Home Blog Página 22

Da pólis grega à transformação das metrópoles: uma reflexão sobre o processo de urbanização

0
Da pólis grega à transformação das metrópoles: uma reflexão sobre o processo de urbanização
Foto: Edilson Dantas/Agência O GLOBO

Em “Uma História da Urbanização em Perspectiva Global”, Beatriz Piccolotto Bueno conduz o leitor a buscar no passado as causas dos complexos desafios geopolíticos ambientais e sociais do tempo presente

Nas nossas cidades, o que há de comum entre o trânsito caótico, a poluição que cobre os céus e contamina o ar, a violência que ceifa vidas nos becos e vielas das periferias e as ruas, avenidas e bairros arborizados das classes mais favorecidas da população; ou entre o lixo que se espalha entupindo bueiros e provocando inundações periódicas em tempos chuvosos e o processo de favelização, nunca tão visível como nos tempos atuais? A resposta está na urbanização, na concentração de um grande número de pessoas que trocaram as zonas rurais pelas urbanas, apesar de o espaço rural, no tocante à área territorial, ser bem mais amplo do que o espaço urbano.

Em meados da década de 1800, a população mundial era, em sua grande maioria, rural, apenas cerca de 3% vivia em áreas urbanas. De lá para cá, no entanto, o mundo sofreu grandes transformações. Atualmente, dados da Organização das Nações Unidas (ONU) informam que cerca de 54% da população mundial vive na zona urbana, mas as projeções da entidade dão conta de que tal porcentagem aumente em 2050, saltando para 66%, o que corresponde a quase 2,5 milhões de pessoas deslocando-se para essas áreas. No Brasil, o panorama não foi nem um pouco diferente.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou-se um grande aumento da população brasileira entre os anos de 1940 e 2010: o número de brasileiros passou de 70,2 milhões para 209,3 milhões, com a população urbana subindo de 44% para os atuais 85%, um processo que se acelerou sobretudo nos anos 1950, impulsionado pelo grande êxodo rural e pela industrialização, a qual foi decisiva para essa migração do campo para a cidade. O governo de Juscelino Kubitschek, ao atrair indústrias multinacionais, estimulou a formação do mercado interno, ao mesmo tempo em que a modernização do campo em algumas regiões, como a Sudeste, expulsou os trabalhadores rurais, que passaram a se dirigir aos centros urbanos em busca de empregos, uma vez  que muitas das tarefas que faziam no campo foram para a responsabilidade das máquinas. Esse processo também se deve muito à construção de Brasília, que mudou o mapa urbano e atraiu milhares de nordestinos para o interior do País. Com isso, de agrário, o Brasil passou a ser urbano, com todas as consequências que essa condição implica, para o bem e para o mal.

De modo geral, os urbanistas chamam a atenção para o fato de que, no Brasil, o crescimento urbano não foi acompanhado no mesmo ritmo por infraestruturas e serviços capazes de atender a esse contingente. Some-se a isso um outro fator: o desenvolvimento nem sempre priorizou o que deveria ser o foco do planejamento urbano, quer seja, o uso e a ocupação do território urbano de forma eficiente e sustentável. Uma das consequências desse processo é a chamada favelização. Aproximadamente 900 milhões de pessoas que foram para as cidades vivem hoje em favelas no mundo todo, inseridas num cenário de miséria, fome e problemas de saúde.

Cidades: locais de confluência de saberes e fazeres

Em seu livro Uma História da Urbanização em Perspectiva Global (Edusp), Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, rastreia a evolução da urbanização das cidades em 6 mil anos de história, da pólis grega às metrópoles do século 19, sem esquecer o papel do Brasil e sua inserção nesse processo. A obra, como a autora observa no prefácio, destina-se aos interessados em história global e cultura material, na perspectiva da história conectada, mas sobretudo aos interessados em história da urbanização.

Combina análises de cultura material, história global e assimetrias historiográficas, construindo uma narrativa que entrelaça diferentes tempos e espaços, encarando a urbanização como fenômeno global e não apenas europeu. Logo na introdução, ela escreve que “o século 21 promete ser o século das cidades e pesquisas indicam que o clube das megalópoles cada vez mais é terceiro-mundista”. Beatriz afirma ainda que altos índices demográficos não são sinônimo de progresso, muito pelo contrário.

Coerente com a proposta de levar o leitor a refletir sobre as raízes das desigualdades urbanas e os desafios geopolíticos ambientais e sociais que se apresentam hoje, a autora começa por definir o que é cidade, para isso valendo-se da citação de diversos estudiosos que se debruçaram sobre a mesma questão, como o historiador francês Fernand Braudel, que considerava as cidades como os motores da história e do capitalismo, e o arqueólogo australiano Gordon Childe, pioneiro no estudo da urbanização, a quem é creditada a criação do termo Revolução Urbana, que define a grande transformação de aldeias agrícolas, baseadas em parentesco, para sociedades urbanas complexas marcadas pelo surgimento do Estado, estratificação social e excedentes de produção.

“A teoria de Gordon Childe tem sido confrontada há muitos anos à luz de novas descobertas arqueológicas”, escreve Beatriz, contextualizando sua informação a partir da citação de estudiosos de ontem e de hoje, que contestaram as premissas do arqueólogo australiano. “A desigualdade não é um fado, assim como as estruturas de poder centralizadas e hierarquizadas. Estamos diante de um cenário muito mais rico no qual a cidade poderia ser o locus da concentração intelectual, da confluência de saberes e fazeres, da revolução científica e das artes no sentido da emancipação e não da escravidão em que nos metemos quando decidimos criar animais e plantas.”

Gerado a partir da experiência pedagógica da autora no campo disciplinar da história e urbanização e do urbanismo, no curso de graduação e pós-graduação na FAU/USP, o livro é dividido em duas partes. A primeira delas se inicia justamente com a definição de cidade, conforme abordado acima. Em A Invenção da Política e dos Espaços Públicos, retorna à antiguidade helênica para traçar os princípios do conceito de urbanização e, diretamente ligado a este, do surgimento da democracia, uma vez que parte do princípio de que “a invenção da democracia foi acompanhada pela invenção de certos espaços para exercício da política e da cidadania”. Em Mundialização: Urbanização em Rede, ela trata da problemática da helenização e da romanização nos termos da história da urbanização, recorrendo aos estudos de Nestor Goulart Reis Filho, pioneiro na fundação do campo disciplinar da História da Urbanização e do Urbanismo no Brasil. Essa primeira parte do livro se encerra com o título Por Uma Revisão dos Conceitos de Idade Média e Renascimento, no qual Beatriz se volta para o Oriente, o Oriente Médio e suas interfaces com a Europa medieval.

Sob o título A Mobilização Ibérica como Laboratório do Mundo tem início a segunda parte da obra. Uma das hipóteses aqui levantadas é a de que a mobilização ibérica foi a primeira experiência de globalização cultural, “envolvendo de fato as quatro partes do mundo e, como tal, laboratório de encontros, trocas e hibridismos em escala planetária”. Já o capítulo seguinte traz o Brasil como foco principal. Em Por Uma Arqueologia da Paisagem Cultural “Brasileira” Plural, Beatriz escreve, logo no início: “A historiografia sobre o processo de urbanização no Brasil e no período colonial pautou-se, em geral, pelo estudo das vilas e das cidades em detrimento dos demais núcleos de povoamento que pontuavam territórios, cumprindo diferentes papéis. Lugares, arraiais, capelas, freguesias, julgados, bairros rurais, aldeias indígenas, aldeamentos missioneiros, pousos, registros, passagens, barreiras, fazendas, sítios, currais e fortalezas ficaram obscurecidos em meio à rarefeita rede de vilas e cidades”.

