Tag: cidades inteligentes

  • PTIn será inaugurado com dois dias de programação intensa em Ponta Porã

    PTIn será inaugurado com dois dias de programação intensa em Ponta Porã

    Evento nos dias 12 e 13 de março reúne autoridades e promove encontro estadual de inovação

    O Parque Tecnológico Internacional de Ponta Porã (PTIn) e o Centro de Cultura, Empreendedorismo, Inovação e Memória do Tereré (CEIMPP) serão oficialmente inaugurados nos dias 12 e 13 de março, com uma programação especial que contará com a presença de autoridades locais, estaduais e nacionais.

    A abertura das atividades acontece no dia 12, a partir das 14h, com o início do 1º Encontro Estadual dos Ecossistemas de Inovação de Mato Grosso do Sul. Entre os destaques da programação do primeiro dia está o painel das 15h30 às 16h30, conduzido pela secretária municipal de Governo e Comunicação, Paula Consalter Campos, que fará a apresentação institucional do PTIn e do CEIMPP.

    Ainda na quinta-feira, os participantes poderão realizar visita guiada às dependências do Parque Tecnológico, além de acompanhar palestras, promover troca de experiências e networking entre representantes dos Ecossistemas de Inovação do Estado e os empreendedores do primeiro programa de pré-incubação do PTIn, o Ypy Porã. A programação cultural da noite, às 19h, contará com show da banda Uskaradakombi.

    No dia 13 de março, a programação começa às 8h30, com a solenidade oficial de inauguração do PTIn e do CEIMPP. Na mesma data, terá continuidade o 1º Encontro Estadual dos Ecossistemas de Inovação e será realizada a 1ª Reunião Estratégica Regional de 2026 da plataforma Connected Smart Cities.

    Entre as atividades previstas para o segundo dia estão a Oficina de Ambientes de Inovação com Ecossistemas Estaduais, ministrada por Marcus Dias, da Fundação CERTI, e a Reunião de Negócios com Empresas da plataforma Connected Smart Cities. Às 10h, o prefeito Eduardo Campos, acompanhado do governador Eduardo Riedel, secretários municipais, estaduais e autoridades federais, fará uma visita técnica guiada às instalações do complexo.

    A programação segue ao longo do dia com reuniões estratégicas e apresentação de painéis. Encerrando o evento, às 19h, o público poderá prestigiar as atrações musicais Jerry Espíndola e DJ Brenda, marcando o início de uma nova fase para a inovação e o desenvolvimento tecnológico em Ponta Porã e região.

    Edilson José, Assessoria de Comunicação

    Fonte: Prefeitura Municipal de Ponta Porã

  • Nova Reforma Tributária: o que está em jogo nos municípios

    Nova Reforma Tributária: o que está em jogo nos municípios

    Enquanto o debate nacional se concentra nas regras do novo sistema, a preparação real começa na estrutura de dados e processos das prefeituras.

    A nova reforma tributária foi apresentada como a maior mudança no sistema de arrecadação das últimas décadas. O debate público gira em torno de siglas, percentuais, cronogramas e disputas federativas.

    Mas, para quem está na ponta da gestão municipal, a pergunta relevante é outra: o que isso muda, de fato, na realidade da prefeitura?

    Já a resposta é mais profunda do que parece. A reforma não começa na Constituição. Ela começa no cadastro da sua prefeitura.

    Durante anos, muitos municípios enxergaram o ISS (Imposto Sobre Serviços) como o centro da arrecadação sobre serviços. A emissão da nota fiscal parecia o ponto final do processo.

    Com o novo modelo, essa lógica se amplia. O IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), que substituirá o ISS, será operado de forma nacional, com governança compartilhada e critérios de repartição baseados em dados estruturados.

    E aqui está o ponto central: o município continuará sendo o produtor primário dessas informações.

    Cada alvará concedido, cada obra aprovada, cada evento licenciado, cada retenção feita pela própria prefeitura gera dados que influenciam a arrecadação futura.

    Se essas informações não forem organizadas, validadas e integradas, a cidade perde capacidade de capturar sua própria receita.

    A reforma é nacional. A preparação é local.

    A transição até 2033 pode dar a sensação de tempo disponível. Esse é um dos maiores riscos.

    A organização cadastral, a integração de sistemas e a digitalização de fluxos não acontecem da noite para o dia. Exigem diagnóstico, alinhamento político, investimento e mudança cultural.

    O novo modelo fortalece a tributação no destino. Isso significa que a arrecadação acompanhará o local onde o serviço é efetivamente consumido. Mas, para que isso funcione, o sistema nacional dependerá da precisão das informações fornecidas pelos municípios.

    • Se o cadastro imobiliário não reflete a realidade construída, a tributação da construção civil perde base.
    • Se o cadastro mobiliário estiver desatualizado, a identificação da atividade econômica fica comprometida.
    • Se a retenção na fonte não é controlada com rigor, o município já perde receita hoje — e continuará perdendo amanhã.

    Não é alarmismo. É lógica sistêmica.

    Um sistema nacional de arrecadação distribui recursos com base nos dados que recebe. Dados frágeis produzem repasses frágeis. Dados inconsistentes deslocam arrecadação para outras localidades.

    A cidade que não organiza sua informação, na prática, subsidia a arrecadação de quem organiza.

    Há outro aspecto relevante. A reforma também altera a dinâmica política da arrecadação. 

    Com o Comitê Gestor do IBS (CG-IBS), estados e municípios passam a compartilhar a governança do imposto. Isso traz equilíbrio federativo, mas também exige maturidade técnica.

    Municípios que dominam seus próprios dados participam do debate com autoridade. Os que não dominam tornam-se dependentes.

    A discussão deixa de ser apenas jurídica. Ela passa a ser estrutural.

    Não estamos falando apenas de tecnologia. Estamos falando de gestão pública, de capacidade administrativa, de visão estratégica. O que sustenta a arrecadação não é a lei isoladamente, é o conjunto de processos que antecedem o fato gerador.

    Quando um empreendedor solicita um alvará e encontra um fluxo claro, digital e integrado, a prefeitura não apenas facilita a vida do contribuinte. Ela produz informação qualificada.

    Quando uma obra é aprovada e automaticamente atualiza o cadastro imobiliário, o município constrói memória fiscal. Quando a retenção na fonte conversa com o sistema de arrecadação, o controle deixa de ser manual e passa a ser sistêmico.

    Esse é o novo jogo. A reforma tributária do consumo não elimina a responsabilidade municipal. Ao contrário. Ela a evidencia.

    A arrecadação continuará nascendo na rotina administrativa, a diferença é que agora ela será processada dentro de uma infraestrutura nacional de dados.

