O que é, de fato, a “4a Revolução Industrial”?
Se formos considerar que, dadas as exigências da sociedade ecológica e regenerativa, devemos considerar que a indústria do futuro tornaria obsoleta sua invenção mais relevante e de maior impacto sócio-ambiental: o lixo. Não havia lixo, como hoje o compreendemos, nas sociedades pré-industriais. A indústria inventou o lixo, a poluição, o desmatamento massivo, e outros muitos desastres ecológicos – além de, obviamente, criar o que podemos chamar de “sociedade da abundância”. No mundo industrial, abundância e devastação andam de braços dados.
Para que desapareça o lixo, e outras mazelas da indústria, as cadeias produtivas deveriam ser completamente circulares, de curtas distâncias e os produtos duráveis deveriam ser, de fato, duráveis, nunca sendo abandonados, ou seja, nunca tornarem-se “lixo”. Esses produtos deveriam ser feitos de materiais recicláveis, reduzindo drasticamente a demanda por indústria pesada e de base.
Para tanto, as cadeias produtivas de bens duráveis precisam passar por uma completa reestruturação, para que se tornem absolutamente circulares. Isso apenas começa-se a vislumbrar, em casos ainda excepcionais, como a obrigatoriedade de destinação e reciclagem de todos os automóveis produzidos por uma determinada fabricante de veículos – política pública que foi proposta inicialmente na Alemanha, e hoje é praticada em numerosos países.
Consumo, abundância e desperdício.
Para que o processo produtivo seja ao máximo ou totalmente circular, ele precisa ser ao máximo eficiente, e isso exige que ele seja aderido às reais necessidades e desejos da população.
Essa não é a prática mais comum das indústrias: hoje, entende-se que a produção industrial é baseada na fabricação de produtos que, imagina-se, serão desejados pela população – por isso, sua produção é exagerada, enorme, massiva, para dar conta do tal desejo imaginado – no caso de não serem vendidos, esses produtos são descartados. A maior parte dos modelos de lucro das grandes indústrias tem no desperdício e na recompra a imagem de seu maior sucesso: pouco importa que o consumidor use uma roupa apenas uma vez, e depois jogue fora, o que importa é que ele compre o máximo de peças diferentes de vestuário, com o máximo de velocidade.
Isso não é sustentável.
O que seria sustentável é que o consumidor comprasse o mínimo de produtos com o mínimo de velocidade possível. Talvez fosse desejável que se comprasse um determinado produto durável (uma geladeira, por exemplo) apenas uma vez em sua vida, ou até mesmo o herdasse de seus pais e antepassados.
Mas, como a tecnologia está em constante evolução, é muito provável que os produtos duráveis possam ser constantemente aprimorados. O que nos indica que o outro critério de consumo seja a atualização, ou a obsolescência “honesta” – o oposto da “obsolescência programada”, que é praticada por um grande número de indústrias, justamente para provocar a recompra de produtos que poderiam estar funcionando perfeitamente, caso essas mesmas indústrias não tivessem embutido defeitos congênitos, ou lançassem novidades cosméticas, ou mesmo estruturais, para forçar o consumidor à recompra de um produto.
Uma solução para esse impasse, é a reinvenção da indústria como um fenômeno comunitário, local e altamente customizado: o que chamo de “Fábricas de Bairro”.
Proponho a “Fábrica de Bairro” como uma solução relativamente simples para transformar as cadeias produtivas de bens duráveis, assim como para tornar acessíveis as práticas da economia circular, e também promover a economia criativa como um aspecto fundamental das cidades do futuro.
O que é uma “Fábrica de Bairro”?
É um equipamento público que estaria disponível em todos os bairros das cidades, disponibilizando equipamentos de fabricação tradicional e digital, mas nos quais também pode-se fazer-se consertos e reparos em objetos, equipamentos, peças de mobiliário, vestuário, utensílios e veículos (bicicletas, patinetes, etc.) – mas, seu aspecto mais importante é que ser uma espécie de “Centro Cultural”, dotado de calendário de encontros, cursos, capacitações, assim como oficinas de criatividade e criação, nas quais a comunidade que habita aquele bairro pode levar demandas e encontrar designers ou micro-fabricantes que serão capazes de produzir os objetos necessários ou desejados.