Finalmente, fecha o livro um epílogo – O Longo Século XIX à Luz da História Global -, escrito sob a inspiração do fotógrafo Stepan Norair Chahinian e do historiador e marxista britânico Eric Hobsbawm, autor de A Era das Revoluções, A Era do Capital e A Era dos Impérios. O texto trata basicamente de cidades do século 19, que “parecem todas iguais e esse ideal foi perseguido e objeto de grandes negócios disfarçados de afirmação identitária. Mas se as cidades se tornaram estereotipadas segundo padrões ocidentais, não o eram até então. As cidades pré-industriais tinham profundas marcas vernaculares e acentos regionais, híbridos e plurais pari passu aos encontros e trocas culturais que mobilizaram”. Beatriz conclui: “A despeito de diferenças políticas, religiosas e culturais, o mundo é mais misturado do que parece à primeira vista; eis a mensagem aqui implícita”.

Um acréscimo que não pode deixar de ser mencionado é a seção Iconografia e Cartografia, que traz um rico acervo visual: mapas, pinturas,  gravuras e objetos da cultura visuais escolhidos, segundo ela, “por sua capacidade de representar a geopolítica global em tempos recuados”. Adiante, escreve: “Cada mapa, pintura, gravura, objeto da cultura material deriva de processos que envolvem indivíduos, técnicas e instrumentos, códigos e convenções de representação, trazendo ali amalgamados vários textos. É justamente essa intertextualidade que deve ser descoberta no processo interpretativo […] Esses documentos visuais nos remetem também a instituições e processos de formação e difusão do conhecimento”. As figuras aqui retratadas, além de devidamente identificadas, foram contextualizadas pela autora e mereceram, cada qual, um tratamento individualizado, segundo a época em que foram produzidas. Todas representam visões da época, recortes que remetem às várias facetas de um mundo urbanizado e foram selecionadas por sua capacidade de representar a geopolítica global em tempos antigos.

Fonte: Jornal da USP | Paulo Capuzzo

Canadá tenta resgatar moradores de comunidade remota em meio a incêndios

0
Fumaça de incêndios no Canadá encobre nordeste dos EUA enquanto Europa registra mais de 12 mil mortes em meio a onda de calor
Foto: Reprodução/ Reuters

Forças Armadas se preparam para fazer resgate aéreo de cerca de 600 pessoas em Fort Hope, Ontário

As Forças Armadas do Canadá se preparavam, neste sábado (18), para resgatar moradores de uma comunidade remota de 600 pessoas ameaçada por incêndios florestais. As chamas também espalharam fumaça por uma ampla área dos Estados Unidos.

A ministra federal de Emergências, Eleanor Olszewski, afirmou na noite de sexta-feira (17) que as Forças Armadas utilizarão aeronaves para retirar os moradores de Fort Hope, no noroeste de Ontário, um região pouco povoada, onde estão ocorrendo alguns dos incêndios mais intensos.

A região possui poucas estradas e depende fortemente do transporte aéreo. Milhares de pessoas já foram retiradas das áreas afetadas para cidades mais ao sul em Ontário.

Grandes incêndios florestais se tornaram um fenômeno anual recorrente no Canadá, que abriga algumas das maiores áreas florestais do mundo. Especialistas em clima afirmam que o aumento das temperaturas levou à secura da madeira e ao aumento do risco de incêndios.

Ética em pesquisa e IA generativa: por uma abordagem crítica e soberana

0
As preocupações que levaram a OpenAI, do ChatGPT, a abandonar lançamento de novo sistema de IA
Foto: Qilai Shen/Bloomberg

Impulsionada em escala global por grandes corporações estrangeiras, a vertiginosa generalização do emprego de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAGen) no cotidiano acadêmico traz importantes desafios éticos, em particular para a ética em pesquisa.

Antes de abordar alguns deles, lembro que atualmente “80% das universidades brasileiras dependem de Google ou Microsoft”, como indica o Caderno Vozes da Ciência, recentemente publicado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC). Resultante de um ciclo de debates do qual tive a honra de participar, este valioso documento formula 117 propostas para “o Brasil que queremos”, entre elas as que buscam assegurar a soberania digital e tecnológica brasileira.

O primeiro desafio que enfrentamos é resgatar a história da ciência. A atribuição às máquinas de tarefas outrora exclusivamente humanas inscreve-se em um longo debate sobre as relações entre ética, técnica e produção científica. Numerosos autores demonstraram como as tecnologias, impulsionadas por imperativos econômicos, avançaram de forma alheia, senão antagônica, à reflexão e ao pensamento crítico, deixando a ética isolada em algum rincão das ciências ditas sociais e humanas. Podemos escolher os anos 1970 para resgatar Hans Jonas, filósofo alemão que em diversas obras apontou a responsabilidade dos cientistas pelos efeitos devastadores do “progresso”, e o quanto a “novidade” (“o epíteto laudatório novo”) pode funcionar como salvo-conduto para agir sem precaução nem dever de prestar contas. Porém, muito antes de Jonas e outros tantos pensadores ocidentais, os povos originários já nos alertavam para a possível confusão entre avanço tecnológico e progresso humano; a repartição brutalmente assimétrica dos benefícios e danos oriundos da técnica; e o modo pelo qual, nas palavras de Ailton Krenak, estamos vendendo o amanhã – aliás, a um preço módico.

O segundo desafio é reconhecer que a IA não avança em ambiente “neutro”. A extração de grandes volumes de dados sem prévio consentimento esclarecido e sem contrapartida à altura; a presença de vieses em ferramentas aparentemente anódinas; e a subtração a modalidades de controle legal e social, do ponto de vista das big techs, constituem funcionalidades dessas tecnologias, e não disfunções. Todos sabemos que tais atributos servem não apenas aos vultosos lucros que envolvem a chamada “economia de dados”, mas também aos ecossistemas de desinformação dotados de financiamento bilionário e objetivos político-ideológicos ostensivos, que vêm desempenhando papel importante na crescente ascensão global das extremas direitas. Exceto pela escala e pela velocidade, tampouco estamos diante de uma novidade. O mesmo homem pode aceitar boquiaberto os mais fantasiosos relatos e rejeitar com desprezo as verdades mais solidamente estabelecidas, escreveu Marc Bloch em suas Reflexões de um historiador sobre as notícias falsas da guerra (1921). Soldado durante a Primeira Guerra e fuzilado pela Gestapo durante a Segunda, Bloch foi recentemente homenageado com a entrada simbólica no Panteão francês. Fascinado pela credulidade humana, concluiu que o sucesso de uma notícia falsa nasce de representações coletivas pré-existentes, como medos, ódios e preconceitos. Assim, o processo pelo qual mentiras deslavadas tornam-se grandes lendas não se explica pela ignorância, e sim pela existência de um ambiente favorável a elas. Lamento constatar que hoje, em matéria de plágio, fabricação ou falsificação de dados, considerados as más práticas científicas mais graves, enfrentamos um verdadeiro boom de empreendedorismo.

Isto nos leva a um terceiro desafio: discernir o modus operandi das big techs e de seus aliados, que compreende tanto a coerção como a propaganda. Começando pela imposição, muitos motores de busca, softwares e aplicativos que utilizamos cotidianamente não oferecem a opção de recusa à IA. Sendo condição de acesso aos conteúdos que de fato buscamos, ignorá-la exige um gesto contraintuitivo. Mesmo quando a desativação é possível, nem sempre temos o letramento necessário para fazê-la. Por outro lado, ao lidar com outros serviços públicos ou privados que impõem diferentes modalidades de IA, não raro sofremos um atendimento ansiogênico, redutor das demandas do cidadão ou consumidor a alternativas enviesadas, por vezes tornando impossível uma efetiva interação. Ademais, a persistente exclusão digital de diversos grupos é demonstrada em inúmeras pesquisas.