    É nesse ponto que muitos gestores precisam refletir:

    • A sua prefeitura sabe exatamente onde nascem as informações que impactam a arrecadação?
    • Esses dados são integrados ou estão espalhados em sistemas que não conversam entre si?
    • Existe rastreabilidade das alterações cadastrais?
    • Há histórico confiável?

    Essas perguntas parecem técnicas. Na verdade, são estratégicas.

    Municípios que já iniciaram um processo de transformação digital perceberam que integrar secretarias não é apenas uma questão de eficiência interna. É uma forma de proteger receita futura.

    Quando Fazenda, Obras, Planejamento e Tecnologia trabalham com bases unificadas, o município reduz lacunas e fortalece sua posição no novo modelo federativo.

    O improviso custa caro

    A reforma cria um ambiente em que o improviso custa caro. Não será possível depender de planilhas paralelas, cadastros incompletos ou processos fragmentados.

    O modelo de destino exige clareza sobre onde o serviço foi prestado e quem participou da operação. Isso passa por cadastro atualizado, integração com bases territoriais e capacidade de fornecer informações estruturadas quando solicitadas.

    Prefeitos e secretários precisam compreender que a preparação para a reforma não é um projeto tributário. É um projeto de governança.

    Organizar fluxos de abertura e alteração de empresas; revisar cadastro imobiliário; integrar licenciamento de obras ao sistema fiscal; estruturar a retenção na fonte; padronizar dados. Esses movimentos fortalecem a arrecadação atual e constroem resiliência para o futuro.

    A boa notícia é que esse processo não depende da regulamentação final para começar. O diagnóstico pode ser feito agora. Aliás, quanto mais o município adia esse movimento, mais complexa se torna a transição.

    No fim das contas, a discussão não é se a reforma é boa ou ruim. Ela é uma realidade constitucional. A reforma é nacional. A preparação continua sendo uma escolha local.

    As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC

  • Cidades inteligentes usam dados para antecipar desastres e salvar vidas

    Cidades inteligentes usam dados para antecipar desastres e salvar vidas

    Avanço da urbanização e crise climática pressionam gestores públicos a investir em tecnologia, integração de políticas e inclusão social

    Mais da metade da população mundial já vive em áreas urbanas, proporção que deve se aproximar de 70% até meados do século. Esse crescimento acelerado, muitas vezes marcado por ocupações em encostas, margens de rios e regiões sem infraestrutura adequada, amplia a exposição a enchentes, tempestades e ondas de calor cada vez mais intensas. Diante desse cenário, cidades ao redor do mundo recorrem a dados e tecnologias digitais para antecipar riscos e reduzir perdas humanas e econômicas.

    Especialistas apontam que a combinação entre urbanização desordenada e mudanças climáticas cria um ambiente propício para desastres mais frequentes e severos. Relatórios recentes do IPCC indicam que, na última década, o número de mortes causadas por eventos como inundações e secas foi muito superior em regiões altamente vulneráveis quando comparadas às áreas com melhores condições socioeconômicas. Fatores como pobreza, idade, gênero e condições de saúde ampliam o impacto dessas ocorrências.

    Leia mais: Infra S.A fortalece agenda ambiental com monitoramento da qualidade do ar e gestão de emissões no transporte

    Nesse contexto, as chamadas cidades inteligentes ganham espaço ao incorporar ferramentas como big data, sensores conectados e inteligência artificial. A proposta é transformar grandes volumes de informações, climáticas, ambientais e urbanas, em decisões rápidas e precisas.

    Sistemas baseados em análise massiva de dados permitem identificar padrões históricos e cruzá-los com informações coletadas em tempo real. Com isso, gestores conseguem prever, por exemplo, o risco de transbordamento de rios e acionar planos de contingência antes que a água invada bairros inteiros.

    Leia mais: Governo Inteligente: da digitalização de serviços à governança orientada por IA

    A Internet das Coisas (IoT) complementa esse ecossistema ao espalhar sensores por pontos estratégicos da cidade, monitorando níveis de água, temperatura, umidade e qualidade do ar. 

    Já a inteligência artificial processa esses dados em velocidade e escala impossíveis para equipes humanas. Algoritmos são capazes de detectar anomalias, simular cenários futuros e indicar quais regiões devem ser priorizadas em situações de emergência. Em cidades como Nápoles, análises preditivas têm sido utilizadas para mitigar efeitos de ondas de calor e inundações, fortalecendo a capacidade de reação do poder público.

    A principal mudança trazida por essas tecnologias é a substituição de estratégias reativas, baseadas apenas na reconstrução após o desastre, por abordagens preventivas. Ao antecipar riscos, é possível evacuar áreas, reforçar infraestruturas críticas e proteger populações vulneráveis antes que o pior aconteça.

    No Brasil, a gestão de riscos dialoga com diversas políticas públicas, da defesa civil ao saneamento, da saúde à habitação. No entanto, especialistas alertam que a falta de integração entre marcos legais e planos setoriais ainda dificulta uma atuação coordenada.

    Apesar dos resultados promissores, a adoção de tecnologias inteligentes enfrenta barreiras importantes. O alto custo de implementação, a ausência de padrões comuns para compartilhamento de dados e a desigualdade no acesso às inovações podem limitar seus benefícios.

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    Comunidades marginalizadas, que muitas vezes vivem nas áreas mais expostas a riscos, nem sempre são contempladas por soluções digitais. Sem políticas públicas inclusivas, a tecnologia pode aprofundar desigualdades já existentes.

    Outro entrave é a interoperabilidade entre sistemas. A ausência de modelos padronizados para coleta e análise de dados dificulta a troca de informações entre cidades e países, reduzindo o potencial de cooperação global.

    Especialistas defendem que reduzir desastres exige mais do que sensores e algoritmos. É necessário reconhecer que eventos extremos não são apenas fenômenos naturais, mas também resultado de escolhas de desenvolvimento e ocupação do território.

    A resiliência urbana, entendida como a capacidade de resistir, adaptar-se e se recuperar rapidamente de choques, depende de planejamento integrado, participação comunitária e governança colaborativa. Cidades são polos de inovação e podem acelerar essa transformação ao conectar dados, políticas públicas e engajamento social.

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    Investir em informação de qualidade, monitorar indicadores e alinhar planos municipais são passos essenciais para consolidar uma gestão integrada de riscos. Em vez de concentrar recursos apenas na reconstrução após tragédias, a aposta em prevenção e adaptação pode salvar vidas e liberar investimentos para áreas como educação, saúde e desenvolvimento sustentável.

    Em um mundo cada vez mais urbano, dados bem utilizados deixam de ser apenas números: tornam-se ferramentas estratégicas para proteger pessoas e garantir o futuro das cidades.