Ela seria um hub de encontro para consumidores, empreendedores, designers, engenheiros, inovadores, empresas e governo – um ponto de encontro, colaboração e fabricação, no qual esses atores sociais podem demandar novos produtos, conceber esses produtos, fabricá-los, consertá-los, modificá-los e atualizá-los para novas tecnologias ou demandas sócio-culturais ou econômicas.
A “Fábrica de Bairro” é um equipamento de acesso público que mistura as funções de outros equipamentos urbanos que, hoje, estão separados, distantes entre si, em geral concentrados em bairros especializados (como os famigerados “distritos industriais”, distantes da vida urbana real). Esses equipamentos, que já existem hoje, poderiam estar articulados na “Fábrica de Bairro”:
- O “Fablab” – como aqueles da Rede de Fablabs de São Paulo –, no qual tem-se à disposição todo o equipamento da chamada “Fabricação Digital” (impressoras 3D, corte laser, fresas digitais, etc.),
- As oficinas de consertos e reparos, como as de veículos (como automóveis, motocicletas e bicicletas), as de utensílios domésticos (como eletrodomésticos, talheres e panelas), e também as oficinas de costura (para reparos de vestuário).
- Fábricas tradicionais, dotadas de equipamentos de fabricação “tradicional”, como injetoras de plástico, prensas hidráulicas, forjas, e outros equipamentos apropriados para a transformação de metal, madeira, polímeros e tecidos. (Com exceção da indústria pesada, que não deveria existir, ou ser rara, em uma sociedade regenerativa – mas que, de qualquer modo, não caberia em um contexto urbano adensado – como, por exemplo, a indústria siderúrgica, ou a de semicondutores).
- Escolas e Centros Culturais, dotadas de espaço e calendário dedicado à disseminação de conhecimento relacionado ao projeto e fabricação de bens duráveis – tanto quanto às técnicas de projeto (o chamado “Design de Produto”), como quanto às técnicas de fabricação (operação de máquinas, características e usos dos materiais, dimensionamento e detalhes técnicos das peças a serem fabricadas, etc.).
A presença das Fábricas de Bairro na cidade
As Fábricas de Bairro não teriam o tamanho – em área ou espaço ocupado no tecido urbano – da soma desses equipamentos urbanos, em sua dimensão habitual: uma fábrica, capaz de produzir milhões de peças por mês, tem o tamanho de um quarteirão urbano inteiro; um centro cultural tem as dimensões de uma grande escola; se somarmos todos os tipos de oficinas de reparos e consertos que citei acima, teríamos um equipamento urbano de grandes dimensões.
Minha proposta é que tenhamos um conjunto “enxuto” de equipamentos e ferramentas, capaz de dar conta da produção da vasta maioria dos bens duráveis que a população urbana possa precisar ou desejar.
Mas, a grande diferença que a Fábrica de Bairro tem, em relação à indústria tradicional, é que nela não se produzirão grandes quantidades dos mesmos produtos. O modelo industrial tradicional requisita que se tenham grandes números dos mesmos equipamentos, e configurados para a máxima velocidade de produção, para que se possa ter os chamados “ganhos de escala”, característica fundamental da lógica industrial dos últimos 250 anos de desenvolvimento econômico global.
A ideia fundamental da indústria, e que domina o pensamento econômico do mundo ocidental, é que deve-se produzir o maior número de peças de um determinado produto, no menor espaço de tempo, com o máximo de eficiência e menor custo. É a partir dessas técnicas da “engenharia de produção” que se obtêm os ganhos de produtividade e escalabilidade. O que está por trás desse pensamento é algo sensato: se podemos reduzir ao máximo os custos de produção, podemos não apenas ganhar muito dinheiro, como também produzir abundância sem precedentes para toda a sociedade. E, de fato, uma característica inegável da Revolução Industrial foi a grande ampliação de acesso aos bens de consumo (duráveis ou não-duráveis): nunca a humanidade viveu em tamanha abundância.
