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O entrave oculto da transição energética brasileira

A transição energética brasileira não depende meramente de tecnologia ou de recursos naturais. Ela dependerá diretamente da capacidade de formar, atrair e reter capital humano

Há uma discussão em curso nos bastidores da transição energética que recebe pouca atenção fora do setor. Quando se pensa em energia limpa, a imagem mais comum envolve fazendas solares, parques eólicos, carros elétricos e metas de descarbonização. No imaginário público, o tema é pautado pela tecnologia, pela urgência climática e pelos bilhões em investimentos necessários para sustentar a transformação.

Esses fatores são, sim, determinantes. Porém, um gargalo menos visível que cresce na mesma velocidade é a falta de capital humano preparado para conduzir essa agenda.

O Brasil já ocupa uma posição privilegiada no cenário global, com dados da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicando que o país é o terceiro maior empregador do segmento no mundo, atrás apenas da China e da União Europeia. Ao mesmo tempo, projeções da Agência Internacional de Energia (IEA) apontam que poderemos alcançar, ainda nesta década, uma matriz elétrica composta por aproximadamente 95% de fontes renováveis.

O ponto crítico está no fato da expansão ter sobreposto a capacidade de formação de talentos. Historicamente, o setor operou em um ritmo mais previsível, concentrado em grandes companhias e ciclos longos de investimento. Contudo, nos últimos anos, a dinâmica mudou completamente, já que a ampliação dos complexos solares e eólicos, o avanço do mercado livre de energia e a chegada de novos investidores pulverizaram o setor.

Na prática, as organizações entraram em uma corrida por talentos. Hoje, empresas que precisam estruturar projetos milionários, muitas vezes em fase de greenfield, disputam os mesmos engenheiros, gestores de ativos, especialistas financeiros e lideranças operacionais. Naturalmente, essas companhias não podem aguardar por uma década até que a oferta de profissionais amadureça da forma esperada.

Um dos primeiros reflexos dessa situação aparece na dinâmica salarial. Em algumas posições, perfis com poucos anos de experiência alcançam remunerações que beiram os R$ 25 mil mensais, em um movimento semelhante ao que aconteceu no segmento de tecnologia durante o auge da disputa por desenvolvedores. Se, por um lado, esses números são indicadores de um setor aquecido, por outro, levantam uma pergunta importante: até que ponto essa inflação salarial é sustentável no longo prazo?

Existe ainda um segundo dilema que chama atenção. As corporações perceberam que a formação técnica, sozinha, não é suficiente. A engenharia se mantém no centro da renovação energética, especialmente em áreas como elétrica, mecânica e civil. No entanto, o perfil profissional mais disputado é aquele que mescla conhecimento técnico, visão estratégica, entendimento regulatório e boas práticas de relacionamento.

Isso porque, no mercado livre de energia, a conversa está longe de ser puramente operacional. Os players relevantes buscam previsibilidade e inteligência de custos. Ou seja, quem participa das negociações precisa entender o negócio do cliente, discutir riscos, fazer leitura de sala e se comunicar com diferentes áreas.

A grande virada de chave passa por compreender que, nesse ambiente, o elétron já existe e é uma commodity. O que está sendo vendido não é a competência de acender lâmpadas, mas soluções de eficiência financeira com foco em grandes consumidores. Ao mesmo tempo, a IA adicionou uma nova camada de transformação, com redes inteligentes, manutenção preditiva e otimização energética em larga escala nas operações das empresas mais maduras.

Há também um fator adicional que tende a pressionar o segmento nos próximos anos. Quando visualizamos o avanço da automação, é comum voltarmos nosso interesse aos softwares e algoritmos. Entretanto, são os data centers que constituem a gigantesca infraestrutura física capaz de sustentar essa revolução. O funcionamento e, principalmente, o resfriamento desses ambientes consomem quantidades colossais de energia.

É justamente nesse ponto que o Brasil pode assumir um protagonismo global, pois poucos países combinam disponibilidade territorial, matriz renovável, estabilidade climática e potencial de expansão energética como o nosso. Em um cenário externo pressionado por restrições ambientais e energéticas, essas características passam a representar uma vantagem competitiva real.

O que fica mais evidente é que nenhuma liderança sustentável será construída exclusivamente com infraestrutura. Em outras palavras, a transição energética brasileira não depende meramente de tecnologia ou de recursos naturais. Ela dependerá diretamente da capacidade de formar, atrair e reter capital humano.

No fim, o maior desafio da energia limpa talvez não seja energético ou tecnológico; seja humano.

Fonte: Época Negócios | Alexandre Mendonça

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