  • Entre Padrões e Fluxos: O limite invisível das cidades inteligentes passa pela governança da água

    Entre Padrões e Fluxos: O limite invisível das cidades inteligentes passa pela governança da água

    Da origem das cidades às agendas de inovação, a água permanece como eixo estruturante da vida urbana, revelando que não há inteligência nem resiliência sem gestão equitativa

    Nenhuma cidade surge, se expande ou se consolida sem dispor de uma base hídrica capaz de assegurar a sobrevivência de sua população e a reprodução de suas dinâmicas urbanas. Mais do que um recurso destinado ao abastecimento humano, a água constitui elemento estruturante do espaço urbano e fundamento material da vida coletiva.

    Historicamente, as cidades se estabeleceram junto aos rios. A proximidade da água viabilizou a produção econômica, o transporte e a integração territorial, ao mesmo tempo em que forneceu energia e sustentou a organização cotidiana da vida social. Com a consolidação das metrópoles modernas, essa centralidade não diminuiu; ao contrário, foi ampliada e reorganizada por meio de grandes obras e redes: a água passou a sustentar processos industriais, cadeias produtivas e estruturas cada vez mais complexas de infraestrutura urbana.

    No século XX, a expansão das redes de abastecimento e esgotamento sanitário foi celebrada como conquista civilizatória e marco da modernidade. A universalização do saneamento converteu-se em indicador de saúde pública e progresso urbano. Contudo, esse indicador revela sua dimensão política; já que, longe de se restringir à provisão de um recurso essencial, a água tornou-se instrumento de gestão territorial e marcador persistente das desigualdades sociais.

    A África do Sul oferece um exemplo emblemático. Durante o regime do apartheid, o abastecimento foi sistematicamente privilegiado nas áreas destinadas aos grupos social e politicamente dominantes, enquanto territórios ocupados por populações marginalizadas enfrentavam precariedade e escassez. Mesmo após o reconhecimento constitucional do direito à água, a herança espacial dessa ordenação desigual permanece visível. A crise hídrica de 2018, na Cidade do Cabo, evidenciou como, em contextos de escassez, hierarquias sociais preexistentes tendem a se aprofundar: bairros mais favorecidos mobilizam recursos privados de adaptação, enquanto parcelas mais vulneráveis da população permanecem dependentes de serviços públicos fragilizados — cenário previsível, embora profundamente lamentável.

    Dinâmica semelhante pode ser observada na capital paulista. Como demonstrado em estudo sobre padrões urbano-demográficos, “mesmo com a quase universalização dos serviços de saneamento básico (…), as condições sanitárias da cidade de São Paulo ainda constituem um importante elemento de desigualdade intraurbana” (Nery et al., 2019, p. 30) . A ampla disseminação desses serviços, portanto, não elimina por si só as assimetrias inscritas no território; ao contrário, pode coexistir com processos históricos de diferenciação socioespacial, expressos nas condições de acesso e na qualidade de sua distribuição.

    No estudo citado, o acesso à água potável — assim como à rede de esgotamento e à coleta de lixo — não aparece como o principal marcador das diferenças locais. Variáveis associadas à expansão urbana e às características socioeconômicas do responsável pelo domicílio, por exemplo, apresentam maior peso na distinção entre localidades. Ainda assim, esses três serviços urbanos essenciais integram a estrutura que diferencia territórios. Mesmo quando não figuram como os fatores mais evidentes, estruturam oportunidades, produzem vulnerabilidades e condicionam trajetórias de desenvolvimento.

    A importância da água ultrapassa a dimensão estritamente sanitária. Ela integra um sistema socioambiental que articula “elementos geoecológicos à ordem social” (Idem, p. 13), sintetizando a forma como características ambientais — como áreas de risco geológico, mananciais e zonas periurbanas — se entrelaçam com processos de urbanização.

    As áreas de proteção de mananciais exemplificam essa tensão. Parte significativa do território paulistano localiza-se em zonas estratégicas para o abastecimento. A expansão urbana sobre esses espaços evidencia o conflito entre o direito à moradia e a preservação ambiental, que, em determinadas situações, assume contornos ainda mais preocupantes pela atuação de organizações criminosas. Assim, a água emerge como desafio permanente para as políticas públicas e para a gestão do território.

    Essa lógica também se manifesta na dinâmica de alertas da Defesa Civil. Enchentes e deslizamentos atingem de forma desproporcional áreas onde a infraestrutura é mais frágil e a ocupação urbana ocorreu à margem das diretrizes formais de planejamento. A vulnerabilidade, nesse caso, não decorre exclusivamente de fatores naturais, mas da articulação entre ambiente e sociedade.

    A mudança climática intensifica esse cenário. Eventos extremos de escassez hídrica e de precipitação desafiam os sistemas de abastecimento e a gestão de riscos de desastres. Cidades dotadas de planejamento integrado e monitoramento constante tendem a enfrentar melhor as crises hídricas, enquanto aquelas marcadas por desigualdade e fragmentação territorial veem ampliadas suas vulnerabilidades. Nesse sentido, a governança da água converte-se em indicador privilegiado da resiliência urbana.

    Esses desafios produzem impactos que ultrapassam a dimensão ambiental. Interrupções prolongadas comprometem cadeias produtivas e afetam a vitalidade econômica da cidade. Eventos pluviais de maior magnitude também reconfiguram a experiência urbana e alteram a relação dos cidadãos com o espaço que habitam. Em ambos os casos, a canalização de cursos d’água e a impermeabilização do solo têm buscado domesticar a natureza em nome do progresso urbano. Contudo, enchentes recorrentes lembram que a água não desaparece sob o concreto nem se submete integralmente ao planejamento urbano, impondo seus próprios limites.

    O controle técnico sobre a água assume nova dimensão quando consideramos as cidades inteligentes. No campo hídrico, apresenta-se a promessa de eficiência por meio de sensores, monitoramento em tempo real e uso ampliado de inteligência artificial. Entretanto, a incorporação de tecnologia não garante, por si só, resiliência. Episódios recentes de enfrentamento de eventos climáticos extremos mostram que falhas de comunicação, gargalos institucionais e problemas de interoperabilidade podem comprometer respostas emergenciais. Sua eficácia depende de coordenação interinstitucional, comunicação integrada, clareza nos fluxos de decisão e preparação prévia. Sistemas de alerta, imagens de satélite, drones e modelos digitais são ferramentas fundamentais, mas só produzem resultados quando inseridos em redes de cooperação. Não há cidade inteligente onde a água não seja governada com equidade.

