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Inovação que se comporta como água: como expandir a janela do possível no poder público

Luiz Carlos Pinto
Luiz Carlos Pinto
Professor Titular – UFRGS PhD Univ. Leeds Coordenador do PACTO ALEGRE Secretário de Inovação da Cidade de Porto Alegre Vice-presidente do Fórum INOVACIDADES da Frente Nacional de Prefeitos (FNP) Coordenador do Fórum de Gestores de Inovação da GRANPAL Membro do Conselho Superior da FAPERGS Membro do Conselho de Inovação e Tecnologia da Federação de Indústrias do Rio Grande do Sul (CITEC/FIERGS) Membro do Conselho Científico do Plano Rio Grande Membro da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) da CNI Membro do Conselho do Parque Tecnológico de São José dos Campos Membro do Conselho do Parque Científico ZENIT da UFRGS Gestor da ESCOLA DE INOVAÇÃO DE PORTO ALEGRE

A cultura de inovação no setor público não se estabelece com uma revolução tecnológica rápida, mas com a gradual superação de resistências e medos institucionais, consolidada aos poucos, pois muitas vezes o avanço rápido demais gera maior restrição, como nos ajuda a entender a janela de Overton.

Costumo dizer que a inovação no poder público tem que ser como água: ela deve aprender a desviar dos obstáculos mais fortes, continuar a fluir, encontrando caminhos alternativos e, ao longo do tempo, com o acúmulo de interações, lentamente erodir as resistências institucionais ao seu caráter transformador e criador de novos processos e rotinas. 

Essa não é apenas uma frase de efeito. É uma forma que encontrei de simbolizar uma convicção que desenvolvi fazendo a gestão da inovação dentro da Prefeitura Municipal de Porto Alegre e coordenando o Pacto Alegre.

Na ciência política há um conceito que ajuda a entender, de forma mais científica, a importância desse princípio e porque ele não é simplesmente uma busca do caminho mais fácil: a janela de Overton. Esse conceito descreve a faixa de ideias que uma sociedade (ou organização) considera aceitáveis num dado momento. O que está fora dela parece radical ou imprudente. O que está dentro parece sensato. A janela não é fixa, ela se move e se expande, não por decreto nem por grandes atritos, mas pelo acúmulo de pequenos deslocamentos.

No setor público, a janela tem guardas próprios. Não é só a opinião pública que define o que um gestor pode propor. Tribunais de contas, procuradorias e controladorias internas pesam tanto quanto o eleitor. A própria tendência de muitos servidores de se apegar aos caminhos conhecidos acaba gerando resistências e anticorpos à inovação. 

O chamado “apagão das canetas” é um efeito da janela de Overton em ação: o servidor só faz o que cabe na tolerância ao erro de quem vai fiscalizá-lo. 

Inovar no Estado, obviamente, tem como elemento intrínseco o desejo e a coragem de trabalhar para expandir a janela, o mais rapidamente possível, nesses tempos exponenciais.

Mas a pressa em avançar esconde um perigo. Se pressionarmos demais logo no início, a tendência é que haja um movimento de resistência tão forte que acaba incrementando as restrições e preconceitos, fechando ainda mais a janela de possibilidades.

Muitas vezes, quem tenta revolucionar rápido e derrubar a resistência à força acaba não tendo êxito e vê o sistema se tornar ainda mais conservador. A cultura do “sempre foi assim” é dura como pedra, e o atrito frontal com a mesma frequentemente gera desgaste, judicialização e recuo. Daí voltamos ao princípio da inovação como água e de como ele pode nos ajudar a ampliar a janela de Overton, abrindo caminho para a inovação. 

A água não foca represada, ela acha outros caminhos. Ela não discute nem se imobiliza ao encontrar uma pedra: ela a contorna, encontra a fresta possível para avançar e segue.

Desviar significa escolher onde há passagem. Na prática isso pode significar fazer um piloto (prova de conceito) pequeno onde existe um gestor disposto. Avançar num território que topa experimentar. Implementar um instrumento legal novo, como o Contrato Público para Solução Inovadora previsto no Marco Legal das Startups, que reconhece que contratar com risco tecnológico é legítimo. Acaba sendo mais efetivo não travar a batalha onde a resistência é mais encruada; avança-se onde o terreno cede, e aos poucos se altera a paisagem.

A capacidade de água de ao longo do tempo erodir as rochas se manifesta no efeito acumulado dessas pequenas inovações. Cada piloto bem-sucedido, cada parecer favorável, cada norma que institucionaliza uma prática remove um pouco da resistência. O impensável vira precedente, depois rotina, depois lei. A janela de Overton se desloca sem que ninguém perceba em que momento exato isso aconteceu.

E o corolário dessa analogia é ainda mais poderoso: filetes de água ganham força quando se juntam. Pequenos riachos e iniciativas isoladas tem o risco de perder força e evaporem. Quando conectamos os inovadores internos ou compartilhamos a estratégia de inovação com a quadrupla hélice local, o processo deixa de ser esforço de um ator isolado e passa a ser uma ação síncrona e até o consenso de um território. Fios d’água unidos viram correnteza.

Há também os momentos em que a água sobe de repente e as mudanças podem ocorrer de forma rápida. Na minha experiência, a emergência associada às enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul tornou aceitável, em semanas, o que levaria anos: contratações ágeis, compartilhamento de dados, plataformas cívicas. Crises expandem a janela rapidamente. A lição é ter projetos prontos para quando isso acontecer, porque ela pode se fechar rápido passado o momento mais intenso de mobilização social.

Por fim, é interessante destacar, ainda, nessa analogia, que a água não volta para trás e deixa marcas por onde passa, se tiver constância. O leito que um rio cava permanece mesmo que a fonte de água seque. Por isso, institucionalizar a inovação deve ser uma preocupação essencial: transformar o caminho aberto em marco legal, em governança, em cultura organizacional. Assim, a próxima gestão encontra o leito já formado, e o avanço não depende de quem ocupa a cadeira.

O deslocamento mais importante acontece quando o risco muda de lado. Durante muito tempo, o arriscado era inovar. Hoje, cada vez mais, o inaceitável é o serviço analógico, a fila, a cidade sem dados para enfrentar o clima. Quando não inovar sai da janela de Overton, a inovação deixa de precisar de defesa e passa a ser cobrada.

Nada disso dispensa os devidos cuidados. Um fracasso mal comunicado pode fazer a janela de overton recuar anos. Transparência, avaliação e registro do que se aprende são o que torna o progresso sustentável.

A água nunca tem pressa. Tem constância. E nunca interrompe seu caminho até encontrar o mar ou evaporar para tentar outra vez.

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Professor Titular – UFRGS PhD Univ. Leeds Coordenador do PACTO ALEGRE Secretário de Inovação da Cidade de Porto Alegre Vice-presidente do Fórum INOVACIDADES da Frente Nacional de Prefeitos (FNP) Coordenador do Fórum de Gestores de Inovação da GRANPAL Membro do Conselho Superior da FAPERGS Membro do Conselho de Inovação e Tecnologia da Federação de Indústrias do Rio Grande do Sul (CITEC/FIERGS) Membro do Conselho Científico do Plano Rio Grande Membro da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) da CNI Membro do Conselho do Parque Tecnológico de São José dos Campos Membro do Conselho do Parque Científico ZENIT da UFRGS Gestor da ESCOLA DE INOVAÇÃO DE PORTO ALEGRE