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Lixo eletrônico: a riqueza escondida nas nossas cidades

Karina Florido
Karina Florido
possui 30 anos de experiência na gestão pública, é socióloga, administradora, especialista em Direito Penal e tem MBA em Gestão, Inteligência em Segurança Pública. Trabalhou na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, foi Diretora Executiva da Câmara Municipal de São Paulo, Diretora Administrativa e Coordenadora de Esporte e Lazer da Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude do Estado de São Paulo, foi assessora técnica da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, Secretária de Desenvolvimento Econômico de Santo Antônio de Posse/SP, Secretária de Gestão de projetos e Programas, Inovação, Tecnologia e mobilidade Urbana de Louveira/SP, entre outros. Coordenou o Programa de Cidades Inteligentes do município de Jaguariúna, no Estado de São Paulo e com esse projeto a cidade já foi premiada por seis anos consecutivos no ranking da Connected Smart Cities/Urban Systems. Ao longo de sua carreira trabalhou tanto no Poder Executivo como no Legislativo. Ocupou diversos cargos e hoje se dedica a gestão das Smart Cities, acredita que uma cidade inteligente é aquela que utiliza a tecnologia em favor da eficiência no atendimento aos cidadãos. É autora de diversos projetos de Lei regulamentando a tecnologia 5G. Atualmente é Secretaria de Inovação e Tecnologia de Bragança Paulista.

Ao longo da minha trajetória na gestão pública, aprendi que inovar não significa apenas incorporar novas tecnologias, mas encontrar soluções para problemas reais e transformar ideias em resultados concretos para a população. 

Quando falamos em cidades inteligentes, pensamos em conectividade, inteligência artificial e serviços digitais. Mas existe uma questão que precisa ganhar espaço nessa agenda: o que fazemos com a tecnologia que deixa de ser utilizada? Celulares esquecidos nas gavetas, computadores substituídos, baterias, cabos e outros equipamentos eletrônicos representam um desafio ambiental para os municípios. Ao mesmo tempo, carregam materiais que podem voltar à cadeia produtiva. Por isso, acredito que precisamos enxergar o lixo eletrônico não apenas como um problema de descarte, mas como uma oportunidade de inovação e desenvolvimento econômico.

O lixo eletrônico, também chamado de resíduo de equipamento eletroeletrônico, compreende produtos como celulares, computadores, impressoras, televisores e baterias que perderam sua utilidade para os consumidores. Quando descartados inadequadamente, esses materiais podem causar contaminação ambiental e riscos à saúde. Quando encaminhados corretamente, podem fornecer matérias-primas importantes para a indústria.

É nesse contexto que entra a mineração urbana: a recuperação de materiais presentes em produtos que já foram fabricados, utilizados e descartados. Cobre, alumínio, ouro, prata, lítio e cobalto são exemplos de materiais que podem estar presentes em determinados equipamentos. Em vez de depender exclusivamente da extração de novos recursos naturais, podemos recuperar parte do que já foi retirado do planeta. Isso reduz desperdícios, favorece a economia circular e pode gerar oportunidades para empresas e profissionais especializados. Nem todo resíduo tem valor comercial positivo, pois a recuperação depende do volume, da composição dos materiais e dos custos de processamento e transporte. Ainda assim, organizar essa cadeia é uma oportunidade que os municípios não devem ignorar.

Em minha visão, a gestão do lixo eletrônico precisa integrar as políticas ambientais, a inovação, a educação e o desenvolvimento econômico. O primeiro passo é identificar os principais geradores de resíduos, mapear os pontos de coleta existentes e buscar parceiros capazes de garantir a destinação adequada. As prefeituras podem criar campanhas permanentes de conscientização, ampliar os pontos de entrega voluntária e envolver escolas, universidades, empresas e organizações comunitárias. Também podem utilizar plataformas digitais para informar os locais de descarte, acompanhar os volumes recolhidos e divulgar os resultados à população.

A tecnologia permite transformar uma iniciativa pontual em uma política pública monitorada por indicadores. É possível medir quanto foi coletado, qual volume recebeu destinação adequada e quais regiões precisam de mais pontos de entrega. É assim que entendo a inovação aplicada à gestão pública: não basta disponibilizar ferramentas tecnológicas. Precisamos utilizá-las para melhorar serviços, reduzir desperdícios e produzir resultados concretos para a sociedade.

O Brasil possui instrumentos importantes para avançar nessa agenda. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei Federal nº 12.305/2010, estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e prevê a logística reversa. Para eletroeletrônicos de uso doméstico, o Decreto Federal nº 10.240/2020 regulamenta a implementação desse sistema.

A logística reversa permite que produtos descartados retornem ao setor empresarial para reaproveitamento, reciclagem ou destinação ambientalmente adequada. Dessa forma, a solução não precisa depender exclusivamente dos recursos das prefeituras. Entidades como a ABREE (Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos) e a Green Eletron mantêm iniciativas de recebimento e encaminhamento desses resíduos. Os municípios podem buscar essas organizações para avaliar parcerias, ampliar pontos de coleta e facilitar o descarte correto. O poder público pode atuar como articulador, aproximando cidadãos, fabricantes, comerciantes, recicladores e cooperativas. O importante é estabelecer responsabilidades claras e garantir que os materiais coletados tenham destinação comprovada.

Uma pergunta precisa fazer parte dessa discussão: além dos benefícios ambientais, que retorno essa estratégia pode trazer para os municípios? 

Parcerias bem estruturadas podem reduzir despesas com a destinação de resíduos, conforme as responsabilidades assumidas e os custos envolvidos. A recuperação de materiais também pode movimentar negócios, fortalecer cooperativas, gerar trabalho e renda e atrair empresas ligadas à reciclagem e à economia circular. Isso não significa que toda coleta produzirá receita direta para os cofres públicos. A viabilidade financeira depende das características dos resíduos, da escala e do modelo de operação. Em muitos casos, o retorno estará na redução de custos, na recuperação de recursos e no fortalecimento da economia local. Por essa razão defendo projetos-piloto com metas e indicadores claros. Medir os volumes coletados, os custos, a destinação e os resultados econômicos permite avaliar o que funciona e ampliar as iniciativas com segurança e planejamento.

A gestão pública exige planejamento, articulação e continuidade. O lixo eletrônico demonstra como um desafio ambiental pode se transformar em oportunidade econômica quando existe organização, participação da sociedade e uso inteligente da tecnologia. As cidades inteligentes precisam avançar para além da digitalização dos serviços. Precisam considerar também o ciclo de vida dos equipamentos, a responsabilidade pelo descarte e as possibilidades de recuperar materiais que ainda possuem valor. Uma cidade verdadeiramente inteligente não é aquela que apenas consome tecnologia, mas aquela que sabe recuperar o valor da tecnologia que ficou para trás.

Talvez uma das próximas oportunidades da economia urbana esteja justamente nos equipamentos que deixamos de usar. Cabe aos municípios transformar esse potencial em soluções ambientais, oportunidades econômicas e desenvolvimento sustentável.

 

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