Num ano de renovação política, é fundamental aprender com o
passado e saber fazer as escolhas certas para o futuro do país
A importante revista inglesa “The Economist” publicou no início de agosto uma reportagem cobrindo de elogios a Embraer, a empresa brasileira de aeronaves.
Num momento de volta do debate sobre qual é o melhor modelo de industrialização do Brasil, essa é uma leitura muito oportuna.
Ela nos faz refletir sobre qual é a vocação da indústria brasileira e quais setores deveriam ser estimulados e apoiados para viabilizar a “neoindustrialização”.
Três décadas depois de privatizada, a Embraer é a terceira maior fabricante de aviões do planeta, atrás apenas da Boeing e Airbus, com uma carteira de pedidos de US$ 34,5 bilhões e linhas de montagem lotadas pelos próximos 20 anos.
É líder mundial em aviação regional e executiva, entrou com sucesso na aviação militar e, agora, se prepara para revolucionar o mercado de táxi aéreo com o Eve, o veículo elétrico voador (e-VTOL) previsto para operar comercialmente em 2027.
A Embraer é o exemplo mais visível de uma história de liderança do Brasil em soluções inovadoras de transporte.
Uma história de pioneirismo que começa com Bartolomeu de Gusmão e Santos Dumont, avança com os combustíveis renováveis, passa pelos carros elétricos Gurgel e desemboca na moderna indústria nacional de ônibus elétricos, motores e baterias.
Se olharmos para trás, veremos que os capítulos mais brilhantes da industrialização brasileira estão associados ao setor de transporte. É uma vocação nacional, definida pelas dimensões continentais do país e impulsionada pela rápida urbanização do século 20.
Impulsionar vocações econômicas exige respeito às características de cada país e forte interação entre um complexo conjunto de fatores sociais, políticos e até geográficos.
Nas últimas décadas, várias dessas megatendências foram bem-sucedidas: internet e inteligência artificial nos EUA, semicondutores em Taiwan, celulares e telecomunicações na Escandinávia, eletrônicos portáteis no Japão do pós-guerra, informática e indústria pesada na Coreia do Sul, carros elétricos e baterias na China, etc.
A grande vocação industrial brasileira é o transporte de pessoas e carga, por diferentes modais. Por vários motivos, temos as melhores condições de nos tornarmos líderes globais nesse setor, posto que já ocupamos no passado.
Em 1975, o Proálcool colocou o Brasil na fronteira mundial da tecnologia de transporte, ao criar as bases da primeira indústria viável de biocombustíveis.
Foi um programa que uniu a histórica vocação econômica nacional desde a Colônia – o ciclo da cana-de-açúcar – à nova vocação industrial inaugurada com a chegada da indústria automobilística, no governo Juscelino Kubitschek.
A parceria estratégica entre o setor de etanol e o setor automotivo produziu a mais inovadora resposta global às crises do petróleo de 1973 e 1979 e garantiu dinamismo à indústria brasileira por quase 50 anos.
Hoje, a vocação permanece a mesma, mas a inovação tecnológica e o combate às mudanças climáticas exigem percorrer novos caminhos.
Não mais a coalizão poluidora da cana-de-açúcar com os motores a combustão, mas a aposta em veículos fabricados no Brasil e impulsionados por energia abundante e barata, produzida por uma matriz de geração de eletricidade 90% limpa e renovável.
Em 1999, a nascente indústria nacional de transporte público sustentável fabricou o primeiro ônibus elétrico híbrido operacional do mundo. Em 2013, o primeiro ônibus 100% elétrico do Brasil.
“Em 2017, a Volkswagen escolheu a tecnologia de duas empresas brasileiras (Eletra e WEG) para produzir os primeiros caminhões elétricos da linha e-Delivey, lançados naquele mesmo ano em Hamburgo”.
Nos últimos dois anos, fábricas de carros elétricos instaladas no Brasil (BYD e GWM) lançaram os primeiros veículos híbridos elétricos plug-in (PHEV) movidos a etanol.
Na Zona Franca de Manaus e outros estados, começa a surgir uma florescente indústria de veículos elétricos levíssimos (motos e e-bikes), que podem ser a base para as mais diversas aplicações, da indústria de defesa à de semicondutores.
Em matéria de transporte sustentável, o Brasil tem história e tem vocação.
Por isso mesmo, neste ano eleitoral, é fundamental que as futuras lideranças políticas aprendam com as lições do passado e saibam identificar as melhores vocações industriais do Brasil, valorizando as vantagens comparativas do país.
Em novembro de 1974, um visionário engenheiro paulista apresentou o primeiro carro elétrico brasileiro no Salão do Automóvel de São Paulo, o Gurgel Itaipu E150. Elon Musk era apenas uma criança de três anos.
Mas o Brasil daquela época não teve a sensibilidade de perceber o nascimento do novo, matando o sonho pioneiro de João Amaral Gurgel.
Nos Estados Unidos, ao contrário, um forte alinhamento de fatores permitiu que aquele jovem visionário sul-africano revolucionasse não apenas o setor automotivo, mas toda a indústria do século 21. As escolhas têm consequências.