Por outro lado, esse mesmo pensamento implica em dois problemas:
1 – Há uma massificação dos itens: todo mundo compra as mesmas coisas, iguais, ou quase iguais, – há pouquíssima liberdade ou criatividade, estamos condenados a comprar o que o empreendedor industrial considera ser “um bom produto”, e
2 – Os custos muitíssimo reduzidos da produção industrial exigem que modelos de “compensação” surjam para que se amplie os valores obtidos pelas empresas industriais – o modelo de “compensação” mais comum é a obsolescência programada: um produto quebra, torna-se “desatualizado”, “fora de moda”, ou “desnecessário” com o máximo de velocidade, para que o consumidor se veja obrigado, ou impelido, a re-comprar o produto.
Mas, sabe-se, do ponto de vista técnico, que uma geladeira, por exemplo, poderia ser um produto que “não quebra nunca”, assim como um carro, um abajur, ou par de óculos. Mas a indústria precisa, para que possa manter e incrementar seus ganhos, que esses produtos sejam substituídos com frequência. Então, não é incomum que os produtos sejam feitos “para quebrar”, ou que sejam lançados novos produtos com “capacidades mais avançadas” (como na computação e nos smartphones), ou também que os produtos de vestuário ou de mobiliário fiquem “fora de moda”.
Nas “Fábricas de Bairro”, o foco não é produzir enormes quantidades de produtos, mas apenas aquilo que faz sentido para a população daquele bairro, que se atenda aos seus desejos e necessidades reais.
E a conjunção de fabricação e conserto torna explícita a essência da “Fábrica de Bairro”: sua proposta não é fazer o máximo de lucro – independentemente do impacto ecológico –, mas prover bem estar, por meio de produtos duráveis de qualidade, verdadeiramente duradouros – que não quebram ou falham. Mas, caso falhem ou quebrem, são reparados no mesmo lugar que são fabricados: dentro do bairro onde o cidadão mora.
Proponho que essa poderia ser a verdadeira “Indústria 4.0”, muito comentada há uns 10 ou 15 anos atrás, mas pouco lembrada hoje em dia. A proposta inicial da indústria 4.0 era o incremento da eficácia e eficiência da indústria a níveis nunca vistos, mas sem questionar o aspecto que a torna a origem do desastre ecológico que foi a Revolução Industrial: o consumo conspícuo – a produção e compra incessante de produtos que serão convertidos em “lixo” em pouquíssimo tempo. Como vimos, já faz quase 250 anos que a lógica comercial da indústria tem sido a de “produzir ao máximo, mesmo que isso destrua o planeta”. A crise ecológica tem nome: produção industrial excessiva. E ela precisa parar.
As “Fábricas de Bairro” poderiam fazer com que a produção industrial seja exatamente do tamanho das necessidades da humanidade, já que sua produção será integralmente sob demanda: nada seria produzido para alimentar uma “demanda imaginada”, apenas a “demanda real” que se manifesta em primeira pessoa, expressa por um ser humano, que comunica suas necessidades para outro ser humano, em um ambiente criativo, marcado pela educação e a produção de conhecimento.
Separação entre indústria pesada e indústria leve criativa e comunitária
Em uma sociedade verdadeiramente regenerativa, não deveria existir indústria pesada, ou ser um ciclo produtivo muito eventual e raro. Podemos crer nisso porque, se levarmos a sério a chamada “economia circular”, todos os materiais utilizados pela indústria deveriam ser reduzidos, reutilizados ou reciclados (os famosos “três Rs” da produção ecológica). Isso significa que a demanda por materiais básicos (como minério de ferro para produzir aço, silício para produção de vidro ou bauxita para produção de alumínio) seria reduzida drasticamente, quase à inexistência.