    Além disso, uma cidade pode ser digital e ainda reproduzir desigualdades no acesso à água, sendo, portanto, pouco “smart”. A verdadeira inteligência urbana — conectada, eficiente e sustentável — exige integração entre técnica, planejamento e inclusão. Sistemas sofisticados de monitoramento precisam dialogar com a redução de vulnerabilidades que se concentram em territórios e grupos socialmente mais expostos.

    São Paulo oferece um exemplo concreto dessa exigência de integração entre técnica, planejamento e inclusão. Nos territórios onde dimensões habitacionais, ambientais, sanitárias, de mobilidade e de segurança se entrelaçam, os recursos hídricos continuam a revelar desigualdades persistentes. A exposição ao risco e a fragilidade ambiental diferenciam profundamente esses territórios dos bairros consolidados. Assim, ainda hoje, a água permanece como elemento ativo na (re)produção da estrutura social.

    Retomando o caso sul-africano, observa-se como a água pode sedimentar hierarquias históricas, enquanto o caso paulistano demonstra que ela continua estruturando desigualdades e vulnerabilidades urbanas. Essas constatações colocam em questão leituras do projeto das cidades inteligentes que supõem que a integração tecnológica possa operar de forma autossuficiente na produção de resiliência urbana.

    Em última instância, a água foi, é e seguirá sendo condição material da cidadania. Onde flui de forma segura e equitativa, a cidade pode prosperar de maneira inclusiva; onde escasseia ou se distribui de forma desigual, suas fissuras tornam-se visíveis. Pensar a água é pensar a cidade — não apenas como espaço físico, mas como sistema complexo em que ambiente e sociedade são indissociáveis. A verdadeira inteligência urbana será aquela capaz de reconhecer que a água, mais do que recurso, é fundamento de equidade e sustentabilidade. Se a gestão hídrica permanece frágil ou desigual, não se trata de uma falha setorial, mas de um limite do projeto que se pretende inteligente.

    ¹A crise hídrica de 2018 na Cidade do Cabo, na África do Sul, foi provocada por uma severa seca nos três anos anteriores, que levou os reservatórios da cidade a níveis críticos. Diante da possibilidade do chamado “Day Zero” — quando o abastecimento público poderia ser interrompido — o governo impôs rígidas restrições de consumo. A crise foi evitada com a redução drástica do uso de água e o retorno das chuvas, mas evidenciou fragilidades no planejamento hídrico e profundas desigualdades socioespaciais no acesso aos recursos públicos essenciais e na capacidade de adaptação.

    ²NERY, Marcelo Batista; SOUZA, Altay Alves Lino de; ADORNO, Sergio. Os padrões urbano-demográficos da capital paulista. Estudos Avançados, São Paulo, v. 33, n. 97, p. 5–36, 2019. DOI: https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2019.3397.002.

     

  • Londres é eleita melhor cidade da Europa em 2026; confira top 10

    Londres é eleita melhor cidade da Europa em 2026; confira top 10

    Infraestrutura, mercado imobiliário e hotéis de luxo contribuem para que a capital britânica lidere a lista pela quarta vez consecutiva

    Londres foi considerada a melhor cidade da Europa pelo quarto ano consecutivo, segundo o “2026 Europe’s Best Cities Report”, da consultoria internacional Resonance. O ranking elenca as 100 principais potências do continente, com base em uma avaliação de 180 cidades com mais de 500 mil habitantes.

    Paris, Berlim, Roma e Barcelona também ganharam destaque, muito por conta da vida noturna, das oportunidades de negócios, da rede de transporte público, da natureza e dos pontos turísticos.

    Abaixo, confira destaques das cinco cidades mais bem coloadas do ranking:

    1. Londres

    De acordo com o relatório, a capital do Reino Unido atrai um público global que vai de estudantes a turistas e empresários. Isso se reflete nos gastos dos viajantes internacionais, que em 2024 atingiram quase 18,9 bilhões de euros (cerca de R$ 114,7 bilhões). Em 2025, Aeroporto de Heathrow registrou um número recorde de chegadas, recebendo mais de 84 milhões de passageiros. Além disso, o Aeroporto de Gatwick foi modernizado recentemente, reforçando a infraestrutura da cidade.

    Já o mercado imobiliário de luxo vive um momento de transformação. Ao mesmo tempo que mudanças tributárias afastaram compradores internacionais, houve um excesso de oferta que barateou os preços e passou a atrair americanos.

    No setor hoteleiro de luxo, algumas novidades recentes são: o Newman Hotel, aberto em fevereiro no centro da cidade, e o The Chancery Rosewood, inaugurado em outubro em Mayfair. Nos últimos anos, nomes como o The Peninsula London, perto do Hyde Park, e o Raffles London at The OWO, que ocupa o antigo escritório de guerra de Winston Churchill, ajudaram a elevar a reputação da cidade.

    Para 2026 são esperados mais dois hotéis cinco estrelas: o The Waldorf Astoria London Admiralty Arch, com 100 quartos e vistas para o Palácio de Buckingham, e o Cambridge House, Auberge Collection, na área de Piccadilly, ocupando uma mansão georgiana do século XVIII, restaurada com 102 acomodações.

    Essas e outras transformações reforçam Londres como a principal destino para investimentos diretos do continente desde 2023.

    “Londres é verdadeiramente a cidade global da Europa: com uma economia de um trilhão de dólares, mais áreas verdes do que qualquer outra cidade do continente e conexões incomparáveis ​​com o resto do mundo”, comenta Laura Citron, CEO da London & Partners.

    2. Paris

    A capital da França ficou com a segunda posição do ranking, apresentando a “sinfonia urbana mais fascinante do planeta”, como aponta o relatório. De acordo com o documento, os Jogos Olímpicos de 2024 fizeram a cidade se reinventar, melhorando o transporte para ciclistas e pedestres. O metrô está sendo reformado para se tornar uma das redes de transporte público mais densas da Europa.

    No lado comercial, as Galeries Lafayette Champs-Élysées são o ponto central da revitalização da avenida, com galerias de design rotativas que abrigam marcas temporárias. Na cultura, o Museu do Louvre planeja por uma reforma de 800 milhões de euros, o Museu d’Orsay ganhará uma nova ala, a Fundação Cartier para a Arte Contemporânea acabou de abrir as portas e o Museu Giacometti ocupará a antiga estação ferroviária Gare des Invalides a partir de 2028.

    Novos destinos gastronômicos complementam as atrações para moradores e turistas. Um exemplo é o Le Grand Café, dentro do Grand Palais. No total, a cidade conta com 129 restaurantes com estrelas Michelin.

    Na hotelaria, o Four Seasons Hotel George V concluiu uma renovação de três anos que redesenhou seus 243 quartos e suítes pela primeira vez desde 1999. O hotel é um dos 12 da capital francesa com status de “palácio”, atribuição dada pela Agência de Desenvolvimento do Turismo da França.