Sobre a propaganda, limito-me a abordar quatro de suas muitas dimensões. A primeira é o determinismo que apregoa a inexorabilidade da disseminação da IAGen: estaríamos diante de uma ruptura antropológica maior, de caráter irreversível. Todavia, colegas como Anne Alombert, filósofa e professora da Universidade de Paris 8, questionam a natureza desta ruptura, eis que a IA dá continuidade à externalização de funções humanas. Enquanto por meio dos algoritmos de recomendação externalizamos nossa capacidade de decidir o que ver, o que consumir, quem seguir etc., por meio da IAGen transferimos a sistemas probabilísticos a nossa capacidade de expressão. Modelos se expressam em nosso lugar por meio de categorias que não provêm de nossas trajetórias, sempre únicas, mas sim de cálculos sobre volumes de dados, orientados por critérios opacos e de rastreabilidade limitada ou inexistente. No artigo Curar a estupidez artificial, Alombert aponta os efeitos nefastos da generalização do uso subalterno da IAGen, entre eles a dependência cognitiva dos indivíduos: quanto menos exercemos a capacidade de triar e organizar as informações, a memória, a criatividade ou a busca de sentido, menos estamos treinados para pensar de forma autônoma. Além disso, o espaço simbólico é uniformizado pela “média”, paulatinamente eliminando singularidades, inclusive idiomáticas. Ao “fotocopiar indefinidamente a fotocópia”, favorece a esterilização cultural.

Na mesma direção, a cientista política de origem tunisiana Asma Mhalla, professora da Politécnica de Paris, autora do livro Cyberpunk: o novo sistema totalitário, se diz impressionada não com a suposta ruptura, e sim com o rolo compressor imposto pelas infraestruturas digitais, concentradas em um punhado de atores poderosos. A propalada irreversibilidade está sendo imposta na prática, por meio de imponentes pressões econômicas e políticas. Logo, a questão não é a máquina, e sim quem a governa ou desgoverna. A tecnologia deveria ser usada como um instrumento do bem comum, e não como ferramenta de dominação e exploração. Especialmente no meio universitário, creio que o argumento da suposta inexorabilidade serve para nos desalojar de nossa condição de sujeitos responsáveis, elemento central da ética, e obnubilar nossa capacidade de agir. Ambas precisam ser recuperadas não para que recusemos a tecnologia, e sim para que decidamos conscientemente quando, como e com que finalidade a utilizaremos, sempre avaliando com transparência e rigor os efeitos de seu uso.

Uma segunda dimensão da propaganda é a desqualificação sistemática de quem questiona o uso da IA, apontado como anacrônico, vetusto, reacionário ou tecnofóbico, responsáveis pelo “atraso” de nosso mergulho no admirável mundo novo da IA. A desqualificação contrasta, porém, com a seriedade e a competência de colegas como os do MIT (Massachusetts Institute of Technology) que demonstram a queda de desempenho nos níveis neural, linguístico e comportamental de pessoas que utilizam o ChatGPT em certas condições. Também é o caso dos profissionais que vêm comprovando nosso grau de dependência das infraestruturas tecnológicas externas, como pesquisadores da USP e da Universidade de Brasília (UnB) que criaram um índice de soberania digital. Enquanto China, França, Rússia e Estados Unidos ocupam os primeiros lugares do ranking, grande parte de África, América Latina e Sudeste Asiático depende de um restrito clube de corporações estrangeiras, reproduzindo, sob o manto do “novo”, a velha clivagem Norte/Sul, levando a literatura acadêmica a falar de colonialismo de dados ou digital.

Uma terceira dimensão que atinge particularmente nossas agendas e métodos de pesquisa é a intensa propaganda sobre os benefícios da IAGen, que contribuiria para aumentar e acelerar a produtividade, em especial para lidar com grandes volumes de dados. Essas ferramentas se tornariam imprescindíveis para uma produção científica atualizada e de qualidade, e deveriam ser utilizadas também na avaliação da produção acadêmica. Aqui reconhecemos a disputa permanente pela definição do que é ciência e o legado colonial de importação de padrões de excelência.

Entre os incontáveis riscos da “excelência artificial”, sublinho que, no atual contexto de superficialidade e desatenção coletivas, decorrentes justamente do estágio de automação que alcançamos, é evidente a tolerância a sínteses incorretas ou enviesadas, a mediocridade e o reducionismo de textos, os erros crassos ou sutis de tradução, os mal-entendidos e as imprecisões técnicas. Quando apontados, rapidamente se opera a transferência de responsabilidades do sistema ao indivíduo: perguntas ou prompts é que teriam sido mal formulados; seria preciso “ensinar” ou “treinar” corretamente a IA; a falha seria da revisão etc. Diga-se de passagem, essas ferramentas, na verdade, não aprendem nem conversam, tampouco são inteligentes, razão pela qual Alombert prefere chamá-las de autômatos computacionais interativos, recusando metáforas antropomórficas que servem a naturalizá-las.

Neste ponto, urge recordar que o papel da universidade brasileira não é formar revisores de textos gerados por algoritmos, tampouco reproduzir de forma acrítica interesses de corporações estrangeiras ao facultar-lhes o acesso a lucrativos ou estratégicos acervos de dados arduamente construídos, inclusive com recursos públicos.

A quarta dimensão da propaganda alardeia que a regulação do uso da IAGen seria suficiente para evitar riscos e derivas. Ela enseja também um grande desafio, entre os tantos que o espaço de um artigo não permite abordar. Note-se que diversos defensores da suficiência regulatória são contratados por empresas de tecnologia ou conduzem pesquisas financiadas por elas, mas nem sempre declaram conflitos de interesse. Também é importante registrar que, apesar desta propaganda, na prática, as big techs investem agressivamente contra qualquer regulação, e igualmente contra juízes, tribunais e governos capazes de aplicá-la. Em qualquer caso, trata-se de uma ética a posteriori, ou seja, de princípios propostos após a comercialização massiva de ferramentas, muitos deles sendo violados de forma corriqueira até mesmo por quem os propõe.

Neste cenário, será decisivo o papel das Comissões de Ética em Pesquisa (CEPs), que precisam ter voz ativa nos processos regulatórios, não apenas pela função que desempenham, mas sobretudo pelas décadas de experiência que acumulam. No mês passado, tive a oportunidade de participar de um evento que abordou tais desafios regulatórios, organizado pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, que reuniu as CEPs da USP, na atenta presença da Pró-Reitora, professora Maria Helena Palucci Marziale, com curadoria da professora Ana Paula Magalhães, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

No referido evento, compartilhei uma mesa com a pesquisadora Márcia Azevedo Coelho, da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica (Instituto de Estudos Avançados da USP), cujos estudos sobre o uso da IAGen nas escolas eu já admirava. Ela destacou os limites de iniciativas como a Portaria CNPq n. 2.664, de 6 de março de 2026, que apesar de representarem um avanço, não dão conta de problemas éticos importantes como o risco de dependência na formulação de problemas de pesquisa; o condicionamento epistêmico pelas limitações da ferramenta em uso; a análise de dados feita por meio de sistemas opacos, não rastreáveis e de reprodutibilidade incontrolada, podendo comprometer a validade dos achados, entre muitos outros. O depoimento de pesquisadores que usam a IAGen com a devida precaução é também importante, e por certo trará à luz novas dificuldades.

Desculpando-me de antemão pela analogia, o encorajamento acrítico do uso da IAGen no meio universitário faz lembrar a propaganda das Bets, ao pedir que pesquisadores “joguem com responsabilidade” na ausência de regras e controle adequados. As derrotas em cascata que se anunciam vão da dependência cognitiva individual à dependência tecnológica nacional. Mas há também o pêndulo percebido por Marc Bloch, a oscilar entre a credulidade inocente e a desconfiança generalizada. Mesmo letrados, podemos hesitar em nossa percepção do que é real ou artificial. Cresce o risco de perda da confiança na ciência, que induz a cidadania a renunciar ao usufruto de seus resultados. Por tudo isto, nossos desafios devem ser enfrentados com urgência, não apenas por especialistas em IA, mas por todos os pesquisadores, pelo Estado e pela sociedade brasileira.

