Uma viagem à Noruega para conhecer empresas e projetos noruegueses que transformam embalagens, prédios, plásticos e baterias em novos negócios e matérias-primas.
De garrafas devolvidas no supermercado a prédios construídos com materiais de outros edifícios, uma viagem para conhecer a economia circular na Noruega, para entender como empresas estão transformando resíduos em tecnologia, matéria-prima e novos modelos de negócio. O roteiro foi uma sugestão da The Nordic Way, empresa especializada em criar imersões executivas sob medida para empresas e grupos brasileiros conhecerem, de perto, projetos, negócios e ecossistemas de inovação na Noruega e países nórdicos. A primeira parada poderia ser qualquer supermercado da Noruega. Vou explicar, é comum encontrar pessoas chegando com grandes sacolas cheias de latas e garrafas vazias para descartá-las nas em máquinas onde essas embalagens desaparecem dentro de um equipamento instalado próximo à entrada. Em poucos segundos, surge um comprovante que pode ser descontado nas compras, convertido em dinheiro ou até em doação para a Cruz Vermelha. Para quem vive no país, o gesto é tão habitual quanto passar os produtos no caixa. Mas por trás dessa rotina existe uma das histórias empresariais mais bem-sucedidas da Noruega.
A máquina é parte de um sistema que conecta consumidores, supermercados, fabricantes de bebidas, empresas de logística, centros de processamento e tecnologia. Aquilo que poderia terminar no lixo preserva valor suficiente para retornar à cadeia produtiva. É também uma boa introdução à economia circular norueguesa: menos como um ideal abstrato e mais como uma viagem por sistemas que tentam impedir que produtos e materiais percam seu valor depois do primeiro uso.
Uma invenção norueguesa escondida dentro do supermercado
A TOMRA nasceu em 1972, quando os irmãos Petter e Tore Planke desenvolveram uma máquina capaz de reconhecer e receber automaticamente garrafas vazias. O primeiro equipamento foi instalado em um supermercado de Oslo naquele mesmo ano. O que começou como uma solução para facilitar a devolução de embalagens tornou-se uma empresa de tecnologia presente em mais de cem países. Hoje, a TOMRA trabalha com sistemas de coleta e separação de materiais utilizados não apenas em supermercados, mas também em reciclagem, alimentos e mineração. Em 2026, a companhia recebeu o Prêmio Norueguês de Exportação de 2025 pelo impacto internacional de suas tecnologias. O sucesso não está somente na máquina. Está no sistema construído ao redor dela.
A Noruega possui aproximadamente 3.900 máquinas automáticas distribuídas em 3.500 pontos de coleta, além de milhares de locais que fazem a devolução manualmente. Os supermercados que vendem bebidas também participam do recebimento das embalagens, tornando a devolução conveniente para o consumidor. A recompensa financeira é suficiente para mudar o comportamento do consumidor. Ao mesmo tempo, as embalagens precisam seguir determinadas especificações para que possam ser identificadas, separadas e recicladas com qualidade. Para empresas de bebidas, embalagens, varejo, logística ou bens de consumo, a pergunta mais interessante não é simplesmente como reciclar uma garrafa. É como criar um sistema no qual:
- o consumidor tenha interesse em devolver;
- o varejista tenha estrutura para receber;
- o fabricante ajude a financiar;
- a logística continue eficiente;
- e o material recuperado mantenha valor econômico.
Foi a combinação desses elementos que permitiu transformar uma máquina criada em uma garagem norueguesa em um negócio internacional.
A 45 minutos de Oslo, a economia circular na Noruega, e uma nova forma de fechar o ciclo do plástico
Saindo de Oslo em direção a Holtskogen, a paisagem urbana gradualmente dá lugar às florestas e estradas tranquilas que cercam a capital. É ali, a aproximadamente 45 minutos da cidade, que começou a operar em novembro de 2025 a Områ, uma instalação criada pela TOMRA e pela Plastretur para enfrentar um dos grandes desafios da economia circular: o que fazer com diferentes tipos de plástico depois que eles são descartados. Em vez de uma única corrente de embalagens relativamente padronizadas, como acontece com garrafas e latas, o plástico chega misturado em diferentes formatos, cores e composições. Separá-lo com qualidade suficiente para retornar à indústria é uma tarefa muito mais complexa.
