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Emprego em tecnologia também é política de cidade

Jamile Sabatini Marques
Jamile Sabatini Marques
Jamile Sabatini-Marques é referência brasileira em ecossistemas de inovação, fomento e políticas públicas de tecnologia. Diretora de Inovação, Fomento e Pesquisa e Diretora do Think Tank da ABES – Associação Brasileira das Empresas de Software, em parceria com o IEA-USP. Pós-doutora em Desenvolvimento Baseado no Conhecimento (UFSC/IEA-USP). Atua como professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS), no curso de Planejamento e Gestão de Cidades Sustentáveis.

Um ecossistema digital gratuito mostra como qualificação, emprego remoto e governança aberta reduzem a desigualdade entre grandes centros e cidades do interior.

Uma cidade só é verdadeiramente inteligente quando melhora a qualidade de vida das pessoas. A tecnologia é o meio para chegar lá e um dos meios mais diretos é o mercado de trabalho que ela cria. É esse pensamento que sustenta a RH Tech, plataforma gratuita de empregabilidade e qualificação em tecnologia que a ABES – Associação Brasileira das Empresas de Software mantém desde 2022 — e que nasceu, na origem, como um projeto de cidade.

A tecnologia comprime distância geográfica de um jeito que poucos setores conseguem replicar, mas de uma forma que consegue também atingi-los. Um profissional qualificado numa cidade pequena do interior presta serviço remoto para uma grande empresa em São Paulo ou no exterior, da área tecnologia ou não. É o mesmo trabalho com a mesma remuneração, mas sem precisar migrar. É a promessa concreta do mercado de trabalho em tecnologia: redistribuir oportunidade geograficamente, algo raro na indústria tradicional.

A pesquisa que deu origem à plataforma nasceu na Universidade de São Paulo, entre 2021 e 2024, dentro do Programa Global Cities do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), em parceria com a professora Roseli de Deus Lopes. O projeto intitulado como: O Setor de tecnologia como motor de desenvolvimento sustentável, gerando emprego, renda e competitividade — e cidades menos desiguais. A ABES adotou esse resultado de pesquisa, financiou seu desenvolvimento tecnológico e o transformou na plataforma RH Tech em 2022.

A literatura sobre plataformas urbanas costuma pensar no nível do governo municipal: prefeituras que usam dados e participação digital para melhorar serviços públicos. A RH Tech, por sua vez, aplica esse raciocínio a uma organização setorial, com atuação multiestadual, sem território fixo, cuja missão mira explicitamente gerar resultados de cidades. A plataforma é parte de uma associação empresarial operando como orquestradora de um ecossistema de conhecimento, em escala nacional. Há um eco da economista Elinor Ostrom nesse desenho: conhecimento e qualificação funcionam como bem comum, que floresce sob governança coletiva do acesso: regras claras, curadoria de qualidade, participação de quem usa e de quem contribui.

Os números sustentam essa leitura. Mais de 40 mil acessos acumulados desde o lançamento. Mais de vinte parceiros (empresas, escolas técnicas, organizações da sociedade civil) sustentando hubs de vagas, cursos gratuitos e um painel de inteligência do mercado de trabalho. Reconhecimentos externos e independentes confirmam o resultado: Troféu IOS de Impacto Social (IOS, 2023), Prêmio Empregabilidade Jovem (CIEE) em duas edições (2023 e 2024) e o primeiro lugar no Prêmio Marco Maciel (ABRIG, 2025)

Outro dado interessante a ser analisado é que mulheres são mais da metade da força de trabalho brasileira, mas ocupam hoje 16% dos profissionais de tecnologia mapeados pela plataforma. Pesquisas de mercado apontam que este percentual pode ser ainda menor. A RH Tech responde a esse desequilíbrio com parceiros do terceiro setor dedicados a mudar esse quadro como Reprograma e Programaria, que formam mulheres para o desenvolvimento de software, ao lado de organizações voltadas à inclusão racial e socioeconômica no setor. Formar mais gente por meio desses programas é desenvolvimento econômico baseado em conhecimento em ação, ampliando a competitividade do setor e reduzindo a desigualdade na vida das cidades.

Cidade inteligente é a cidade que qualifica quem mais precisa de oportunidade. A tecnologia é o instrumento; a governança de plataformas setoriais, bem desenhada, é o caminho para um país mais digital e menos desigual.

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