Fonte: Jornal da USP | Deisy Ventura, professora títular da Faculdade de Saúde Pública da USP

Sobe para 43 o número de cidades com danos durante temporais no RS; Inmet segue com aviso para tempestades

0
Sobe para 43 o número de cidades com danos durante temporais no RS; Inmet segue com aviso para tempestades
Foto: Defesa Civil de Alegrete/ Divulgação

Segundo a Defesa Civil, 19 pessoas estão desalojadas em 6 municípios. O estado ainda está sob alerta de perigo do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para tempestades até o fim da terça-feira (21). Há chance de chuvas volumosas e ventos intensos.

O número de municípios do Rio Grande do Sul com danos causados pelos temporais do fim de semana subiu para 43 nesta segunda-feira (20). Entre os novos registros contabilizados pela Defesa Civil estão o alagamento de um hospital em Santa Maria, na Região Central, e dezenas de casas destelhadas no interior do estado.

De acordo com o órgão, 19 pessoas estão desalojadas em Alegrete (5), Santa Maria (4), Dona Francisca (3), São Borja (3), Cerro Branco (2) e Vale do Sol (2). Em 24 horas, o acumulado de chuva chegou a 124 mm em São Sepé, na Região Central do estado.

O estado ainda está sob alerta de perigo do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para tempestades até o fim da terça-feira (21). Há chance de chuvas volumosas, de até 100 mm/dia e ventos intensos de 60 até 100 km/h.

Em Santa Maria, a Defesa Civil confirmou o alagamento do Hospital São Francisco no fim da tarde de domingo (19). A cidade também reportou danos nos telhados de duas escolas e de mais 10 residências em diversos bairros, somando-se aos estragos já registrados anteriormente.

Os ventos fortes causaram prejuízos expressivos em outras regiões. Em Vera Cruz, 20 casas foram destelhadas durante a madrugada, além de quedas de árvores e interrupção no fornecimento de energia elétrica. Em Uruguaiana, o número de residências danificadas subiu para 12, afetando cerca de 48 pessoas. A queda de dois postes deixou mil moradores sem luz no município.

Prédios públicos também foram atingidos pela força do vento. Em Arroio Grande, a prefeitura e 16 casas sofreram danos nos telhados. Em Venâncio Aires, uma unidade de saúde foi parcialmente destelhada. Em Taquara, o ginásio de uma escola municipal sofreu avarias na cobertura.

O temporal também provocou ocorrências atípicas envolvendo a rede elétrica. Em Itaara, o vendaval fez com que fios de alta tensão encostassem na vegetação às margens da BR-158, provocando um incêndio na madrugada de domingo. O fogo foi controlado pelo Corpo de Bombeiros. Já em Barra do Quaraí, a queda de um cabo de alta tensão deixou a cidade inteira temporariamente sem luz, água e internet.

Fonte: G1

Participação privada no saneamento alcança metade dos municípios do país

0
Arsesp abre consulta pública sobre monitoramento da universalização dos serviços de saneamento
Foto: Max Alencar/Ascom Cosanpa/Divulgação

Seis anos após a aprovação do marco legal, setor privado atua em 2.720 cidades e responde por um terço dos investimentos em água e esgoto

Seis anos após a aprovação do Marco Legal do Saneamento, a participação da iniciativa privada na prestação dos serviços de água e esgoto alcançou 2.720 municípios brasileiros, o equivalente a 48,8% das cidades do país. Os dados são de um levantamento da Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento).

Segundo a entidade, a ampliação da participação privada foi acompanhada pelo aumento dos investimentos no setor. Em 2024, empresas privadas aplicaram R$ 9,4 bilhões em abastecimento de água e esgotamento sanitário, o equivalente a 32,4% dos R$ 29,1 bilhões investidos no segmento. Entre 2020 e 2024, a participação da iniciativa privada nos investimentos mais que dobrou.

Desde a entrada em vigor do novo marco regulatório, foram realizados 70 leilões de concessões e parcerias público-privadas, que somam mais de R$ 227 bilhões em investimentos contratados.

Na avaliação da diretora-presidente da ABCON, Christianne Dias, o ambiente regulatório criado pelo marco legal ampliou a segurança jurídica e impulsionou novos contratos. Segundo ela, além de aumentar a capacidade de investimento, as concessões têm incorporado ganhos de eficiência operacional, inovação tecnológica e sustentabilidade na prestação dos serviços.

A associação projeta que o movimento deve continuar nos próximos anos. Atualmente, outros 31 projetos de concessões e PPPs estão em estruturação, com previsão de R$ 32 bilhões em novos investimentos. As iniciativas abrangem 636 municípios e podem beneficiar cerca de 11,9 milhões de brasileiros, contribuindo para o cumprimento da meta de universalização dos serviços de água e esgoto até 2033.

Investimentos insuficientes

Os investimentos em saneamento básico no Brasil cresceram 51% desde a aprovação do Marco Legal do Saneamento, em 2020, de acordo com levantamento do Instituto Trata Brasil.

Em 2024, último ano com dados consolidados, os aportes no setor somaram R$ 29,1 bilhões.

Apesar do avanço, o volume de recursos ainda está abaixo do necessário para que o país cumpra a meta de universalização dos serviços de água e esgoto até 2033. O ritmo de investimentos ainda é insuficiente, principalmente para ampliar a coleta e o tratamento de esgoto.

Fonte: CNN Brasil 

WhatsApp com nome de usuário: mais privacidade, novos riscos e a necessidade de fortalecer a cultura da segurança digital

0
WhatsApp com nome de usuário: mais privacidade, novos riscos e a necessidade de fortalecer a cultura da segurança digital
Foto: natanaelginting

Como a proteção do número de telefone amplia a privacidade, mas exige novas estratégias de prevenção contra fraudes e engenharia social.

A transformação digital modificou profundamente a forma como nos comunicamos, trabalhamos e nos relacionamos. Hoje, aplicativos de mensagens instantâneas deixaram de ser apenas ferramentas de conversa para se tornarem plataformas utilizadas para negócios, serviços públicos, atendimento ao cidadão, educação, comércio eletrônico e até procedimentos administrativos. Nesse cenário, qualquer alteração realizada por essas plataformas possui impacto direto na segurança da informação e na proteção dos usuários.

A mais recente mudança anunciada pelo WhatsApp é a implementação dos nomes de usuário (@username), funcionalidade semelhante à existente em redes sociais como Instagram, Telegram e X (antigo Twitter). A novidade permitirá que usuários iniciem conversas sem a necessidade de divulgar o número de telefone, representando um avanço significativo em termos de privacidade.

Sob a ótica da segurança digital, entretanto, toda inovação tecnológica produz um efeito conhecido entre especialistas em cibersegurança: enquanto aumenta a proteção em determinado aspecto, cria novas superfícies de ataque que rapidamente passam a ser exploradas por criminosos. Mais do que aprender uma nova funcionalidade do aplicativo, será necessário desenvolver uma nova cultura de prevenção.

Diversas legislações internacionais e nacionais caminham no sentido da minimização da exposição de dados pessoais. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018 – LGPD) estabelece que somente os dados estritamente necessários devem ser compartilhados para determinada finalidade.

Sob essa perspectiva, deixar de divulgar o número de telefone representa um ganho importante. Até então, qualquer pessoa que desejasse iniciar uma conversa precisava conhecer o número telefônico do destinatário. Agora, será possível utilizar apenas um identificador público (@).

Na prática, isso reduz a circulação de um dado pessoal sensível para diversas situações cotidianas, como:

  • contatos comerciais;
  • atendimento ao cliente;
  • prestação de serviços;
  • grupos de estudo;
  • networking profissional;
  • eventos;
  • comunicação institucional.

Para profissionais da segurança pública, gestores municipais e organizações, essa mudança pode reduzir significativamente a exposição indevida de servidores públicos e agentes que precisam manter contato com a população. No entanto, a privacidade obtida pelo ocultamento do telefone não elimina os riscos relacionados à identidade digital.