    Mais recentemente, em dezembro, a cidade inaugurou o que é considerado o teleférico urbano mais longo da Europa, com 4,5 quilômetros que opera liga pontos estratégicos nos subúrbios.

    3. Berlim

    A capital alemã se destacou nos quesitos de natureza e parques, ecossistema de negócios e atrações turísticas, museus e vida noturna.

    O turismo é um dos motores da cidade: em 2024, Berlim ultrapassou a marca de 30,6 milhões de pernoites em hotéis pela primeira vez desde o início da pandemia, recebendo 12,7 milhões de hóspedes que geraram bilhões em gastos. Cerca de 10% dos empregos da metrópole dependem diretamente do turismo, abrangendo áreas como hotelaria, cultura e gastronomia.

    A cidade ficou no quarto lugar em teatros e concertos e no quinto lugar em vida noturna. Um dos motivos é a cena techno que, desde 2024, é Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco. A Orquestra Filarmônica de Berlim, casas de ópera e teatros independentes também explicam o sucesso nas áreas de concertos e vida noturna.

    Outro detalhe que fez Berlim ficar entre as melhores cidades da Europa foi o ecossistema empresarial. A capital alemã é o grande motor de startups do país, sendo sede de mais de 4.800 delas, incluindo 27 startups unicórnios, ou seja, que passaram de US$ 1 bilhão em valor de mercado.

    4. Roma

    Roma não surpreende ao se destacar na classificação de Pontos Turísticos e Monumentos do ranking. A capital italiana também garantiu boa pontuação no quesito “Google Trends”. Isso porque, segundo o relatório, o Jubileu colocou Roma no centro das atenções, atraindo cerca de 35 milhões de peregrinos para além dos 20 milhões de turistas anuais.

    A morte do Papa Francisco, o conclave e a escolha do Papa Leão XIV contribuíram para manter a cidade nas discussões globais.

    Debaixo dos holofotes, as ruas de Roma foram recapeadas, monumentos foram restaurados e novas mostras culturais foram inauguradas. Em anos recentes, a reabertura do Largo di Torre Argentina e a renovação da Fontana di Trevi, que passou a cobrar uma taxa de acesso de dois euros, são outros exemplos de melhorias da cena cultural.

    O relatório ainda mostrou que a hotelaria de luxo está acelerando desde 2023: o Palazzo Talìa, hotel boutique com 26 acomodações e interiores do diretor Luca Guadagnino; o Bvlgari Hotel Roma, o Six Senses Rome e os recém-inaugurados Nobu Hotel e Corinthia lideram essa onda de luxo. Para o futuro breve, são esperadas as aberturas do Rosewood Rome e do Thompson Rome, by Hyatt. Também vale menção o Romeo Roma, que ficou entre os hotéis mais bonitos do mundo em 2025.

    5. Barcelona

    Em 2024, Barcelona recebeu mais de 15 milhões de visitantes e movimentou mais de 14 bilhões de euros (cerca de R$ 85,6 bilhões) em gastos, o que colocou a cidade espanhola na quarta posição no ranking mundial de Vida Noturna e na quinta colocação em Atrações para Famílias.

    A capital catalã também se destaca também no quesito Natureza e Parques, graças à criação do “eixo verde” na Consell de Cent, que limitou o tráfego de carros para priorizar pedestres; às ruas mais tranquilas em Montjuïc e aos novos espaços de lazer em todo o bairro Eixample. A segunda colocação de Barcelona no ranking de Transporte Público reflete a ampla cobertura de metrô, trem e bonde.

    O levantamento ainda aponta a reta final da construção da Sagrada Família. Em fevereiro, as obras externas da Torre de Jesus Cristo foram concluídas. Isso coincide com o título de Barcelona como a Capital Mundial da Arquitetura pela Unesco em 2026. A cidade conta ainda com cerca de 10 mil bares e restaurantes, sendo 30 endereços com estrelas Michelin, e mais de 68 mil lojas.

    Confira a lista completa das 10 melhores cidades da Europa em 2026:

    1. Londres
    2. Paris
    3. Berlim
    4. Roma
    5. Barcelona
    6. Madrid
    7. Amsterdã
    8. Viena
    9. Copenhague
    10. Estocolmo

    Confira a lista completa com as 100 melhores cidades da Europa em 2026 no site.

    Como o ranking é feito

    A consultoria analisou áreas metropolitanas europeias com populações com mais de 500 mil habitantes. A partir disso, determinou as 100 melhores cidades usando uma combinação de estatísticas e dados gerados por usuários de fontes online como Google, Instagram e TikTok para medir a qualidade do lugar em termos de fatores experienciais.

    Esses dados levaram à criação do Place Power Score, métrica da Resonance que serve de base para todos os rankings de Melhores Cidades. No total, são 47 métricas em 33 subcategorias, como clima, transporte público, atividades culturais e taxa de desemprego. Todas as métricas têm pesos iguais e são agregadas até o nível da categoria, e todas as categorias têm pesos iguais e são agregadas até cada índice de Habitabilidade, Agradabilidade e Prosperidade.

    Depois, em parceira com a Ipsos, a consultoria combina essas informações com uma pesquisa realizada com 5 mil pessoas em 10 países europeus. A consulta identifica as cidades onde os respondentes mais gostariam de morar, os lugares que mais gostariam de visitar e onde acreditam encontrar as melhores oportunidades de emprego..

    Vale destacar que a classificação exclui todas as cidades russas desde 2022 devido à guerra da Ucrânia.

    Fonte: CNN Brasil

  • A moradia como território de política pública

    A moradia como território de política pública

    Com mais de 26 milhões de moradias inadequadas, o direito à cidade exige que a política urbana priorize a qualificação do espaço já construído

    Por João Vitor Martini e Daniel Luis Notari

    Durante anos, o planejamento urbano brasileiro priorizou a expansão das cidades por meio da produção de novas unidades habitacionais e da implantação de infraestrutura em larga escala. Esse modelo relegou à segunda linha a qualificação da cidade existente e tratou a moradia como questão pontual ou privada, apesar de seu papel fundamental na política urbana.

    Esse movimento ajuda a explicar por que o principal desafio habitacional do país reside na precariedade das moradias existentes. Dados da Fundação João Pinheiro indicam que mais de 26 milhões de domicílios apresentam algum tipo de inadequação, como ausência de ventilação e insolação adequadas, falta de banheiro, ausência de saneamento adequado, insuficiência de infraestrutura ou riscos estruturais. São situações que frequentemente coexistem e impactam diretamente a dignidade e a qualidade de vida das famílias.

