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Inteligência urbana e capacidade humana: o letramento digital na era da inteligência artificial

Débora Zeferino Leoratto
Débora Zeferino Leoratto
Engenheira de Produção com experiência na condução de projetos estratégicos e na otimização de processos. Atualmente atua na Universidade de Caxias do Sul (UCS), com foco especial em iniciativas de Tecnologia da Informação (TI). Possui especializações em Planejamento Estratégico, Processos e Engenharia da Qualidade e Gestão de Projetos. É mestranda no Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Gestão de Cidades Sustentáveis da UCS.

O letramento digital como caminho para integrar tecnologia, pensamento crítico e participação cidadã na construção de cidades mais inteligentes e inclusivas.

Por DÉBORA ZEFERINO e JAMILE SABATINI MARQUES

Quando falamos em cidades inteligentes, é comum pensarmos em tecnologia, grandes volumes de dados e inteligência artificial. Entretanto, a inteligência de uma cidade também depende da capacidade das pessoas de compreender essas informações e utilizá-las para participar das decisões que afetam sua vida.

Uma cidade é formada por cidadãos, comunidades, gestores e servidores públicos. Por isso, a transformação digital precisa considerar tanto a infraestrutura tecnológica quanto a preparação das pessoas. Disponibilizar dados é um passo importante, mas seu valor para a sociedade depende de condições para acessá-los, interpretá-los, questioná-los e comunicá-los com clareza.

É nesse contexto que o letramento digital ganha relevância. Ele envolve a capacidade de utilizar tecnologias de maneira crítica, consciente e responsável. Na era da inteligência artificial, essas competências ajudam a reconhecer os limites das ferramentas e de incorporá-las a uma decisão.

Esse desafio aparece nas organizações. Embora os dados sejam valorizados como fundamento para decisões, sua disponibilidade nem sempre se traduz em uso efetivo. A experiência e a intuição continuam presentes nas escolhas dos gestores, enquanto parte dos profissionais encontra dificuldades para analisar e comunicar informações. O desafio está em integrar o conhecimento das pessoas às evidências disponíveis, com critérios claros e capacidade de análise.
Os números mostram onde investir. Em pesquisa da Qlik com a Censuswide, divulgada por Ripari (2026), 85% dos executivos C-level consideram a alfabetização em dados tão vital quanto usar o computador e 89% esperam que suas equipes expliquem como os dados embasaram as decisões. Ao mesmo tempo, 45% dos próprios líderes admitem recorrer com frequência à intuição, e 11% dos colaboradores se sentem à vontade para ler, analisar e comunicar dados.

Na educação, a expansão do uso da inteligência artificial traz uma questão semelhante. Professores e estudantes incorporam essas ferramentas às suas atividades, mas a orientação para utilizá-las nem sempre acompanha essa adoção. Usar uma ferramenta com frequência não significa compreender seu funcionamento, suas limitações ou as consequências de seu uso. A formação precisa incluir a avaliação crítica das informações, a proteção de dados e a responsabilidade sobre os conteúdos produzidos. Segundo a TALIS 2024, 56% dos professores brasileiros utilizam inteligência artificial, diante de uma média de 36% na OCDE. Entre os que não a utilizam, 64% apontam falta de conhecimento e habilidades (PODER360, 2025). Entre os estudantes do ensino médio que usam a internet, 70% recorrem à IA generativa em pesquisas escolares, mas somente 32% receberam orientação da escola sobre seu uso (CNN BRASIL, 2025).

Essa preparação está diretamente relacionada à participação cidadã. Para contribuir com propostas sobre mobilidade, saúde, educação ou meio ambiente, a população precisa compreender os problemas e as informações que sustentam as alternativas apresentadas. Dados acessíveis, linguagem clara e oportunidades de aprendizagem favorecem o diálogo e a construção coletiva de soluções urbanas.

O desenvolvimento dessas competências também pode fortalecer a elaboração de projetos, a criação de iniciativas na economia digital. Isso exige formação contínua e governança para orientar o uso ético dos dados e da inteligência artificial. A cooperação entre poder público, instituições de ensino, organizações e comunidades pode conectar esse aprendizado às necessidades de cada território.

As lacunas de letramento digital indicam onde políticas e investimentos podem fazer diferença. Uma cidade se torna mais inteligente quando combina tecnologia, governança e capacidade humana. Esse avanço se concretiza quando as pessoas ganham autonomia para compreender informações, avaliar escolhas e participar das decisões que transformam a vida em comunidade.

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