O fortalecimento da indústria, da inovação e da formação em STEM é essencial para que o Brasil avance na construção de sua autonomia tecnológica.
No nosso último artigo, discutimos como a atual conjuntura internacional colocou o tema da soberania digital no centro do debate. Em um cenário marcado pelo aprofundamento das disputas geopolíticas, pela reorganização das cadeias de valor e pelo avanço da inteligência artificial, reforçamos a importância do investimento na formação de mão-de-obra nas disciplinas STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) para o desenvolvimento nacional.
Agora em junho, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresentou o documento Construindo o Brasil 2050 aos pré-candidatos à Presidência da República. Nele, incluiu entre as prioridades a consolidação de políticas industriais e de formação em STEM, reconhecendo que a competitividade nacional depende do fortalecimento de uma agenda positiva e de longo prazo.
Políticas públicas voltadas à industrialização permitem ao país criar e proteger ativos que sustentam a economia, os serviços essenciais e a segurança. Em meio a uma pauta fragmentada, esse desafio tornou-se prioridade nacional.
Nesse contexto, a expressão soberania digital revela a importância da tecnologia para a economia. Em sua essência, é a propriedade sobre recursos tecnológicos. Quanto maior a dependência de plataformas externas, menor é a liberdade de um país para proteger os interesses de sua população, incluindo a defesa de seu território.
O Índice de Soberania Digital (ISD), apresentado em maio de 2026 pelo BRICS+ Tech Forum, comprova essa questão. Desenvolvido por um consórcio de pesquisadores brasileiros e instituições parceiras, o estudo avaliou 86 países e procurou medir como uma nação transforma conhecimento, infraestrutura e governança em poder tecnológico. O estudo analisa categorias como produtividade, políticas digitais e pesquisa científica.
Os resultados apontam que os países que ocupam posições de liderança são aqueles que conseguem influenciar os rumos do desenvolvimento tecnológico. No atual momento, esse grupo é formado por um número reduzido de nações:
- China: nas últimas décadas, o país transformou tecnologia em política de Estado e articulou investimentos de longo prazo com uma estratégia consistente de estímulo à industrialização. O resultado é visível na expansão da infraestrutura digital, na liderança em redes 5G e na consolidação de empresas capazes de competir globalmente. Com mais de 1 bilhão de usuários conectados e a maior rede 5G do mundo, a China demonstra como escala e planejamento podem se reforçar mutuamente.
- França: a segunda colocada no ISD tem 68 milhões de habitantes e consolidou uma política consistente de segurança cibernética e autonomia tecnológica. A participação francesa em iniciativas como o Gaia-X, voltado à soberania de nuvem, mostram que a governança também se tornou um ativo da competitividade tecnológica.
- Rússia: a terceira colocada avançou em áreas essenciais de defesa nacional. Nos últimos anos, o país investiu em plataformas digitais nacionais e infraestrutura crítica, reduzindo a dependência de fornecedores externos. A combinação entre governança tecnológica e capacidade de resposta a restrições internacionais contribuiu para sua posição no índice.
- Estados Unidos: o quarto colocado segue como uma potência digital por concentrar grande parte das empresas que moldam a economia baseada em dados. Os maiores provedores de computação em nuvem e muitos dos líderes mundiais em semicondutores estão sediados no país. A combinação entre universidades e empresas criou um ecossistema tecnológico que continua influenciando a transformação digital em grande escala.
O Brasil aparece na 48ª posição, revelando deficiências, mas também acertos. O país possui ativos importantes, incluindo um mercado consumidor de cerca de 183 milhões de usuários de internet (equivalente a mais de 86% da população), universidades de excelência, um sistema financeiro altamente digitalizado e crescente capacidade de inovação. Entretanto, ainda depende significativamente de tecnologias estrangeiras nos segmentos que hoje concentram maior valor estratégico.
Ao mesmo tempo, o Brasil iniciou movimentos relevantes para fortalecer a soberania digital. Iniciativas como o Gov.br, a Estratégia de Governo Digital, a Nuvem de Governo e a Infraestrutura Nacional de Dados demonstram a importância do tema. O Gov.br ultrapassou a marca de 176 milhões de usuários, reunindo mais de 13 mil serviços públicos (cerca de 4.600 federais e 8 mil estaduais e municipais). Soma-se a isso a criação do Comitê Interministerial para a Transformação Digital (CITDigital), responsável por coordenar ações voltadas à modernização do Estado e à integração das políticas digitais nacionais.
O desafio, entretanto, está em conectar esses esforços a uma estratégia industrial mais ampla e de longo prazo. Fortalecer a formação em STEM continua sendo essencial, assim como ampliar a conectividade e a integração entre governos, universidades e setores produtivos. Em outras palavras, a soberania digital depende tanto de pessoas qualificadas quanto de indústrias e infraestruturas robustas.
Também é importante compreender que esse processo não se resolve em um único ciclo de governo. Trata-se de uma agenda de Estado, que exige continuidade institucional e capacidade de coordenação. Os países que hoje lideram o índice chegaram a essa posição por transformar a tecnologia em prioridade ao longo dos anos. O Brasil reúne condições para avançar nessa direção.
Em um mundo cada vez mais orientado por dados, a independência digital é um fator que a sociedade, como um todo, deve estar apta a escolher e decidir. Mais do que acompanhar as transformações em curso, o desafio brasileiro é tornar-se protagonista deste desenvolvimento.

Vice-Presidente de Relações Públicas da Huawei na América Latina e Caribe, com contribuição significativa na construção de parcerias que alavancam a transformação digital no Brasil. O executivo já atuou como gestor de Rede e Data Center da Prodam – SP, passando por multinacionais como Cabletron, Enterasys e CISCO, onde foi responsável pela área de Diretorias Regionais de Vendas.