Os golpes digitais evoluem continuamente, se antes a fraude dependia da clonagem de um número telefônico ou da criação de um perfil falso utilizando fotografia da vítima, agora os criminosos passam a explorar outro elemento: o próprio nome de usuário. A técnica mais conhecida internacionalmente chama-se Typosquatting, utilizada há anos na internet para registrar domínios ou perfis extremamente semelhantes aos verdadeiros. Basta uma pequena alteração para induzir a vítima ao erro.

Alguns exemplos comuns incluem:

  • substituir a letra “l” pelo número “1”;
  • trocar a letra “O” pelo número “0”;
  • adicionar pontos ou sublinhados;
  • acrescentar palavras como “oficial”, “suporte”, “financeiro” ou “atendimento”;
  • inverter letras.

Visualmente, a diferença é quase imperceptível e é justamente essa dificuldade de percepção que torna esse tipo de fraude extremamente eficiente.

Imagine um cidadão procurando o perfil oficial de uma prefeitura, de um banco, de uma empresa ou até mesmo de um familiar. Ao localizar um nome aparentemente correto, inicia a conversa acreditando estar diante da conta verdadeira. Em poucos minutos, poderá fornecer informações pessoais, realizar transferências bancárias ou compartilhar documentos sigilosos. Não estamos diante de uma hipótese teórica. Esse mesmo modelo de golpe já ocorre há anos em redes sociais, plataformas de comércio eletrônico e serviços financeiros. A novidade é que agora essa modalidade chega ao principal aplicativo de comunicação utilizado pelos brasileiros.

Segundo diversos relatórios internacionais de cibersegurança, a maior parte dos incidentes não ocorre por falhas tecnológicas, mas por falhas humanas. Esse fenômeno é conhecido como Engenharia Social. Os criminosos não precisam invadir sistemas sofisticados quando conseguem convencer a própria vítima a entregar voluntariamente informações confidenciais. Ou seja, nome de usuário representa apenas uma nova ferramenta dentro de uma estratégia já consolidada.

A sequência costuma seguir um padrão:

  1. criação de um perfil semelhante ao verdadeiro;
  2. utilização de fotografia copiada;
  3. abordagem convincente;
  4. geração de senso de urgência;
  5. solicitação de dinheiro, códigos ou informações pessoais.

É importante compreender que nenhum identificador público — seja telefone, e-mail ou nome de usuário — comprova, por si só, a identidade de uma pessoa. A validação deve ocorrer por outros meios.

Consciente desse novo cenário, o WhatsApp também passou a disponibilizar um mecanismo adicional de segurança. Trata-se de uma funcionalidade que permite restringir quem pode iniciar uma conversa utilizando apenas o nome de usuário. Ao configurar essa opção, o usuário poderá exigir um código exclusivo de quatro dígitos para que pessoas desconhecidas iniciem contato.

É importante destacar que esse código não substitui a verificação em duas etapas já existente no aplicativo, são mecanismos diferentes, com finalidades distintas. Enquanto a autenticação em duas etapas protege o acesso à conta, o novo código atua como uma barreira para impedir abordagens indesejadas por meio do nome de usuário.

Ele funciona como uma segunda camada de autenticação para novos contatos e o benefício é imediato.

Campanhas automatizadas de golpes, envio massivo de links maliciosos e abordagens aleatórias tornam-se muito mais difíceis. 

Naturalmente, esse código deve ser compartilhado apenas com pessoas de confiança. Quanto menor sua divulgação, maior será sua eficácia como mecanismo de proteção.

Ferramentas de segurança são importantes, entretanto, tecnologia sozinha nunca foi suficiente. A verdadeira proteção depende do comportamento do usuário.

Algumas recomendações tornam-se especialmente relevantes com a chegada dos nomes de usuário:

  • reservar seu nome de usuário assim que a funcionalidade estiver disponível;
  • evitar utilizar exatamente o mesmo identificador empregado em todas as redes sociais, quando o objetivo for preservar a privacidade;
  • não incluir profissão, cargo público, empresa, data de nascimento ou outras informações pessoais no @;
  • restringir a visualização da foto de perfil, status e informações pessoais apenas aos contatos;
  • manter ativada a confirmação em duas etapas;
  • utilizar senhas fortes no e-mail vinculado à conta;
  • nunca confiar exclusivamente no nome de usuário para confirmar a identidade de alguém;
  • confirmar solicitações financeiras por outro canal de comunicação.

São medidas simples, mas extremamente eficazes para reduzir o risco de fraudes. A implementação dessa funcionalidade também traz desafios para órgãos públicos, empresas e instituições. Perfis institucionais passam a necessitar de uma estratégia clara de identidade digital. Será fundamental orientar servidores, divulgar oficialmente os canais de atendimento e alertar a população sobre possíveis perfis falsos. Campanhas permanentes de educação digital tornam-se tão importantes quanto investimentos em infraestrutura tecnológica.

Na área da segurança pública, observa-se uma mudança importante no perfil dos delitos, cada vez mais crimes patrimoniais migram do ambiente físico para o ambiente digital. Os golpes virtuais já movimentam bilhões de reais todos os anos e atingem pessoas de todas as faixas etárias.

Prevenir significa informar. Educação digital deve ser entendida como política pública de segurança.

O lançamento dos nomes de usuário representa uma evolução importante para o WhatsApp. A possibilidade de proteger o número telefônico atende às melhores práticas internacionais de privacidade e está alinhada aos princípios da LGPD. Mas também inaugura uma nova etapa na prevenção de golpes digitais. 

A tecnologia continuará evoluindo, novos recursos surgirão constantemente, os criminosos também continuarão adaptando suas estratégias e a principal ferramenta de defesa permanece sendo o conhecimento.

Mais do que instalar aplicativos ou ativar configurações de segurança, precisamos desenvolver uma cultura permanente de conscientização digital. No ambiente conectado em que vivemos, proteger a identidade digital deixou de ser uma responsabilidade exclusiva dos especialistas em tecnologia. Tornou-se uma responsabilidade compartilhada entre cidadãos, empresas e poder público. Em segurança da informação existe um princípio que permanece atual independentemente da tecnologia utilizada: a melhor defesa continua sendo a prevenção.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade da autora, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC. 

Um ano após restrição aos celulares nas escolas, desafio é educar para a convivência ética no ambiente digital, afirma especialista da Unesp

0
Um ano após restrição aos celulares nas escolas, desafio é educar para a convivência ética no ambiente digital, afirma especialista da Unesp
Foto: Sam Balye/Unsplash

Pesquisa do Ministério da Educação apontou melhoria na concentração e na participação dos alunos do ensino básico. Para Luciene Tognetta, a legislação, sozinha, não prepara os estudantes para o uso responsável das tecnologias e as escolas podem estar perdendo uma oportunidade de exercer sua função educadora.

Em janeiro do ano passado, entrou em vigor em todo o país a Lei 15.100/2025, que restringe o uso de celulares em escolas públicas e privadas da educação básica, inclusive durante o intervalo das aulas e no recreio. O objetivo da iniciativa foi diminuir os efeitos negativos do uso constante do dispositivo para o aprendizado e proteger a saúde mental, física e psíquica das crianças e adolescentes. De acordo com o texto sancionado pela Presidência da República, o uso do celular fica permitido em situações que envolvam a garantia da acessibilidade, da inclusão e para atender a condições específicas de saúde dos alunos.

Juntamente com a sanção da lei, o Ministério da Educação (MEC) disponibilizou cartilhas e um site para orientar as escolas e as famílias dos estudantes sobre o uso consciente do celular e para auxiliar na aplicação das regras e suas exceções.

Na última semana, o governo federal divulgou uma pesquisa realizada entre mais de oito mil gestores escolares para entender, após um ano da sanção da lei, como a legislação está sendo aplicada nos estabelecimentos de ensino. Os resultados apontaram que 92% das escolas afirmam já ter adotado medidas para proibição do celular para fins não pedagógicos. O levantamento também mostra que 39% dos gestores afirmam ter encontrado uma alta resistência dos estudantes na adoção das regras, além de outros 39% reclamarem que não dispõem de infraestrutura em sua instituição para guardar os aparelhos.