    Grande parte dessas moradias foi construída sem acompanhamento técnico formal, evidenciando a centralidade da autoprodução no processo de formação das cidades, muitas vezes à margem de políticas públicas de qualificação. Quando localizadas em áreas ambientalmente frágeis, a vulnerabilidade se agrava, já que a expansão sobre áreas de risco expõe milhares de pessoas a eventos climáticos extremos, fazendo com que a precariedade da habitação e a fragilidade do território se reforcem, intensificando riscos socioambientais e aprofundando desigualdades.

    Essa precariedade atinge principalmente famílias chefiadas por mulheres, em sua maioria mulheres negras, revelando como as desigualdades de gênero, raça e renda se materializam no território e nas condições da moradia, já que o espaço construído acompanha a distribuição histórica de renda e o acesso a serviços e oportunidades.

    A dimensão desses dados evidencia a importância de uma gestão pública orientada por informações territoriais precisas, capaz de identificar vulnerabilidades, direcionar investimentos e soluções para a qualificação das moradias existentes.

    Diante desse cenário, a melhoria habitacional deve ser incorporada como política pública estruturante, capaz de intervir nas condições da moradia e enfrentar as desigualdades territoriais. Ao qualificar questões estruturais, de saneamento e de salubridade, o poder público atua preventivamente sobre vulnerabilidades que, posteriormente, sobrecarregam outras áreas, como a saúde pública.

    Experiências recentes indicam que essa mudança de perspectiva é viável. Em Porto Alegre, a inserção de arquitetos no Sistema Único de Saúde (SUS), articulada às equipes de atenção básica, representa um avanço na integração entre a política urbana e o cuidado. Ao reconhecer a casa como parte do território de atuação das equipes de saúde, a melhoria habitacional se estabelece como estratégia preventiva, aproximando o planejamento, a saúde pública e a assistência técnica no enfrentamento das vulnerabilidades cotidianas.

    O desafio consiste em ampliar essa lógica para além de experiências pontuais. Programas de crédito para reformas têm potencial de alcance, mas, sem assistência técnica, correm o risco de reproduzir inadequações existentes, o que evidencia que a melhoria habitacional exige diagnóstico preciso, acompanhamento profissional e articulação intersetorial.

    O direito à cidade começa pela condição de ter uma moradia digna. É a partir dela que se viabiliza o acesso à saúde, ao trabalho, à educação e à permanência no território. Tratar a melhoria habitacional como política pública significa atuar diretamente na estrutura que sustenta a vida urbana e afirmar que a dignidade começa pela qualidade do espaço onde as pessoas vivem.

    João Vitor Martini: Arquiteto e urbanista graduado pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Gestão de Cidades Sustentáveis. Atua na interface entre planejamento urbano e habitação de interesse social, desenvolvendo intervenções em territórios urbanos consolidados, com experiência em assessoria técnica e processos de participação cidadã. É fundador e coordenador de projetos da OSC Terra Coletiva e sócio fundador da Tairu Arquitetura e Urbanismo.

    Dr. Daniel Luis Notari: Pesquisador do Think Tank ABES e do City Living Lab/PPGA – Universidade de Caxias do Sul (UCS). Professor na UCS desde agosto de 2000. Formado em Ciência da Computação pela UCS, mestrado em Ciência da Computação pela UFRGS e doutorado em Biotecnologia pela Universidade de Caxias do Sul (UCS). Minhas áreas de interesse incluem programação, banco de dados e engenharia de software. Atuo nos cursos de graduação em computação, no mestrado em Computação Aplicada, no mestrado em Planejamento e Gestão de Cidades, bem como no mestrado/doutorado em Administração. Minhas linhas de pesquisa envolvem Engenharia de Dados, especialmente em cidades inteligentes, desenvolvimento baseado em conhecimento e bioinformática.

  • Chatbots no serviço público: como a tecnologia revoluciona o  atendimento ao cidadão

    Chatbots no serviço público: como a tecnologia revoluciona o atendimento ao cidadão

    A implementação estruturada de assistentes virtuais moderniza a gestão pública, reduz filas e democratiza o acesso a serviços essenciais

    Com a digitalização dos serviços e o aumento das demandas dos cidadãos, os governos precisam de soluções que atendam mais pessoas, com maior rapidez e menor custo. Os chatbots – sistemas que simulam conversas e realizam tarefas de forma autônoma – surgem como uma alternativa eficiente para ampliar o acesso à informação, reduzir filas e agilizar atendimentos que antes dependiam exclusivamente de equipes humanas.

    A implementação de chatbots permite um atendimento 24/7. Isso significa que um cidadão
    pode tirar dúvidas sobre o pagamento do IPTU, agendar uma consulta médica ou solicitar  a segunda via de um documento em um domingo à noite ou em um feriado.

    Essa tecnologia é especialmente importante para municípios com equipes reduzidas, pois evita acúmulo de demandas, melhora a organização interna e garante respostas imediatas para tarefas simples, como:

    • consulta de protocolos;
    • informações sobre impostos e prazos;
    • emissão de boletos e guias;
    • orientações sobre serviços de saúde, educação e assistência social;
    • abertura de solicitações e pedidos através do portal de serviços.

    Para pessoas com dificuldades de locomoção, o uso de chatbots reduz a necessidade de deslocamentos até unidades de atendimento, ampliando a inclusão e tornando o acesso mais democrático.

    Como o uso dessa tecnologia melhora a eficiência do serviço público?

    Para a gestão pública, a palavra-chave é eficiência. O uso de chatbots permite a triagem automática de demandas. Perguntas repetitivas, como “quais os documentos para tirar RG?” ou “qual o endereço do posto de saúde?” consomem horas valiosas dos servidores públicos.

    Quando bem implementados, os chatbots ajudam prefeituras e órgãos públicos a trabalhar de forma mais organizada e eficiente. Isso ocorre porque eles:

    • automatizam atendimentos repetitivos;
    • reduzem o tempo médio de resposta;
    • liberam servidores para atividades mais complexas;
    • padronizam informações, evitando respostas contraditórias;
    • registram dados e interações que podem ser analisados para melhorar processos.

    Ao automatizar essas respostas (o chamado “Nível 1” de atendimento), o sistema libera os atendentes humanos para focar em casos complexos e sensíveis, que exigem empatia e análise crítica. Isso gera uma otimização de recursos públicos: é possível produzir mais, com maior qualidade e sem necessariamente aumentar o quadro de funcionários ou os gastos operacionais.

    Transparência e melhoria contínua

    Além de agilizar o atendimento, os chatbots permitem que governos coletem dados importantes sobre as principais dúvidas e demandas da população. Com essas informações, é possível:

    • identificar gargalos;
    • aprimorar políticas públicas;
    • reorganizar fluxos de trabalho; aumentar a transparência; monitorar indicadores de
    desempenho do atendimento.

