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Violência e obesidade: se o medo limita escolhas, a cidade também adoece

Marcelo Nery
Marcelo Nery
Profissional com mais de 15 anos de experiência em coordenação de projetos, análises quali-quantitativas, desenvolvimento de pesquisas e disseminação de conhecimentos. Sociólogo (USP) e Tecnólogo (INPE). Coordenador de Transferência de Tecnologia e "Head" do Centro Colaborador da PAHO/OMS (BRA-61) no Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP - CEPID-FAPESP. Pesquisador no Programa de Fellowship da ABES, atuando no Think Tank "Centro de Inteligência, Políticas Públicas e Inovação" em parceria com o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.

No Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, é comum que o debate se concentre na alimentação e na prática de atividade física, frequentemente tratadas como opções essencialmente individuais, ainda que condicionadas pela renda e pelo acesso a determinados alimentos, serviços e formas de lazer. Mas as condições em que essas decisões são tomadas também importam.

Em uma cidade marcada por desigualdades territoriais e pela violência, caminhar, correr, frequentar uma praça, utilizar um parque ou simplesmente permanecer no espaço público podem não estar igualmente ao alcance de todos. Discutir obesidade, portanto, exige olhar além do corpo e do prato: exige olhar também para a cidade e para as condições concretas que ampliam ou restringem a possibilidade de uma vida ativa e saudável.

Foi essa relação entre território, violência e saúde que investigamos no estudo Urban violence as a predictor factor of obesity: longitudinal evidence from Sao Paulo, Brazil, publicado em 2025 na revista BMC Public Health. Nesse estudo longitudinal, foram acompanhados 815 adultos que não apresentavam obesidade no início da pesquisa, entre 2015 e 2021, e foi analisada a exposição à violência no entorno de suas residências. Para isso, foram consideradas as taxas de homicídios dolosos, roubos a transeunte e em transporte público e furtos de veículos, em um raio de um quilômetro das moradias, classificando-se essas áreas segundo os níveis dessas violências.

Os resultados mostraram que aqueles que permaneceram no grupo de áreas com os maiores níveis de violência apresentaram 2,77 vezes o risco de desenvolver obesidade observado entre os moradores que permaneceram no grupo com os menores níveis. Isso não significa que a violência, isoladamente, determine o ganho de peso, mas indica que o ambiente urbano pode participar de maneira importante desse processo.

A violência urbana não afeta apenas quem é diretamente vitimado. Ela pode alterar a maneira como as pessoas percebem o território, os horários em que circulam e até os motivos pelos quais decidem ocupar ou evitar determinados espaços.

Essa mudança, porém, pode ocorrer de maneira desigual. Diante da percepção de risco, alguns dos deslocamentos mais facilmente abandonados podem ser aqueles considerados adiáveis ou opcionais: deslocar-se a pé para a casa de amigos ou parentes ou para um centro comercial, permanecer em uma praça, frequentar um parque ou realizar atividades físicas ao ar livre. Já os deslocamentos associados a necessidades mais difíceis de evitar — por trabalho, educação ou saúde — frequentemente continuam acontecendo.

Isso cria uma situação especialmente perversa. A pessoa pode deixar de caminhar e usufruir da cidade, mas continuar tendo de atravessar os mesmos espaços considerados inseguros para manter o emprego, estudar ou buscar atendimento médico. Em outras palavras, a violência não apenas reduz oportunidades de atividade física e lazer: em determinadas circunstâncias, obriga o morador a escolher entre restringir sua própria rotina ou se expor ao risco para atender a uma necessidade. E é justamente nesse processo cotidiano, acumulado ao longo do tempo, que segurança pública, desenho urbano, mobilidade e saúde se encontram.

Esse encadeamento expõe uma limitação recorrente na forma como administramos o espaço urbano: tratamos separadamente problemas que se combinam no território. Para quem vive a cidade, porém, essas fronteiras administrativas simplesmente não existem. É no mesmo território que uma pessoa mora, trabalha, se desloca, pratica — ou deixa de praticar — atividade física, convive com outras pessoas e se expõe a diferentes riscos. Quando políticas públicas enxergam cada uma dessas dimensões isoladamente, podem deixar de perceber as consequências que surgem da interação entre elas.

Os resultados sugerem, portanto, que prevenir a obesidade por meio do incentivo a hábitos individuais mais saudáveis pode ser insuficiente em contextos marcados pela violência. Recomendar que as pessoas caminhem mais, utilizem os espaços públicos ou se desloquem a pé para realizar atividades cotidianas tem alcance limitado quando o próprio ambiente em que vivem dificulta ou desencoraja essas práticas. A prevenção da obesidade também precisa considerar o ambiente social e urbano, incorporando dimensões como planejamento urbano, qualidade dos espaços públicos e segurança. O enfrentamento da violência, nessa perspectiva, deixa de repercutir apenas no campo da segurança pública e passa a integrar uma agenda mais ampla de promoção da saúde e da qualidade de vida.

O estudo mostra uma associação entre violência e obesidade. A caminhabilidade e as possibilidades de uso do território ajudam a pensar alguns dos mecanismos que podem estar por trás dessa relação. Uma cidade inteligente deveria ser capaz de enxergar essas conexões. Isso significa ir além da adoção de tecnologias isoladas e utilizar dados, tecnologia e ferramentas analíticas para compreender como segurança, saúde, mobilidade, infraestrutura urbana e desigualdades territoriais se sobrepõem. Nesse sentido, inteligência urbana é transformar informações dispersas em capacidade de compreender problemas complexos e orientar respostas públicas mais integradas.

Na prática, isso implica planejar intervenções considerando simultaneamente segurança, mobilidade, saúde e qualidade do espaço urbano. Territórios onde se combinam maior violência e dificuldades de acesso ou permanência em espaços públicos podem receber atenção prioritária, articulando medidas de segurança com melhorias nos serviços e na infraestrutura urbana. O objetivo iria além da redução das ocorrências criminais, buscando também criar condições para que as pessoas possam aproveitar a cidade com maior segurança. Uma intervenção bem-sucedida poderia, assim, ser avaliada não somente pela queda da criminalidade, mas também por sua capacidade de favorecer deslocamentos e gerar benefícios para a saúde e a qualidade de vida.

O ponto não é transformar o combate à violência em uma política de prevenção da obesidade. É reconhecer que os problemas urbanos não respeitam as fronteiras com que organizamos a administração pública: Educação. Saúde. Segurança pública. Lazer. Assistência social. Podemos separar essas áreas na gestão; não conseguimos separar seus efeitos na vida cotidiana. Essa é uma das razões pelas quais políticas urbanas em cidades inteligentes precisam ser avaliadas também pelas repercussões que produzem fora de seu campo imediato. 

Quando a insegurança restringe o uso da cidade, seus efeitos podem aparecer muito longe das estatísticas criminais. Uma vida ativa depende também da possibilidade de caminhar, permanecer e usufruir dos espaços urbanos sem que o medo determine o uso da cidade. Enfrentar a violência, portanto, não se resume a diminuir o risco efetivo de vitimização e a sensação de insegurança. Implica também ampliar as possibilidades de uso do território e devolver às pessoas parte da liberdade que a insegurança restringe. Uma cidade mais segura não será, por isso, automaticamente mais saudável, mas poderá criar condições para que seus moradores sejam.

ONITA, B. M.; NERY, M. B.; MIELKE, G. I. et al. Urban violence as a predictor factor of obesity: longitudinal evidence from Sao Paulo, Brazil. BMC Public Health, v. 25, 3225, 2025. DOI: 10.1186/s12889-025-24459-5.

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