O que é crucial aqui distinguir a “indústria pesada” e a “indústria leve e criativa”, marcada pelas relações em comunidade urbana local: de um lado, temos os processos “pesados” e que têm enorme impacto sobre o meio ambiente – tanto em poluição, como em sua pegada de carbono –, e pde outro lado temos os processos “leves” e criativos, que utilizam os insumos da indústria pesada para a produção de itens de consumo de massa. Em uma economia verdadeiramente circular, baseada na “Fábrica de Bairro”, a demanda pelos insumos da indústria “pesada” seria drasticamente reduzida, mas a indústria “leve”, continuaria operando com força, mas em uma escala e formato ajustados para atender as demandas reais e conhecidas que são apresentadas diretamente pela população consumidora – e não “imaginadas” pelo departamento de marketing das grandes empresas.
Um novo cenário sócio-econômico
Pode parecer que isso teria um enorme impacto negativo sobre a economia de um país, como o Brasil – pois iríamos reduzir drasticamente o volume de bens duráveis a serem produzidos anualmente: qual seria o impacto dessa redução sobre o PIB?
Mas, se observamos o tamanho dos setores da economia, hoje, no mundo, veremos que o setor industrial é relativamente pequeno em todos os países (com exceção óbvia da China): no Brasil, o setor industrial é menor do que 20% da economia do país, sendo que o maior setor é o de comércio e serviços, com 65% do mercado. O setor primário é o menor, com menos de 5% da economia, mesmo que a maioria das pessoas acredite erroneamente que seja o maior setor.
Muitos economistas defendem que o Brasil precisa “voltar a se industrializar”. E eu concordo com eles. Mas devemos retomar a indústria de que tipo? A indústria tradicional – e sua cadeia logística internacional – é a maior fonte de poluentes, gases de efeito estufa, desastres ambientais, e mal-estar sócio-econômico. Nós queremos retomar a industrialização do Brasil nesses termos? Ou será que podemos conceber uma outra cadeia produtiva, altamente local, enxuta, eficiente e sustentável?
As Fábricas de Bairro podem ser o núcleo dessa nova cadeia produtiva: todos os bens duráveis seriam fabricados e mantidos por um equipamento urbano hiperlocal, dentro dos bairros das “cidades compactas”. A cidade sustentável traz a indústria para a escala do bairro, e a torna um equipamento cultural e criativo, parte integral da economia criativa das cidades, enriquecendo a vida dos cidadãos e os empoderando em suas escolhas de consumo e compra.
Toda uma rede de profissionais criativos, designers, artesãos, engenheiros, e outros profissionais poderiam utilizar as Fábricas de Bairro como um sistema de trocas e auto-promoção, para viabilizar a “fabricação sob demanda” de todos os itens que um cidadão poderia desejar em sua vida pessoal, doméstica e urbana. Lojas seriam pontos de encontro para demonstração de produtos, e não estoques de itens pré-fabricados aguardando uma possível venda.
Trata-se de um outro ecossistema industrial, produtivo, criativo e de reciclagem maciça. Uma outra maneira de compreender produção e consumo. E esse ecossistema precisa estar tangibilizado na vida cotidiana, e não ser um aparato oculto em “bairros industriais”, cujo impacto sócio-ambiental é perceptível apenas no aquecimento global, poluição das águas, e nos números da economia.
A produção industrial pode ser um processo participativo e orgânico, continuamente revisado e redimensionado. Não por um planejamento centralizado (governamental ou empresarial), mas por um ecossistema vivo de produtores e consumidores que se articulam e dialogam em um espaço urbano aberto à visitação e que permite promover experiências criativas de criação viva do cotidiano.
Por fim, proponho que as Fábricas de Bairro podem ser o alicerce para uma transformação profunda das cadeias produtivas, a qual tornará possível, de fato, a Revolução Regenerativa que o mundo precisa agora.

Head de inovação na Kyvo e fundador da Bootstrap. Arquiteto e urbanista, há mais de 25 anos pesquisa as complexas relações entre urbanidade, tecnologia, comunidades e inovação. Professor e pesquisador coordenador do grupo Cenários Urbanos Futuros (RITe-FAUUSP), além de consultor em projetos de inovação e transformação organizacional, com abordagem do Metadesign para processos de transformação cultural e urbana.





