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Smart Campus: quando a universidade se transforma em laboratório vivo para as cidades do futuro

Débora Zeferino Leoratto
Débora Zeferino Leoratto
Engenheira de Produção com experiência na condução de projetos estratégicos e na otimização de processos. Atualmente atua na Universidade de Caxias do Sul (UCS), com foco especial em iniciativas de Tecnologia da Informação (TI). Possui especializações em Planejamento Estratégico, Processos e Engenharia da Qualidade e Gestão de Projetos. É mestranda no Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Gestão de Cidades Sustentáveis da UCS.

A transformação digital das universidades está produzindo algo maior do que salas conectadas, aplicativos e prédios automatizados. Surge um novo modelo de Campus: um ambiente capaz de integrar tecnologia, sustentabilidade, inovação e qualidade de vida para melhorar a experiência de quem estuda, trabalha, pesquisa e circula por ele. Esse é o princípio do Smart Campus. 

Diferentemente de um Campus digital, o Smart Campus funciona como um ecossistema sociotécnico integrado, no qual convivem tecnologias como internet das coisas, inteligência artificial e computação em nuvem, sensores, sistemas, serviços e pessoas. A inteligência do Campus depende de mais do que tecnologia isolada. Pesquisas científicas recentes apontam uma visão mais ampla, associada à capacidade de transformar o espaço universitário em um ambiente mais eficiente, sustentável, inclusivo e responsivo às necessidades de sua comunidade.

Um dos modelos utilizados para compreender esse ecossistema organiza o Smart Campus em quatro dimensões: Smart Society, relacionada à qualidade de vida e engajamento da comunidade; Smart Economy, voltada à eficiência, inovação e melhor utilização dos recursos; Smart Environment, dedicada à energia, resíduos e redução dos impactos ambientais e Smart Governance que atua nas políticas e gestão integrada de serviços. Outras abordagens ampliam esse olhar e incorporam educação, mobilidade, segurança, tecnologia e qualidade de vida, aproximando o conceito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

A característica mais relevante de um Smart Campus, porém, é sua capacidade de funcionar como uma cidade em miniatura. Universidades possuem edifícios, vias, transporte, redes de energia e água, áreas verdes, serviços, milhares de usuários e desafios semelhantes aos encontrados nos ambientes urbanos. Por terem limites territoriais definidos, tornam-se espaços para experimentar soluções antes de aplicá-las em maior escala. É o conceito de Campus como laboratório vivo: pesquisar, testar, avaliar, corrigir e aprender em condições reais. É justamente aí que o Smart Campus ganha relevância para as cidades inteligentes. Na Espanha, a Universidade de Alicante desenvolveu uma arquitetura orientada a serviços que conecta sensores distribuídos pelo Campus, formando uma “pele digital”. Essa estrutura permite monitorar vagas de estacionamento em tempo real, gerenciar recargas de veículos elétricos e otimizar o consumo de água e eletricidade. Já a Universidade de Málaga, também na Espanha, implementou um sistema cibernético-físico de baixo custo baseado em IoT para rastrear o fluxo de veículos e pedestres e monitorar a poluição sonora, auxiliando os gestores no agendamento de aulas para evitar picos de ruído.

Na China, a Hunan University of Technology and Business utiliza uma plataforma integrada de Big Data, IoT e Inteligência Artificial que cruza dados comportamentais e espaciais dos alunos. O sistema emite alertas preventivos de risco de evasão estudantil, auxilia na avaliação do ensino, apoia a inserção profissional dos graduados e reforça a segurança física da instituição. Nos EUA, a University of California destaca-se por iniciativas como painéis solares em estacionamentos, mesas solares para recarga de dispositivos e a substituição de gás natural por biometano, priorizando a reciclagem de resíduos e a conservação hídrica.

O movimento já chega ao Brasil. Na Serra Gaúcha, a Universidade de Caxias do Sul (UCS) iniciou em 2023 o Projeto Smart Campus UCS que busca transformar o Campus-Sede em um ambiente mais inteligente, sustentável, conectado e orientado à experiência das pessoas, concebendo-o como um Living Lab para o desenvolvimento e teste de soluções em parceria com empresas, startups, prefeituras e pesquisadores. A iniciativa teve início com um diagnóstico da comunidade universitária realizado em 2023, com 1.151 respondentes válidos, correspondentes a 8,5% da comunidade acadêmica, utilizando como referência metodológica indicadores relacionados à NBR/ISO 37122, voltada a cidades inteligentes.

Esses exemplos mostram que o maior valor do Smart Campus está na possibilidade de transformar a universidade em plataforma de inovação urbana.

Uma solução de mobilidade pode começar circulando entre prédios universitários. Uma tecnologia de eficiência energética pode ser testada em uma biblioteca. Um sistema de monitoramento ambiental pode nascer em um laboratório e depois alcançar bairros inteiros.

Nesse sentido, o Smart Campus permite que as cidades experimentem o futuro em escala possível antes de implementá-lo em escala urbana. Quando ensino, pesquisa, infraestrutura e inovação passam a compartilhar o mesmo território, o campus se torna um dos lugares onde a cidade do futuro começa a ser construída.

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