estar dentro de casa não significa estar sozinho. Um adolescente pode estar no quarto e, ao mesmo tempo, conversar com dezenas de desconhecidos. Pode participar de servidores que os pais desconhecem, receber mensagens de adultos, sofrer pressão de grupos ou assistir a conteúdos extremamente violentos. Por isso, os pais precisam conhecer os lugares que os filhos frequentam online.

Assim como perguntam onde o filho vai quando sai de casa, precisam perguntar: Em quais servidores você está? Quem são essas pessoas? Você as conhece pessoalmente? Alguém já pediu para esconder uma conversa? Já pediram fotos ou vídeos? Alguma coisa que você viu deixou você com medo? Também é necessário estabelecer limites de horário. Diversas investigações sobre grupos violentos identificaram atividades durante a madrugada, justamente quando a supervisão familiar é menor.

A pergunta é desconfortável, mas necessária: Se todos estão dormindo, quem está protegendo seu filho enquanto ele está online?

A melhor proteção não será apenas tecnológica. O adolescente precisa confiar que poderá contar aos pais uma situação de ameaça ou chantagem sem que a primeira reação seja puni-lo. Quando contar o problema significa automaticamente perder o celular ou o computador, existe o risco de que ele escolha esconder o que está acontecendo. E o silêncio favorece o agressor.

Essa discussão também precisa chegar aos municípios. Quando falamos em cidades inteligentes, pensamos em conectividade, inteligência artificial, sensores, mobilidade, dados e digitalização de serviços. Mas uma cidade verdadeiramente inteligente precisa também saber proteger seus cidadãos no ambiente digital. Uma criança aliciada pela internet está dentro de uma família do município. Um adolescente vítima de cyberbullying está dentro de uma escola. Um crime planejado em um servidor pode terminar em uma rua da cidade.

A segurança digital precisa, portanto, fazer parte das políticas de educação, proteção da infância e segurança pública. Escolas, Conselhos Tutelares, forças de segurança, gestores públicos e famílias precisam compreender as novas formas de violência e aliciamento. 

Não se trata de demonizar o Discord, nem de defender que adolescentes sejam simplesmente proibidos de utilizá-lo. A plataforma abriga inúmeras comunidades legítimas e positivas. Trata-se de reconhecer que o mundo digital também possui territórios seguros e territórios de risco. Pais não precisam dominar tecnologia, mas precisam conhecer os ambientes frequentados pelos filhos. Plataformas precisam desenvolver mecanismos de proteção proporcionais aos serviços que oferecem. E o poder público precisa compreender que a segurança da população já não termina no espaço físico da cidade. O criminoso não precisa mais entrar pela porta de casa. Pode entrar por uma tela, por um convite para um servidor ou por uma conversa aparentemente inocente.

Por isso, talvez a pergunta mais importante que os pais possam fazer hoje não seja apenas “o que meu filho está fazendo na internet?” Precisamos começar a perguntar: “Onde meu filho está na internet — e quem está lá com ele?”

Sua omissão pode custar uma vida!

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