    Em prefeituras que já adotaram a tecnologia, a tendência é de que exista uma redução no volume de ligações telefônicas e maior satisfação do cidadão com a agilidade no retorno das solicitações.

    O segredo: uma implementação bem estruturada

    É importante ressaltar que a tecnologia, por si só, não faz milagres. Para que um chatbot no setor público seja efetivo, é necessária uma implementação estruturada. Isso envolve:

    • Mapeamento de Processos: entender quais são as maiores demandas da população;
    • Curadoria de Conteúdo: garantir que as respostas do robô sejam atualizadas, simples e corretas;
    • Transbordo Humanizado: o sistema deve ser capaz de identificar quando não consegue resolver o problema e transferir o atendimento para um humano imediatamente, sem frustrar o cidadão.

    Mais do que uma ferramenta tecnológica, o uso de chatbots representa o respeito ao tempo do contribuinte. Ao unir agilidade, acessibilidade e uma estratégia de implementação inteligente, o serviço público torna-se mais transparente, eficiente e voltado para melhorar  a qualidade de vida das pessoas.

    As ideias e opiniões expressas no artigo são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Portal CSC.

  • Postes de iluminação do futuro vão fazer mais do que acender a luz; entenda

    Postes de iluminação do futuro vão fazer mais do que acender a luz; entenda

    Antes usadas apenas para iluminar paisagens urbanas, as estruturas passarão a compor a infraestrutura digital das cidades; Emenda Constitucional que passa a vigorar em 2026 pode ser o pontapé inicial

    Os postes de iluminação pública foram instalados no Brasil no fim do século XVIII e, nos próximos anos, devem passar pela maior revolução desde que deixaram de usar óleo de azeite ou baleia para a utilização de energia elétrica.

    No passado, o foco em iluminar deu outro aspecto à paisagem noturna urbana. Agora, os postes de iluminação estão próximos de ser tornar um ponto central para a infraestrutura digital pública.

    Segundo Eduardo Fagundes, professor e CEO da nMentors Engenharia, os postes terão outro papel muito em breve.

    “O escopo evolui de “luz disponível” para “capacidade operacional urbana”, com implicações diretas para segurança pública, mobilidade e resiliência climática” diz Fagundes em entrevista à CNN Brasil.

    A gestão da cidade passará a observar os parque de iluminação não mais como apenas um poste, mas um sistema que precisará ser gerido, com sensores conectado e processamento de dados.

    Eventos climáticos causam 30% das panes no setor elétrico

    Data centers

    O sistema pretendido pode ser útil para o uso de pequenos data centers descentralizando a conexão, servindo como facilitador para o tráfego de informações para conexão de equipamentos da ‘internet das coisas’, como carros inteligentes e equipamentos domésticos.

    A instalação de unidades de processamento na extremidade da rede reduz o tempo de resposta do sistema, mas a continuidade da operação exigirá sistemas de reserva de energia para assegurar o funcionamento de câmeras ou outros sensores.

    “Sem uma estratégia de energia firme, a cidade inteligente colapsa operacionalmente, mesmo que sensores e software estejam tecnicamente corretos. Essa é a complicação central: a escalabilidade do modelo depende de uma arquitetura que continue operando com comunicação degradada e que mantenha disponibilidade mesmo com falha elétrica prolongada”, analisa Fagundes. Eduardo Fagundes, engenheiro e professor

    Emenda Constitucional

    O processo de mudança começou a ser desenhado ainda em 2023, quando uma Emenda Constitucional (nº 132/2023 atualiza o art. 149-A) que passou a permitir que munícipios possam cobrar o custeio e melhoria da iluminação pública, o imposto poderá ser cobrado a partir de 2026.

    Com isso os municípios do Brasil transformam a rede de iluminação em suporte para tecnologia. A nova medida permite o uso de recursos da contribuição de custeio para a instalação de sistemas de monitoramento em vias.

    Com o futuro das “cidades inteligentes” os postes poderão ser parte fundamental no processo de arquitetura.

    “A gestão pública passa a exigir mensuração de disponibilidade, qualidade de serviço e trilha de auditoria para sustentar legitimidade, reduzir risco reputacional e viabilizar escalabilidade do modelo. Esse é o ponto de inflexão: a infraestrutura legada continua presente, mas a cidade passa a ser gerida como um sistema ciberfísico, com sensores, conectividade e processamento distribuído”, completa Fagundes.

    Fonte: CNN Brasil

  • Recife avança em inovação e é a principal referência de cidade inteligente no Nordeste

    Recife avança em inovação e é a principal referência de cidade inteligente no Nordeste

    Com ecossistema tecnológico fortalecido, digitalização de serviços e investimentos em sustentabilidade, capital pernambucana amplia uso de tecnologia para melhorar a vida urbana

    Recife foi reconhecida como a cidade mais inteligente do Nordeste pelo Ranking Connected Smart Cities, sendo referência nacional em inovação, tecnologia e gestão pública eficiente. O destaque ganha ainda mais relevância quando se observa o contexto nordestino: a região reúne 1.794 municípios e abriga cerca de 29,9% da população brasileira, sendo a segunda mais populosa do país. Trata-se de um território marcado por contrastes, onde grandes metrópoles com setores econômicos dinâmicos convivem com áreas do interior que ainda enfrentam desafios relacionados à vulnerabilidade social e ao acesso à água e à infraestrutura básica.

    Leia mais: Recife é a sexta cidade mais inteligente e conectada do Brasil

    O Nordeste, por outro lado, também se firma como protagonista nacional na transição energética. A região concentra parcela significativa dos parques eólicos instalados no Brasil e vive uma expansão consistente da geração solar, movimento que impulsiona investimentos, cria empregos e fortalece cadeias produtivas ligadas ao setor elétrico. Esse avanço da energia renovável tem provocado efeitos positivos na infraestrutura e na oferta de serviços, estimulando o desenvolvimento local. Ainda assim, permanecem desafios estruturais importantes, como a necessidade de ampliar a qualificação profissional, melhorar a malha de transportes e garantir maior eficiência na distribuição de água, a fim de reduzir desigualdades internas.

    Nesse cenário, capitais como Fortaleza e Recife assumem protagonismo no campo das cidades inteligentes. Fortaleza é reconhecida pelo uso intensivo de tecnologia na mobilidade urbana e na gestão de dados, enquanto a capital pernambucana se destaca por seu robusto ecossistema de inovação, ancorado no Porto Digital, um dos principais ambientes de tecnologia e economia criativa da América Latina.