O levantamento, produzido pelo MEC em parceria com o Inep e o Instituto Alana, com cooperação da UNESCO, também apontou que, sob os efeitos da restrição, 97% dos gestores observaram a ampliação da participação dos estudantes nas atividades pedagógicas e 95% relataram um aumento na concentração por parte dos alunos. Além disso, 88% associam a medida a redução de conflitos, agressões digitais e cyberbullying. Os entrevistados mencionam também a redução da ansiedade entre os alunos (86%) e aumento de atividades manuais, lúdicas e artísticas (67%).

Na visão de Luciene Tognetta, professora do Departamento de Psicologia da Educação da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Unesp, no câmpus de Araraquara, a legislação representou uma medida importante para a saúde emocional e social das crianças e adolescentes brasileiras e que, pelos resultados da pesquisa, houve uma ampla adesão das escolas. Na perspectiva da psicóloga, trata-se de uma geração que, em grande parte, cresceu mais desconectada das experiências de convivência que gerações anteriores. Em razão desse contexto, tornou-se necessário um regulador externo que estimulasse outras formas de estar com os outros que não fosse mediada por alguma tecnologia. “Nesse contexto, regulamentar o uso do celular não significou negar a tecnologia, mas devolver às crianças e adolescentes experiências fundamentais ao seu desenvolvimento”, afirmou.

Especialista em Psicologia Escolar e autora de diversos livros sobre educação e psicologia moral, convivência escolar, ética e bullying, Tognetta também aponta algumas limitações em relação à lei e chama a atenção para conclusões equivocadas sobre seus efeitos para as crianças e adolescentes. Um desses equívocos, aponta ela, diz respeito à percepção de que a retirada do celular da sala de aula produziu um benefício em relação a vida digital ou a cyberconvivência dos alunos. “A lei produziu, sobretudo e infelizmente, a diminuição das oportunidades para que os conflitos iniciados no ambiente virtual irrompessem durante o período escolar. Isso está longe de significar que os conflitos deixaram de existir. Eles apenas deixaram de ocorrer fora do campo da escola. Só isso”, aponta.

Apesar de um certo alívio sentido pelos educadores no ambiente escolar, os conflitos que nascem nas plataformas e redes sociais continuam existindo, e a simples retirada do celular não ajuda a educar o aluno para o seu uso. A Lei 15.100/2025 menciona a necessidade de as escolas oferecerem treinamento para a detecção, a prevenção e a abordagem de sinais de sofrimento psíquico, bem como espaços de escuta e acolhimento aos alunos.

Na visão da docente da Unesp, entretanto, esse é um ponto que ainda não tem sido alcançado pela legislação. “Ao retirar o celular do cotidiano da escola, muitas instituições estão perdendo a oportunidade de discutir de forma intencional e sistemática o modo como as crianças e adolescentes vivem suas relações do mundo digital”, destaca Tognetta. “Ao invés de transformar a tecnologia em objeto de reflexão ética e de aprendizagem, optou-se frequentemente pelo silêncio”.

Tognetta afirma que a vida digital não é um espaço paralelo, mas uma dimensão inseparável da experiência emocional e social de muitos adolescentes de hoje. “Um menino e uma menina adolescente também são aquilo que eles são e como se apresentam no mundo virtual”, aponta. A psicóloga lembra que diversas pesquisas mostram que as crianças e adolescentes ainda encontram muitas dificuldades para conviver de forma ética na internet, citando como exemplo o crescimento nos casos de jovens que colocam a vida em risco em desafios virais, o compartilhamento de imagens de colegas sem consentimento e o envolvimento em comunidades virtuais que disseminam discursos de ódio.

“Todas essas situações revelam um universo complexo que infelizmente é invisível aos olhos de muitos adultos, mas é profundamente presente na vida dos adolescentes e até mesmo de crianças. Ignorar essa realidade não a faz desaparecer. Pelo contrário, quando a escola deixa de abrir espaços seguros para conversar, problematizar e compreender as experiências digitais dos adolescentes, o que acontece é que nós perdemos uma grande oportunidade de exercer a nossa função educadora”, alerta.

Fonte: Jornal da Unesp | Renato Coelho

Como a violência escolar expulsa travestis e pessoas trans do sistema de ensino

0
Como a violência escolar expulsa travestis e pessoas trans do sistema de ensino
Arte: Heloisa Falaschi

Pesquisa acompanha seis estudantes travestis e trans para entender os mecanismos que levam à exclusão dessa população do ensino e propõe novo modelo educativo que aposte na singularidade

A escola costuma ser descrita como uma “segunda família”. Para travestis e pessoas trans, porém, ela frequentemente marca o primeiro grande rompimento. Em um país onde essa população tem expectativa de vida inferior a 35 anos e em que 72% não concluem o ensino médio, a exclusão começa cedo, muitas vezes ainda na infância.

A dissertação de mestrado Escolas para trans ou escolas-trans? Por uma educação que diferencie e liberte o sujeito, defendida por Marcella Halcsik Silva na Faculdade de Educação (FE) da USP, em fevereiro de 2026, acompanhou seis estudantes travestis e trans da Educação de Jovens e Adultos (EJA) entre 2022 e 2023. À luz da psicanálise lacaniana, a pesquisa investiga como a violência escolar produz processos de expulsão e discute o que seria uma escola capaz de acolher esses sujeitos.

Professora de geografia, Marcella lecionou na EJA até 2023. O contato mais próximo com estudantes travestis e trans veio em 2022, quando passou a trabalhar em uma escola de EJA de tempo integral no bairro do Glicério, em São Paulo, região marcada pela presença de pessoas em situação de rua atendidas por políticas da Secretaria Municipal de Direitos Humanos. A experiência deu origem à pesquisa.

“Eu percebi que esses estudantes, especialmente trans e travestis, são invisíveis. Eles não existem!”, afirma. A percepção, somada à participação em um núcleo de pesquisa sobre psicanálise e educação que já discutia a questão trans, motivou a realização de seis entrevistas em profundidade. Os relatos abordam as experiências escolares dos participantes, o retorno aos estudos na EJA e as características que, na visão deles, uma escola inclusiva deveria ter.

Território de medo

As lembranças de violência não começam na adolescência. Segundo a pesquisadora, elas costumam remontar ao Ensino Fundamental I, entre os 6 e os 9 anos, quando essas crianças já demonstravam comportamentos considerados diferentes do esperado para o sexo atribuído no nascimento.

Um dos relatos mais marcantes é o de Xeila. Aos 9 anos, ela foi ridicularizada pela voz fina ao pedir para ir ao banheiro. “A sala riu dela e ficou falando: ‘olha a vozinha dela’”, conta Marcella. “Depois disso, ela nunca mais pediu para ir ao banheiro e fazia xixi na roupa para não precisar pedir.” Xeila ainda se lembra do cheiro de urina e dos comentários dos colegas. “Ela dizia: ‘eu não pedia porque começaram a me chamar de Xuxa’. Ela tinha 9 anos.”

Enquanto para a maioria dos estudantes o recreio costuma ser um momento de liberdade, para os entrevistados era o período de maior exposição à violência. “É muito louco pensar que o recreio, o espaço de que as crianças mais gostam, onde elas brincam e se expressam, era justamente o lugar que essas pessoas tinham medo”, diz Marcella. Uma aluna trans contou que foi atingida por pedras na quadra e chegou a machucar o quadril. Um homem trans relatou que evitava permanecer no espaço porque queria jogar futebol, mas era constantemente alvo de agressões físicas e verbais.

Para a pesquisadora, o problema não está apenas na ausência de punição aos agressores, mas também na dificuldade de muitos professores em reconhecer que essas violências acontecem dentro da escola.

