Distrações digitais constantes: Em média, na OCDE, 28% dos estudantes relataram que seus colegas se distraem com celulares e dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de ciências.
Uso excessivo de IA pode gerar ‘preguiça cognitiva’
Alunos que utilizam frequentemente chatbots para tarefas específicas — como resumir leituras, fazer pesquisas preliminares ou redigir redações — obtêm, em média, 20 pontos a menos em ciências do que os que não usam. Pela métrica da OCDE, essa diferença equivale a perder um ano inteiro de escolaridade em relação aos seus colegas.
“Se, durante os anos formativos, os jovens passam a delegar à IA a compreensão de um texto, a formulação de um argumento ou a resolução de um problema, eles deixam de treinar justamente as capacidades que precisam desenvolver”, diz Ivan Pereira, CEO da Mind Lab.
“O grande dilema da educação, portanto, não será simplesmente ensinar os jovens a usar IA, mas ensiná-los a usar IA sem perder autonomia intelectual. Precisamos formar pessoas capazes de pensar com os outros, pensar com as máquinas, mas, acima de tudo, continuar capazes de pensar por conta própria.”
No Canadá e na Nova Zelândia, estudantes que utilizam a inteligência artificial para redigir textos alcançaram 29 e 36 pontos a menos, respectivamente, do que os que realizam o esforço de escrita por conta própria.
O uso diário sem supervisão gera o que pesquisadores chamam de “preguiça metacognitiva e desengajamento” — ou seja, o aluno delega a tarefa intelectual à máquina e sabota seu próprio processo de aprendizagem.
Quando a IA é usada com moderação (uma ou duas vezes por semana) e de forma ampla para “ajudar a aprender”, o desempenho dos estudantes se equipara ao dos não usuários.
- Na média dos países da OCDE, aproximadamente 1 em cada 5 alunos já utiliza ferramentas de inteligência artificial de forma regular (quase diária) para trabalhos da escola.
- Apenas 14% dos jovens relatam nunca ou quase nunca ter recorrido à tecnologia para fins escolares.
- Alunos de famílias mais ricas tendem a usar a IA com muito mais frequência, provavelmente por maior acesso a dispositivos modernos, conexões de internet estáveis e, em alguns casos, assinaturas de ferramentas pagas de IA.
Potências econômicas têm quedas expressivas
Os seguintes países perderam entre 20 e 30 pontos em leitura no curso prazo, de 2022 a 2025:
- Dinamarca: – 29 pontos
- Sérvia: – 26 pontos
- Noruega: – 24 pontos
- Espanha: – 23 pontos
- Croácia: – 22 pontos
- Suécia: – 21 pontos
- Hungria: – 21 pontos
- Hong Kong (China): – 20 pontos
- República Tcheca (Tchéquia): – 20 pontos
Os declínios mais altos nesse mesmo intervalo ocorreram nas nações a seguir:
- Letônia: – 45 pontos
- Israel: – 38 pontos
- Guatemala: – 37 pontos
- Malta: – 31 pontos
O paradoxo do financiamento
Segundo os dados do Pisa 2025, existe, de fato, uma correlação positiva entre o gasto por estudante e o desempenho escolar, mas ela só funciona até o limite de USD 85.000 (R$ 435 mil) acumulados por aluno.
Depois que se cruza essa linha (o que ocorre com a maioria dos países ricos da OCDE), a correlação desaparece.
O exemplo mais marcante é Luxemburgo: o país é o campeão absoluto de gastos educacionais do planeta, destinando USD 288.521 (quase R$ 1,5 milhão) por aluno. Ainda assim, obteve pontuações médias em ciências inferiores às de nações como Irlanda, França e Itália, que investem menos da metade desse montante por aluno.
O caso demonstra que gastar mais não se traduz automaticamente em melhores resultados — a forma de administrar os recursos é determinante para o sucesso da educação.
Ninguém está preparado para a era da IA?
Os resultados do Pisa 2025 mostram que os sistemas de ensino mais ricos do mundo falham em se adaptar às mudanças sociais, tecnológicas e econômicas. Em uma era dominada pela inteligência artificial, em que competências como pensamento crítico, interpretação de dados complexos e leitura atenta tornam-se ainda mais valiosas, os países desenvolvidos correm o risco de entregar para o mercado de trabalho uma geração menos preparada que a anterior.
Para estes governos, afirmam os especialistas, o desafio é maior do que pensar em investimentos: os dados do Pisa indicam que será necessário repensar o modelo de ensino para resgatar a atenção e o engajamento de seus estudantes.
Fonte: G1