Serviço gratuito é realizado por videochamada pelo Meu SUS Digital e também atende familiares; pacientes podem receber inicialmente até dez consultas com psicólogo
O Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou o atendimento destinado a pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas online. A capacidade do serviço passou de cerca de 600 teleconsultas mensais para até 100 mil atendimentos por mês.
As consultas são gratuitas e realizadas por videochamada. O acesso começa pelo aplicativo Meu SUS Digital, permitindo que o usuário busque acompanhamento de saúde mental sem precisar sair de casa. Familiares de pessoas que enfrentam dificuldades relacionadas às bets também podem utilizar o serviço.
A iniciativa começou em março por meio de uma parceria entre o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS) e o Hospital Sírio-Libanês. Segundo o Ministério da Saúde, a procura superou as expectativas e levou à ampliação da capacidade.
A estratégia tenta enfrentar também uma das barreiras para que pessoas com problemas relacionados às apostas procurem tratamento: o constrangimento em falar sobre a situação.
“Muitas vezes, as pessoas não procuram ajuda por vergonha ou estigma. Com o autoteste e o teleatendimento, elas podem identificar sinais de risco e se sentir mais à vontade fazendo esse atendimento em casa”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante o anúncio da expansão.
Como pedir atendimento pelo SUS?
O primeiro passo é ter o aplicativo Meu SUS Digital instalado no celular e entrar com uma conta Gov.br. Na página inicial, o usuário deve acessar a área “Miniapps”. Em seguida, precisa selecionar a opção “Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Quem Aposta”.
Antes de chegar à consulta, a pessoa responde a um autoteste. A ferramenta ajuda a identificar possíveis sinais de comportamento de risco relacionados aos jogos e apostas.
Depois dessa etapa, o aplicativo direciona o usuário para a plataforma da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS).
É necessário aceitar os termos de uso, preencher um formulário e informar para quem será solicitado o atendimento. A consulta pode ser destinada tanto à própria pessoa que aposta quanto a um familiar.
Ao finalizar o cadastro, o sistema gera um protocolo para acompanhamento da solicitação. Quando o atendimento é agendado, o paciente recebe as orientações necessárias e um link para acessar a videochamada.
Consulta dura aproximadamente 50 minutos
O acompanhamento ocorre remotamente e cada consulta dura cerca de 50 minutos. A recomendação inicial é que as sessões sejam realizadas uma vez por semana. A frequência, entretanto, pode mudar conforme a avaliação do profissional responsável pelo acompanhamento.
Em um primeiro momento, o paciente poderá realizar até dez consultas com um psicólogo. Depois desse período, o caso passa por nova avaliação.
Dependendo das necessidades identificadas, o paciente poderá receber alta, continuar sendo acompanhado por teleconsulta ou ser encaminhado para atendimento presencial na rede pública.
Entre as possibilidades estão os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e as Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
A iniciativa não se limita às pessoas que apostam. Familiares também podem solicitar atendimento para receber orientações sobre como enfrentar a situação e lidar com os impactos provocados pelo comportamento relacionado aos jogos.
A equipe envolvida no serviço conta com psicólogos, enfermeiros e outros profissionais capacitados para acolher os usuários.
Caso seja identificada a necessidade de um acompanhamento diferente ou mais intensivo, o paciente poderá ser direcionado aos serviços presenciais disponíveis pelo SUS.
Quando apostar deixa de ser apenas diversão?
Nem toda pessoa que realiza uma aposta desenvolve um transtorno relacionado ao jogo. Alguns comportamentos, entretanto, podem indicar que a relação com as bets está provocando prejuízos.
Entre os sinais que merecem atenção estão a dificuldade para controlar a frequência ou o dinheiro gasto, tentativas repetidas e frustradas de parar, comprometimento das finanças e impactos sobre relações familiares, trabalho ou estudos.
Outro comportamento preocupante ocorre quando a pessoa continua apostando na tentativa de recuperar valores que já perdeu, entrando em um ciclo de prejuízos sucessivos.
É justamente nesse contexto que a avaliação profissional pode ajudar a identificar a dimensão do problema e estabelecer a estratégia de acompanhamento mais adequada.
É possível bloquear o próprio CPF nas bets
Além do atendimento em saúde mental, o governo federal mantém uma ferramenta voltada a quem deseja impedir o próprio acesso às plataformas de apostas autorizadas no Brasil.
Por meio da Plataforma Centralizada de Autoexclusão, o usuário pode solicitar voluntariamente o bloqueio do CPF nas casas de apostas regulamentadas.
A medida funciona como uma barreira adicional para pessoas que decidiram parar de apostar ou identificaram dificuldade para controlar o comportamento.
Segundo dados divulgados pelo governo, mais de 1 milhão de pessoas já utilizaram a ferramenta.
Entre os usuários, 35% apontaram a perda de controle sobre o jogo como motivo para solicitar a autoexclusão. Outros 15,26% afirmaram simplesmente ter decidido parar de apostar, enquanto 11,82% mencionaram dificuldades financeiras. Em 1,32% dos casos, a decisão ocorreu após recomendação de um profissional de saúde.
Copa do Mundo aumentou procura por bloqueio
O volume de pedidos de autoexclusão também apresentou crescimento durante a Copa do Mundo.
Entre 11 de junho e 19 de julho, 387.645 pessoas solicitaram o bloqueio do CPF nas plataformas.
O número corresponde a aproximadamente 38% de todas as solicitações registradas pela ferramenta, segundo os dados divulgados pelo governo.
A combinação entre a popularização das plataformas digitais, a facilidade para realizar apostas pelo celular e a intensa publicidade em torno dos jogos esportivos ampliou a preocupação das autoridades com os possíveis impactos sobre a saúde mental e financeira da população.
Atendimento pode começar dentro de casa
Com a expansão anunciada pelo Ministério da Saúde, o SUS aposta justamente na facilidade do acesso remoto para alcançar quem ainda não procurou uma unidade presencial.
A capacidade de até 100 mil teleatendimentos mensais representa um salto expressivo em relação às aproximadamente 600 consultas que podiam ser realizadas anteriormente.
Quem identificar que as apostas deixaram de ser apenas entretenimento pode iniciar o processo pelo próprio celular. Após o autoteste e o cadastro, o usuário poderá receber acompanhamento profissional e, quando necessário, ser encaminhado para continuidade do tratamento presencial na rede pública.
Fonte: Diário do Litoral