A violência também aparece disfarçada de regra disciplinar. Uma das entrevistadas contou que era obrigada pela direção a retirar a maquiagem antes das aulas, enquanto as colegas cisgênero podiam usá-la normalmente. “Eu ia de maquiagem na escola e a diretora mandava eu tirar. Só mandava eu tirar. As meninas podiam ir, mas eu tinha que tirar”, relatou.

Para interpretar esse tipo de situação, Marcella recorre à psicanalista francesa Maud Mannoni. Em “A Educação Impossível”, a autora descreve o que chama de “educação pervertida”, uma prática voltada ao controle dos corpos e à exclusão de tudo aquilo que foge à norma.

A vida fora da escola

Todos os seis entrevistados passaram pela escola regular e abandonaram os estudos na mesma etapa, entre o fim do Ensino Fundamental I e o início do Fundamental II. “A que foi mais longe chegou ao sétimo ano”, conta Marcella. Para a pesquisadora, é nessa transição que a evasão costuma se concentrar.

Depois de deixar a escola, a prostituição passa a fazer parte da trajetória de muitos desses estudantes. Segundo Marcella, cerca de 80% das mulheres trans que frequentam a escola pesquisada têm nessa atividade sua principal fonte de renda. Entre elas está uma aluna que trabalha na prostituição há 40 anos. Com o dinheiro, conseguiu comprar um apartamento, mas também acumulou histórias de violência envolvendo policiais, clientes e outras mulheres.

A pesquisadora interpreta esse percurso a partir da psicanálise de Jacques Lacan, segundo a qual cada sujeito encontra formas próprias de lidar com o sofrimento. Nesse contexto, a prostituição, a vida nas ruas e o uso de drogas aparecem menos como escolhas isoladas do que como estratégias de sobrevivência.

Os relatos indicam que é nas ruas que muitas dessas pessoas encontram, ainda adolescentes, outras que compartilham experiências semelhantes. Esse pertencimento ajuda a explicar por que tantas deixam a casa da família entre os 10 e os 12 anos para buscar essas comunidades. “Sozinhas elas morrem”, resume Marcella.

Cinco dos seis entrevistados já passaram pelo sistema prisional. Paradoxalmente, foi nesse período que redescobriram o interesse pelos estudos. “Na prisão, eles voltaram a gostar de estudar”, afirma. A hipótese da pesquisadora é que o cárcere ofereceu um ambiente onde não precisavam esconder quem eram. Ali, encontraram um senso de comunidade entre pessoas que também viviam experiências de exclusão.

“Talvez a chave seja justamente esse senso de comunidade aliado à liberdade de não precisar se enquadrar na norma”, diz. Marcella também observa que o preconceito relatado pelos entrevistados costuma ser aprendido dentro de casa. Xeila contou que o pai era violento desde a infância por perceber “o jeito afeminado do filho” e dizia que mataria um filho caso ele fosse gay. Apesar disso, a própria entrevistada fazia questão de separar o pai do discurso que reproduzia. “Não era meu pai. Era o que ele ouvia na rua, o que trazia dos amigos dele”, contou.

A partir de relatos como esse, os próprios estudantes defenderam que as escolas promovam encontros periódicos com as famílias, principalmente quando episódios de violência são identificados.

O olhar do professor

A pesquisa aponta que a permanência escolar depende diretamente da relação construída entre professor e estudante. Mas a rotina exaustiva, a falta de formação e preconceitos muitas vezes inconscientes podem fazer com que o próprio docente reproduza violências sem perceber. “Os estudantes travestis comentavam que o olhar do professor já era violento para eles. E eu nem sei se o professor percebia isso”, observa Marcella.

Para pensar esse desafio, a pesquisadora recorre a Sigmund Freud, que descreveu governar, psicanalisar e educar como as três “profissões impossíveis”, justamente porque nenhuma delas consegue controlar completamente o sujeito. A partir dessa ideia, ela defende que a formação continuada também ofereça espaço de escuta aos professores. “Eu sentia muita falta desse acolhimento para a gente [professores] também, porque é uma dificuldade muito grande.”

Para os seis entrevistados, o retorno aos estudos só foi possível por meio do Transcidadania, programa da Secretaria Municipal de Direitos Humanos que oferece uma bolsa de aproximadamente R$1.500,00 por até três anos, condicionada à frequência escolar.

Marcella, no entanto, afirma que o incentivo financeiro, sozinho, não garante a permanência. O que faz diferença é a expectativa de encontrar um ambiente acolhedor. Muitos decidiram voltar a estudar depois de ouvir de agentes da Secretaria que determinada escola era um espaço onde seriam bem recebidos, mesmo que isso significasse atravessar a cidade diariamente. “Volta a estudar nessa escola, porque lá tem bastante pessoas iguais a você”, ouviam.

Uma das entrevistadas resumiu o motivo da escolha como “Eu não queria estudar com os héteros. Eu já estudei no passado. Foi horrível.” Apesar disso, nenhum dos participantes defende a criação de escolas exclusivas para travestis e pessoas trans. “A gente é o quê, bicho, que tem que estar separado?”, perguntou uma das entrevistadas.

A dissertação termina em tom de esperança. Na prisão, Xeila descobriu o desenho como forma de expressão. Fazia retratos e ilustrava cartas para outros presos em troca de perfume e creme hidratante. Foi ela quem pintou a jaqueta usada por Marcella na defesa da dissertação. Mesmo depois de sucessivas experiências de exclusão, o desejo de aprender, criar e permanecer na escola continua existindo quando encontra um espaço de acolhimento.

Fonte: Jornal da USP | Mariana Gaia

Inteligência Artificial do Google atua como ‘segundo cérebro’ no SUS para desvendar tumores raros no interior do Paraná

0
Inteligência Artificial do Google atua como ‘segundo cérebro’ no SUS para desvendar tumores raros no interior do Paraná
Foto: Magnific/Reprodução

Plataforma do Projeto Capricórnio chega ao Hospital São Vicente, no bairro planejado Cidade dos Lagos, em Guarapuava, e iguala medicina pública do centro-sul paranaense aos principais polos privados globais.

O diagnóstico de um Carcinoma de Sítio Primário Oculto (CUP) representa um dos tabus mais complexos da oncologia moderna. Identificar tumores metastáticos espalhados pelo corpo sem que os exames tradicionais consigam rastrear onde a doença começou é um desafio que, historicamente, exige tempo, um ativo escasso para pacientes com câncer. No centro-sul do Paraná, contudo, a tecnologia de ponta global e a articulação pública transformaram essa realidade dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).

Aos 49 anos, Cleverson Ramos de Col enfrentava exatamente esse diagnóstico desafiador, com metástases detectadas nos linfonodos, ossos e pleura. A resposta para o direcionamento assertivo do seu tratamento não veio de uma capital médica tradicional, mas sim do Hospital São Vicente, localizado no ecossistema de saúde da Cidade dos Lagos, em Guarapuava (PR). O diferencial foi a aplicação prática do Projeto Capricórnio, uma plataforma de Inteligência Artificial desenvolvida pelo Google e trazida de forma pioneira ao hospital através de uma iniciativa estratégica do Governo do Estado do Paraná.

O “Segundo Cérebro” no Tumor Board

Na prática, a IA atuou de forma integrada às reuniões multidisciplinares da equipe médica (Tumor Board), cruzando dados moleculares complexos em tempo recorde. O tumor de Cleverson exibia uma assinatura imunohistoquímica raríssima e atípica (CDX2 positivo com CK7 e CK20 negativos). A IA mapeou a literatura científica mundial para correlacionar o perfil, validando a quimioterapia direcionada ao trato gastrointestinal superior.

A ferramenta também alertou os especialistas para uma correlação frequente deste padrão atípico com a instabilidade genômica (dMMR/MSI-H), permitindo a solicitação imediata de um painel genético focado que pode viabilizar o uso de imunoterapia no futuro do paciente.