    Leia mais: Do IBM 1401 ao Zero Clique: Recife, 6 décadas de inovação tecnológica no serviço público

    O Porto Digital, instalado no bairro do Recife Antigo, funciona como uma espécie de “microcidade” voltada à experimentação tecnológica. O polo reúne empresas de software, serviços de Tecnologia da Informação e Comunicação e iniciativas ligadas à economia criativa, além de atuar diretamente em projetos voltados ao futuro das cidades. O ambiente opera como um laboratório vivo, permitindo testar soluções digitais aplicadas à mobilidade, à gestão urbana e à melhoria da qualidade de vida. Um exemplo foi o projeto Porto Leve, que incluiu o primeiro sistema de compartilhamento de carros elétricos do país, desenvolvido em parceria com empresas do setor, incentivando alternativas sustentáveis de deslocamento nos horários de maior fluxo.

    A consolidação de Recife como cidade inteligente também passa pela atuação estratégica da EMPREL, empresa municipal de informática vinculada à Prefeitura. Com mais de uma centena de sistemas implantados, a empresa é responsável pelo desenvolvimento, manutenção e hospedagem de plataformas digitais que atendem às diversas secretarias e órgãos municipais. Desde 2013, a EMPREL vem ampliando iniciativas voltadas ao cidadão, como o Portal de Dados Abertos, o Portal da Transparência e o programa Conecta Recife, que disponibiliza internet gratuita em diferentes pontos da cidade.

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    A digitalização de serviços públicos é outro pilar dessa transformação. Processos que antes exigiam deslocamentos e trâmites burocráticos em várias secretarias passaram a ser realizados integralmente online, como o licenciamento para funcionamento de atividades comerciais, industriais e de serviços, integrando áreas como urbanismo, meio ambiente e vigilância sanitária em um fluxo virtual unificado. Na mobilidade, ferramentas como o portal Bate Pronto permitem registrar ocorrências de trânsito sem vítimas de forma digital, enquanto a Zona Azul eletrônica modernizou a gestão das vagas de estacionamento público, ampliando a transparência e reduzindo interferências indevidas.

    O município também investe em governança de dados e parcerias internacionais. Há projetos voltados à centralização e integração de informações públicas, com a criação de um hub que reúne dados governamentais e extragovernamentais em formatos acessíveis, como gráficos, tabelas e estatísticas, estimulando pesquisas e a participação social. A cidade já disponibiliza bases de dados em nível detalhado, reforçando o compromisso com a transparência e com a tomada de decisões baseada em evidências.

    Leia mais: P3C Regional Nordeste destaca potencial e desafios da infraestrutura na região

    Na agenda ambiental, Recife desenvolveu seu primeiro inventário de emissões de gases de efeito estufa, em parceria com o ICLEI- Governos Locais pela Sustentabilidade e com o programa ONU-Habitat. O levantamento permitiu mapear as principais fontes de emissão e estabelecer estratégias voltadas a um desenvolvimento urbano de baixo carbono, alinhando-se às tendências globais de sustentabilidade.

    O reconhecimento no Ranking Connected Smart Cities reflete, portanto, um conjunto articulado de políticas públicas, investimentos em tecnologia, estímulo à inovação e compromisso com a transparência e a sustentabilidade. Em um país que passou por intensa urbanização ao longo do século XX, processo que trouxe ganhos econômicos, mas também desafios estruturais, Recife demonstra como o uso estratégico de capital humano, tecnologia da informação, mobilidade inteligente e governança de dados pode elevar a eficiência dos serviços públicos, reduzir custos e aproximar governo e sociedade. Ao liderar o Nordeste nesse indicador, a capital pernambucana reforça seu papel como referência nacional na construção de uma cidade mais conectada, inclusiva e preparada para o futuro.

    Para saber mais informações sobre o Ranking Connected Smart Cities, clique aqui.

  • Cidades resilientes: o fomento à inovação como antídoto para tragédias anunciadas

    Cidades resilientes: o fomento à inovação como antídoto para tragédias anunciadas

    Por Stéfani Caprioli e Jamile Sabatini Marques

    Transformar dados climáticos em infraestrutura estratégica e incentivar o ecossistema de climate techs são caminhos essenciais para converter a previsibilidade científica em proteção real e crescimento econômico sustentável.

    As cidades exercem hoje um papel decisivo diante dos eventos climáticos extremos. Ao mesmo tempo em que enfrentam os impactos de enchentes, secas e queimadas, também detêm a capacidade de definir como responder a esses desafios. A repetição de tragédias evidencia a distância entre o conhecimento científico disponível e sua incorporação no planejamento público. Transformar o previsível em prevenção demanda integrar tecnologia às decisões políticas e corporativas.

    A expansão urbana, muitas vezes, supera a velocidade das políticas de adaptação, ampliando a vulnerabilidade em áreas de risco socioambiental. No Brasil, os impactos climáticos se manifestam de forma desigual: enquanto o Norte e o Nordeste enfrentam estiagens severas, o Sul lida com inundações recorrentes. Dados da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontam que, entre 2020 e 2023, a média anual de desastres climáticos chegou a 4.077 registros, quase o dobro do observado nas duas décadas anteriores. Insistir em respostas apenas reativas é uma estratégia custosa, ineficiente e socialmente injusta.

    Para mudar esse cenário, é fundamental fortalecer políticas de fomento à inovação voltadas à mitigação climática. O incentivo a startups, universidades e centros de pesquisa especializados em climate techs permite o desenvolvimento de soluções adaptadas à realidade local, como sensores de baixo custo e modelos avançados de predição. Incentivos fiscais, editais de inovação aberta e linhas de crédito específicas para software e dados climáticos representam uma estratégia que reúne política ambiental, inteligência econômica e soberania tecnológica.

    Defendemos que os dados climáticos sejam tratados como infraestrutura estratégica das cidades. A informação precisa orientar decisões públicas de forma contínua, integrada e transparente, assumindo papel ativo na gestão do território. Mapas de suscetibilidade, cenários preditivos e sistemas de alerta precoce devem guiar licenciamentos, fiscalizações e protocolos de emergência, sobretudo em encostas, várzeas e áreas sujeitas a incêndios.

    Essa abordagem exige investimentos preventivos em drenagem, contenção e segurança hídrica, priorizando territórios mais vulneráveis. A articulação entre defesa civil, planejamento urbano, meio ambiente e saúde é indispensável, assim como políticas habitacionais que ofereçam alternativas dignas. A inteligência climática como fundamento da gestão pública reduz perdas, preserva vidas e transforma riscos conhecidos em decisões baseadas em evidências. Em última instância, preparar-se para os desastres significa decidir que tipo de cidade — e de futuro coletivo — estamos dispostos a construir.