Dados públicos do Cemaden e do Monitor de Secas já podem orientar a gestão urbana e proteger mais pessoas
Stéfani Capriolli Gonçalves e Jamile Sabatini Marques
Cidades que incorporam dados climáticos públicos à rotina de gestão decidem melhor e protegem mais pessoas. O Brasil já conta com a base: a rede do Cemaden – Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais soma 4.311 equipamentos de monitoramento ambiental (CEMADEN, 2026) e acompanha 1.295 municípios equipados com pluviômetros automáticos (JORNAL DE BRASÍLIA, 2026).
Criado em 2011 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Cemaden monitora em tempo real precipitações, movimentos de massa e riscos associados a eventos climáticos extremos, e seus dados são públicos e gratuitos no portal. O Monitor de Secas, coordenado pela ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, publica todo mês um mapa da situação de seca no país. São instrumentos sofisticados, financiados com recursos públicos, com grande potencial de uso na gestão municipal.
Três caminhos ampliam esse uso. O primeiro é traduzir os dados. Um arquivo com registros de precipitação por estação e por data ganha valor quando vira informação em linguagem de gestão, que um secretário de obras usa para decidir, em uma tarde de chuva intensa, sobre a evacuação de um bairro de encosta.
O segundo caminho é institucional. Estudo publicado na Revista Brasileira de Geografia, do IBGE, mostra que, entre 267 municípios prioritários, 13% ainda não têm defesa civil municipal, 63% contam com mapeamento de risco de inundação e 45% com mapeamento de risco de deslizamento (AGÊNCIA FAPESP, 2026). Estruturas dedicadas à análise de dados, como geoprocessamento e tecnologia da informação, fortalecem a gestão de risco e permitem antecipar a enchente, em vez de esperar por ela para acionar a Defesa Civil.
O terceiro caminho é cultural. Ciência de dados e administração pública municipal têm muito a ganhar com uma aproximação. Quando o hábito de consultar dados entra na rotina, decisões sobre obras de drenagem, planos de evacuação e alocação de recursos da Defesa Civil passam a somar a experiência de campo com evidências.
O Rio Grande do Sul, em 2024, mostrou o valor da antecipação. O aviso de risco do Cemaden foi emitido ainda em abril, e em 2 de maio o centro registrou quase 500 mm de chuva em 72 horas em Santa Maria e Caxias do Sul (FONTANETTO, 2024). Municípios que acompanham os índices de precipitação ganham tempo para a evacuação preventiva.
A solução cabe no orçamento municipal. Ferramentas de visualização baseadas em fontes abertas permitem construir painéis interativos com dados públicos do Cemaden e do Monitor de Secas, com custo próximo de zero e manutenção acessível a equipes sem formação técnica especializada.
O passo seguinte é a decisão política de incorporar o dado climático ao processo decisório, acompanhada da formação para que gestores o interpretem e ajam sobre ele. Saber o que está chovendo no município, e o que isso significa em termos de risco para a população, é uma responsabilidade básica de gestão urbana, e as ferramentas para exercê-la estão ao alcance de qualquer prefeitura.






