Basta falar no fim da escala 6×1 para aparecer uma previsão de preços subindo, empresas sofrendo e informalidade crescendo. Calma, minha gente! Antes de decretar uma segunda-feira eterna para a economia brasileira, precisamos colocar nessa conta a tecnologia, a concorrência e a criatividade de quem empreende.
Defendo olhar para essa mudança com otimismo. Ter mais tempo para a família, o descanso, o estudo ou aquele futebol que vive sendo adiado é uma conquista que merece encontrar caminhos para acontecer. E o brasileiro tem experiência em encontrar caminhos, inclusive quando o aplicativo manda seguir por uma rua impossível.
Aos economistas que projetam repasse automático aos preços, cabe questionar a hipótese de produtividade constante. O custo unitário do trabalho depende da relação entre remuneração e produto por hora trabalhada. Uma redução de jornada pode pressioná-lo, mas o efeito líquido dependerá dos ganhos de eficiência, da reorganização dos fatores de produção e da incorporação tecnológica. O repasse, por sua vez, varia conforme a elasticidade-preço da demanda, a estrutura concorrencial e as margens das empresas. Sem explicitar essas variáveis, a previsão corre o risco de transformar uma hipótese estática em sentença econômica.
Tampouco se pode deduzir aumento inevitável da informalidade a partir da redução da jornada. A composição ocupacional responde à demanda por trabalho, aos custos de formalização, ao ambiente institucional e às possibilidades de substituição e complementaridade entre capital e trabalho. Trabalho autônomo formalizado não equivale a ocupação informal. Uma análise dinâmica precisa considerar inovação organizacional, novos mercados e ganhos de produtividade — inclusive sua distribuição entre salários, lucros, preços e tempo livre. O resultado exige investigação; não vem pronto na premissa.
Pronto, podemos guardar o economês e voltar à padaria. Entre um café e um pão quentinho, há estoque para organizar, encomenda para receber, desperdício para reduzir e cliente para atender. É nesse cotidiano que a tecnologia precisa mostrar serviço.
A inteligência artificial pode ajudar a prever compras, preparar propostas, organizar agendas e reduzir tarefas repetitivas. Não vai assar o pão por telepatia, mas pode poupar tempo de quem hoje termina o expediente brigando com uma planilha.
O empresário brasileiro também não costuma assistir às mudanças sentado na calçada. Ele testa horários, reorganiza equipes, aprende ferramentas e procura uma solução que caiba no bolso do cliente. Essa capacidade de adaptação merece entrar nas projeções com o mesmo destaque dado aos custos.
Claro que haverá setores com mais dificuldades e empresas que precisarão de apoio na transição. É justamente aí que qualificação, planejamento e acesso à tecnologia fazem diferença. Pequeno negócio precisa de ferramenta que funcione, orientação acessível e menos complicação para melhorar sua produtividade.
Também poderão surgir oportunidades para profissionais autônomos que usem tecnologia para oferecer serviços. Autonomia de verdade, com formalização e proteção previdenciária, merece espaço. Já disfarçar emprego de prestação de serviço continua sendo uma velha prática, mesmo que venha embrulhada em aplicativo novo.
E pense na cidade com mais gente tendo tempo para vivê-la: frequentar o comércio do bairro, passear no parque, fazer um curso, cuidar da saúde. Para quem trabalha com cidades inteligentes, há uma provocação boa aí: de que adianta conectar todos os equipamentos se as pessoas nunca têm tempo de se encontrar?
O consumidor continuará exigente, comparando preço, qualidade e atendimento. Quem conseguir entregar uma boa combinação terá melhores chances de prosperar. Minha aposta é que essa pressão ajudará a estimular soluções melhores, com empresas aprendendo e o mercado encontrando novas formas de se organizar.
Por isso, aos que já encomendaram o desastre, proponho deixar uma cadeira livre para a inovação. O Brasil pode construir uma transição que combine produtividade, oportunidades e mais tempo para viver. Se a tecnologia promete transformar tanto o trabalho, está na hora de ajudar também a liberar a agenda para o almoço de domingo.

Formado em Economia (UFPE), é Auditor Tributário do Tesouro Estadual. No Governo de Pernambuco, foi Gerente Geral de Ações Governamentais do Pacto pela Vida, Secretário Executivo de Gestão por Resultados da SEPLAG, Secretário de Justiça e Direitos Humanos, CEO do Porto de Suape e Secretário Executivo da SEFAZ-PE. Em Recife, foi Secretário de Educação e Presidente da Emprel. Atualmente é Presidente da Associação Nacional das Cidades Inteligentes-ANCITI.





