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Não foi só a cidade que mudou: entre permanências e metamorfoses em São Paulo

Marcelo Nery
Marcelo Nery
Profissional com mais de 15 anos de experiência em coordenação de projetos, análises quali-quantitativas, desenvolvimento de pesquisas e disseminação de conhecimentos. Sociólogo (USP) e Tecnólogo (INPE). Coordenador de Transferência de Tecnologia e "Head" do Centro Colaborador da PAHO/OMS (BRA-61) no Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP - CEPID-FAPESP. Pesquisador no Programa de Fellowship da ABES, atuando no Think Tank "Centro de Inteligência, Políticas Públicas e Inovação" em parceria com o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.

Ao NEV-USP e ao professor Sergio Adorno, pela construção de um espaço onde a reflexão crítica sobre a cidade e a violência permaneceu possível.

“A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica.”— Theodor Adorno, Educação após Auschwitz

A ideia de que a vida é feita de ciclos tornou-se um lugar-comum. Mais raro, porém, é reconhecer os marcos que estruturam uma experiência e compreender aquilo que eles revelam.

Olhar para trás, nesse sentido, exige mais do que nostalgia. Mais do que idealizar retrospectivamente um período, ou reduzi-lo a algo meramente acadêmico, importa identificar continuidades e rupturas, atribuir sentido aos caminhos e às escolhas construídas no cotidiano.

É desse ponto que escrevo: da conclusão de um ciclo profissional no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), no âmbito de seu Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID). Um percurso atravessado por desafios, mas também por experiências que ampliaram minhas possibilidades de compreensão.

Ao narrar essa trajetória, procuro compreender permanências e metamorfoses da cidade: seus ritmos, suas reconfigurações, mas também desigualdades, vulnerabilidades e arranjos sociais que persistem e se reorganizam. Não se trata apenas de um marco biográfico, mas de compreender como a experiência urbana é continuamente redefinida.

Sou filho da periferia. Cresci em uma cidade marcada por mudanças aceleradas e vulnerabilidades persistentes. Durante muito tempo, essas experiências não eram mediadas por análises ou indicadores — impunham-se diretamente nos trajetos cotidianos, nos medos e expectativas distribuídos de forma desigual.

Quando iniciei minha atuação no NEV-USP, a cidade deixou de ser apenas experiência vivida e passou a exigir novas formas de interpretação. São Paulo atravessava um período de intensa instabilidade. Rebeliões penitenciárias e ataques coordenados por organizações criminosas não eram acontecimentos isolados, mas expressões de contradições sociais mais amplas. Expunham fragilidades institucionais e evidenciavam os limites dos modelos explicativos disponíveis. Desde então, tornou-se impossível ignorar um princípio: problemas complexos resistem às generalizações.

Nesse contexto, comecei a trabalhar com dados, sistemas de informação e análise espacial. Tornou-se evidente que os recortes territoriais tradicionais eram incapazes de compreender a cidade sem reduzi-la a padrões artificiais de homogeneidade. Áreas intraurbanas apresentavam dinâmicas sociais e criminais que escapavam aos limites político-administrativos. Sob o aparente ordenamento da gestão urbana, acumulavam-se fragmentações que os modelos vigentes já não conseguiam apreender. Era preciso repensar a própria forma de análise.

A identificação de padrões surge dessa reorientação. Não como solução definitiva, mas como tentativa de reorganizar a maneira de perceber a cidade. A integração das dimensões territoriais da criminalidade tornou visíveis configurações urbanas que os recortes existentes tendiam a obscurecer. A cidade deixa de aparecer como totalidade contínua e passa a revelar escalas, rupturas e conexões.

Esse movimento altera a própria forma de compreender a cidade. Transformar a percepção do espaço urbano modifica não apenas sua interpretação, mas também as possibilidades concretas de intervenção.

Ao longo desse processo, a tecnologia deixou de ocupar uma posição meramente instrumental. Passou a reorganizar as formas pelas quais instituições e relações sociais se estruturam. A ampliação das capacidades de processamento e integração de dados tornou possível descrever fenômenos complexos e orientar decisões com níveis inéditos de precisão. Ainda assim, maior capacidade analítica nem sempre resultou em melhores respostas.

Foi preciso qualificar a informação, reconhecer limites e evitar a adesão automática a ferramentas cada vez mais sofisticadas. Sem qualidade, contexto e mediação crítica, os dados frequentemente produziam mais ruído do que esclarecimento. Nessas condições, a tecnologia favorecia interpretações frágeis, discriminações indevidas e formas renovadas de distorcer a própria experiência urbana.

Houve avanços e retrocessos. A redução dos homicídios dolosos constitui, sem dúvida, um dado histórico relevante. A cidade de São Paulo deixou de figurar entre as capitais mais violentas do país, e isso significou a preservação da vida de milhares de pessoas. Ainda assim, reduzir a compreensão da violência urbana a esse indicador ofusca mais do que esclarece aquilo que efetivamente se transformou. As mudanças observadas resultam de processos sociais e institucionais de corte essencialmente territorial, resistentes a explicações simplificadoras e causalidades lineares.

A agenda se expandiu. A cidade passou a concentrar problemas que já não podem ser compreendidos a partir de perspectivas isoladas. Estudar a questão criminal passou a exigir a articulação entre dinâmicas micro-locais e estruturas macrossociais, evidenciando ainda mais os limites das interpretações generalizantes.

A cidade havia se tornado mais complexa e contraditória. Não apenas pela disseminação de tecnologias, mas pela incorporação desigual de formas de produção de conhecimento, frequentemente dissociadas da integração institucional e do uso sistemático de evidências. Ainda assim, permanecia distante de qualquer horizonte idealizado de metrópole global.

Nesse contexto, a transferência de conhecimento deixou de constituir uma etapa posterior da pesquisa. Passou a integrar o próprio processo de produção do conhecimento. Trabalhar com gestores, dialogar com instituições e disputar publicamente a interpretação dos problemas urbanos tornou-se parte essencial da atividade científica. Não se trata de complemento, mas de método. Sem essa mediação, a pesquisa perde relevância pública e enfraquece sua responsabilidade social.

Encerrar esse ciclo no NEV-USP, à frente da coordenação de Transferência de Tecnologia, permite reconhecer que a cidade reúne hoje condições mais consistentes para compreender e enfrentar a complexidade de nossos próprios conflitos.

Reconhecer essas condições, no entanto, exige cuidado com a própria ideia de avanço. Tomada em seu sentido mais corrente, ela frequentemente se reduz a uma renovada simplificação. Em um plano mais exigente, avançar significa enfrentar as estruturas que organizam a cidade: qualificar informações, tornar visíveis desigualdades e questionar os mecanismos sociais e institucionais que continuamente as reproduzem. É justamente nessa exigência — e não na busca por soluções imediatas — que se abrem possibilidades reais de transformação. Nesse horizonte, a metrópole permanece como um dos espaços mais desafiadores e reveladores para quem insiste em compreendê-la. E esse esforço jamais é individual.

ADORNO, Theodor W. Educação após Auschwitz. In: Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

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