A Områ utiliza sensores para dividir os resíduos em até dez categorias. A instalação tem capacidade para processar 90 mil toneladas por ano, incluindo embalagens que antes tinham como destino principal a incineração. Para um grupo de visitantes, o local revela uma questão estratégica: Como transformar aquilo que chega misturado, contaminado e sem valor aparente em matéria-prima suficientemente previsível para ser novamente utilizada pela indústria?
Essa pergunta interessa muito além das empresas de reciclagem. Ela envolve fabricantes de embalagens, alimentos, cosméticos, produtos de limpeza, redes de varejo, operadores logísticos e todas as marcas que colocam plástico no mercado. A instalação também mostra que pedir ao consumidor que separe melhor os resíduos não resolve tudo. É necessário criar infraestrutura, tecnologia, demanda pelo material reciclado e responsabilidade ao longo de toda a cadeia.
Em Oslo, um prédio construído com pedaços de outros prédios
De volta ao centro de Oslo, uma construção na Kristian Augusts gate apresenta a economia circular de uma forma menos óbvia. À primeira vista, o número 13 da rua parece apenas mais um edifício de escritórios integrado à arquitetura da capital. Mas parte de seus materiais teve uma vida anterior.
Radiadores, estruturas, componentes internos e materiais trazidos de outros projetos foram incorporados à reforma do edifício da década de 1950. Aproximadamente 80% dos materiais foram reutilizados, contribuindo para uma redução estimada de 70% nas emissões relacionadas ao projeto.
O prédio faz parte do FutureBuilt, um programa que utiliza projetos reais para testar novas soluções na construção e no desenvolvimento urbano. A iniciativa busca criar edifícios e áreas urbanas que reduzam substancialmente as emissões e avancem em temas como reutilização de materiais, mobilidade e biodiversidade. O que torna o projeto interessante não é apenas o volume de materiais recuperados. A reutilização obrigou arquitetos, construtores e fornecedores a repensarem quase todas as etapas da obra. Foi necessário descobrir antecipadamente quais componentes estariam disponíveis, verificar sua qualidade, desmontá-los sem destruí-los, transportá-los, armazená-los e adaptá-los ao novo edifício.
Nesse modelo, uma demolição deixa de ser apenas o fim de um prédio. Pode-se tornar uma fonte de portas, estruturas, janelas, tijolos, divisórias e equipamentos para outro projeto. É uma mudança simples de descrever e difícil de executar, o edifício deixa de ser visto como algo descartável e passa a funcionar como um banco temporário de materiais. Para construtoras, incorporadoras, hotéis, escritórios, shopping centers, arquitetos e fabricantes de materiais, isso altera a forma de calcular custo, prazo, valor residual e risco. A economia circular começa, portanto, muito antes da reciclagem. Ela começa no desenho: na possibilidade de reparar, desmontar, adaptar e reutilizar aquilo que está sendo construído hoje.
Fredrikstad e a segunda vida das baterias
Aproximadamente uma hora ao sul de Oslo, a charmosa cidade de Fredrikstad abriga uma das respostas norueguesas a uma pergunta cada vez mais urgente: o que acontece com as baterias dos veículos elétricos quando elas chegam ao fim da vida útil?
A adoção de carros elétricos criou um novo desafio. Substituir motores a combustão reduz determinadas emissões, mas aumenta a demanda por lítio, níquel, manganês, cobre, alumínio e outros materiais. Jogar fora uma bateria significa perder recursos valiosos e aumentar a necessidade de extrair novas matérias-primas.
A Hydrovolt iniciou operações comerciais em Fredrikstad com capacidade para processar aproximadamente 12 mil toneladas de baterias por ano. A empresa afirma conseguir recuperar mais de 90% dos materiais presentes nas baterias processadas. A instalação conecta duas das transformações mais importantes da economia contemporânea, a eletrificação dos transportes e a segurança no acesso a matérias-primas.
Para empresas automotivas, de energia, armazenamento, mineração, logística e gestão de resíduos, a reciclagem de baterias não é apenas uma questão ambiental. É uma forma de reduzir desperdício, recuperar materiais críticos e diminuir a dependência de cadeias internacionais vulneráveis. Em 2026, a Hydrovolt anunciou novas parcerias relacionadas à reciclagem de baterias de veículos elétricos no mercado norueguês, mostrando como a circularidade depende da construção de uma rede que começa no proprietário do veículo e passa por fabricantes, oficinas, transportadores e recicladores.