“A plataforma do projeto Capricórnio foi fundamental para a nossa tomada de decisão”, explica o oncologista Nelson Morozini. “A IA funcionou como um ‘segundo cérebro’ no nosso Tumor Board. Ela não substitui o médico, mas acelera o acesso a dados científicos complexos, garantindo que um paciente com um tumor raríssimo no SUS receba uma conduta altamente personalizada, comparável aos melhores centros privados do mundo”, ressalta Morozini.

Além do diagnóstico molecular, a tecnologia otimizou o suporte de custos e a tomada de decisões logísticas dentro do sistema público. Diante de uma progressão recente no tórax e de uma fratura de costela do paciente, a plataforma auxiliou os médicos a traçar uma estratégia custo-efetiva imediata: organizou evidências para a troca segura do esquema quimioterápico (migrando para Carboplatin + Paclitaxel), combinou a introdução de um reconstrutor ósseo (Ácido Zoledrônico) para evitar novas fraturas e indicou o procedimento definitivo para o líquido no pulmão (pleurodese).

Descentralização tecnológica e inovação em saúde

O Hospital São Vicente na Cidade dos Lagos, que opera com 80% de sua capacidade voltada aos pacientes do SUS, consolida-se como um hub de tecnologia em saúde graças à infraestrutura oferecida pelo bairro planejado. O complexo, integrado a institutos de pesquisas genômicas e universidades, atrai parcerias que validam o impacto do ecossistema inteligente de Guarapuava.

“O Capricórnio é um exemplo claro de como a Inteligência Artificial (IA) pode transformar a relação do médico com a evidência científica. O que estabelecemos no Paraná é um modelo eficaz e que pode ser facilmente replicado em outras práticas clínicas, como neurologia e saúde da mulher”, explica Priscila Cruzatti, especialista em inovação e saúde digital para o Brasil no Google Cloud. “Queremos garantir que profissionais de saúde em qualquer especialidade tenham acesso rápido e preciso ao conhecimento científico global para tomar decisões baseadas em dados”, reforça Priscila.

Como funciona

O Capricórnio permite acessar de forma ágil todas as informações disponíveis no PubMed, o qual tem os seus dados armazenados em formato vetorial no BigQuery, plataforma de armazenamento e gerenciamento de dados do Google Cloud. O Gemini, então, atua como a camada conversacional que possibilita ao médico realizar buscas precisas em português e em linguagem natural para discussões de casos clínicos, usando como fonte apenas os dados do PubMed, armazenados no BigQuery.

O PubMed é um banco de dados global mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina do National Institutes of Health, principal agência do governo dos EUA responsável por pesquisas biomédicas e de saúde pública – que contém mais de 35 milhões de artigos biomédicos e cresce de 1,5 milhão a 1,7 milhão de novos artigos biomédicos publicados por ano, o que significa que o volume total de conhecimento biomédico dobra a cada 73 dias.

As buscas vetoriais no PubMed possibilitam aos médicos realizar pesquisas de maneira semântica, indo além do cruzamento de palavras-chave exatas. Isso tem um impacto relevante no tratamento, pois, com as buscas tradicionais, os pesquisadores podem perder um estudo de caso relacionado pelo simples fato de terem usado termos ligeiramente diferentes para descrever a mesma condição.

Desenvolvido em parceria com médicos do Princess Máxima Center Oncologia Pediátrica de Utrecht, na Holanda, o projeto Capricórnio iniciou em abril deste ano nos hospitais do Paraná e tem sido usado para tratamento de todos os tipos de câncer, com a expectativa de estender sua aplicação para outras especialidades clínicas.

Paraná na vanguarda

O projeto integra o programa Transforma IA, que abriga uma série de soluções de inteligência artificial que o Governo tem implementado para modernizar a gestão pública e melhorar os serviços oferecidos à população. A iniciativa prevê investimentos em projetos voltados a áreas como segurança pública, habitação, agricultura e educação.

Conforme o secretário da Inovação e Inteligência Artificial, Marcos Stamm, a ideia é expandir a tecnologia para outras unidades hospitalares do Paraná. “Estamos falando de combate ao câncer e a IA está nos dando esse instrumento. O projeto foi incubado e naturalmente os resultados começaram a sair. Junto com a Secretaria da Saúde, vamos estabelecer os critérios para ampliar a usabilidade da plataforma”, detalhou.

Fonte: Gazeta do Povo

Como os atores do ecossistema de inovação posicionam a sua cidade na era da IA

0
As preocupações que levaram a OpenAI, do ChatGPT, a abandonar lançamento de novo sistema de IA
Foto: Qilai Shen/Bloomberg

GEO — Generative Engine Optimization — é uma estratégia coletiva. Quando cada ator do ecossistema se torna legível para os motores generativos, a cidade aparece para quem decide onde investir, onde instalar e onde crescer.

Quando um investidor, um talento em tecnologia ou um gestor público consulta uma inteligência artificial para decidir em qual cidade instalar uma operação, onde encontrar um ecossistema de inovação ativo ou quais municípios lideram em desenvolvimento digital — a IA responde com base no que foi publicado, estruturado e tornado legível para máquinas. Esse é o cenário que o conceito de GEO — Generative Engine Optimization — nomeia com precisão: a disputa por visibilidade migrou dos buscadores tradicionais para os motores generativos. Cidades que arquitetam sua presença digital para esse novo ambiente aparecem exatamente quando mais importa.

A IA lê redes. Cada ator do ecossistema de inovação é um nó — e os fios que conectam esses nós entre si determinam se a cidade aparece ou desaparece na síntese que o motor generativo constrói. Uma universidade que publica pesquisas indexadas e cita a cidade em seus trabalhos é um nó ativo. Uma incubadora que documenta os resultados das empresas que apoia e conecta explicitamente essa produção ao município é outro nó. Uma entidade de classe com presença estruturada nos canais digitais, artigos assinados em veículos indexados e bio atualizada em todas as plataformas é mais um. Quanto mais nós ativos e conectados, mais robusta a rede — e mais precisa a síntese que a IA constrói sobre aquela cidade.

Instituições de ensino, centros de pesquisa, parques tecnológicos, fundos de investimento e entidades setoriais têm um papel estratégico nessa arquitetura. Cada publicação acadêmica indexada que menciona a cidade, cada relatório de impacto disponibilizado em texto público, cada parceria institucional documentada e acessível para máquinas contribui para a autoridade coletiva do ecossistema. Lideranças dessas instituições que padronizam suas assinaturas, publicam em veículos reconhecidos e cultivam citações externas amplificam esse sinal individualmente — e, ao fazê-lo, carregam consigo a instituição e a cidade que representam.

Prefeituras são arquitetas da visibilidade urbana. Dados abertos estruturados e indexados, políticas de inovação publicadas em formato legível para máquinas, indicadores de desenvolvimento econômico acessíveis e atualizados — cada um desses elementos é um sinal que os motores generativos capturam ao sintetizar o perfil da cidade. Uma prefeitura que trata a transparência digital como estratégia de posicionamento urbano — e não apenas como obrigação legal — constrói um ativo que atrai desenvolvimento. A cidade que aparece na resposta da IA quando alguém pergunta sobre inovação, qualidade de vida ou ecossistemas digitais é a cidade que decidiu ser encontrada.

A pesquisa Smart Floripa 2030, desenvolvida com mais de 55 especialistas de quatro setores, revelou que 83% avaliavam o desempenho de inovação de Florianópolis acima da média nacional brasileira — e apontavam a conexão entre os atores como o maior potencial a ser explorado. O ecossistema de inovação brasileiro tem muito a celebrar e ainda mais a construir. A união entre gestores, instituições, lideranças e prefeituras em torno de uma presença digital estruturada e consistente é o que transforma um ecossistema forte em uma cidade que aparece — para investidores, talentos e parceiros — no momento exato em que a decisão é tomada.

As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade da autora, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Connected Smart Cities