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Nobel de Medicina 2026 vai para Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel pela descoberta da optogenética

Vencedores levam o prêmio de 12 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,2 milhões). As láureas em Física, Química, Literatura e Paz serão entregues ao longo da semana; já a de Economia será divulgada na próxima segunda (12).

Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel levaram o Nobel de Medicina de 2026 por suas descobertas sobre como as células nervosas moldam memórias, sentimentos e comportamentos no cérebro vivo.

Os três cientistas dividirão o prêmio de 12 milhões de coroas suecas (R$ 6,2 milhões) concedido pela Assembleia do Nobel no Instituto Karolinska, da Suécia. O anúncio foi feito na manhã desta segunda-feira (5).

As descobertas laureadas estão relacionadas aos canais iônicos ativados pela luz e à optogenética, método que torna possível mostrar como as células nervosas se comportam no cérebro vivo.

O método inaugurado pelos cientistas é considerado uma das bases para uma nova era da neurociência, ajudando na compreensão do cérebro. Na medicina, a técnica está sendo utilizada em tentativas de restaurar a visão em pessoas com deficiência visual.

‘Interruptor’ das células

A pesquisa dos laureados revelou como as células nervosas são capazes de controlar memórias e comportamentos no cérebro vivo.

A descoberta começou com uma pergunta sobre o funcionamento de uma alga unicelular chamada Chlamydomonas. Peter Hegemann queria entender como o organismo consegue nadar em direção a uma fonte de luz.

No início dos anos 2000, Hegemann e Georg Nagel descobriram na superfície da alga uma proteína com propriedades especiais, chamada canalrodopsina. Quando a proteína é iluminada com luz azul, um canal se abre e permite a entrada de íons carregados na célula. Isso provoca um impulso elétrico.

“Tudo começou com uma pergunta aparentemente simples: como uma alga microscópica sabe nadar em direção à luz? Ninguém ali estava procurando tratamento para doença nenhuma. Foi a ciência básica, movida pela curiosidade, que abriu essa porta”, afirma Victor Santos, neurocientista, professor de neuroanatomia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e pesquisador apoiado pelo IDOR Ciência Pioneira.

Os pesquisadores também descobriram que, quando a proteína era colocada em diferentes tipos de células, elas passavam a responder à luz.

Quando a proteína recebe luz azul, ela muda de estado e abre um canal através da membrana da célula. Íons carregados conseguem então entrar na célula, provocando uma mudança elétrica.

O grupo percebeu ainda que, quando colocavam a proteína em outros tipos de células, elas também passavam a ser sensíveis à luz.

Karl Deisseroth levou a descoberta para as células nervosas. Ele introduziu o gene responsável pela produção da canalrodopsina em neurônios de ratos. Ao iluminar essas células com luz azul, conseguiu desencadear um sinal nervoso – quase como um interruptor das células controlado pela luz.

O avanço foi publicado em 2005. Dois anos depois, Deisseroth conseguiu fazer o mecanismo funcionar no cérebro de camundongos vivos.

Esse método de controlar sinais nervosos usando luz passou a ser chamado de optogenética.

Por que a optogenética mudou a neurociência?

O método transformou a neurociência porque permitiu aos pesquisadores controlar a atividade de neurônios específicos com grande precisão.

Antes, métodos como a estimulação elétrica podiam atingir diferentes células e estruturas ao mesmo tempo, dificultando saber qual delas estava relacionada a determinado comportamento ou função.

“A optogenética mudou esse cenário. Ela permite ativar ou inibir populações específicas de neurônios com precisão temporal e celular, inclusive em animais durante o comportamento, possibilitando testar relações entre a atividade de circuitos neurais e funções como memória, medo e recompensa”, afirma Cristiane Furini professora da Escola de Medicina da PUCRS, pesquisadora do Instituto do Cérebro da PUCRS e membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências.

Com a técnica, os cientistas podem fazer com que determinados neurônios produzam proteínas sensíveis à luz e, depois, usar a iluminação para ativar ou inibir essas células. Isso permite testar diretamente o que acontece quando um grupo específico de neurônios é acionado ou silenciado.

A ferramenta abriu uma nova possibilidade para estudar a relação entre a atividade de circuitos cerebrais e fenômenos como memória, emoções e comportamento.

Em vez de apenas observar quais regiões do cérebro estão ativas, os pesquisadores passaram a poder interferir de maneira controlada nesses circuitos e verificar quais efeitos essa intervenção produz.

Assim, a optogenética passou a ser uma ferramenta importante para investigar como o cérebro funciona e para compreender o papel de diferentes grupos de neurônios em condições normais e em doenças neurológicas.

Como isso ajuda a humanidade?

Essa possibilidade abriu caminho para investigar com mais precisão os circuitos neurais envolvidos em memórias, sentimentos e comportamentos, além de mecanismos relacionados a distúrbios neurológicos e psiquiátricos.

“Para quem pesquisa sobre a neurobiologia da memória, por exemplo, essa ferramenta representa uma mudança particularmente importante, pois podemos pensar na memória não apenas como algo armazenado em uma determinada região do cérebro, mas como resultado da atividade coordenada de populações de neurônios e de diferentes circuitos neurais”, ressalta Cristiane.

Segundo o Comitê do Nobel, antes desses avanços os pesquisadores já investigavam quais regiões do cérebro estavam associadas a determinadas funções, mas os métodos disponíveis não permitiam estabelecer relações de causa e efeito.

“A optogenética oferece oportunidades para mapear o cérebro de uma maneira que antes só podíamos sonhar”, afirma Per Svenningsson, presidente do Comitê do Nobel de Fisiologia ou Medicina.
Além de ser uma ferramenta de pesquisa, a tecnologia também começa a ser investigada em aplicações médicas. Segundo o Comitê do Nobel, a optogenética está sendo usada em estudos que buscam restaurar a visão de pessoas com deficiência visual.
“Na clínica, ainda estamos no começo, com estudos iniciais como os que tentam restaurar parte da visão. Mas o maior presente dessa descoberta já está aí: ela nos deu um mapa causal do cérebro. E é desse conhecimento que vão nascer as terapias do futuro”, afirma Santos.

Quem são os ganhadores

  • Karl Deisseroth, nascido em 1971, tem doutorado e graduação em Medicina pela Universidade Stanford, EUA. É professor de Bioengenharia e de Psiquiatria e Ciências do Comportamento no Howard Hughes Medical Institute e na Universidade Stanford, EUA.
  • Peter Hegemann, nascido em 1954, tem doutorado no Instituto Max Planck de Bioquímica, Martinsried, Alemanha. É professor sênior Hertie de Neurociência na Universidade Humboldt de Berlim, Alemanha.
  • Georg Nagel, nascido em 1953, tem doutorado em 1988 pela Universidade de Frankfurt, Alemanha. É professor de Fisiologia Molecular de Plantas no Departamento de Fisiologia Molecular de Plantas e Biofísica — Botânica I na Universidade de Würzburg, Alemanha.

Fonte: G1

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