Economia circular na Noruega e Escandinávia
Seria tentador terminar essa viagem apresentando a Noruega como um país no qual nada é desperdiçado. Mas essa não seria uma descrição honesta. A Noruega continua tendo um consumo de materiais e não consegue reaproveitar todos os recursos que utiliza. Essa contradição torna a viagem mais interessante. Pois, a Noruega não oferece uma fórmula pronta para ser copiada. Ela oferece empresas, edifícios, instalações e experiências que permitem observar onde a economia circular está funcionando, onde ainda esbarra em custos e regulação e quais negócios podem surgir para preencher essas lacunas.
A TOMRA mostra como a conveniência e um incentivo financeiro podem mudar o comportamento do consumidor. A Områ mostra que a coleta só gera valor quando existe infraestrutura capaz de transformar resíduos em materiais utilizáveis. O edifício da Kristian Augusts gate mostra que reutilizar exige planejamento, informação e uma cadeia preparada para trabalhar de outra forma. A Hydrovolt mostra como um problema criado pela eletrificação pode dar origem a uma nova indústria de recuperação de matérias-primas. Em todos os casos, a sustentabilidade não aparece como um departamento isolado. Ela se conecta a tecnologia, logística, produto, fornecimento, custo, regulação e estratégia.
O que empresas brasileiras podem aprender sobre sustentabilidade e economia circular viajando para a Noruega e paises nordicos?
Uma viagem empresarial pela economia circular na Noruega ou em países nórdicos pode interessar a organizações muito diferentes. Para uma empresa de bebidas ou varejo, o ponto de partida pode ser a logística reversa e a participação do consumidor. Para uma indústria de alimentos, cosméticos ou bens de consumo, pode ser o redesenho das embalagens e a responsabilidade sobre o que acontece depois da venda. Para uma construtora ou incorporadora, a discussão pode estar na reutilização de materiais, na reforma de edifícios existentes e na criação de valor residual. Para empresas automotivas, de energia e mineração, o interesse pode estar na recuperação de matérias-primas críticas. Para bancos e investidores, a pergunta pode ser quais modelos circulares conseguem gerar receita, reduzir risco ou proteger empresas contra a escassez de recursos.
A viagem não precisa oferecer a mesma resposta para todos. Sua função é aproximar cada grupo das empresas, dos especialistas e das experiências mais relevantes para o desafio que está tentando resolver.
Quando a visita deixa de ser turismo corporativo
Conhecer uma instalação ou ouvir a apresentação de uma empresa não garante aprendizado. Uma imersão executiva precisa começar antes do embarque, com uma pergunta clara: Qual problema estratégico a organização pretende compreender melhor?
A partir dela, a agenda pode combinar conversas com empresas, projetos urbanos, centros de inovação e especialistas. As visitas dependem de disponibilidade e precisam ser construídas de acordo com o setor, o perfil dos participantes e o objetivo da organização. Durante a viagem, o valor não está apenas em observar uma tecnologia. Está em descobrir:
- por que determinada solução foi criada;
- como o modelo é financiado;
- quais parceiros precisaram colaborar;
- que obstáculos surgiram;
- o que ainda não funciona;
- e quais elementos poderiam ser adaptados a outro mercado.
É isso que transforma uma viagem pela Noruega e paises nordicos em uma experiência empresarial e uma sequência de visitas em uma jornada capaz de gerar novas perguntas, conexões e possibilidades de ação.
A rota termina, mas o material continua circulando. A garrafa volta ao supermercado. A janela reaparece em outro prédio. A bateria se transforma em matéria-prima. E aquilo que antes era tratado apenas como descarte começa a revelar seu valor como recurso, tecnologia e oportunidade de negócio.
Conheça a economia circular onde ela está acontecendo
A The Nordic Way cria imersões executivas sob medida na Noruega e nos países nórdicos para empresas, universidades e grupos de liderança interessados em economia circular, inovação sustentável e novos modelos de negócio.
Fonte: Estadão






