
Nos últimos dois anos, a IA generativa deixou de ser um experimento de laboratório para se tornar parte da rotina de boa parte das prefeituras brasileiras. Isso não é uma projeção de futuro: é o retrato do presente. A pesquisa TIC Governo 2025, do Cetic.br, mostra que 31% das prefeituras já possuem alguma iniciativa de uso de IA generativa em processos internos, e 17% já a aplicam diretamente em serviços voltados ao cidadão. O número ainda é modesto perto da esfera federal, onde 65% dos órgãos usam a tecnologia internamente, mas o movimento é claro: a máquina pública municipal está, aos poucos, incorporando ferramentas que escrevem, resumem, classificam e até decidem.
A pergunta que interessa não é mais se a IA generativa vai chegar à gestão municipal. Ela já chegou. A pergunta é: com que solidez institucional ela está sendo adotada?
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Onde a tecnologia já está sendo usada de verdade
O caso mais consistente talvez seja o de Porto Alegre. A Procempa, companhia de tecnologia da prefeitura, desenvolveu o SmartGen, uma plataforma própria de IA generativa hospedada em data center municipal, justamente para manter o controle sobre a privacidade dos dados. A ferramenta já foi integrada ao sistema de regulação de internações do SUS na cidade, oferecendo ao médico regulador mais elementos para apoiar decisões sobre prioridade de leitos. O ponto relevante aqui não é apenas o resultado, mas o desenho: infraestrutura própria, escopo definido e a tecnologia posicionada como apoio à decisão humana, não como substituta dela.
No atendimento ao cidadão, a mudança é mais silenciosa, mas igualmente concreta. O canal via WhatsApp e Telegram já responde por 64% do atendimento nas prefeituras brasileiras, atrás apenas do telefone. Por trás desses canais, cresce o uso de assistentes virtuais capazes de emitir segunda via de IPTU, consultar andamento de alvará ou gerar certidões, sem depender da abertura de novos concursos públicos em um cenário de teto de gastos cada vez mais apertado.
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No licenciamento, o uso mais maduro ainda está concentrado na fase interna dos processos: elaboração de documentos técnicos como Termos de Referência, Estudos Técnicos Preliminares e mapas de risco em licitações, seguindo a Lei nº 14.133/2021. É um uso menos visível ao cidadão, mas que já reduz tempo de tramitação em processos que historicamente travavam nas secretarias.
Já na previsão orçamentária, a IA generativa aparece como camada de apoio à análise: cruzamento de indicadores financeiros, identificação de irregularidades em contratos, leitura de séries históricas de arrecadação. É um uso ainda inicial nos municípios, mas que caminha na direção do que a literatura chama de governança algorítmica: decisões públicas cada vez mais mediadas por sistemas que processam volumes de dados que nenhuma equipe conseguiria analisar manualmente em tempo hábil.
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O risco da IA de vitrine
O problema é que, para boa parte dos municípios brasileiros, a adoção segue mais pelo discurso do que pela estrutura. A mesma pesquisa TIC Governo aponta que a falta de capacitação é o principal obstáculo para o avanço da IA nas prefeituras, citada por 40% delas- à frente até da falta de prioridade orçamentária (36%) e dos custos elevados (34%). Apenas 14% das prefeituras oferecem treinamento sobre o tema aos servidores, e só 10% dispõem de algum guia ou diretriz de uso.
Esse hiato entre anúncio e capacidade técnica é o que venho chamando de IA de vitrine: a prefeitura contrata ou anuncia uma ferramenta de inteligência artificial, ganha uma nota de imprensa favorável, mas não tem estrutura de dados organizados, servidores capacitados ou governança mínima para sustentar o uso responsável daquilo no médio prazo. E o risco não é apenas de ineficiência. É de dano institucional.
Toda ferramenta de IA generativa opera sobre uma base de dados, e essa base carrega escolhas humanas anteriores. Sem auditoria, sem explicabilidade e sem qualidade mínima dos dados de entrada, o sistema pode reproduzir exatamente os mesmos vieses e falhas que a tecnologia prometia corrigir. A literatura sobre o tema já tem um nome para isso: a caixa-preta algorítmica, aquela opacidade que torna quase impossível auditar como uma decisão automatizada foi tomada. No Brasil, esse risco ganha um agravante jurídico: a LGPD protege a privacidade dos dados, mas não garante ao cidadão o direito à explicação sobre uma decisão automatizada que o afete, como já assegura o RGPD europeu.
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Há ainda um precedente nacional que serve de alerta sobre o que acontece quando digitalização acontece sem governança suficiente por trás: o Cadastro Ambiental Rural, criado para ordenar o território, mas que em muitos casos acabou sendo usado para legitimar ocupações irregulares de terra pública, por falta de controle sobre o próprio sistema. A lição não é contra a tecnologia. É sobre o que a sustenta.
O que separa eficiência de vitrine
A diferença entre os dois cenários não está na ferramenta escolhida, mas em três pilares que raramente aparecem nos anúncios de lançamento: dados organizados e atualizados, servidores capacitados para operar e questionar criticamente o que a máquina entrega, e mecanismos claros de responsabilização quando o sistema erra. Nenhum desses três pilares se resolve com a assinatura de um contrato de licença de software.
A IA generativa tem um potencial real de tirar prefeituras do atraso operacional que as sufoca há décadas, especialmente as de menor porte, que dificilmente teriam orçamento para contratar as centenas de servidores que hoje um assistente virtual consegue substituir em tarefas repetitivas. Mas esse potencial só se converte em ganho público duradouro quando a tecnologia é tratada como o que ela é: infraestrutura crítica de decisão, e não um item de modernização estética. A cidade que confunde uma coisa com a outra corre o risco de trocar a fila no balcão por uma fila invisível, mediada por um algoritmo que ninguém no município sabe explicar.

Paula Faria é empreendedora, fundadora e CEO da Necta, empresa responsável pelas plataformas CSC e P3C, referências nacionais na articulação entre governos, empresas e especialistas para o desenvolvimento das cidades e da infraestrutura no Brasil.
Há mais de uma década, lidera a construção de ecossistemas permanentes de inteligência, relacionamento e desenvolvimento de mercado, reunindo lideranças públicas e privadas por meio de eventos, rankings, certificações, programas de educação e iniciativas estratégicas que impulsionam políticas públicas, investimentos e inovação.
Também é Diretora da Vertical de Cidades Inteligentes da ABES, contribuindo para o fortalecimento da agenda de transformação digital e desenvolvimento urbano no país.





