O avanço das tecnologias de monitoramento amplia a capacidade de resposta a desastres, mas ainda enfrenta desafios de alcance, confiança e conscientização da população.
Por: Stefani Capriolli e Jamile Sabatini Marques
Nos últimos anos, eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte da rotina de diversas regiões do Brasil e do mundo. Enchentes, deslizamentos, ondas de calor e secas prolongadas não somente evidenciam a intensificação das mudanças climáticas, mas também a vulnerabilidade das cidades diante desses fenômenos.
Diante desse cenário, a tecnologia tem assumido um papel cada vez mais estratégico: o de comunicar riscos com rapidez e eficiência. Sistemas de alerta precoce, como os utilizados pela Defesa Civil Brasileira, representam hoje uma das ferramentas mais importantes para reduzir danos humanos e materiais. No Japão, por exemplo, alertas são enviados de forma quase instantânea para celulares, televisão, rádio e sistemas urbanos integrados, permitindo respostas rápidas da população. Já em São Paulo, o uso de alertas via SMS, sirenes e monitoramento meteorológico tem avançado nos últimos anos, embora ainda enfrente desafios relacionados à cobertura, adesão da população e conscientização sobre os riscos.
No entanto, apesar dos avanços tecnológicos, ainda existe um desafio central: de acordo com o último levantamento de 2026 da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), estima-se que somente cerca de 5% da população brasileira esteja cadastrada para receber alertas via SMS. Por esse motivo, o sistema de alertas da Defesa Civil no Brasil está em fase de expansão, com foco na cobertura nacional via tecnologia Cell Broadcast (notificação na tela do celular), com o objetivo de monitorar 2.095 municípios até o final de 2026, abrangendo áreas onde vivem cerca de 75% da população brasileira, com o propósito de garantir que a informação chegue a todos, no momento certo. Porém, somente emitir o alerta ainda é pouco, é preciso que eles sejam claros, acessíveis e que gerem ação. Em muitos casos, a população desconhece como reagir ou subestima o risco, o que reduz a efetividade desses sistemas.
Além disso, há desigualdades importantes no acesso à informação. Comunidades mais vulneráveis, que muitas vezes são as mais expostas a desastres, também são aquelas com menor acesso a tecnologias digitais ou canais oficiais de comunicação. Isso evidencia que a tecnologia, por si só, mostra o problema, mas não o resolve por completo; ela precisa estar integrada a políticas públicas, educação e planejamento urbano.
Outro ponto crítico é a confiança. Para que os alertas funcionem, a população precisa confiar nas instituições e nos sistemas de monitoramento. Alertas imprecisos ou excessivos podem gerar descrédito, enquanto a ausência deles em momentos críticos pode ter consequências graves.
Nesse contexto, investir em sistemas de alerta precoce é uma questão tecnológica, social e estratégica. É necessário fortalecer a integração entre ciência de dados, gestão pública e comunicação, garantindo que a informação seja produzida, e efetivamente utilizada.
Mais do que prever desastres, o grande desafio do nosso tempo é transformar dados em decisões e alertas em ações que salvam vidas. Entender os riscos de desastres molda a vida da sociedade como um todo; a resiliência sustentável começa nas comunidades bem informadas.
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